EM BUSCA DO AMANH

ELISA MASSELLI

SURPRESA

Como acontecia j h muito tempo, Lia acordou, olhou o relgio e, rapidamente, levantou-se. Nossa! Hoje dormi demais, tambm, depois do jantar e daquela bomba que 
Raquel soltou, demorei muito para dormir. Foi at o banheiro, voltou, trocou de roupa e, apressada, passou pela sala de refeies. Viu que a mesa do caf estava 
colocada. Quando entrou na cozinha, Cleide estava junto ao fogo.
- Est tudo pronto, Cleide?
- Est dona Lia, mas a dona Raquel ainda no veio para tomar caf.
Lia olhou para o relgio pendurado na parede, disse:
- Ela nunca dormiu at to tarde. Depois do jantar de ontem, deve estar cansada. Vou at o seu quarto para ver o que est acontecendo.
Assim dizendo, sob o sorriso de Cleide, saiu da cozinha. Chegou junto  porta do quarto de Raquel e, antes de entrar, bateu levemente. No obteve resposta. Preocupada, 
abriu a porta. Raquel estava deitada na mesma posio de sempre. Aproximou-se e falou baixinho:
- Acorde, Raquel, j est tarde. Voc disse que amos a algumas lojas para fazermos compras.
No obteve resposta. Preocupada, tirou o lenol que cobria Raquel. Ela estava branca como cera. Percebeu que ela estava morta. Sem saber o que fazer, comeou a gritar. 
Cleide e os outros empregados da casa ouviram e correram para o quarto de Raquel. Assim que entraram, encontraram Lia que chorava desesperada.
- O que aconteceu, dona Lia?
- Ela est morta, Cleide! Morta!
- Como morta?
- No sei como, s sei que est morta!
- Ser que ela teve um ataque do corao?
- No sei Cleide, como vou saber o que aconteceu?
- Ela tinha algum problema no corao?
- No, Cleide, no que eu saiba, no, mas voc conhece Raquel, nunca demonstrou estar tendo algum tipo de problema!
- Meu Deus do cu, o que a gente vai fazer, dona Lia?
- No sei, ou melhor, telefone para os meninos e para o Martin, eles sabero o que fazer.
- Vou fazer isso agora mesmo.
Cleide saiu do quarto. Lia, chorando, ficou ao lado de Raquel que parecia dormir. S se percebia que estava morta pela cor de seu rosto. Cleide, tremendo muito, 
pegou o telefone e o primeiro nmero que discou foi o da casa de Moacir. Quem atendeu foi Joice.
- Dona Joice! Preciso falar com o Moacir!
- O que aconteceu, Cleide? Pare de chorar! Parece que est muito nervosa!
- Estou sim. A dona Raquel est morta!
- O qu?
- Isso mesmo! Ela demorou em vir tomar o caf, a dona Lia foi at o seu quarto e ela est morta!
- Como isso aconteceu?
- A gente no sabe! Por favor, dona Joice, chame o Moacir!
- Est bem. Vou fazer isso, espere um pouco.
Joice ia saindo da sala, quando Moacir saiu do banheiro e, ainda segurando uma toalha, notou, pela expresso do rosto dela, que alguma coisa havia acontecido:
- O que aconteceu, Joice? Quem est no telefone, outro agiota?
- No, Moacir! No  nada disso! A Cleide est no telefone...
- A Cleide? Por que ela est telefonando a esta hora da manh?
- Ela est muito nervosa, disse que sua me foi encontrada morta!
- O qu?
- Foi o que ela disse...
Moacir correu e pegou o telefone da mo de Joice. Desesperado e assustado, perguntou:
- O que aconteceu, Cleide?
Ela no conseguia falar, s chorava.
- Pare de chorar, conte o que aconteceu!
Com muito custo, ela conseguiu se controlar:
- Sua me est morta...
- Como? Onde?
- A dona Lia foi cham-la para o caf e a encontrou morta...
- Meu Deus do cu! J avisou o Marcos?
- No! Ele no est em casa!
- Como no est em casa?
- No sei, assim que sua me foi encontrada, fui at o quarto dele, mas ele no est l e a cama no foi desfeita.
- Ele dormiu onde?
- No sei Moacir.
- Est bem, estou indo para a!
- Venha logo, dona Lia est desesperada.
- Estou indo!
- Enquanto eu no chegar, chame o Martin.
- Est bem.
Moacir desligou, colocou o telefone de volta no gancho. Olhou para Joice que, como ele, no conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo.
- Como isso aconteceu, Moacir? Ser que ela teve um infarto?
- Como vou saber. Ela nunca comentou a respeito de estar doente, mas conhece dona Raquel, no duvido de que ela soubesse da doena e no quis nos alarmar.
- O que vai fazer agora?
- No sei Joice! Marcos no est em casa.
- Onde ele est?
- No sei. Depois de ontem, com aquilo que aconteceu no jantar, fera esperado que ele fizesse alguma coisa...
- Tem razo, mas precisamos encontr-lo!
- Vai ser encontrado. Vou me trocar para ir com voc.
- Est bem. Tambm vou me vestir. Saram da sala e foram ao quarto. Enquanto se vestiam, Moacir perguntou:
- Est feliz, Joice?
- Feliz, por que, Moacir?
- No era isso que queria? No disse que s a morte da minha me resolveria a nossa situao?
- Eu disse e ainda acho, mas no estou feliz nem esperava que isso acontecesse.
- Mas aconteceu! Suas preces foram ouvidas! Ela est morta!
- No fale assim, Moacir. Na realidade, eu no queria que isso acontecesse. Falei aquilo por falar.
- No, Joice, voc falou o que sentia, mas agora no  hora de discutirmos isso. Precisamos ir at a casa da minha me e ver como esto as coisas. Mais tarde conversaremos 
sobre isso e outras coisas tambm.
Joice ouviu e resolveu ficar calada. Somente concordou com a cabea. Foram at a sala. 
Joice disse  bab:
- Precisamos sair Ftima. Minha sogra foi encontrada morta. Estamos indo at l.
Ftima, como todos, recebeu a notcia, espantada:
- Morta? A dona Raquel est morta?
- Est, Ftima.
- O que aconteceu?
- No sabemos. Por isso estamos indo at l. No conte s crianas. Assim que voltarmos, eu e o Moacir contaremos. Siga o dia normalmente. Se perguntarem, diga que 
tivemos que sair.
- Est bem, senhora. V com Deus.
Joice apenas sorriu e foi encontrar Moacir, que j estava na garagem, esperando-a, com o carro ligado. Entrou no carro. Ele acelerou e, rapidamente, saiu da garagem 
e foi em direo  casa de Raquel. Nesse mesmo instante, Cleide telefonava para Martin. Quem atendeu foi Ldia.
- Al!
- Al, dona Ldia,  a Cleide.
- Cleide? O que aconteceu para telefonar a esta hora da manh?
- A dona Raquel foi encontrada morta...
- O que aconteceu?
- No sabemos! Ela demorou em vir tomar o caf, a dona Lia foi at o seu quarto e encontrou-a morta. A gente acha que foi um infarto...
Ldia, tremendo, olhou para Martin que estava ao seu lado.
- A Raquel foi encontrada morta, Martin.
- Morta, como?
- A Cleide no sabe. Elas acham que foi um infarto.
- No pode ser! Ela no tinha problema algum no corao!
- No sei Martin. Estou repetindo o que a Cleide disse. 
Martin pegou o telefone:
- Como isso aconteceu, Cleide?
- No sei doutor. Ela est morta l no quarto...
- Est bem. Pare de chorar. Estou indo at a.
Desligou o telefone, olhou atnito, para Ldia, que olhava firmemente para ele.
- O que voc fez Martin?
- No estou entendendo essa pergunta. O que acha que fiz?
- No sei. Ontem voc disse que havia feito algo e que hoje todos saberiam...
- Est dizendo que matei a Raquel?
- No sei. Estou perguntando o que voc fez ontem.
- No matei a Raquel! No sei o que aconteceu! Nada tenho a ver com essa morte! Voc est louca, jamais eu faria isso!
- No sei Martin. Ontem, voc estava desesperado e disse que ia fazer algo e que, hoje, todos descobririam...
- Realmente fiz algo, mas no matei Raquel. Jamais faria isso! Foi  melhor amiga que algum poderia ter!
- Estou preocupada, Martin. Se voc fez mais essa loucura, est perdido para sempre.
- Est louca, Ldia, no matei Raquel! - ele gritou.
- Tomara que no, Martin, tomara que no.
- Agora no  hora para discutirmos! Estou indo para a casa de Raquel. Quer vir comigo?
- Claro que vou. Est bem, no vou falar sobre isso, mas estou muito preocupada, Martin... Estou mesmo...
Ele, parecendo no lhe dar ateno, saiu para a garagem, ligou o carro e saram rapidamente. O primeiro a chegar  casa de Raquel foi Moacir. Assim que entrou, correu 
para o quarto da me. Ainda da porta, viu Raquel deitada na posio de sempre. Parecia dormir. Ao seu lado, Lia sentada em um pequeno banco, com carinho e chorando, 
segurava a mo da amiga. Ele se aproximou e, gaguejando, perguntou:
- O que aconteceu, dona Lia?
- No sei meu filho. Ela demorou em se levantar e ir tomar o caf, estranhei, vim at aqui e a encontrei da maneira como est.
Ele se aproximou da me, abaixou-se, colocando sua cabea sobre o corao dela, e, chorando, perguntou:
- O que aconteceu, me?
Beijou o rosto da me e ficou assim por um bom tempo. Joice tambm chegou e, ao ver aquela cena, comeou a chorar. Aproximou-se do marido, colocou a mo sobre o 
ombro dele, mas permaneceu calada. Sabia que aquele momento era importante para ele. Estavam assim, quando Martin e Ldia tambm chegaram. Martin ficou parado. Movido 
pela emoo, no conseguiu emitir um som. Olhou para Ldia e viu que ela, sim, chorava.
Ldia, sem conseguir se mover, pensando, se perguntava: O que voc fez Martini. Martin continuou parado junto  porta, sem coragem de entrar. Ldia entrou, aproximou-se 
e tocou no brao de Moacir, que se voltou e viu Martin. Correu para ele e, abraando-o, perguntou:
- Voc sabe o que aconteceu? 
Martin olhou para Ldia e respondeu:
- Claro que no sei Moacir. Como poderia saber?
- Foram sempre muito amigos. Sei que minha me no tinha segredos para voc. Sabia se ela tinha algum problema no corao? Por isso ia se afastar da empresa?
Martin, soltando-se do abrao e, olhando primeiro para Ldia, depois para Moacir, respondeu:
- No, Moacir. Ela no tinha problema algum de sade, no que eu soubesse. Nunca fez comentrio algum! Pelo contrrio, estava muito bem, disse at que queria viajar!
- No pode ser Martin. Ela devia saber e s no nos contou para que no nos preocupssemos.
Novamente Martin olhou para Ldia, que chorava sem parar.
- Pode ser Moacir... Pode ser. Ela sempre foi independente e, se alguma coisa como essa estava acontecendo, se soubesse que tinha uma doena grave, provavelmente 
no contaria a ningum, muito menos a vocs, seus filhos, a quem sempre quis preservar de sofrimentos.
Ldia no suportou, chorando, saiu dali. Assim que entrou na sala, sentou-se em um sof que ficava em frente a um grande vitr. Sempre chorando, ficou olhando o 
jardim, que, por ser primavera, estava todo colorido com rosas de todas as cores e tamanhos. Rosas sempre foram s preferidas de Raquel. Como voc pde fazer uma 
coisa como essa Martin? Como pde se esquecer de tudo o que aprendeu? E agora, como vai ser? O que vai nos acontecer? Meu Deus, no nos abandone em uma hora como 
esta. Martin, embora preocupado, tentando no demonstrar o que sentia, perguntou:
- Marcos foi avisado, Moacir?
- No! Ele no passou a noite em casa! No sabemos onde est.
- Como no sabem?
- Depois que ele saiu, ontem  noite, no voltou mais. Precisamos encontr-lo, Moacir, para que possamos tomar as providncias necessrias para o enterro.
- Tem razo, Martin, no havia pensado nisso.
Nesse mesmo instante, Marcos chegou, entrou pela alameda que levava at a garagem, estranhou. O que Martin e Moacir esto fazendo aqui em casa to cedo?  Estacionou 
o carro e entrou. Lia que cedeu seu lugar a Moacir e que estava sentada em um sof na sala, ao ver Marcos entrar, levantou-se e foi ao seu encontro.
- O que aconteceu, dona Lia? Por que Moacir e Martin esto aqui em casa a esta hora da manh?
- Sua me est morta, Marcos...
- O qu?
- Isso que ouviu.
- Como isso aconteceu? 
Lia contou. Marcos, transtornado, perguntou:
- Ela estava doente?
- No que eu saiba. A no ser o dia em que fingiu aquele desmaio, ela nunca ficou doente ou consultou um mdico.
Marcos, em silncio e com lgrimas nos olhos, afastou-se e foi at a parede onde estava a fotografia do pai. Ficou ali, olhando para a fotografia, pensando: Eu no 
o conheci, pai, mas nunca senti tanto sua falta como estou sentindo agora... Francisco, que estava ali, sorriu e olhou para as duas entidades que o acompanhavam. 
Perguntou:
- O que podemos fazer por ele?
A mulher respondeu:
- Neste momento, apenas enviar luzes de paz e de amor.
Lia voltou at a porta do quarto de Raquel. Moacir e Martin continuavam ali. Voltou-se e, vendo Marcos em frente  fotografia do pai, aproximou-se:
- Como voc est Marcos?
Ele olhou-a e, abraando-se a ela, respondeu:
- No sei, dona Lia... No sei o que estou sentindo. Ontem, aps o jantar, odiei minha me. Ela destruiu minha vida, mas, agora, vendo-a assim, no consigo acreditar 
que esteja morta...
- Tambm no posso acreditar, mas ela est morta, sim, Marcos, e isso no tm volta. Sabe que considero voc e seu irmo como se fossem meus filhos. Por isso, preciso 
fazer uma pergunta:
- Que pergunta?
- Voc teve a ver alguma coisa com essa morte? Fez alguma coisa para que isso acontecesse?
- Por que est me fazendo essa pergunta? Logo a senhora que, como acabou de dizer, me considera como se fosse seu filho e, posso dizer tambm a considero como minha 
me! Sabe que eu, embora tenha odiado minha me e tenha desejado, mil vezes, que ela morresse, jamais faria qualquer coisa para prejudic-la, muito menos mat-la!
- Ainda bem, meu filho. Tudo precisa ser esclarecido, para que possamos continuar nossas vidas. Quem sabe, agora, voc possa acertar sua vida, procurar Marlia e 
tentar ser feliz.
- Agora  tarde, dona Lia.
- Por que est dizendo isso?
- Ontem, depois que sa daqui, fui at a casa de Lena para contar o que minha me havia feito e dito, na esperana de que ela me contasse onde Marlia est, mas 
isso no aconteceu...
- Por que, mesmo aps saber a verdade, ela se recusou a dizer onde a filha est?
- No a encontrei e a mulher que mora na antiga casa dela disse que j mora ali h mais de um ano. Disse que elas foram para o interior, mas no soube dizer para 
onde. Eu a perdi para sempre...
- Marcos! Que bom que chegou!
Marcos olhou em direo  voz e viu Moacir que se aproximava com os braos abertos. Os dois irmos se abraaram. Moacir chorava sem parar, enquanto Marcos, com os 
olhos presos no espao, no demonstrava emoo alguma. Separaram-se do abrao. Martin, tambm emocionado, disse:
- Estamos todos surpresos, mas precisamos passar para a ao. 
Os irmos olharam para ele, que continuou:
- Precisamos providenciar o sepultamento.
- No sei como se faz, Martin. Nunca precisei enterrar algum.
- Tambm no sei Moacir, mas  preciso.
Marcos, parecendo no estar ali, se afastou, saiu da casa e foi para o jardim. Moacir e Martin olharam-se.
- Ele est estranho, Moacir.
- Voc o conhece, Martin. Ele foi sempre assim. No liga para nada que acontece ao seu redor. Desde Marlia, s pensava em si mesmo. Agora, depois de ontem, precisamos 
dar razo a ele. Acho que ns teremos de tomar as providncias necessrias.
-  isso mesmo, precisamos nos apressar.
Foram at Lia, Joice e Ldia, que conversavam. Martin disse:
- Precisamos sair ir at a funerria para providenciar o sepultamento. No sabemos quanto tempo vamos demorar.
Beijaram as esposas e saram. Elas continuaram conversando. Marcos continuou em p, olhando para a fotografia do pai. Lia voltou para junto de Raquel e ficou olhando 
para a amiga de tantos anos. Algum tempo depois, Moacir e Martin voltaram:
- Para conseguirmos a sepultura, precisamos de um atestado de bito. Como Raquel morreu em casa, temos que conseguir um atestado junto a um mdico. Do contrrio, 
ela ser levada para o Instituto Mdico Legal, onde ser feita uma autpsia. Lia, a Raquel tem algum mdico com quem se consultava?
- No, Martin. Ela nunca acreditou muito em mdicos e, como sempre teve boa sade, nunca precisou deles. H muito tempo, ela apresentou dificuldades para dormir 
e se consultou com um que lhe receitou um remdio manipulado. Desde esse dia, ela comeou a tomar e dizia que estava bem.
- Voc sabe o nome desse mdico? Ele poderia dar o atestado.
- No lembro. Ela foi sozinha.
- No tem a receita?
- No, esse tipo de remdio no precisa de receita. Para compr-lo, basta apresentar o vidro anterior.
- Ser que na agenda dela no tem o nome desse ou de outro mdico?
- Podemos ver, vou buscar.
Lia saiu e voltou, logo depois, trazendo a agenda. Olharam e encontraram o nome de um mdico. Telefonaram, mas foram informados de que h muito tempo ele havia morrido. 
Martin, desolado, disse:
- Esse mdico est descartado. 
Ao ouvir aquilo, Joice disse:
- Tem o pediatra das crianas. Talvez ele possa nos dar o atestado ou nos indicar algum amigo seu.
- Tem razo, Joice, vou telefonar para ele.
Moacir telefonou, o pediatra deu o nome e nmero do telefone de um amigo seu. Imediatamente, Martin telefonou, explicou o que havia acontecido e o mdico se comprometeu 
em ir at a casa de Raquel. Eles ficaram esperando por um longo tempo. Enquanto eles esperavam, conversaram sobre Raquel e sua vida. Marcos, alheio ao que estava 
acontecendo, continuou no jardim, sentado em um banco, onde Raquel sempre ficava quando estava com algum problema. Eles no estranharam, pois Marcos, desde Marlia, 
sempre foi calado. Deixou de gostar da vida. O mdico chegou e foi levado at o quarto de Raquel, onde ela permanecia da maneira como fora encontrada. Aps examin-la, 
preocupado, disse:
- No posso dar um atestado.
- Por que no, doutor? - Moacir, admirado, perguntou.
- Pelo telefone, me foi dito que ela havia tido um infarto, mas, depois de examinar e ver estas manchas em seu corpo, receio dizer que no foi isso que ocorreu.
- Se no foi um infarto, o que foi que aconteceu?
- No sei, tenho um palpite, mas no tenho certeza. Por isso, no posso dar o atestado. Ela precisa ser submetida a uma autpsia.
- O que o senhor est dizendo?
- Estou dizendo que no posso dar o atestado. Recomendo que telefonem para a polcia. Ela saber o que fazer. Sinto muito.
O mdico se despediu e foi embora. Assim que ele saiu, olharam-se. Martin disse:
- Bem, precisamos seguir o que o mdico disse. Vou telefonar para a polcia e explicar o que aconteceu.
Joice levantou-se do sof em que estava sentada e, parecendo preocupada, disse:
- Talvez no seja preciso, Martin.
- Como no, Joice? Raquel precisa ser sepultada e isso s ser possvel se houver um atestado de bito que o mdico no quis dar!
- Existem outros mdicos. Podemos tentar encontrar algum. Uma autpsia  muito demorada e traumatizante...
- Tem razo, alm do mais, no acho necessria. Esse mdico deve estar enganado. Ela s pode ter tido um infarto.
- Tambm acho Moacir, mas, mesmo assim, acho que vai ser necessrio.
Marcos, que entrava, ao ouvir o que Ldia falou, perguntou:
- Por que est dizendo isso, dona Ldia? Por que acha que  necessrio? Acha que minha me foi assassinada?
- O que est dizendo, Marcos? Est louco?
- No, no estou louco, Joice! Por que acham que o mdico no quis dar o atestado? Ele percebeu que alguma coisa estava errada e no quis se comprometer. Ele pareceu 
achar que minha me foi assassinada por um de ns.
- Est maluco? Quem de ns faria isso?
- Qualquer um de ns teria motivo para isso.
- O nico que me vem  mente  voc, Marcos. Voc, ontem  noite, saiu daqui com dio mortal dela!
- Tem razo, Moacir. Sa daqui com muito dio, mas no a matei! Enquanto que todos vocs, embora no demonstrassem, queriam que ela morresse!
- Est louco, mesmo!
- No estou louco! Vocs acham que eu no ligo para nada, mas no  assim! Sei de tudo o que acontece na empresa! Sei de todo o dinheiro que vem sido tirado, roubado 
da empresa! Sei quem so as pessoas que esto fazendo isso!
Lia que permanecia ao lado de Raquel, ao ouvir os gritos, levantou-se, foi at onde eles estavam e gritou mais alto ainda:
- Parem com isso! Vocs ainda no sabem o que aconteceu realmente e j esto se acusando! No podem continuar assim, so irmos, no  isso que Raquel queria que 
acontecesse! Vocs sabem o quanto ela lutou para preservar a famlia unida!
Marcos e Moacir olharam para ela. Depois, Marcos olhou para todos e se afastou. Voltou para o jardim e para o banco em que estivera sentado todo o tempo. Moacir 
olhou para Joice, que abaixou a cabea. Ldia segurou e apertou o brao de Martin. Lia, chorando, voltou para junto de Raquel.
- No adianta ficarmos brigando sem saber o que, realmente, aconteceu. Vamos chamar a polcia. Como o mdico falou, ela saber o que fazer. Depois que obtivermos 
a resposta, poderemos discutir a respeito.

O INCIO

O bairro era novo. Uma grande rea foi dividida em pequenos lotes e vendida. Por ser distante do centro, esses lotes tinham um preo bem baixo, o que facilitou a 
pessoas de pequena renda a sua compra e a construo de suas casas. Assim, um bairro comeou a se formar. Entre as pessoas que construram suas casas, estavam os 
pais de Raquel. Ela era ainda criana, tinha apenas oito anos e, junto com os irmos, comeou a viver ali. Embora seus pais no tivessem recursos, a vida dela, como 
criana, foi feliz. Havia um vasto campo onde as crianas corriam, brincavam. A escola ficava longe, precisavam andar mais de meia hora, mas aquela pequena viagem 
de todos os dias era encarada como uma brincadeira, uma aventura. O tempo foi passando e, aos poucos, o bairro j tinha muitos moradores. As casas eram simples, 
mas no havia tristeza, pois todos aqueles que moravam ali tinham as mesmas condies e viviam da mesma maneira. O pai de Raquel trabalhava em uma fbrica de vidros 
e a me cuidava da casa e das crianas, que eram quatro. Quando Raquel completou dezessete anos, a casa vizinha  sua foi vendida e outra famlia veio morar ali: 
pai, me e um casal de filhos, uma moa, com dezenove anos, e um rapaz, com dezoito. Seu nome, Francisco. Ele estava servindo o exrcito. Raquel, assim que o viu 
com a farda, ficou impressionada e comentou com Jandira, sua amiga:
- Ele  muito bonito...
O mesmo aconteceu com Francisco, assim que a viu, ficou impressionado. Em pouco tempo, estavam namorando. Francisco, antes de ir para o exrcito, trabalhava em uma 
marcenaria que ficava na Capital, onde a famlia morava, antes de se mudar para l. Francisco s acompanhou os pais, porque estava servindo o exrcito, mas sua inteno 
era a de voltar a morar na Capital e trabalhar na marcenaria. Gostava daquilo que fazia e o dono da marcenaria mais ainda, pois era um bom marceneiro, responsvel 
e criativo. Quando Raquel completou dezoito anos, depois de muita insistncia, os pais concordaram e eles se casaram. A festa, embora simples, reuniu vrios amigos 
e se estendeu quase a noite toda. Raquel estava feliz. No dia seguinte, partiram para a Capital. Como o salrio de Francisco era pequeno, alugaram um quarto e cozinha 
nos fundos de uma casa. Assim que entraram, Francisco, beijando Raquel, disse:
- Esta casa  pequena, mas sei que vamos ser felizes aqui.
- Claro que vamos, Francisco! A casa  pequena, mas  nossa! Francisco continuou trabalhando na marcenaria. Raquel cuidava da casa, mas no se sentia bem. Sabia 
que Francisco, como todos os homens da poca, no queria que ela trabalhasse. Todo dinheiro necessrio para casa devia vir do homem. A mulher deveria cuidar da casa 
e dos filhos. Para ela, o dia no passava, pois a casa era pequena e no tinha muito que fazer. Ficavam vrias horas ouvindo rdio ou lendo, coisa de que ela gostava 
muito. Estavam casados h seis meses quando ela engravidou. A felicidade foi imensa. Raquel sentia que, daquele momento em diante, teria com quem se preocupar e 
os dias se tornariam mais curtos. Faltavam trs meses para a criana nascer. Raquel estava ansiosa. Naquele dia, Francisco chegou. Assim que entrou, Raquel percebeu 
que ele estava diferente.
- O que aconteceu, Francisco?
- O patro me chamou e disse que as coisas no esto boas. Os pedidos diminuram e ele precisava mandar alguns funcionrios embora. Disse que sentia muito, mas como 
eu e o Norberto recebemos o maior salrio, demitiu-nos. Entretanto, prometeu que, assim que as coisas melhorarem, nos contratar novamente. Estou desesperado, Raquel. 
Como vai ser?
Embora no demonstrasse, Raquel tambm ficou desesperada. No sabia o que fazer ou dizer. Meu Deus, o que vai acontecer? Sei que Francisco precisa de uma palavra 
de nimo, mas qual? No sei o que dizer. Os dias passaram. Francisco, em vo, tentou encontrar outro emprego, mas a situao do pas no estava boa. Muitas empresas 
estavam fechando ou dispensando funcionrios. Raquel, embora estivesse tambm desesperada, fazia de tudo para incentivar Francisco. Quando via que ele estava desesperado, 
dizia:
- No fique assim, Francisco. Vai aparecer algum emprego e voc pode at ganhar mais do que ganhava.
- No quero ganhar mais, Raquel, s quero ter um trabalho para poder sustentar a minha famlia.  s isso que quero! Vou receber algum dinheiro de indenizao, sei 
que vai dar para algum tempo, mas e depois, como vai ser?
Naquele desespero e ao ouvir aquilo, Raquel teve uma idia:
- Francisco, voc disse que vai receber um bom dinheiro da empresa?
- Vou sim. No  muito, mas at eu conseguir um novo emprego, precisamos guardar.
- Por que voc no pega esse dinheiro, aluga um galpo, compra algumas mquinas e comea sua prpria marcenaria. Voc  um timo marceneiro, vai fazer sucesso!
- No posso Raquel!  o nico dinheiro que temos! Se essa marcenaria no der certo, como vamos fazer?
- Sei que esse  o nico dinheiro que temos, mas o Norberto tambm no foi mandado embora?
- Foi. O que est pensando, Raquel?
- Ele tambm  um bom profissional. Podemos conversar com ele e fazer uma sociedade, assim, nenhum dos dois ter de gastar todo o dinheiro e vocs podem ter o seu 
prprio negcio.
Francisco, calado, ficou olhando para ela. Ela sabia que ele estava pensando a respeito, se no fosse assim, teria dito logo. Depois de algum tempo, ele disse:
- Voc pode estar certa, Raquel. Se juntarmos o dinheiro, no gastaremos tudo e poderemos tentar abrir a nossa marcenaria. Talvez d certo.
- Vai dar certo, Francisco! Sinto que voc no vai se arrepender!
- No sei, no, mas  uma soluo. Vou pedir ao Norberto que venha at aqui e conversaremos a respeito.
- Pea para trazer a Lia. Eles tambm so recm-casados, por isso  importante que ela esteja presente e d sua opinio.
- Tem razo, vou fazer isso, agora mesmo.
Ele saiu e Raquel ficou nervosa e ansiosa, esperando sua volta. Uma hora depois, eles chegaram. Como ela havia sugerido, Lia tambm veio. Sentaram-se em volta da 
mesa da cozinha e, enquanto Raquel preparava um caf, Francisco contou a eles a idia que tiveram. Raquel, junto ao fogo, enquanto Francisco falava, olhava para 
a reao deles. Ela percebeu que Norberto ficou animado.
- Acho uma boa idia, Francisco! Com a nossa prpria marcenaria, poderemos ganhar muito mais dinheiro e no precisamos gastar tudo o que temos. Vamos tentar e ver 
o que acontece.
Raquel notou que Lia ficou o tempo todo ouvindo, mas calada. No estranhou, pois sabia que as mulheres tinham pouca fora junto aos maridos. Eram eles quem decidiam 
tudo. Francisco, assim como Raquel, tambm se animou.
- Vou conversar com Martin, ele acabou de se formar contador, poder nos ajudar na abertura da firma.
- Faa isso, Francisco. Vamos tentar e que Deus nos ajude.
- Ele vai nos ajudar, Norberto. Tenho certeza disso.
- Voc  muito confiante, Raquel. Tomara que d certo. 
Raquel ficou calada, apenas sorriu. Eles se despediram. Raquel e Francisco foram  procura de Martin. Como faltava pouco tempo para a criana nascer, Raquel estava 
pesada e tinha at dificuldade para caminhar. Quando chegaram  casa de Martin, foram recebidos por sua me:
- Francisco, Raquel, que surpresa!
- Boa tarde, dona Catarina. Podemos entrar, precisamos conversar com o Martin. Ele est?
- Claro que pode entrar Francisco. Ele est tomando banho.
Entraram. Catarina entrou por um corredor e logo depois voltou:
- Avisei Martin de que vocs esto aqui. Ele est terminando de tomar banho e vem em seguida.
- Obrigada, dona Catarina.
- Como voc est grande, Raquel. Para quando  o beb?
- Faltam menos de dois meses. Estou grande mesmo, acho que engordei alm do normal.
-  assim mesmo, mas assim que a criana nascer, voc vai voltar ao normal.
- Espero que sim, dona Catarina.
Martin, ainda com o cabelo molhado, entrou na sala.
- Fiquei surpreso quando minha me veio me avisar que vocs estavam aqui. Antes de tomar banho, eu estava lendo os classificados de um jornal, procurando emprego, 
mas est difcil comear a trabalhar como contador. Francisco, parece que voc est preocupado e que voc est ansiosa, Raquel. O que est acontecendo?
Raquel estava mesmo. Ela havia tido a idia de abrir a marcenaria, mas, ao mesmo tempo, estava com medo, pois estavam empregando quase todo o dinheiro que tinham 
e, se no desse certo, ficariam em uma situao muito difcil. A nica coisa que a confortava era que as despesas seriam divididas com Norberto. Martin ouviu com 
ateno o que desejavam. Embora no tenha dito nada, tambm achou que eles estavam se precipitando. Mesmo assim, comprometeu-se em ajud-los:
- Est bem, vocs querem e eu vou abrir a empresa, mas devo lhes dizer que no tenho prtica alguma. Preciso me informar de como fazer. Daqui a trs dias, vou dizer 
se  possvel que eu faa ou se precisaro encontrar outro contador mais experiente.
No foi preciso. Martin se informou e trs dias depois foi at a casa deles.
- Eu me informei e no vejo problema algum para abrir a empresa. S preciso de alguns documentos.
Naquele mesmo dia, Francisco e Raquel foram at a casa de Norberto para lhes contar o que Martin havia dito. Assim que chegaram, perceberam que alguma coisa estava 
acontecendo. Embora se esforassem para no demonstrar, parecia que Norberto e Lia estavam brigados. Depois de Francisco contar o que Martin havia dito e o valor 
que precisava ser gasto, Norberto, olhando para Lia, um pouco sem graa, disse:
- Vocs vo me desculpar, mas no posso entrar na sociedade.
Raquel e Francisco se olharam. Francisco perguntou:
- Por que no, Norberto? S assim poderemos ter uma empresa s nossa...
- Tambm pensei assim, mas Lia me fez ver que s temos esse dinheiro e que, se no der certo, ficaremos sem nada. Como est difcil encontrar um emprego, no queremos 
imaginar o que pode acontecer. Confesso que estou com medo. 
Desanimado, Francisco disse:
- Talvez voc tenha razo. Acho melhor deixar isso para mais tarde.  muito arriscado mesmo.
- Desculpe Francisco, mas Lia tem razo, no podemos arriscar o nico dinheiro em algo que pode no dar certo.
- Tudo bem, Norberto. Acho que tem razo. Tambm vou pensar a respeito. No sei se vale  pena corrermos esse risco.
Desanimados, saram dali. Raquel percebeu que Francisco estava triste e preocupado. Tambm ficou preocupada, mas, nesse exato momento, sentiu a criana se mexer 
em sua barriga. Pensou: Tambm estou com medo, mas sei que  a nica soluo.
- Francisco, voc no pode deixar se abater. Embora eles no queiram, acho que vai ser bom e vai dar certo.
- E se no der, Raquel? Se perdermos todo o nosso dinheiro? Gastando s a metade, se acontecesse alguma coisa, se no desse certo, teramos tempo de achar outra 
soluo, mas se ficarmos sem dinheiro, como vamos fazer?
- No sei o que responder Francisco. S sei que, se no fizermos agora, nunca mais teremos outra oportunidade. O dinheiro que vai receber, sem que percebamos, ser 
gasto e se voc no encontrar outro emprego, ficaremos sem nada da mesma maneira. Por isso, acho que voc deve abrir a empresa, sozinho.  um bom profissional, tenho 
certeza de que vai conseguir.
- Voc pensa assim, mesmo, Raquel?
- Penso Francisco. Nada mais pode ser feito. Vamos nos arriscar e ver o que acontece.
- E se perdermos todo o dinheiro, Raquel?
- Isso no vai acontecer, Francisco, mas se acontecer, na hora certa, veremos o que fazer. Por ora, vamos pedir ao Martin que abra a empresa. Precisamos encontrar 
um galpo para alugar e ver as mquinas que precisamos comprar.
- Voc est certa de que  isso que deve ser feito? Ser que no vamos nos arrepender?
- No sei se vamos nos arrepender, mas  melhor o arrependimento por no ter dado certo, do que por no se ter tentado.
- Est bem, Raquel. Vamos fazer isso e seja o que Deus quiser. Foram at a casa de Martin.
Francisco, ainda preocupado, disse:
- Conversamos com Norberto, Martin, e ele no quer fazer a sociedade. Est com medo de perder todo o dinheiro que tem.
-  uma pena, Francisco. Estive pensando e acho que vocs tm alguma chance de que d certo.
- Raquel tambm pensa assim. Eu confesso que estou com um pouco de medo, mesmo assim, vamos arriscar. Pode abrir a empresa somente no nosso nome e seja o que Deus 
quiser.
Martin, embora preocupado com a situao deles, disse:
- Seria melhor se a sociedade com Norberto tivesse dado certo, pois no precisariam gastar todo o dinheiro que tm, mas se querem mesmo se arriscar, estou disposto 
a ajudar em tudo o que puder.
Depois que saram, Martin contou  me o que estava acontecendo.
- Que bom, meu filho,  o seu primeiro trabalho!
-  mesmo, me, e estive pensando em uma coisa.
- No qu?
- J que tenho o primeiro trabalho, quem sabe se no daria certo montar o meu escritrio de contabilidade. A senhora sabe que quero me casar, mas que no tenho condies. 
Com um escritrio, talvez ganhe o dinheiro necessrio para isso.
- Acho que Deus est usando a Raquel e o Francisco para ajudar voc a comear.
- Acredita mesmo no que est dizendo, me?
- Acredito meu filho. J tive muitos momentos em que achei que no havia um caminho para eu seguir, que tudo estava perdido, mas logo acontecia algo ou algum aparecia 
e a luz voltava e eu me encontrava novamente. Raquel e Francisco procuraram voc, em um momento em que voc est perdido, sem saber o que fazer com o seu diploma. 
Eles mostraram a luz, o caminho que deve seguir.
- A senhora acredita mesmo no que diz. A senhora gosta mesmo dessa religio?
- Sim. Meus pais j seguiam o Kardecismo e eu fui criada aprendendo com eles. Porm, voc est enganado, no se trata de uma religio, mas sim de uma doutrina. Um 
modo de se levar a vida, sabendo que somos responsveis por tudo o que fazemos de bom ou de ruim. Sempre tentei ensinar isso a vocs.
- No entendi...
- Tudo o que fazemos Martin, seja da maneira como for,  exclusivamente responsabilidade nossa. Somente ns responderemos por nossos atos. Pensando assim, sempre 
procurei levar minha vida da melhor maneira possvel. Procurei, e acho que consegui no prejudicar ningum. Posso lhe dizer que estou feliz com a minha vida e com 
todas as oportunidades que Deus me deu. Sou uma mulher feliz.
- Pensando assim, tambm posso dizer o mesmo. Estou feliz com as oportunidades que tive, embora tenha conscincia de que cometi alguns enganos.
- Enganos, erros e escolhas mal feitas so normais. De acordo com aquilo em que acredito nada o que acontece  por acaso. Tudo acontece como tem de ser.
- Pensando assim, nunca teremos culpa alguma do que acontece e o que disse a respeito de responsabilidade perde o valor.
- Ao contrrio, sempre seremos responsveis. Nada sabemos ao certo, por isso, precisamos fazer o que o momento pede e seguir as intuies que sempre nos chegam.
- Assim fico preocupado, me, ser que fiz o certo ou interferi em algo?
- Como disse, no sabemos, mas, depois de feito, no adianta se amargurar. Se tiver como mudar uma atitude tomada, que depois nos pareceu errada, pode-se tentar, 
mas, se no puder ser mudada, precisamos continuar nossa vida. No final, tudo volta ao seu lugar. O que passou, passou se foi certo ou errado, j foi feito.
-  verdade, me. O jeito  continuar vivendo e procurar errar menos.
- Isso mesmo, meu filho. Assim que deve ser.
Martin providenciou os documentos necessrios e a empresa foi aberta. Enquanto isso, Raquel e Francisco encontraram um pequeno galpo e alugaram. Compraram, tambm, 
as ferramentas e o material necessrio para comear. O dinheiro que tinham foi quase todo gasto, mas, embora com medo, estavam com o corao cheio de esperana. 
Em uma manh, ao se levantar, Francisco disse:
- Raquel, no consegui dormir esta noite.
- Por qu?
- Tive um sonho estranho.
- Que sonho?
- Eu estava em um lugar que parecia ser um escritrio, s que diferente dos que conhecemos. Eram claros e luminosos. As mesas e armrios tinham uma forma diferente. 
Acordei e fiquei pensando nos mveis que vi e no consegui dormir mais. Todos os escritrios tm mesas e armrios pesados e escuros. Tm um ar fnebre. Porm, se 
fosse ao contrrio, se os mveis fossem claros, as salas dariam a impresso de ser mais amplas, o ambiente seria mais aconchegante e as pessoas que ali trabalham 
tambm se sentiriam melhor. Voc no acha?
Raquel pensou por um tempo, ficou imaginando uma sala de escritrio clara.
- Nossa, Francisco, que boa idia! Voc tem razo! Todos os escritrios tm mesmo aparncia fnebre!
- Estive pensando em alguns modelos. Agora mesmo vou desenhar e voc vai dar sua opinio.
Foi o que fez. Pegou um caderno, sentou-se e comeou a desenhar. Em pouco tempo, tinha, diante de si, desenhos de mesas, cadeiras e armrios, diferentes de tudo 
o que conheciam. Ao ver os desenhos, Raquel vibrou:
- So lindos, Francisco. Imagine um escritrio com esses mveis, algumas cortinas e vasos de flores. Todos se sentiro bem dentro dele! Faa alguns para que possam 
ser mostrados.
- Tambm acho. S estou pensando em uma coisa.
- No qu?
- Voc no acha estranho eu ter tido esse sonho?
- Estranho, por qu?
- Logo agora que, embora estejamos com esperana, no podemos negar que estamos com medo, tambm, eu sonhar com algo que pode mudar no s as nossas vidas, mas toda 
uma tradio?
- O que est pensando, realmente?
- Acho que esse sonho foi mandado para que possamos comear algo que vai dar certo, sim, Raquel! Acho que estamos no caminho certo! Acho que estamos sendo ajudados 
por Deus!
- Ser, Francisco? Ser que esse sonho foi uma ajuda?
- Tenho certeza que sim! Sinto que tudo vai dar certo e que esse dinheiro que estamos empregando para abrir a empresa vai render muito!
- Tomara Francisco, tomara que esteja certo...
 
CONSTATAO
 
Francisco comeou a trabalhar e se especializou em mveis para escritrio. Aproveitou o material que tinha e fez mveis iguais aos do sonho. Tirou algumas fotos 
e foi visitar alguns escritrios. As pessoas olhavam as fotos, mas tinham medo de mudar aquilo que j era usado h tantos anos. Depois de muito andar, conseguiu 
a encomenda de uma mesa, um armrio e algumas cadeiras. Entrou em casa, feliz:
- Consegui Raquel! Consegui a primeira encomenda! Vou fazer mveis para um escritrio que est sendo montado agora!
- Que bom Francisco!
- Estou feliz, mas tambm preocupado.
- Com o qu?
- Enquanto eu estiver trabalhando nesses mveis, no poderei sair para vender. Quando estes estiverem prontos, no terei outros para fazer e no sei quanto tempo 
vai demorar em receber outra encomenda. Para poder convencer o proprietrio a comprar, dei um preo, cujo lucro no ser muito...
- Eu poderia ajudar voc.
- Como, Raquel?
- Enquanto voc fabrica os mveis, eu poderia sair e tentar vender.
- No pode Raquel! No v como est pesada? Falta pouco tempo para a criana nascer!
- Ainda falta um ms, Francisco.
- No, Raquel! Alm de no poder sair de casa nas condies em que est no  certo a mulher trabalhar. Eu sou o homem da casa e preciso dar a minha famlia tudo 
do que precisa.
- Que bobagem  essa que est falando, Francisco?
- No  bobagem, Raquel! Cabe ao homem sustentar sua famlia. A mulher precisa ficar em casa e cuidar de tudo. Nosso filho vai nascer e precisa que cuide dele. No 
se preocupe, no vai faltar nada a voc nem a ele. Fique tranqila, esperando a nossa criana. Deixe o resto comigo.
- De certa maneira voc tem razo. Agora no posso me arriscar a sair de casa, mas, depois que a criana nascer, eu posso, sim, sair algumas horas e tentar vender 
seus mveis. Eu, ajudando voc, estarei ajudando a mim e a nossa criana que est chegando. Quando tiver mais trabalho, vai ganhar mais, poderemos mudar desta casa 
e ter um quarto s para a criana. Sinto que posso conseguir vender, Francisco. No se preocupe se  certo ou errado a mulher ajudar o marido. Alm do mais, no 
 voc que quer quebrar a tradio? No  voc que est tentando mudar a cara dos escritrios?
Francisco ouviu calado, o que ela dizia. Depois, disse:
- Est bem. No quero brigar com voc e no posso contratar um vendedor, no tenho dinheiro para isso. Depois que a criana nascer, vamos ver se voc ter tempo 
para sair e vender os nossos mveis.
Raquel abraou o marido, sorrindo, disse:
-  por isso que amo tanto voc, Francisco. Sinto que tudo vai dar certo na nossa vida!
Naquela manh, como fazia todos os dias, Raquel acordou, levantou-se e foi preparar o caf. Estava sentindo-se muito bem. Francisco acordou em seguida, tomou o caf, 
beijou Raquel e, pegando a bicicleta, foi para o trabalho. O galpo ficava distante da casa em que moravam. Ele levava mais de meia hora, de bicicleta, para chegar 
l, mas no se importava. Estava feliz por ser seu prprio patro. Assim que Francisco saiu, Raquel olhou em volta e pensou: Esta cozinha  pequena e o quarto tambm. 
No sei onde vou colocar o bero do beb. Entrou no quarto e ficou olhando. Bem, se trocar o guarda-roupa de lugar, trouxer para este lado, a cama para ali, do outro 
lado, embora um pouco apertado o bero v caber. Ser por pouco tempo, tenho certeza, logo a empresa vai nos dar dinheiro para comprarmos a nossa prpria casa e 
bem maior. Estou bem, acho que consigo empurrar o guarda-roupa. No mesmo instante, sem pensar muito, foi at o guarda-roupa e empurrou-o para o lado que queria. 
Aps empurrar alguns passos, sentiu uma forte dor nas costas. A dor foi to forte que teve de se deitar. Sou mesmo uma louca! Como fui fazer tanta fora? Devo ter 
dado um mau-jeito nas costas. Ficou deitada por algum tempo e a dor, como que por encanto, desapareceu. Levantou-se, olhou para o guarda-roupa que estava bem afastado 
da parede e sorriu: Foi s um mau-jeito, mesmo. No sei como isso foi acontecer, eu estava muito bem... Olhou para o guarda-roupa e, sorrindo, pensou: Voc vai continuar 
a. No posso me arriscar a me machucar agora, quando falta to pouco tempo para minha criana nascer. Quando Francisco voltar, sei que vai brigar comigo e com razo, 
depois vai colocar voc onde eu quiser. Voltou para a cozinha e comeou a lavar a loua do caf. De repente, a dor voltou. Sentou-se em uma cadeira e com as mos 
esfregou as costas. Estava assim quando Tereza, a vizinha da frente e dona da casa, chegou  porta da cozinha.
- Bom dia, Raquel, est tudo bem com voc?
- Bom dia, Tereza. O que est fazendo aqui h esta hora?
- No sei o que aconteceu, mas assim que me levantei, senti uma vontade imensa de vir at aqui.
- Foi Deus quem mandou voc at aqui.
- Por que est dizendo isso?
- Fiz a loucura de tentar mudar o guarda-roupa de lugar e, agora, estou com muita dor nas costas.
Tereza olhou bem para Raquel e disse:
- Acho que no  por causa do guarda-roupa que est assim.
- No?
- Sabe que tenho trs filhos, acho que a criana est chegando.  bom voc ir para o hospital.
- Acha mesmo? Faltam ainda alguns dias.
- Alguns dias a mais ou a menos, no faz diferena. Ainda acho que deve ir at ao hospital. Vi quando Francisco saiu, vou pedir ao Julinho que v at a marcenaria 
e pea para ele voltar.
- Espere Tereza. No sabemos se essa dor  mesmo da criana, se no for, Francisco vir at aqui e perder muito tempo, ele tem alguns mveis para entregar. Alm 
do mais, no v incomodar seu filho, que acabou de acordar.
- Acho que no deve esperar. Como lhe disse, j tive filhos e sei como acontece. Precisamos chamar Francisco. O Julinho gosta muito de voc e do Francisco, no vai 
se incomodar. Ele vai de bicicleta, no vai demorar muito.
- Se acha mesmo necessrio, est bem. Espero que no seja um falso aviso.
- No , Raquel, pode confiar no que estou dizendo.
- A dor passou! Acho que estamos nos precipitando, Tereza.
- No estamos, no, Raquel. Ela vai voltar e mais forte ainda. Fique feliz, sua criana est chegando!
- Est bem. No vou discutir com voc, pea ao Julinho que v chamar Francisco.
Tereza, preocupada, saiu dali e foi conversar com seu filho, um rapazinho de doze anos. O menino havia terminado de acordar, ouviu o que a me disse, pegou sua bicicleta 
e saiu em disparada em direo  marcenaria de Francisco. Francisco se admirou de v-lo ali:
- O que est fazendo aqui, Julinho?
- Minha me pediu para eu vir avisar voc que a sua criana est para nascer, precisa ir para casa.
- Ainda no est no tempo! Faltam alguns dias!
- No entendo nada disso, s estou dizendo o que minha me disse.
- Est bem, vou agora mesmo. Julinho, voc tem alguma coisa para fazer agora?
- No, s vou  escola  tarde. Ia fazer a minha lio de casa, por qu?
- Preciso ir, mas no posso fechar a marcenaria, se pudesse ficar aqui at eu voltar e, se algum aparecer, disser o que est acontecendo e anotar algum recado. 
Estou precisando muito de trabalho, no posso deixar um cliente chegar e encontrar as portas fechadas.
- Pode ir, Francisco. Posso fazer minha lio mais tarde. O importante  voc ajudar Raquel.
- Obrigado, Julinho. Volto assim que puder.
Francisco, nervoso e atrapalhado, pegou a bicicleta. Saiu em disparada, dando adeus com a mo para Julinho, que ficou rindo do nervosismo dele. Antes de chegar a 
casa, Francisco parou no ponto de txi, conversou e o taxista o seguiu. Quando entrou em casa, Raquel estava sentindo muita dor. Assim que a viu, empalideceu:
- O que aconteceu, Raquel, est com muita dor?
- Estou, sim, Francisco. J havia escutado que di muito, mas nunca pensei que fosse tanto...
- Acha que a criana vai nascer mesmo?
- Acho que sim... Tereza, que est acostumada, disse que sim.
- Vai sim, Francisco, acho bom no perderem tempo. Com a ajuda da Raquel, preparei a mala com roupas dela e do beb. Est tudo pronto.
- Ento vamos, Raquel! O txi est esperando a na frente.
- Vamos sim.
Saram da casa e foram acompanhados por Tereza at o porto. L, Tereza se despediu:
- V com Deus, Raquel. Voc vai ter uma criana linda!
- Obrigada, Tereza. Ainda bem que voc chegou, seno eu ainda estaria pensando que era mau-jeito por causa do guarda-roupa.
Tereza sorriu:
- Foi Deus, Raquel... Foi Deus...
Francisco ajudou Raquel a entrar no txi. As dores que ela sentia estavam mais fortes, mas ela no reclamou para no o deixar mais preocupado ainda. Assim que chegaram 
ao hospital, Francisco foi imediatamente at a recepo. Raquel passou por uma avaliao e o mdico disse:
- Vai nascer mesmo. A senhora ser levada at o quarto e, agora, s nos resta esperar.
- Posso ficar com ela?
- Infelizmente, no. O senhor poder voltar s quinze horas, que  a hora da visita. At l, a criana j dever ter nascido.
Ao ouvir aquilo, Raquel, preocupada e assustada, perguntou:
- No pode, mesmo, doutor?
- No, senhora. Este  um hospital pblico, h algumas regras que no podem ser mudadas.
Raquel, com lgrimas nos olhos, tentou sorrir para Francisco. Sabia o que ele estava sentindo.
- Vai trabalhar Francisco, e no se preocupe. Eu vou ficar bem.
- Queria ficar com voc...
- Sei disso, mas no pode. Vou ficar bem e, quando vier na hora da visita, a criana j nasceu...
- Est bem. Eu vou, mas no vou me esquecer um minuto de voc.
Ela sorriu, ele deu um beijo em sua testa e saiu. Assim que se encontrou na rua, olhou para o hospital e comeou a chorar. Chorava de felicidade, por saber que sua 
criana estava prestes a nascer, e tambm de tristeza, por saber que Raquel estaria sofrendo. No mesmo instante, como se fosse para alivi-lo, pensou: Nossa! No 
terminei o bero! Achei que faltavam alguns dias. Preciso fazer isso hoje! Vou para a marcenaria terminar e levar l para casa. Quando o nenm chegar, precisa ter 
um lugar para dormir. A marcenaria ficava longe dali. Francisco teve de tomar um nibus e andar mais dez minutos para poder chegar. Quando chegou, encontrou Julinho, 
que conversava com um senhor. Francisco aproximou-se. Ao v-lo, Julinho abriu um sorriso e, olhando para o senhor, disse:
- No falei que ele ia chegar logo?
- Falou, sim. Como est sua esposa? Este rapaz disse que o senhor a levou ao hospital, para dar  luz.
- Foi isso mesmo o que aconteceu. Tive de deix-la l, infelizmente no pude ficar junto. Bem que eu queria, mas no permitiram. Espero que esteja bem e que a nossa 
criana nasa sem problema algum.
- Vai nascer e sua esposa tambm ficar bem. O nascimento de uma criana  sempre uma bno de Deus.
- Tem razo. Essa criana est sendo esperada com muito amor. Vou fazer o possvel para que no lhe falte nada.
- Vai conseguir. A propsito, no disse meu nome. Sou Rui e estou montando uma empresa. Vou fabricar artigos de borracha, inclusive chupetas, e preciso montar o 
meu escritrio. Soube que o senhor tem idias novas. Gostaria de saber quais so.
- Pois no. Vamos at o meu escritrio e poder ver as peas que j fabriquei.
- Vamos, sim. Estou curioso.
- J posso ir embora, Francisco?
- Desculpe Julinho. Esqueci que voc precisa ir para a escola, pode ir, sim, e obrigado por ter ficado aqui. Diga a sua me que Raquel ficou no hospital e que, se 
Deus quiser, est bem.
- No precisa agradecer. Vou dizer para minha me, sim. Ela deve estar preocupada, sabe como gosta de vocs. Sempre diz que no poderia ter melhores vizinhos que 
vocs.
- O mesmo nos dizemos. Vocs so os melhores vizinhos que qualquer um queria ter.
Julinho sorriu. Subiu na bicicleta e foi embora. Assim que ele se afastou, Francisco olhou para Rui e perguntou:
- Vamos at o meu escritrio?
O escritrio ficava nos fundos da marcenaria. Para chegar nele, era preciso passar por todo o galpo. Estavam caminhando, quando Rui, admirado, parou:
- Pensei que s fizesse mveis para escritrio, mas, pelo que estou vendo, faz outras coisas tambm.
Francisco tambm parou e viu que Rui olhava para um bero pintado de branco.
- Ah! Est falando desse bero? Ele  especial, fiz para o meu filho que est para nascer. Mas minha especialidade  mveis para escritrios.
- Seu bero est muito bonito. Suas linhas so suaves e esta cor branca no lembra em nada os beros tradicionais. Gostei muito! Est pronto?
- Tem razo, estou procurando fugir de tudo o que  tradicional. Por que os mveis tm de ser escuros, o que lhes d um ar pesado? O mesmo estou fazendo com os mveis 
para escritrio.
- O senhor sabe que no vai ser fcil mudar uma tradio.
- Sei disso, mas por que no mudar, se o mundo est mudando? Hoje, as pessoas no pensam como antes. Com a Segunda Guerra, muita tecnologia foi desenvolvida. Agora 
que a guerra terminou, toda essa tecnologia ser empregada na paz e para melhorar a vida das pessoas. As coisas e costumes esto mudando mais rpido do que antes. 
Acredito que essas mudanas sero cada vez mais rpidas. As pessoas tero de se adaptar aos novos tempos.
- Pelo que estou vendo, o senhor enxerga longe. Vai conseguir muito na vida!
-  o que espero, mas, antes de conseguir qualquer coisa, preciso terminar o bero. Logo minha criana vai estar em casa e precisa ter um lugar para dormir.
- Vai precisar mesmo e garanto que, em um bero como este, ter um sono tranqilo. Mas, agora, vamos ver os mveis para o meu escritrio?
- Vamos, sim. Estamos quase chegando, fica naquela porta pintada de azul.
Rui olhou para a porta que Francisco apontava e continuaram andando.
- Preciso lhe dizer uma coisa, senhor Francisco.
- O que ?
- Estou abrindo minha empresa. Trabalho h muito tempo com artigos de borracha. Ela tem tudo para dar certo, mas nunca se sabe. Tenho pouco dinheiro para as instalaes, 
por isso no posso gastar muito, mas quero algo bonito e moderno.
- No se preocupe com o preo. Entendo a sua situao, pois estou fazendo o mesmo. Tambm estou comeando e espero que d certo. Vamos nos ajudar mutuamente. Se 
o senhor gostar dos mveis, vamos ver como pode pagar. Preciso do dinheiro para o material e um pouco para cuidar da minha famlia. O resto vamos conversar.
Rui sorriu. Chegaram junto  porta azul, que estava aberta. Antes de entrar, Rui ficou parado olhando a sala que estava  sua frente.
- Esta sala est uma beleza!
- Tambm acho. Estes so os mveis que estou vendendo. Fiz alguns de amostra para tirar fotografia e aproveitei para montar o meu escritrio. O que achou?
- Esses mveis so realmente diferentes! No se parecem em nada com aqueles escuros e pesados. Pintados de branco, com a sala tambm pintada de branco e s aquela 
parede azul clara, tudo isso deu uma leveza, uma suavidade que nunca vi em escritrio algum! Parece que a sala  enorme, quando, na realidade, no !
- Essa  a minha idia. S por ser um local de trabalho, no precisa ser feio. Acredito que as pessoas se sentiro melhor, trabalhando em um lugar como este.
- O senhor tem razo, seu Francisco. Gostei muito! Vou montar meu escritrio com os seus mveis! Dependendo do preo,  claro.
- No se preocupe com isso. O importante  que tenha gostado. Encontraremos uma maneira para que me pague.
- Sendo assim, vamos conversar.
Sentaram-se e Francisco deu os preos. Rapidamente, o negcio foi fechado. Assinaram um contrato no qual estava explicitado o valor, a forma de pagamento e o tempo 
em que os mveis seriam entregues. Feliz, Rui foi embora. Francisco tambm ficou feliz, pois aquela era uma encomenda grande, diferente das que tinha tido at ento. 
Preciso contar a Raquel! Ela vai ficar feliz! Com esse trabalho, poderemos ficar algum tempo sem nos preocupar com dinheiro. Sinto que, assim que ficarem prontos 
e as pessoas virem surgiro mais encomendas. Francisco foi at o bero. Preciso terminar. S falta a ltima mo de tinta. Amanh, estar pronto. Ficou ali, terminando, 
com carinho, o bero para sua criana. Enquanto fazia isso, pensava: Ser que vai ser um menino? Gostaria que fosse, mas se no for no tem importncia. O importante 
 que nasa com sade e que nada acontea com Raquel. Ela  tudo para mim. Enquanto pintava, pensava: Parece que vamos conseguir sobreviver com a marcenaria. Com 
essa encomenda de hoje, grande como , Raquel no ter motivo algum para se preocupar, s mesmo, criar a nossa criana. Com a primeira parte que o senhor Rui me 
deu, vai dar para eu comprar todo o material de que preciso e ainda vai sobrar um pouco de dinheiro. Obrigado, meu Deus. Quando se deu conta, j eram duas horas. 
Preciso me apressar. Est quase na hora da visita. Estou louco para encontrar Raquel e contar tudo o que est acontecendo. Ser que a criana j nasceu? Tomara que 
sim... Trocou de roupas, fechou a porta, colocou um aviso dizendo que estava fechado por fora maior e foi para o hospital. Quando chegou, foi direto para a recepo, 
precisava pegar um cai to para poder entrar. Deu o nome de Raquel. A recepcionista olhou em uma ficha:
- O senhor no vai poder v-la agora.
- Por qu?
- Ela est em trabalho de parto e no pode ser incomodada.
- Preciso falar com ela nem se for somente por um minuto!
- Sinto muito, mas so ordens, no posso desobedecer.
- Por favor, moa, s por um minuto... - ele disse quase chorando.
- No posso senhor. Ela est em um quarto junto com outras mulheres que, tambm, assim como ela, esto se preparando para dar  luz. Se o senhor entrar, poder constranger 
a todas. V para sua casa e no se preocupe, sua mulher est muito bem. Amanh, quando voltar na hora da visita, sua criana j ter nascido e poder v-la.
Ele ainda insistiu:
- Vou ficar s por um minuto. Prometo que no vou incomodar as outras mulheres, nem vou olhar para elas...
- Sinto muito, senhor, mas no posso. Se ela estivesse em um quarto particular, no haveria problema algum e o senhor poderia entrar a qualquer hora ou ficar o tempo 
todo com ela, mas como no est, precisamos seguir as regras.
Vendo que no conseguiria convencer a moa e no a culpando, sabendo que eram as regras do hospital, saiu. J na rua, no pde evitar que lgrimas cassem por seu 
rosto. Perdo, Raquel por no poder ficar ao seu lado. Perdo por no ter dinheiro para coloc-la em um quarto particular, mas sinto que tudo isso vai mudar. Vamos 
conseguir fazer com que a nossa marcenaria nos d muito dinheiro e voc vai ter tudo o que no pde ter agora, quando vierem os prximos filhos... Lembrou-se da 
encomenda de Rui. O melhor a fazer agora  ir comprar o material de que preciso e comear amanh, mesmo, a encomenda. Esses mveis precisam ficar bons, vo ser a 
propaganda de que preciso. Pegou um nibus e foi at o local onde encontraria todo o material de que precisava. Quando voltou para a marcenaria, j era quase noite. 
Entrou e foi direto para o bero que, agora, j estava pronto. Olhando para o bero, pensou: Raquel no est em casa, como vou ficar ali, sozinho, sem ela? Sei que 
 por poucos dias, mas no sinto vontade de ir para casa. Vou comear a fazer o desenho dos mveis que quero fabricar. Trabalhei at agora sozinho, mas acho que 
vou precisar contratar um ajudante, seno no vou dar conta. Preciso ganhar muito dinheiro para que, quando Raquel for ter outra criana, possa ficar em um quarto 
particular e eu possa ficar ao seu lado o tempo todo. Ficou ali at tarde. Distrado, desenhando, nem viu o tempo passar. Quando chegou ao porto da casa, j eram 
quase nove horas. Entrou pelo corredor. Estava passando pela porta de Tereza, que se abriu. Ela surgiu e, parecendo preocupada, perguntou:
- Ainda bem que chegou. Como voc no voltou, fiquei preocupada. Aconteceu alguma coisa com Raquel? Ela no est bem?
- Deve estar. Desculpe-me, Tereza. Eu devia ter voltado mais cedo, mas me distra trabalhando.
- Trabalhando? E a Raquel?
- Vou contar o que aconteceu.
Contou tudo o que havia acontecido e terminou, dizendo:
- Como pode ver, por no ter dinheiro para pagar um quarto particular, no pude ficar ao lado dela. Espero, em Deus, que ela esteja bem e que a minha criana j 
tenha nascido, mas s vou saber amanh, na hora da visita. No ligo muito para dinheiro, Tereza. Sempre achei que ele deve servir somente para nos trazer a felicidade 
e a felicidade, para mim, se resume em ter uma casa para morar e comida, alm de paz e tranqilidade, mas, nesses momentos, vejo que ele serve tambm para outras 
coisas. Quando temos sade, no nos preocupamos com essas coisas, mas, nos momentos em que precisamos de uma assistncia mdica,  que sabemos como o dinheiro  
importante.
- Tem razo, mas Raquel deve estar bem e a criana j deve ter nascido.
- Assim espero Tereza. Nada mais posso fazer, alm disso, no  mesmo?
- , sim, Francisco. Esperar e rezar.
- Eu rezo sempre, Tereza, muito mais hoje.
- Tambm rezei muito pela Raquel. Tenho certeza de que ela est bem. Nossa Senhora do Bom Parto deve estar ao lado dela...
- Espero que esteja, Tereza... Espero que esteja...
Francisco se despediu e foi para sua casa, que, embora pequena, para ele, nunca foi to grande. Sozinho pela primeira vez, desde que se casara, sentia-se pequeno 
l dentro. Comeu alguma coisa que estava sobre o fogo e, cansado, adormeceu. No dia seguinte no se lembraria, mas, assim que adormeceu uma senhora se aproximou 
e sorriu:
- Amanh vai ter uma surpresa, meu filho. Apesar de Raquel no estar em um quarto particular, est sendo bem tratada e seu filho nasceu.
- Nasceu, v?
- Nasceu meu neto, e ele  lindo. Vai ser muito importante na vida de vocs.
- Estou feliz! Nunca disse a Raquel, mas sempre quis que fosse um menino!
Ela sorriu:
- Sei disso. No se preocupe mais. Durma em paz e, amanh, ir conhecer o seu filho. Raquel est sendo assistida no s pelos mdicos e enfermeiras, mas pelo plano 
espiritual que est ao lado dela e da criana. Para o plano, sempre que uma criana nasce,  motivo de felicidade e de apreenso tambm.
- Apreenso, por qu?
- Todos, quando nascem, trazem consigo a esperana de bem cumprirem o que prometeram, mas nem sempre isso acontece. Por isso, estamos sempre ao seu lado, dando boas 
intuies e tentando impedir que cometam enganos. Algumas vezes, conseguimos; outras, no, mas tentamos sempre.
- Com meu filho vai ser diferente. Ele vai conseguir?
- Vai sim, tenho certeza. A misso dele  fazer com que Raquel desperte para a vida, consiga se conhecer e ultrapassar limites. Temos f que ele e ela conseguiro.
- O que vai acontecer?
- Nada que no esteja programado, mas durma bem. Amanh ser um novo dia e, com ele, viro esperanas e realizaes.
A senhora, sorrindo, desapareceu. Francisco continuou dormindo profundamente. Acordou pela manh. Estava bem e, sem saber o motivo, feliz. Arrumou-se e, rapidamente, 
saiu da casa. No corredor, encontrou Tereza que voltava depois de ter levado um de seus filhos para a escola.
- Bom dia, Tereza!
- Bom dia, Francisco. A que horas  a visita no hospital?
- s trs horas.
- Que pena. No poderei ir.
- No tem importncia, Tereza. Vou dizer a Raquel como est preocupada e feliz pela nossa criana. Ela vai ficar contente.
- Faa isso, Francisco. Quando ela chegar, vou ajudar no que for possvel.
- Sei disso, Tereza. Agora vou para a marcenaria.
- At mais, Francisco.
Francisco foi para a marcenaria e comeou a cortar as madeiras de acordo com o que havia desenhado. s duas horas da tarde, voltou a colocar o cartaz na porta e 
foi para o hospital. Embora tranqilo, estava ansioso para ver Raquel e o menino que havia nascido. No sabia por que, mas sabia que era um menino. Assim que chegou, 
obteve da recepcionista um carto com o qual poderia ver Raquel. Subiu a escada correndo. No teve pacincia de esperar o elevador. Assim que chegou  porta do quarto 
cujo nmero estava marcado no carto, parou. Viu Raquel que estava em uma cama junto  janela. Viu que havia mais cinco camas com mulheres deitadas e algumas com 
visitas. Aproximou-se de Raquel e percebeu que ela estava abatida e com olheiras profundas. Preocupado, beijou sua testa e perguntou:
- Como voc est Raquel?
- Estou cansada, mas muito bem e feliz. J viu o nosso menino?
- Menino?  um menino, Raquel?
- , sim, Francisco, e  lindo!
- Onde ele est?
- L no berrio. A enfermeira disse que voc poderia v-lo. Fica no quinto andar.
Francisco olhou para a porta.
- V, Francisco!
Ele beijou-a novamente e saiu apressado, quase correndo. Novamente no teve pacincia para esperar o elevador, subiu dois andares de escada. Perguntou a uma enfermeira 
que passava onde ficava o berrio, ela lhe mostrou com a mo. Ele se aproximou de uma janela. Olhou e pde ver que duas enfermeiras cuidavam de vrias crianas 
colocadas em beros. Mostrou o carto de visita com o nome de Raquel. Uma das enfermeiras pegou uma criana em um dos beros e trouxe at perto da janela. Francisco 
olhou para a criana, mas no pde evitar que lgrimas de felicidade cassem por seu rosto. A enfermeira, acostumada com aquela cena, tambm sorriu e colocou a criana 
de volta no bero. Francisco ficou ali, olhando o seu filho. Feliz, pensou: Raquel tem razo, ele  lindo mesmo... Ele via somente as duas enfermeiras andando de 
um bero para outro, mas, se pudesse ver o plano espiritual, veria que sua av estava ao seu lado e que, ao lado de cada bero, entidades vestidas de branco tambm 
estavam ali, cuidando daqueles espritos que despertavam para a vida com seus deveres e obrigaes. Estavam ali e continuariam ao lado de cada um at que aquele 
de quem tomavam conta completasse a sua jornada. Ficou ali olhando o filho. Seu corao batia forte. Ele  to pequeno, ser que vou conseguir dar a ele tudo do 
que precisa? Ser que vou conseguir fazer com que ele seja feliz? Voltou para o quarto onde Raquel estava. Desde que ele saiu, ela, ansiosa, olhava para a porta, 
esperando sua volta. Assim que ele se aproximou, ela perguntou:
- Viu o nosso filho, Francisco?
- Vi Raquel! Realmente ele  lindo, mas muito pequeno... 
Ela comeou a rir:
-  pequeno, mas vai crescer Francisco! Vai ser um moo muito bonito, voc vai ver!
Ele segurou sua mo, abaixou-se e deu-lhe um beijo na testa.
- Obrigado, Raquel. Estou muito feliz por nosso filho e por voc ter sido to valente...
- O que  isso, Francisco? Valente coisa nenhuma. No sou a primeira e no serei a ltima a ter um filho. Isso faz parte da mulher!
- Mesmo assim, obrigado. Preciso contar a coisa maravilhosa que aconteceu!
- O que ?
Ele contou sobre Rui e sobre a encomenda que ele fez. Ela ficou entusiasmada:
- No disse a voc, Francisco, que a marcenaria ia dar certo? Esse  o primeiro cliente, voc vai ver como, depois dele, outros viro!
- Espero que sim. Precisamos de dinheiro para criar o nosso menino.
- Que vai se chamar Mauro.
- Mauro?
- Sim. Por que, no gosta desse nome?
- Gosto, Raquel! Voc  a me, tem o direito de escolher o nome do filho. Alm do mais, esse nome me parece ser muito forte!
- O nome  to forte como o nosso menino vai ser!
Francisco sorriu e voltou a beij-la. Alguns dias depois, Francisco levou Raquel e o menino para casa. Tereza esperava por eles. Assim que chegaram, ela pegou Mauro 
no colo e, feliz, disse:
- Ele  lindo, Raquel!
-  sim, Tereza! Vamos l para casa? Estou morrendo de saudade de tudo aqui.
- No posso Raquel. Preciso preparar o almoo das crianas, mais tarde eu vou at l.
- Est bem. Sabe que sou me de primeira viagem, no sei se vou saber cuidar dele. Minha me mora longe daqui, s conto com voc.
- No se preocupe com isso. Toda mulher sabe cuidar de uma criana.
- Ser, Tereza?
- Claro que sim, Raquel. No se preocupe. Depois que as crianas forem para a escola, vou at sua casa.
- Obrigada, Tereza, vou ficar esperando.
Tereza sorriu. Raquel e Francisco entraram em casa. Assim que entrou, Raquel viu o bero que Francisco havia feito.
- Ele  lindo, Francisco! Voc no disse que tinha feito!  pequeno!
- Fiz, sim, Raquel. Queria fazer uma surpresa. Fiz um pouco menor para que pudesse caber no quarto. Ficou lindo, no ficou? Ainda mais depois que coloquei o lenol 
e o travesseiro que voc bordou...
- Est maravilhoso, Francisco, digno de um prncipe!
- Nosso filho  um prncipe, Raquel!
- Tem razo, Francisco. Ele  um prncipe, mesmo...
Raquel colocou o menino no bero e os dois ficaram olhando, enquanto ele dormia tranqilo.
 
DESCOBRINDO UMA PROFISSO

Como Raquel havia previsto, teve bastante dificuldade em cuidar do menino que chorava muito e ela no sabia o que fazer. Francisco, apesar de no conseguir dormir 
durante a noite, saa cedo para o trabalho, precisava entregar a encomenda de Rui. Raquel, tambm exausta, s contava com a ajuda de Tereza, que nunca lhe faltou. 
O tempo passou. Mauro estava com seis meses. Francisco entregou a encomenda de Rui e ficou  espera de novas encomendas que no chegaram. Em uma noite, quando voltou 
do trabalho, Raquel percebeu que ele no estava bem. Perguntou:
- O que aconteceu, Francisco, parece que est preocupado?
- Estou mesmo, Raquel. O trabalho  pouco. O dinheiro que ganhei com aquela encomenda grande j est terminando e no sei como vai ficar a nossa situao.
- No adianta ficar nervoso dessa maneira. Alguma coisa vai acontecer e tudo vai ficar bem.
- Voc  sempre otimista, mas as coisas no esto bem. 
Raquel ficou em silncio, pois, embora quisesse animar Francisco, sabia que ele tinha razo. Se no recebesse logo uma encomenda, passariam por dificuldades. Parecendo 
ter uma idia, disse:
- Francisco, posso sair e tentar vender seus mveis.
- Como, Raquel? Precisa cuidar do Mauro e da casa...
- Da casa, eu cuido pela manh e,  tarde, posso sair e tentar vender.
- E o menino, como vai ficar? Vai lev-lo com voc?
- No, no posso, pois, alm de ele ficar cansado, o que no  justo, eu no poderia conversar com as pessoas. Estaria preocupada com ele.
- Ento, como v, sua idia  boa, mas no h o que fazer.
- Vou conversar com Tereza.  tarde, as crianas dela vo para a escola e ela fica sozinha. Vou perguntar se, nesse tempo, no pode cuidar do Mauro.
- Acha que ela vai aceitar sua oferta?
- No sei, mas no custa tentar. Ela gosta do Mauro e me ajuda a cuidar dele. Acho que no vai se importar em ficar mais tempo com ele. No podemos nos esquecer 
de que ele costuma dormir todas as tardes.
- Ser que voc vai conseguir vender?
- No sei, nunca fiz isso, mas vou tentar. O que sei  que voc precisa de trabalho e no pode se afastar da marcenaria para mostrar os seus mveis.
- Nisso voc tem razo.
- Ainda bem que concordou. Amanh, logo cedo, vou conversar com Tereza e se ela aceitar,  tarde, vou sair e vir o que consigo.
- Est bem. Embora ache que a mulher no deve trabalhar fora, sinto que preciso da sua ajuda...
- Pare com isso, Francisco! No estou ajudando a voc, estou ajudando a ns dois e ao nosso filho.
- Ser que vai conseguir?
- J disse que no sei, mas tenho a mesma capacidade que qualquer homem. Isso da mulher no poder trabalhar vai ter que mudar. A casa no  s do homem,  da mulher 
tambm.
- Est bem, j me convenceu. No precisa ficar nervosa...
- Fico nervosa quando ouo dizer que a mulher no pode trabalhar, porque, no fundo, o que querem dizer  que no temos capacidade e isso me traz uma revolta imensa. 
Somos todos seres humanos, Francisco. O crebro, tanto do homem como da mulher,  igual! Tanto o homem quanto a mulher tm a mesma capacidade e vou provar! Vou ser 
a melhor vendedora do mundo!
Francisco comeou a rir. Ela ficou furiosa:
- Do que est rindo?
- De voc, de como fica linda quando est nervosa... Ela tambm riu e se abraaram.
- Faa o que quiser Raquel. Se Mauro ficar com Tereza, sei que estar bem e isso  o que importa realmente.
- No existe melhor pessoa para cuidar dele. Tomara que ela aceite, Francisco. Agora vamos jantar e deixar os problemas para amanh.
No dia seguinte, logo pela manh, Raquel foi at a casa de Tereza, que lavava a loua do caf. Entrou. Tereza se admirou:
- Raquel, voc h esta hora aqui! Aconteceu alguma coisa com o Mauro? Ele est doente?
- No, Tereza. Ele est muito bem. Est brincando no bero. Preciso falar com voc.
- Comigo? Sobre o qu?
Raquel contou  conversa que havia tido com Francisco. No final, perguntou:
- Voc pode me ajudar, Tereza?
- Claro que sim! Mauro  uma criana tranqila, no vai me dar trabalho algum! Meus filhos j esto criados. S o Julinho ainda vai para a escola, a Arlete e o Elias 
esto trabalhando. Durante as tardes, fico sozinha. Pode ir sossegada e no se preocupe, seu filho ficar em boas mos.
- Disso tenho certeza, ele no poderia ficar em melhores mos. Obrigada, Tereza e, se eu conseguir vender os mveis, darei a voc uma porcentagem.
- No precisa Raquel. S quero que fiquem bem e que a marcenaria v para frente realmente. Sei que, se tivesse sido o contrrio, voc tambm me ajudaria.
Naquele mesmo dia, Raquel, depois de dar o almoo para Mauro, levou-o para a casa de Tereza que o colocou para dormir e, pegando as fotografias que Francisco havia 
lhe dado, saiu para tentar vender os mveis. Resolveu que deveria ir para o centro da cidade, pois ali se encontrava a maioria dos escritrios. Antes de sair, rezou, 
pedindo que Deus a ajudasse. Se pudesse ver, notaria que um vulto de mulher, sorrindo, estava ao seu lado e a acompanharia durante todo o tempo. Para chegar ao centro, 
precisava pegar um nibus, que demorava mais ou menos quarenta minutos. Assim que o nibus parou, ela desceu e ficou olhando, sem saber para que lado devesse ir. 
Depois de algum tempo, resolveu seguir em frente. O vulto a acompanhava. Entrou no primeiro escritrio e notou que, como todos os outros, aquele tambm tinha mveis 
escuros e pesados, o que dava a impresso de ser pequeno. Falou com o chefe do escritrio, mostrou as fotografias, mas ele no se mostrou interessado. Embora decepcionada, 
no desistiu e continuou entrando nos escritrios e mostrando as fotografias. Andou a tarde toda e, como no conseguiu vender, resolveu que estava na hora de voltar 
para casa. So cinco horas. Preciso ir embora para fazer o jantar. No pensei que seria to difcil conseguir uma venda, mas no posso desistir. Sinto que esse  
o caminho que devo seguir. O vulto que estava ao seu lado sorriu. Caminhou em direo ao ponto de nibus. Quando estava chegando perto, o vulto disse:
- Pare e olhe  sua direita.
Embora no tivesse ouvido, parou e olhou para a direita. Viu que havia uma imobiliria. No meio de muitas placas de propaganda de imveis para vender, havia uma 
que dizia vender um escritrio. O vulto disse:
- Entre a e veja o que pode acontecer.
Sem saber o porqu, resolveu entrar. Assim que entrou, viu que um senhor conversava com outro. Parou junto a um balco. Um dos senhores, vendo-a ali, parada, sorrindo, 
perguntou:
- Posso ajud-la?
- Talvez.
- Est procurando um imvel para alugar ou comprar?
- No. No estou procurando.
Ele, sem entender, continuou olhando para ela, que disse:
- Na realidade, estou vendendo mveis para escritrios. Vi sua placa que diz que tem um para vender.
- Tem razo. No tenho s um, tenho vrios, mas no estou entendendo aonde quer chegar.
Raquel tirou da bolsa as fotografias e, enquanto mostrava, disse:
- Como pode ver, meus mveis so totalmente diferentes daqueles usados at ento. Com eles, o ambiente de trabalho se tornar maior e mais agradvel. As pessoas 
tero prazer em trabalhar.
O homem, enquanto olhava as fotografias, disse:
- Interessante, mas no entendo como posso ajud-la. Aqui no vendemos mveis, apenas imveis.
- Sei disso, mas tive uma idia que poder ser boa para ns dois.
- Que idia?
- Sempre que o senhor vender ou alugar um escritrio e a pessoa que o adquirir precisar de mveis, o senhor pode mostrar as fotografias. Se houver interesse, o senhor 
me comunica, eu vou falar com ela e tento vender os mveis. Se conseguir vender, eu lhe darei uma comisso de trs por cento. Assim, ns dois poderemos ganhar.
O homem, que no estava acostumado a ver uma mulher trabalhando, muito menos vendendo, olhou para o outro com quem estava conversando e lhe entregou as fotografias. 
O homem olhou as fotografias e, depois, disse:
- Esses mveis so interessantes.
- Sim, diferentes de tudo o que o senhor j viu, no ?
- A senhora tem razo. Jamais imaginei ter mveis como estes em meu escritrio.
Raquel percebeu que ele estava empolgado. Mais empolgada ainda, disse:
- Como pode ver com mveis iguais a estes, o ambiente vai parecer maior.
- A senhora tem os preos?
- Sim, esto atrs de cada fotografia.
O homem virou as fotos e viu o preo. Admirado, disse:
- So mais baratos que os atuais!
- Sim, o fabricante deseja que seus mveis sejam conhecidos. Por isso, sua margem de lucro  pequena.
- Gostei... Gostei...
Raquel, tentando no demonstrar seu contentamento, ficou olhando para o homem que olhava, novamente, uma a uma as fotografias.
- Gostei mesmo, minha senhora. Terminei de comprar um escritrio e vou precisar de mveis. Gostaria de ir at o fabricante, ver os mveis e fazer um pedido.
Ainda tentando no demonstrar seu contentamento, Raquel disse:
- Vou escrever o endereo e o senhor poder ir at l quando quiser. Sei que, vendo os mveis, no deixar de compr-los.
Escreveu o endereo em um papel que o dono da imobiliria lhe deu. O homem pegou o papel, olhou e guardou em um de seus bolsos.
- Eu irei at l. Gostei muito de seus mveis.
- Estaremos esperando, senhor.
Ele sorriu e se afastou. Raquel, feliz, olhou para o dono da imobiliria.
- Ento, o senhor vai aceitar a minha proposta?
- Confesso que no havia me interessado, mas ao ver o entusiasmo do meu cliente, vamos fazer negcio. Deixe as fotografias e eu vou mostrar a todos que comprarem 
escritrios. Veremos o que vai dar.
Empolgada, Raquel se despediu e, apressada, foi para o ponto de nibus. Assim que o nibus chegou, ela subiu e sentou-se. Enquanto o nibus seguia, ela pensava: 
Ele vai at a marcenaria e vai fazer o pedido. Assim, Francisco vai ter mais trabalho e poderemos ficar tranqilos por mais algum tempo. No sei o porqu, mas sinto 
que tudo vai dar certo. Preciso chegar logo. No sei como Mauro ficou. Espero que Tereza no se arrependa e fique com ele mais vezes. Preciso, ainda, fazer o jantar. 
O vulto de mulher que estava ao seu lado sorriu. O nibus parou no ponto em que ela deveria descer. Desceu e, apressada, foi para casa. Tereza, ao v-la chegar, 
disse:
- Que bom que chegou Raquel. O Mauro ficou bem at agora, mas comeou a chorar. J dei leite e troquei sua fralda, mas ele no para.
Raquel pegou Mauro no colo e, enquanto o embalava, disse:
- Desculpe Tereza. Sei que me atrasei, mas consegui mostrar as fotografias a um homem que se interessou. Acho, acho no, tenho certeza de que ele vai comprar os 
mveis de que precisa para o escritrio que acabou de adquirir!
- Ainda bem, Raquel! Tomara que ele compre mesmo!
- Vai comprar Tereza, e eu vou dar a voc uma porcentagem.
- No precisa Raquel. Eu disse que cuidaria e vou cuidar de Mauro para que voc possa trabalhar.
- No sei como agradecer, Tereza. Se no fosse por voc, eu no poderia sair.
- No se preocupe. Embora ele tenha chorado agora, foi uma companhia para mim. Ele  um menino lindo e muito bom.
- Obrigada, Tereza. Agora, preciso fazer o meu jantar. No vejo a hora de que Francisco chegue para que eu conte tudo o que aconteceu.
- Ele vai ficar feliz, Raquel.
- Vai sim...
Raquel, com Mauro no colo, foi para sua casa e comeou a fazer o jantar. Quando Francisco chegou, ela estava terminando. Ele entrou em casa e, como sempre fazia, 
beijou-a no rosto. No pde deixar de notar a felicidade em seus olhos. Curioso, perguntou:
- O que aconteceu? Conseguiu vender?
- Sente-se e, enquanto comemos, vou contar tudo o que aconteceu. Ele, mais curioso ainda, sentou-se. Raquel serviu a comida e se sentou tambm. Colocou Mauro em 
uma cadeira alta. Enquanto comia, dava comida a ele.
Contou a Francisco tudo o que havia acontecido. Assim que ela terminou, ele, empolgado, perguntou:
- Voc conseguiu Raquel? Conseguiu vender?
- Ainda no, mas sei que ele vai visitar voc. Gostou muito dos mveis e no fez questo alguma de esconder!
- Tomara que venha, mesmo! Essa sua idia de falar com o dono da imobiliria foi muito boa!
- No sei explicar como tive essa idia. Andei a tarde toda e no consegui nada. De repente, no sei como, olhei para uma placa que dizia que ali se vendiam escritrios. 
Tive a idia, entrei e parece que tudo vai dar certo! No sei mesmo como essa idia apareceu. Acho que foi Deus, Francisco. O vulto da mulher que a acompanhou durante 
todo o tempo sorriu outra vez.
- S que tem um problema.
- Qual problema, Raquel?
- Tive de deixar as fotografias com o dono da imobiliria. Voc tem outras? Vou precisar de muitas.
- Tenho algumas, mas vou tirar mais. S que custa caro mandar revelar.
-  um dinheiro que precisamos gastar Francisco. As pessoas precisam conhecer seus mveis e s pode ser dessa maneira.
O vulto da mulher que a acompanhou durante todo o tempo sorriu outra vez. Terminaram de jantar. Raquel foi cuidar de Mauro. Deu-lhe um banho e colocou-o no bero. 
Ele dormiu em seguida. Francisco, deitado em sua cama, acompanhava todos os passos dela. Em dado momento, disse:
- Raquel, preciso confessar que no acreditava que voc ia conseguir. S concordei com voc para que no brigasse comigo.
- No ia conseguir, por qu? Por que sou mulher?  isso que est dizendo, Francisco?
- Calma, Raquel, mas  isso mesmo. No pensei que ia conseguir. No pode negar que a mulher no foi criada para trabalhar fora de casa. Sempre soube que a mulher 
devia s se preocupar com a casa e a criao dos filhos.
- Tem razo. O mesmo aconteceu com a minha me, mas isso nunca quis dizer que as mulheres no tivessem capacidade. Simplesmente aceitaram a situao, mas isso precisa 
mudar Francisco. As mulheres podem cuidar da casa, do marido, dos filhos e ainda trabalhar, ganhar seu prprio dinheiro.
- Estou vendo que est com razo. Voc, apesar de ter ficado a tarde toda na rua, est com a casa em ordem, e o jantar tambm. Nosso filho est tranqilo. Voc tem 
capacidade, sim, Raquel.
Raquel comeou a rir:
- Voc no conhece mesmo a mulher, Francisco! Ela, diferente dos homens que s conseguem fazer uma coisa por vez, faz vrias. Cuida da casa, atende aos filhos e 
ainda faz comida, tudo junto e de uma vez. Duvido de que voc ou qualquer outro homem consiga fazer isso.
Ele ficou calado, apenas pensando.

CONSCIENTIZAO

Naquela noite, Raquel quase no conseguiu dormir. Estava ansiosa para que o dia seguinte chegasse. Queria ver se o tal senhor iria mesmo at a marcenaria para comprar 
os mveis. Antes de adormecer, agradeceu a Deus por aquele dia. Como fazia todos os dias, acordou cedo e preparou o caf para Francisco que levantaria um pouco depois. 
Enquanto o caf era coado, ela preparou uma marmita com a comida que Francisco levaria para o trabalho e que, na hora do almoo, esquentaria em uma espiriteira acesa 
com lcool. Como no possuam geladeira, a comida precisava ser preparada pela manh. Antes de Francisco se levantar, ela pegou as roupas sujas do dia anterior e 
colocou-as no tanque. Elas precisavam ser lavadas antes do almoo. No tinham muitas roupas, nem muitas fraldas para Mauro. Logo, as roupas precisavam ser lavadas 
e passadas todos os dias. Francisco levantou-se, pegou um pedao de po, pegou uma caneca de alumnio, dentro dela, colocou o pedao do po, caf e leite, misturou 
tudo e, com uma colher, deu a Mauro, que comeu deliciosamente. Depois, deu a Raquel algumas fotografias e o filme para que pudesse fazer algumas cpias. Raquel acompanhou-o 
at o porto de casa. Voltando pelo corredor, cumprimentou Tereza rapidamente e foi para casa terminar a arrumao, preparar as roupas e comida que precisava deixar 
com Tereza para que ela pudesse cuidar de Mauro. Estava distrada cuidando de tudo, quando Tereza chegou junto  porta.
- Bom dia, Raquel.
- Bom dia, Tereza. Estou terminando de arrumar tudo para poder sair. Sinto que, hoje, tambm vou conseguir vender ou pelo menos fazer com que algum se interesse 
pelos mveis.
-  sobre isso que vim conversar com voc...
- O que aconteceu, Tereza?
- No posso mais cuidar do Mauro...
Raquel estremeceu.
- O qu? Por qu?
- O Manoel ficou muito bravo. Disse que eu no poso ficar responsvel pelo seu filho e que j tenho os meus para cuidar.
- Voc disse a ele que preciso sair para tentar vender os mveis?
- Disse, mas ele no se importou. Ele falou que o lugar da mulher  dentro de casa e que cabe ao homem trazer o sustento de casa. Perguntou se Francisco no tem 
vergonha de deixar voc sair de casa para trabalhar.
- Vergonha? Por que, Tereza? Estou apenas saindo para trabalhar. Que mal h em a mulher ajudar o marido para que possam ter uma vida melhor?
- Tambm penso assim, mas Manoel, no. Ele deixou bem claro que no deixa faltar nada aqui em casa e no quer que eu trabalhe nem que cuide do Mauro. Sinto muito, 
mas preciso obedecer. Ele disse que, se no fizer isso, ele pode ficar nervoso e, quando isso acontece, voc sabe o que ocorre. Ele me agride e s crianas tambm. 
Voc j viu isso acontecer, no viu?
- Vi, sim, e confesso que fiquei apavorada. Voc no precisa obedecer, Tereza, muito menos ser agredida da maneira como ! Voc no  um animal que precisa ser alimentado, 
protegido e que, se no fizer o que seu dono quer, ele a castiga! Voc  uma mulher, um ser humano! Tem seu valor, sabe pensar! No pode continuar aceitando ser 
tratada dessa maneira!
- Que bom seria se tudo isso o que est dizendo fosse verdade, Raquel, mas, na realidade, no . Sabe que ns, as mulheres, somos dependentes de nossos maridos para 
tudo. So eles que trazem o sustento para casa, portanto, so eles que do as ordens, que mandam...
- Embora eu saiba que  assim, recuso-me a aceitar, Tereza. Quando me casei, foi para ter um lar, filhos e um lugar onde esses filhos pudessem crescer felizes. Acho 
que eles jamais seriam felizes, vivendo em uma casa onde o pai espanca a me e a eles prprios. Em uma casa onde h brigas, gritos e safanes! Com uma me incapaz 
de reagir e de proteg-los! Eles no seriam felizes e muito menos eu!
- Para voc  fcil falar, Raquel. Francisco  calmo, mas com Manoel  diferente. Ele tem gnio forte.  sistemtico...
- Gnio forte, sistemtico? Coisa nenhuma, ele se julga superior,  mal educado e no gosta de voc nem dos filhos! Percebeu que voc no reage e que nunca vai reagir! 
Sabe que tem o poder em suas mos. Sabe que, por um prato de comida e um teto para dormir, voc o aceita da maneira como ele ! Isso no est certo, entre marido 
e mulher no pode existir poder! Os dois devem caminhar juntos e lutar por uma mesma causa!
- A vida  assim, Raquel! O av dele agia assim, o pai tambm e os filhos continuaro agindo igual.
Ao ouvir aquilo, Raquel falou gritando:
- No, Tereza! Seus filhos precisam cortar essa corrente de horror! Eles no podem continuar sendo como o pai e avs! Eles precisam aprender a respeitar e amar, 
realmente, suas mulheres e seus filhos! Eles precisam aprender que a mulher  companheira, no propriedade ou escrava! E cabe a voc, como me, ensinar isso a eles! 
Cabe a voc, Tereza, que a prxima gerao comece uma mudana que ser boa, no s para as mulheres, mas para todos. Os seres humanos so todos iguais, no importando 
se so homens ou mulheres!
- Seria bom se isso pudesse ser mudado, mas no vai ser no, Raquel!
- Claro que vai, Tereza! Precisa ser mudado! Cabe a ns, como mes, comearmos essa mudana! Precisamos ensinar aos nossos filhos a mudar tudo isso. Precisamos ensinar 
aos nossos filhos no s a amar suas mulheres, mas tambm a respeit-las!
- No sei se vai acontecer, mas, enquanto no acontece, vou continuar obedecendo ao meu marido e a fazer tudo o que ele quer.
- Pois eu, no sei como, vou continuar o meu trabalho. Meu marido est precisando de ajuda para poder tocar a empresa que, sob minha sugesto, abriu. Eu posso ajud-lo. 
Ontem, percebi que sei como vender. Sei que, se eu vender mais, Francisco tambm ter mais trabalho e, conseqentemente, teremos uma vida melhor. No vejo mal algum 
nem vergonha alguma para o meu marido. Voc me pegou de surpresa e ainda no sei o que fazer, mas tenho certeza de que vou encontrar um meio de continuar vendendo 
os mveis e de ajudar o meu marido e ajudar a mim prpria a me tornar uma mulher til, no s a mim, mas  sociedade tambm.
- Voc acha que criar e educar os filhos no  til? As mulheres que cuidam e do educao aos filhos no os esto preparando para o futuro, para que sejam pessoas 
de bem?
- Claro que criar e cuidar de uma criana  til e necessrio, mas a vida da mulher no pode se resumir somente a isso, Tereza. Seus filhos esto criados e tm suas 
prprias vidas. No quero que acontea comigo o que aconteceu com nossas mes, agora que os filhos cresceram e esto casados no sabem o que fazer com a vida. Se 
tivessem tido uma profisso, seu prprio dinheiro enxergariam a vida de uma maneira diferente.
- Nossos filhos precisam de ensinamentos que s uma me pode dar.
- Que ensinamentos, Tereza? O que temos para ensinar aos nossos filhos a no ser higiene e bom comportamento? Claro que temos muitas coisas para ensinar, mas no 
tudo, porque tambm no sabemos. Em casa, eles recebero um tipo de educao, mas, se no aprenderem na escola e, principalmente, com a vida, nada sabero. O crescimento 
 uma educao constante. Viver  um aprendizado constante, e a mulher s poder dar uma boa educao aos filhos, quando ela prpria souber da vida e de tudo o mais.
- Voc no  deste tempo, Raquel! Voc  louca! - Tereza disse, rindo.
Raquel tambm riu:
- Acho que voc tem razo, Tereza. No sou deste tempo, mesmo. Estava passando por uma banca de jornal e vi a propaganda de um fogo a gs, mas  muito caro e no 
poderemos comprar ao menos por um longo tempo. J pensou Tereza, voc se levantar, pela manh, virar um boto e poder cozinhar rapidamente, sem ter de colocar carvo 
e esperar que se acenda e se torne brasa? Vi, tambm, a propaganda de uma geladeira, outro sonho distante. J pensou se pudssemos cozinhar no dia anterior, guardar 
na geladeira, sem precisarmos nos levantar de madrugada para poder preparar a comida que nossos maridos levam para o trabalho? J existe um ferro de passar eltrico. 
Com ele, no vai mais ser preciso se colocar brasa no ferro para que esquente e s depois disso passar roupa. Basta colocar na tomada que ele esquenta na hora. Todo 
esse conforto j existe, Tereza!
Tereza ficou com o olhar distante, imaginando.
- Seria muito bom, mesmo, Raquel...
- Essas facilidades existem, Tereza, s que o dinheiro que nossos maridos ganham no d para comprar. Se trabalhssemos, poderamos pagar em prestaes mensais e 
poderamos ter a mesma comodidade que os ricos j tm.
- Voc tem razo, mas Manoel nunca vai permitir que eu trabalhe fora.
- Ele no quer que voc tenha seu prprio dinheiro. Acho que o homem tem medo de que se a mulher trabalhar fora e tiver como se sustentar, ele perder o controle 
e no poder mais subjug-la.
- Os homens acham que devem trazer o dinheiro para casa.
- No, Tereza! Eles acham que no temos capacidade. Que somos fracas, mas isso  bobagem. Na Europa, durante a guerra, enquanto os homens lutavam, as mulheres assumiram 
todos os cargos que, antes, eram s deles. Elas trabalharam em fbricas, hospitais e em todos os seguimentos. Deram conta do trabalho. Quando eles voltaram, elas 
foram despedidas e tiveram de voltar  vida de antes. Voltaram a cuidar da casa e a criar os filhos. Acredita que essas mulheres vo se conformar em viver como viviam 
antigamente? Nunca! Eu no me conformaria.
- No vi essa notcia em lugar algum, Raquel. Alis, no gosto de ouvir notcias pelo rdio. Prefiro seguir minhas novelas ou ouvir msica.
- Esse  outro problema da mulher, Tereza. A mulher acha que a maneira como o pas caminha no tem nada a ver com a sua casa, com sua famlia e, por isso, no se 
importa com o que est acontecendo aqui e no mundo. Mas, tudo o que acontece nos atinge, sim, Tereza. O mundo s vai evoluir para melhor, quando homens e mulheres 
se empenharem em seguir o que os polticos fazem com ele. As novelas no rdio so bonitas e nos prendem a ateno, mas no so reais. Real  irmos ao armazm e no 
termos dinheiro para comprar comida. Real  querermos ter uma geladeira, um fogo ou um ferro de passar e no termos dinheiro para comprar. Estamos no sculo vinte, 
precisamos acompanhar o crescimento da sociedade! Precisamos nos modernizar! Precisamos nos interessar pela poltica do nosso pas e do mundo! Precisamos ser vistas 
no como mulheres, mas como seres humanos capazes de fazer tudo o que quisermos! Precisamos ser donas de nossas vidas e do nosso destino!
- O que posso fazer? J estou com trinta e oito anos, vou fazer o que da minha vida?
- Voc se acha velha com trinta e oito anos, Tereza?
- Claro que sim, Raquel! Meus filhos esto criados, logo mais estaro casados. J cumpri minha misso. O que uma mulher com trinta e oito anos pode fazer? Como posso 
ter o meu prprio dinheiro se nunca estudei, nunca trabalhei fora. Quando me casei, tinha dezoito anos e nunca me preocupei com os estudos. S queria me casar para 
poder sair da casa dos meus pais e ter a minha prpria casa, meu marido e meus filhos. Consegui tudo o que queria.
- No, Tereza, voc no  velha nem cumpriu sua misso! Seus filhos vo se casar, mas voc  ainda muito jovem, tem muito a fazer!
- Fazer o qu, Raquel?
- Agora que seus filhos cresceram voc pode estudar e encontrar uma profisso! Ser algum, se realizar como mulher!
- Eu no conseguiria estudar, no agora, com esta idade.
- Que idade, Tereza? Voc s tem trinta e oito anos! Tem muito tempo pela frente! Procure uma escola, estude! S assim vai saber o que est acontecendo no Brasil 
e no mundo! Vai saber o que os polticos esto fazendo com o nosso pas! Precisa se interessar por essas coisas! Novelas servem somente para distrair. Nada pode 
impedir que voc cresa como ser humano! Como mulher!
- No, Raquel! Tudo isso d muito trabalho! No vou deixar de ouvir as minhas novelas e minhas msicas para ouvir um poltico falar. No tenho nada a ver com eles. 
Minha vida est muito boa. No quero que nada mude... No quero no... Meu marido que continue se preocupando com o nosso sustento. Isso compete a ele.
Raquel, desanimada, mas entendendo que realmente no era daquele tempo, apenas sorriu:
- Bem, Tereza, voc tem razo. Continue pensando assim e eu continuarei pensando da minha maneira. Ningum muda ningum. J que no vai poder continuar a cuidar 
do Mauro e eu no quero deixar de vender os mveis, preciso encontrar uma maneira.
- Voc vai conseguir Raquel. Tem fora de vontade e seu marido no se envergonha de que trabalhe fora. Quanto a mim, j viu, no ?
- Isso mesmo, Tereza. Vou encontrar uma maneira. Vou poder comprar o meu fogo, a minha geladeira e tudo o que desejar...
Tereza, constrangida por querer e no poder, alm de ajudar Raquel, ter um pouco de dinheiro, se afastou. Enquanto ela se afastava, Raquel olhou para Mauro que estava 
sentado no cho, com um carrinho na mo. Ser que vou poder dar uma boa educao a voc, meu filho? Ser que vou conseguir fazer voc entender que no  superior 
a uma mulher, mas um ser humano igual ela? Tomara que muitas mulheres estejam pensando como eu e preparem seus filhos para a prxima gerao, onde a mulher tenha 
respeito... Voltou aos seus afazeres. Enquanto terminava o trabalho da casa, pensava: No posso deixar de visitar as imobilirias, mas preciso cuidar do Mauro. Se 
na marcenaria no tivesse tanto p e aquele cheiro forte de madeira e tinta, ele poderia ficar com Francisco, mas no pode. Ele ficaria doente. A nica maneira ser 
eu lev-lo comigo. Sei que vai ser trabalhoso, e que ele ficar cansado, mas precisa ser assim. Quando Francisco conseguir mais trabalho, poderei ficar algum tempo 
em casa, mas agora no d. Preciso terminar o trabalho que comecei. Preciso vender muitos mveis. O vulto de mulher que sempre estava ao seu lado sorriu. Estendeu 
a mo sobre Raquel, que sentiu uma suave brisa passando por seus cabelos. Raquel no imaginava que aquela mulher estava ali ao seu lado, mas, sem saber dizer o porqu, 
olhou para Mauro, que engatinhava no cho e pensou: Sei o que vou fazer. J que Tereza no vai poder ficar com Mauro, no preciso esperar at depois do almoo para 
poder sair. Olhou para o relgio que estava pendurado e continuou pensando. Ainda no so oito horas, se eu sair daqui agora, chegarei quando os escritrios e imobilirias 
estiverem abrindo. Posso percorrer alguns e voltar, cuidar da casa e da roupa suja. Assim, Mauro poder dormir  tarde e no ficar to cansado... Sorriu, pegou 
Mauro no colo e comeou a trocar suas roupas e a prepar-lo para sair. Depois de trocar Mauro, colocou, em uma sacola, uma mamadeira com leite, outra com gua, alguns 
pedacinhos de po com manteiga e saiu. J na rua, caminhou at o ponto do nibus. Aquela caminhada nunca lhe pareceu to longa. Com o menino no colo e a sacola, 
foi muito difcil subir para o nibus, mas nada a desanimava: Assim que subiu e se sentou, pensou: Sei que no vai ser fcil, mas vou conseguir! Preciso conseguir, 
no s para ajudar Francisco, mas para provar a mim mesma que posso fazer mais do que cuidar da casa e criar filhos. Dez minutos aps, o nibus comear a andar, 
Mauro adormeceu e ela ficou olhando pela janela, guardando, na memria, os escritrios e imobilirias que existiam naquelas ruas por onde ele passava. Preciso visitar 
todos esses locais. Sei que, em algum, vou conseguir vender. Depois de quase quarenta minutos, o nibus parou no ponto final. Ela, com Mauro ainda adormecido, foi 
ajudada por um rapaz para que pudesse descer. Assim que desceu, ficou olhando de um lado para outro sem saber que caminho tomar. Escolheu um dos lados da rua e comeou 
a caminhar. Sei que, com Mauro, no vai ser fcil, mas vou conseguir! Sei que vou! Nossa empresa vai crescer muito! O vulto de mulher que sempre a acompanhava sorriu 
e disse: As coisas no so sempre como imaginamos e desejamos Raquel. Nem tudo aquilo que achamos ser o melhor para ns, na realidade o ... Raquel, sem imaginar 
que ela estava perto, pensou: Sinto que estou no caminho certo. Vai dar certo! Precisa dar! Parou diante de uma porta onde funcionava um escritrio. Ela no sabia 
do que se tratava, mas, mesmo assim, entrou. Foi recebida por um senhor que, aps ouvir o que ela tinha para dizer, falou:
- Sinto muito, mas o patro no est aqui. Volte outro dia. Ela, ao ouvir aquilo, mesmo frustrada, sorriu e saiu. Entrou em vrios lugares, mas no conseguiu, sequer, 
mostrar as fotografias.
Mesmo assim, com Mauro no colo, agora acordado, continuou andando. Parou em frente a uma grande porta feita em madeira de lei. Diante dela, havia uma escada e, ao 
lado, um elevador, onde uma fila enorme o esperava. Resolveu no esperar e subiu a escada. No alto, j quase sem flego, respirou fundo, bateu  porta. Um rapaz 
abriu e ela entrou. Conversou com o rapaz. Quando terminou de falar, o rapaz disse:
- Aguarde um momento, por favor. Vou falar com o senhor Ansio.
Assim dizendo, entrou por uma porta. Raquel, agora, podia olhar tudo  sua volta. Logo depois, o rapaz voltou e pediu que ela o acompanhasse. Ela o acompanhou, entrou 
em outra sala, que, como as demais, tinha aqueles mveis antigos e pesados. Pegou as fotografias e mostrou ao homem que olhou. Nesse exato momento, Mauro comeou 
a chorar. O homem olhou para o menino, depois para ela e, nervoso, disse:
- Sinto muito, minha senhora, mas no podemos continuar. Seu filho est precisando de assistncia.
Ela, desesperada, balanou Mauro para que parasse de chorar, mas ele no parou. O homem, mais nervoso ainda, disse:
- No tem condies, minha senhora. Como v seu lugar no  aqui tentando me vender algo! Seu lugar  na sua casa, cuidando de seu filho! Seu marido sabe que est 
fazendo isso ou no tem marido?
Ao ouvir aquilo, ela estremeceu, sentiu um dio muito forte e todo seu sangue subiu para sua cabea. Altiva, respondeu:
- Tenho marido, sim! Ele est precisando de ajuda e ningum melhor do que eu para fazer isso!
- No, minha senhora! O seu lugar  na sua casa, cuidando dela e de seu filho, no de ficar perambulando pelas ruas, sacrificando essa criana! Seu marido que seja 
homem o suficiente para manter sua casa! Cada um tem um lugar na sociedade e o seu  na sua casa! Bom dia!
Assim dizendo, ele se levantou e abriu a porta para que ela sasse. Sentindo as lgrimas querendo descer por seu rosto, ela resistiu, levantou-se e saiu. Desceu 
a escada. Assim que se viu na rua, permitiu que as lgrimas cassem por seu rosto e continuou andando. O vulto da mulher caminhava ao seu lado. Como Raquel no parava 
de chorar, sorriu para Mauro, que parou de chorar e passou sua mozinha pelo rosto de Raquel, que, percebendo aquele gesto de carinho, passou a mo pelos olhos e 
sorriu. Continuou caminhando, s que mais calma. Depois de algum tempo, olhou para o relgio que levava em seu pulso: J  quase uma hora da tarde. Andei muito e 
no consegui coisa alguma. Aquele homem, apesar de agressivo, tem razo. Estou sacrificando Mauro. Ele  ainda muito pequeno. Infelizmente, se no encontrar algum 
que cuide dele, vou ter de parar de sair. Vou para casa e no vou contar a Francisco o que aconteceu. Ele se sentiria humilhado. Por que as coisas tm de ser assim? 
Por que existe tanto preconceito no mundo? Caminhou at o ponto de nibus e ficou esperando-o chegar. O nibus chegou, ela entrou. Uma moa que estava sentada se 
levantou para que Raquel pudesse se sentar. Enquanto o nibus andava, Raquel pensava em tudo o que havia acontecido e procurava uma soluo. Mauro, enquanto comia 
os pedacinhos de po que Raquel ia lhe dando, olhava a todos e a tudo. Quando o nibus parou, ela desceu e comeou a longa caminhada at sua casa. Finalmente, chegou 
ao porto da casa. Entrou. Estava passando pelo corredor e pde ouvir Tereza que ouvia a novela da tarde. Sorriu e continuou andando. Assim que entrou em casa, colocou 
a sacola sobre uma mesa e Mauro no cho para que engatinhasse. Tomou um copo de gua e preparou um banho para o menino. Quando terminou de tomar banho, cansado, 
ele adormeceu. Raquel sentou-se em uma cadeira e, agora, sim, poderia chorar. Chorou muito. Enquanto chorava, pensava: Por que Deus no me ajuda? Eu s quero trabalhar, 
ajudar o Francisco para que possamos ter uma vida, melhor! Onde est Deus que no v a minha agonia? A mulher que ainda estava ao seu lado estendeu as mos sobre 
Raquel, dizendo:
- Nem sempre aquilo que pensamos ser bom para ns, na realidade ... Deus est sempre ao nosso lado, protegendo-nos e ajudando-nos a caminhar... Nunca estamos desamparados.
Raquel no a viu nem a ouviu, mas sentiu-se melhor. Olhou para o relgio que estava na parede:
- So quase quatro horas, preciso comear o jantar.
Foi at o fogo, colocou carvo e, com a tampa de uma panela, abanou at que acendesse.
 
A PRESENA DE DEUS

Francisco, na marcenaria, tambm olhou o relgio. Bem, est na hora de ir para casa. No vejo a hora de chegar e contar a Raquel tudo o que aconteceu, hoje, aqui. 
Ela no vai acreditar... Trocou de roupa, fechou a marcenaria, subiu na bicicleta e foi para casa. Estava chegando, quando viu Martin que, ao v-lo, disse:
- Que bom que encontrei voc, Francisco. Estava indo a sua casa.
- Tambm estou feliz em encontrar voc, Martin. Estava indo a minha casa?
- Estava sim.
- Ento vamos.
Francisco desceu da bicicleta e comeou a empurr-la.
- Tem algum motivo para ir a minha casa?
- Tenho, sim.
- Pode me contar?
- Claro que vou contar, mas queria que Raquel tambm ouvisse.
- Nossa! O que pode ser de to importante?
- Talvez no seja importante para voc, mas para mim !
- Sendo assim, como estou curioso, vamos mais depressa? Martin riu:
- Por mim, tudo bem, mas voc est empurrando a bicicleta.
- Estou acostumado, vou para o trabalho e volto todos os dias. O que mata  esta subida. Sempre que chego nela, tenho de descer e empurrar bicicleta.
-  dureza, meu amigo...
-  sim, mas sinto que tudo vai melhorar.
- Pelos livros, parece que voc no tem tido muitas encomendas.
-  verdade, mas tudo isso vai mudar, porque, agora, Raquel est me ajudando.
- Ajudando, como?
- Ela est visitando alguns escritrios e mostrando os meus mveis.
-  mesmo? Voc permitiu que ela sasse para trabalhar?
- Confesso que, a princpio, no, mas ela me convenceu de que podia me ajudar e que no era vergonha alguma, porque estaria ajudando no a mim, mas a ns, ao nosso 
filho e aos outros que viro.
- Pretende ter mais filhos?
- Claro que sim! No agora, mas eu e Raquel j conversamos sobre isso. Um filho s  muito pouco. Queremos mais de um e o prximo vai ser uma menina.
Martin riu novamente:
- Como sabe que vai ser uma menina?
- Eu sei Martin... Eu sei...
- Voltando ao trabalho de Raquel, Francisco, acredita que ela consegue trabalhar fora e cuidar do Mauro?
- Ela s vai sair  tarde e nossa vizinha vai cuidar do Mauro.
- No sei se deixaria minha mulher trabalhar fora. Penso, como todos, que a mulher precisa ficar em casa, cuidar dela e das crianas. O dinheiro necessrio deve 
ficar por minha conta.
- Eu tambm pensava assim, mas, depois de ouvir os argumentos de Raquel, mudei de idia. No vejo mal algum em que a mulher trabalhe. Ela  um ser humano, precisa 
ter suas prprias conquistas.
- No sei, no, onde vai dar tudo isso, Francisco...
- Tambm no sei, mas acho que agora no tem volta. Chegaram ao porto da casa e entraram pelo corredor. Quando passaram pela porta de Tereza, ouviram seu marido 
que gritava e xingava. Francisco olhou para Martin, mas ficou calado. Ao entrar em casa, viram Raquel e perceberam seus olhos inchados e vermelhos. Francisco, preocupado, 
perguntou:
- O que aconteceu, Raquel? Esteve chorando?
Ao ver que ele estava acompanhado por Martin, ela tentou disfarar:
- No estou chorando, Francisco, estou com muita dor de cabea...
- Dor de cabea? Que eu me lembre voc nunca teve dor de cabea ou dor alguma. Fale a verdade, Raquel, o que aconteceu?
Ela olhou primeiro para ele, depois para Martin. Francisco percebeu o que ela sentia e disse:
- No se preocupe com o Martin. Ele  nosso amigo e tambm deve estar preocupado e querendo saber por que voc chorou.
Ela, sabendo que ele no se conformaria em ficar sem uma resposta, disse:
- Est bem. Vou contar. Sentem-se. Estou terminando o jantar, enquanto isso vou contar tudo o que aconteceu hoje e o motivo que me fez chorar.
Curiosos e preocupados, sentaram-se. Ela comeou a falar. Contou tudo, desde a deciso de Tereza at o que aquele homem disse, omitindo,  claro, a referncia dele 
para com Francisco. Terminou, dizendo:
- Chorei de revolta! Chorei por no poder continuar aquilo que tanto quero! Chorei porque aquele homem falou como se eu fosse uma intil! Chorei porque sei que tenho 
capacidade e que posso vender como qualquer homem. Chorei porque no posso mais continuar ajudando voc, Francisco, e porque estou com medo de que a marcenaria no 
v para frente e ns, ficando sem dinheiro, no possamos criar nosso filho como se deve!
Quando terminou de falar, estava chorando novamente. Francisco se levantou e, abraando-a, disse:
- No precisa chorar Raquel. Est tudo bem. A marcenaria est muito bem e ns vamos criar nosso filho e os outros que vierem com tudo de que precisam.
- O que ele est dizendo  o certo, Raquel. No se preocupe porque, no final, tudo sempre termina bem. No se esquea de que somos filhos de Deus, e que Ele no 
nos abandona nunca...
- Para voc  fcil dizer, Martin, mas para mim no  fcil aceitar. Eu estava to feliz e me sentindo realizada, no s pelo dinheiro que poderia vir com as vendas, 
mas por me sentir til, por me sentir valorizada. No aceito que haja tanta diferena entre homens e mulheres. Somos todos iguais!
- Voc acha que no  importante a mulher cuidar da casa e criar seus filhos?
- Claro que  importante, mas no satisfaz totalmente. A mulher, sem trabalho, sem dinheiro, fica na dependncia do marido. Por isso,  obrigada a fazer tudo o que 
ele quer sem reclamar e sem a menor chance de sobreviver sozinha. Vejo isso acontecer com Tereza,  dona da casa que mora a na frente. Com trs filhos, sem trabalhar, 
sem ter seu prprio dinheiro,  espancada, maltratada, humilhada e oprimida. Assim como acontece com ela, muitas outras sofrem da mesma maneira!
- Voc se sente humilhada e oprimida, Raquel?
- No, Francisco, voc  um marido maravilhoso. No tenho do que reclamar. At concordou em que eu sasse para trabalhar. Voc pensa diferente dos outros homens 
e, por isso,  criticado.
- No me importo com as criticas dos outros, Raquel. Tambm acho que a mulher tem a mesma competncia e, em alguns casos, at mais do que o homem, mas penso tambm 
que a educao dos filhos e o cuidado com a casa cabem a ela. O homem no saberia como fazer isso. Ele tambm precisa aprender.
- Desculpe-me, Raquel, mas eu ainda sou tradicional. Acho que a mulher precisa ficar em casa e cuidar de tudo e que cabe ao homem trazer o dinheiro necessrio para 
que ela possa criar os filhos com tranqilidade, mas, por outro lado, acho que tudo o que nos acontece tem um propsito maior. Nem sempre entendemos o que Deus nos 
reserva.
- Como pode falar em Deus em uma hora como esta Martin? O que estou fazendo de errado? Estou apenas querendo ter uma vida melhor para mim, meu marido e meu filho! 
Estou apenas querendo ser uma pessoa que pensa e que sabe agir em qualquer situao! No estou fazendo mal ou prejudicando ningum, s quero trabalhar! Por que Deus 
no me ajuda? Por que permitiu que, pela ignorncia do marido, Tereza no pudesse cuidar do Mauro? Por que colocou aquele homem no meu caminho para me dizer todas 
aquelas coisas que me arrasaram?
- No tenho essas respostas, Raquel. Cresci em uma casa onde aprendemos a respeitar a vontade de Deus, sabendo que tudo tem sua hora e que o tempo de Deus  diferente 
do nosso. Pode ter certeza de que, se no conseguir trabalhar, por ora, Deus no os abandonar, alguma coisa vai acontecer para que possa continuar cuidando da sua 
casa, de seu marido e do seu filho. Nunca estamos ss! Deus est sempre cuidando de todos ns e, se tiver de ter um trabalho, na hora certa, ele vai aparecer e voc 
vai ter toda condio de se realizar como deseja.
-  muito cmodo pensar assim.  muito cmodo aceitar que tudo  vontade de Deus e esperar que Ele resolva todos os nossos problemas, mas no penso assim, Martin. 
Deus no tem nada a ver com a maldade e preconceito daquele homem! Deus no tem nada a ver com o que o marido de Tereza faz com ela nem com o que ela mesma faz consigo!
- Estamos todos, nesta vida, para aprender, para crescer como espritos livres e, muitas vezes, precisamos passar por algum momento de dificuldade para que possamos 
crescer como espritos e caminhar para a eternidade, sempre sabendo mais. Todos estamos em busca do amanh, Raquel.
- Que histria  essa de esprito? Eu no estou preocupada com o que vai me acontecer amanh, estou pensando no hoje, em como posso ter uma vida melhor! Como posso 
ter uma geladeira, um fogo a gs ou um simples ferro de passar roupa, para que o meu trabalho seja mais fcil e eu possa me realizar como mulher! Isso nada tem 
nada a ver com esprito!
- Tudo tem a ver com o esprito e seu crescimento, Raquel. Nada do que nos acontece aconteceria se no fosse  vontade de Deus, que  nosso criador e  o nico que 
sabe do que precisamos.
- No acredito nisso, Martin! Deus no est preocupado comigo ou com o que estou pensando, muito menos em me ajudar! Ele deve ter muito trabalho com os outros e 
se esqueceu de que eu existo!
- Isso no  verdade, Raquel. Ele est preocupado com voc e com todos ns. No nos abandona nunca. Fique calma, confie Nele e garanto que alguma coisa vai acontecer 
para que voc possa continuar sua jornada que, com certeza, ter altos e baixos. Em alguns momentos, ser feliz; em outros, triste, mas estar sempre caminhando. 
Tudo isso faz parte da vida e do preo que precisamos pagar por ela. Estamos lodos em busca do amanh e, com certeza, chegaremos l.
- Busca do amanh? No estou em busca do amanh, estou querendo viver o hoje! Chego at a pensar que Deus no existe e, se existir, no est nem um pouco preocupado 
comigo! Ele tem mais o que fazer!
Martin, no querendo continuar aquela conversa, deu de ombros.
- Deus existe, Raquel e, como disse o Martin, no nos abandona nunca.
Raquel e Martin olharam para Francisco que, calmo, sorria.
- O que voc disse Francisco?
- O que ouviram. Deus existe e no nos abandona nunca...
- Por que est dizendo isso?
- Vim para casa para contar a voc o que aconteceu, hoje, na marcenaria. No caminho, encontrei Martin, que estava vindo para c. Acho que ele quer nos contar alguma 
coisa. Como encontramos voc daquela maneira, nem ele disse por que estava vindo para c, nem eu contei o que aconteceu na marcenaria. Portanto, Martin, o que quer 
nos dizer?
- Fica para depois, Francisco, no  to importante. Acho que mais importante  sabermos o que aconteceu na marcenaria.
- Est bem, vou contar e voc, Raquel, vai ver que Deus existe, sim, e que no nos abandona nunca.
Curiosa, Raquel tirou as panelas que estavam sobre o fogo, sentou-se. Olhando para Francisco, disse:
- Agora quem est curiosa sou eu.
Francisco, sorrindo, falou:
- Enquanto voc tinha um dia to difcil, Raquel, eu estava na marcenaria e, preocupado, pensava: Preciso terminar, no prazo, esta mesa.  meu ltimo pedido. Depois 
dele, no tenho mais o que fazer. Tomara que aquele homem com quem Raquel conversou venha e goste.
- Olhei para a porta da marcenaria e vi que um carro, de grande porte, parou e que dele desceram dois homens que entraram na marcenaria e caminharam na minha direo. 
Larguei uma lixa que estava usando, passei as mos pelo corpo para limp-las e fui ao encontro deles. Os homens entraram e, curiosos, olharam, primeiro, para a mesa 
que eu estava terminando e, depois, para mim. Um deles, sorrindo, disse:
- Bom dia, senhor. Meu nome  Mrio. Conversei, ontem, com uma senhora que me mostrou algumas fotografias e me deu o seu endereo. Estamos aqui para ver os seus 
mveis.
- Enquanto o senhor falava o outro senhor olhava por toda a marcenaria. Lembrei-me do que voc havia me dito a respeito do senhor que havia gostado dos mveis e 
senti meu corpo estremecer. Fiz um esforo imenso para no demonstrar meu nervosismo.
- Bom dia, senhores. Meu nome  Francisco. Como esto vendo, estou terminando esta mesa.
- J vimos, mas gostaramos de ver o resto. Vi pelas fotografias, mas preciso ver pronta e o material que  usado.
- Pois no. Venham at o meu escritrio.
- Ainda tremendo, caminhei em direo  porta do escritrio. Os senhores me seguiram. Assim que abri a porta e entrei, percebi que eles pararam e, antes de entrarem, 
ficaram olhando, admirados, para dentro. Feliz, disse:
- Parece que esto gostando dos meus mveis.
- Aquele que se apresentou disse:
- Estamos, sim, senhor Francisco, e admirados. Nossa admirao tem um motivo, pois, apesar de toda a poeira e serragem que h espalhadas pela marcenaria, seu escritrio 
est impecvel. Tudo limpo. Essa mesa, os armrios, estantes e o arquivos pintados de branco, somente com alguns detalhes em preto, esto bem dispostos pela sala. 
Esta parede pintada em branco e as demais em creme do um ar de sobriedade ao ambiente. A cortina branca, com estampas pequenas em cores marcantes, torna o ambiente 
suave. Esses pequenos quadros e os dois vasos com folhagens compem o local que est, realmente, agradvel.
- Mrio olhou para o amigo e, ao ver o espanto dele, perguntou:
- No falei que os mveis eram diferentes, Josaf?
- Falou Mrio, mas, por mais que eu tentasse adivinhar como eram jamais poderia imaginar isto! Este escritrio est muito bonito!
- Ainda bem que gostou Josaf. Afinal,  voc quem cuida do dinheiro, no ?
- Josaf riu. Ao ver a reao deles, fiquei mais calmo e fiz com que entrassem e se sentassem junto  mesa:
- Estes so os mveis que fabrico.
- Josaf, no conseguindo disfarar, falou admirado:
- So sensacionais, senhor Francisco! Gostei muito! Sei que as pessoas iro estranhar, mas que tambm gostaro. Confesso que no tenho vontade alguma de sair daqui. 
Em um escritrio assim, vou trabalhar sem me cansar!
- Fiquei emocionado, mas permaneci calado, apenas sorri. Ele continuou:
- Gostei mesmo, Mrio! Acho que podemos fazer uma encomenda.
- Eu lhe disse que eram bonitos diferentes! Assim que vi as fotografias, tambm gostei, mas era preciso que voc visse, j que somos scios.
- Confesso que no estava muito animado. Quando me falou em mveis brancos, senti um frio na espinha. Nunca poderia imaginar que fossem assim. Senhor Francisco, 
gostamos, agora precisamos saber o preo e as condies de pagamento.
- Eu estava feliz, Raquel, mas fiz o possvel para no demonstrar. Disse:
- Preciso saber quais os mveis que os senhores querem.
- Mrio foi quem respondeu:
- Estamos montando uma empresa e vamos precisar de moblia para nove salas.
Ao ouvir aquilo, Raquel perguntou:
- Nove salas, Francisco?
- Tambm me assustei, Raquel, e estremeci, mas engoli seco e demonstrando uma calma que, na realidade, no sentia, perguntei:
- Nove salas?
- Sim, nossa empresa  grande. Temos sessenta funcionrios.
- Bem, estou disposto a fabricar o que desejarem.
- Precisamos de um oramento.
- Tirei de uma gaveta a cpia das fotografias que havia dado a voc, Raquel, e dei-as a eles, que ficaram olhando uma por uma.
- Atrs de cada fotografia tem o preo. Basta os senhores escolherem quais mveis querem.
- Eles ficaram olhando e escolhendo os mveis que queriam. Eu acompanhei todos os movimentos deles. No final, fizeram a encomenda.
- So estes os mveis que queremos. O senhor acha que consegue fabricar todos? Precisamos ter certeza se pode e quanto tempo vai demorar em nos entregar.
- Olhei o papel no qual eles haviam anotado os mveis que queriam e o preo. Olhei, somei e estremeci novamente. Era muito dinheiro, Raquel! Muito mais do que eu 
havia, um dia, imaginado. Era uma quantia que eu nunca havia pegado em minha mo. Eu no tinha certeza, mas no poderia deixar de aceitar aquela encomenda. Naquele 
momento, lembrei-me de voc, Martin.
- De mim?
- Sim e de todas as vezes que me disse que Deus no nos abandona nunca, e nunca estamos ss. Minutos antes, eu estava desesperado, com medo do futuro e, agora, estava 
ali, com uma encomenda que eu jamais poderia imaginar que algum dia teria. S mesmo Deus para fazer uma coisa como aquela.
- Est ouvindo seu marido, Raquel?
Raquel, envergonhada pelo que havia dito minutos atrs, sorriu:
- Estou. Ouvindo o que Francisco est dizendo, s posso dizer que voc estava com a razo.
Martin ficou calado, apenas sorriu. Francisco continuou:
- Aquela quantia representava um longo tempo de tranqilidade para ns, Raquel. Confiando em Deus, respondi:
- Consigo, sim, e o prazo  de mais ou menos sessenta dias. Est bem para os senhores?
- Estamos ainda terminando de construir o prdio onde vamos instalar a nossa empresa. Por isso, o senhor ter um pouco mais de prazo.
- Aquilo fez com que eu respirasse fundo. No sabia como ia fazer, pois trabalho sozinho, mas precisava aceitar a encomenda.
- Assim  melhor. Com um prazo maior, terei tempo para fazer os mveis bem caprichados.
-  isso que queremos. Qual  a forma de pagamento?
- At aquele momento, eu no havia pensado em como ia fazer os mveis. S a me dei conta de que no tinha dinheiro para comprar o material que precisaria usar. 
Falando com sinceridade, respondi:
- Como esto vendo, minha marcenaria  pequena, estou comeando e no tenho dinheiro para comprar o material. Preciso que me adiantem um pouco. O resto podem ir 
pagando de acordo com o andamento do servio.
- Est bem. De quanto precisa agora?
- Fiz as contas novamente e mostrei a eles de quanto precisava. Para mim, era uma quantia imensa, mas, para eles, no pareceu. Josaf tirou do bolso um talo de 
cheques, preencheu e me entregou dizendo:
- Pode ir ao banco e retirar. Estamos confiando no senhor.
- Eu ia pegar o cheque, quando Mrio falou:
- Espere Josaf. Os mveis so bonitos e vo ficar bem nas nossas salas, mas sem essas cortinas, os quadros e os vasos com essas folhagens, perdero muito. Acho 
melhor encomendarmos as cortinas, os quadros e os vasos tambm.
Ao ouvir aquilo, Raquel perguntou, quase gritando:
- As cortinas? Francisco comeou a rir.
- Isso mesmo, Raquel. As cortinas que voc costurou. Eles ficaram encantados com a decorao que voc fez e querem que decore as nove salas.
- Voc disse que fui eu quem decorou?
- Como voc, tambm fiquei surpreso. No podia dizer que quem tinha feito a decorao era minha mulher. Pensei rpido.
- Como sabem, s construo os mveis. As cortinas e tudo o mais quem fez foi uma senhora amiga da minha mulher. Se quiserem, posso falar com ela e pedir que faa 
um oramento.
- timo senhor Francisco, faa isso e depois nos passe o oramento.
- Preciso saber que tipo de cortina os senhores querem.
- Josaf olhou para Mrio que disse:
- Vamos deixar por conta dela. Claro que queremos uma sala diferente da outra, mas ela saber fazer isso. Pelo que estamos vendo, ela tem bom gosto.
- Est bem. Vou conversar com ela e depois eu me comunico com os senhores.
- Voc fez isso, Francisco?
- Fiz, na hora pensei no dinheiro que voc poderia ganhar sem ter de sair de casa. So nove salas, Raquel, que serviro como propaganda e, como diz o Martin, depois 
dessas viro outras. No se esquea de que Deus est nos protegendo.
Raquel se levantou e abraou o marido, que sorriu. Depois, ela disse:
- No sei quanto paguei pelo tecido. Foi baratinho, estava em uma banca de saldo, nem sei qual  a medida das paredes...
- Voc no vai precisar economizar. Eles tm muito dinheiro e querem que as salas fiquem bonitas. Amanh preciso sair para comprar o material para fazer os mveis. 
Voc pode ir comigo e, juntos, escolheremos o tecido e, depois eu me comunico com eles e peo a medida das paredes. A, voc poder calcular e dar o preo final.
- Vai comprar o material? Eles deram o cheque?
- Deram, e eu sa mais cedo da marcenaria para ir at o banco, descontei o cheque e todo o dinheiro est aqui.
Assim falando, tirou do bolso um mao enorme de dinheiro. Raquel e Martin arregalaram os olhos.
- Tudo isso?  muito dinheiro, Francisco.
- , sim, Raquel. Eu no disse que nunca havia tido em minhas mos tanto dinheiro?
- Disse, mas eu no imaginava que era tanto!
- Este dinheiro  s uma parte. Vai dar para comprar o material de que preciso para comear. Depois que os mveis ficarem prontos, vai vir muito mais!
- Vamos ficar ricos, Francisco!
- Ricos, no, mas  um bom comeo! Bendita a hora em que voc teve a idia de abrirmos a nossa prpria empresa!
O vulto de mulher estava l e, estendendo a mo em direo da garganta de Martin, falou atravs dele:
- Bendito seja Deus por toda a felicidade que est trazendo a todos ns. Neste momento, precisamos agradecer a Ele e ao plano espiritual que nunca nos deixa sozinhos 
e que esto sempre ao nosso lado, ajudando-nos na nossa trajetria.
Francisco e Raquel olharam para ele que, um pouco constrangido, pois no sabia como havia dito aquilo, sorriu. Francisco, no mesmo instante, completou:
-  verdade, Martin, precisamos agradecer a Deus por este momento de felicidade e pelos muitos que ainda viro. No sei nada sobre essa sua religio nem sobre o 
plano espiritual, mas, mesmo assim, agradeo por toda a ajuda que tive.
Levantaram-se e abraaram-se. Martin aproveitou aquele momento de felicidade e disse:
- No sabia que nada disso estava acontecendo. A minha vinda aqui tem outro motivo.
-  mesmo, Martin. Voc disse que estava vindo aqui por um motivo. Podemos saber que motivo  esse?
- Foi para isso que vim, no foi, Francisco? Pois bem, vamos nos sentar novamente.
Sentaram-se e Martin continuou:
- Como sabem, faz tempo que namoro Ldia. Depois que vocs me procuraram para que eu abrisse a empresa, procurei e encontrei outras. Hoje tenho mais de trinta clientes 
e j posso me casar.
- Voc vai se casar, Martin?
- Vou, Raquel, e estou aqui para convidar vocs.
- Claro que vamos, no  Francisco.
- Com certeza! No poderamos deixar de ir.
- No vim aqui para convidar vocs para irem ao casamento, estou aqui para pedir que sejam meus padrinhos. Afinal, s estou podendo me casar porque vocs iniciaram 
a minha profisso.
Raquel e Francisco se olharam. Depois, Francisco, rindo, disse:
- Claro que vamos ser seus padrinhos! Queremos que sejam muito felizes, assim como eu e a Raquel temos sido! Para quando  o casamento?
- Daqui a quatro meses.
- Estaremos l como seus padrinhos e, mesmo tendo todo esse trabalho que voc est vendo, vou tirar um tempo para fazer a mesa e as cadeiras da sua cozinha.
- No precisa Francisco. No  por isso que estou convidando vocs.
- Sei disso, mas fao questo. Leve a Ldia at a marcenaria para que ela me diga que tipo de mesa e cadeiras quer.
- Voc vai ter tempo para fazer?
- Vou encontrar um tempo, nem que tenha de trabalhar at tarde da noite. No se preocupe, apenas preciso saber que modelo vocs querem.
- J que insiste, s posso agradecer. Bem, j est tarde e vocs querem jantar. Vou embora.
- No, Martin, jante conosco!
- No posso Raquel. Bem que gostaria, mas preciso pegar Ldia na escola e j estou atrasado.
- No sabia que ela estava estudando.
- Est sim, Raquel, este ano ela se forma professora.
- Que bom Martin. No existe melhor profisso para uma mulher. Francisco comeou a rir.
- Embora voc fique brava, Raquel, essa  a nica profisso aceitvel para uma mulher.
Fingindo estar nervosa, Raquel jogou sobre ele o pano de prato que estava em sua mo.
Martin tambm riu, despediu-se e saiu. J na rua, pensou: Eles merecem toda essa felicidade. So pessoas de bem e lutadores. Enquanto Raquel preparava Mauro para 
dormir, Francisco, sentado em uma cadeira junto  mesa, em um papel, fazia as contas de quanto material precisaria. Anotou tudo e deixou o papel sobre a mesa. Depois, 
ele e Raquel foram para o quarto e deitaram-se. Francisco ligou o rdio e, ao som de uma msica, adormeceram.
 
UM NOVO COMEO

No dia seguinte, acordaram cedo. Aps tomar caf, Raquel vestiu Mauro e preparou a sacola com as coisas que precisava levar para atender ao menino. Antes de sarem, 
Francisco disse:
- Raquel, vamos comear uma nova fase da nossa vida. Sinto que  para melhor. Obrigado.
- Tambm sinto isso, s no estou entendendo por que est me agradecendo...
- Por ter tido a idia e me convencido a abrirmos a nossa empresa. Estou feliz por ter aceitado a sua idia. Voc no teve medo de arriscar todo dinheiro que tnhamos.
- Tive a idia, mas s est dando certo porque voc  um timo profissional e criativo. Se no fosse, os modelos que voc inventou teriam apenas mais um. Estamos 
no caminho certo, Francisco.
Saram e tomaram o nibus que os levaria at o lugar onde Francisco estava acostumado a comprar o material de que precisava paia fabricar seus mveis. Foram atendidos 
por um vendedor, que Francisco j conhecia:
- Ol, Francisco! O que vai levar hoje?
Francisco deu a lista com todo o material de que precisava:
- Quanta coisa! Desta vez, a encomenda deve ser muito grande! Francisco sorriu, demonstrando toda sua felicidade:
-  sim e tenho prazo para entregar. Voc tem tudo isso?
- Tenho, sim, mas como voc vai pagar, com dinheiro ou cheque?
- Com dinheiro. Pode separar e fazer as contas. Preciso que me entregue o mais rpido possvel.
- Amanh, bem cedo, vai estar tudo na marcenaria.
- Est bem. Estarei esperando.
Raquel, calada, acompanhou toda a conversa. Depois de tudo acertado, saram dali e foram para uma rua onde havia muitas lojas de tecido. Depois de muito procurar 
e de entrar em vrias lojas, ela encontrou aqueles com os quais poderia fazer cortinas para as nove salas. Separou, perguntou o preo. Anotou em um papel os preos 
do tecido e de todo o material de que precisaria. O dono da loja, quando viu que ela anotava tudo, perguntou:
- Sua casa parece ser grande.
Ela riu:
- No! Moro em um quarto e cozinha!
- Para que est escolhendo tanto tecido?
- Vou fazer cortinas para algumas salas de uma empresa.
- A senhora faz cortinas?
- Sim e muito bonitas.
- Pode me deixar seu telefone. Muitas mulheres vm at aqui e me perguntam se eu conheo alguma costureira que faz cortinas e eu no conhecia ningum.
Raquel olhou para Francisco que acenou com a cabea para ela e disse para o homem.
- Ainda no temos telefone, mas teremos em breve. Enquanto eu no vier trazer o nmero, se aparecer algum pode dar o endereo da nossa casa.
- timo! No imagina o quanto eu procurava algum que costurasse cortinas. Vai ter muita encomenda, minha senhora.
Raquel sorriu:
- Tomara, preciso muito trabalhar!
- Vai trabalhar muito, pode ter certeza disso!
Saram dali, comeram um lanche e tomaram o nibus que os levaria de volta. Francisco desceria alguns pontos antes de Raquel. Ela iria para casa e ele ficaria na 
marcenaria. Enquanto o nibus andava, ele disse:
- Voc estava muito feliz, escolhendo os tecidos, Raquel.
- Estava, sim, pois, se eles aceitarem o oramento, poderei ganhar um bom dinheiro em casa e, ainda, cuidar do Mauro. Voc viu como o dono da loja ficou entusiasmado, 
Francisco! Acho que no vou mais parar de trabalhar. Como Martin disse: Deus cuida mesmo de todos ns! No poderia ter acontecido nada melhor.
- Tem razo. Tomara que venham outras encomendas de cortinas.
- No entendi quando voc falou que dentro de alguns dias teramos telefone. Sabe que  muito caro conseguir um telefone.
- Sei que  caro, mas ns precisamos. Preciso na marcenaria para falar com os clientes e, agora, voc vai precisar para receber encomendas de cortinas. Separei um 
pouco do dinheiro que recebi ontem e vou comprar o telefone  prestao. Tem um lugar em que s  preciso dar uma entrada. Eu nunca tive dinheiro, mas agora tenho.
- E se no pudermos pagar as prestaes, Francisco?
- Vamos pagar Raquel! Eu e voc trabalhando, vai dar para pagar no s o telefone, mas muitas outras coisas que vamos comprar. Vamos considerar que o telefone  
uma ferramenta de trabalho. Este  o primeiro dia do nosso crescimento! A nossa marcenaria vai se transformar em uma grande empresa!
- Sabe que no gosto de ter dvidas, Francisco.
- Tambm no gosto, mas, se no fizermos dvidas, no conseguiremos nada na vida.
-  voc tem razo. Estive pensando, Francisco.
- No qu, Raquel?
- Depois de tudo o que aconteceu ontem, penso no que Martin e sua me tm dito. Nunca havia prestado muita ateno quilo tudo.
- Tambm tenho pensado a respeito. Martin  uma pessoa que sempre est de bem com a vida. Nunca o vi triste ou desanimado. S sabe dizer que tudo est certo, que 
todos ns temos um caminho para seguir, alguma coisa para fazer ou dvidas espirituais para resgatar. Que todos precisamos caminhar, que, durante essa caminhada, 
nunca estamos ss e que sempre teremos ajuda para cumprir a jornada. Que todos ns estamos caminhando em busca do amanh. Confesso que nunca acreditei muito nessa 
conversa, porque sempre achei muito cmodo se pensar assim. Na realidade, a vida no  assim, mas voc tem razo, depois de tudo o que aconteceu ontem, d para se 
pensar a respeito.
- Eu estava to revoltada e desesperada porque o que desejava no havia dado certo e, agora, vejo que foi melhor, que realmente no posso deixar de cuidar do Mauro, 
ele  ainda muito pequeno, mas nem por isso preciso deixar de ganhar algum dinheiro. Entendi que, embora o lugar da mulher, em minha opinio, no possa ser s o 
de dona de casa, pois ela tem a mesma capacidade do homem, entendi que cuidar dos filhos, educ-los e prepar-los para a vida esto em primeiro lugar. Quando Mauro 
crescer mais um pouco, souber falar e dizer o que quer, ser mais fcil deix-lo com algum. Por enquanto, ainda precisa de mim. Depois de ontem, tenho f de que 
receberei muitas encomendas e poderei ajudar voc, no da maneira como pensava, mas costurando cortinas.
- Bem, parece que Martin est certo. Sabe que nunca fui muito religioso e que, para mim, esse negcio de religio no passa de negcio mesmo. Usam do medo do futuro 
para fazer com que as pessoas sintam que, tendo uma religio, estaro salvas e com o futuro garantido e que, depois da morte, podero viver felizes na eternidade. 
Tudo isso, para mim, sempre foi balela. Ningum pode saber realmente o que acontece com cada um de ns depois da morte e se realmente existe esse inferno terrvel 
ou esse cu maravilhoso. Cada um diz o que quer e acredita quem quiser. Mas, agora, estou pensando nessa religio de Martin e vou saber mais sobre ela.
- Ele sempre diz que no  religio, Francisco, que  uma doutrina que nos ensina a viver e a entender que tudo o que nos acontece tem um motivo, um propsito e 
que existem momentos bons e ruins, e que tanto uns como outros so sempre para o nosso bem. Confesso que  difcil aceitar isso, como compreender que algumas pessoas 
sofrem tanto, tm tanto problema, misria, doenas, enquanto outras passam pela vida sem problema algum, com beleza, dinheiro, parecendo que nasceram para que tudo 
d certo? No d para entender.
- Tem razo, Raquel, mas, segundo Martin, tudo est sempre certo e cada um colhe o que planta.
- Outra coisa que no entendo Francisco. Nem toda pessoa que tem tudo para ser feliz  uma pessoa boa, muitas so at cruis. Como pode estar colhendo o que plantou?
- Tambm no entendo, mas uma coisa no podemos negar.
- O qu, Francisco?
- Na hora em que mais precisvamos, quando parecia que tudo estava perdido, de repente, do nada, tudo aconteceu e, agora, temos  nossa frente uma nova vida, com 
um trabalho que vai nos dar, por muito tempo, tranqilidade para vivermos, criarmos nosso filho e outros que, provavelmente, viro. Tenho f que, mesmo antes de 
terminar essa encomenda, outra vir. Por isso, precisamos conhecer mais a fundo essa religio ou doutrina.
-  mesmo, Francisco. Eu estava to triste por no poder sair de casa para vender os seus mveis e agora, alm de no precisar sair, por um bom tempo, tenho trabalho 
para fazer em casa, podendo, assim, ganhar algum dinheiro e ainda cuidar da casa e do Mauro.
- Segundo o Martin, nunca estamos ss e sempre, nos momentos de maior desespero, aparece ajuda e tudo fica bem. Parece que  verdade.
- Estou achando que  verdade, mesmo! Ele sempre disse isso. Vou at a casa do Martin, conversar com a me dele e pedir que me explique algumas coisas. Ela entende 
muito. Sempre pertenceu a essa religio ou doutrina.
- V mesmo, Raquel. Eu, por enquanto, no posso fazer isso. Preciso encontrar uma maneira de trabalhar e cumprir o prazo da entrega dos mveis.  muito trabalho 
e sou sozinho. Preciso encontrar algum que me ajude. S no sei quem poderia ser. Vou precisar de dois ou trs ajudantes e de um bom marceneiro...
-  verdade, Francisco. Voc no vai dar conta, sozinho.
O vulto de mulher sorriu e estendeu a mo em direo a Raquel, que, sem saber por que, perguntou:
- Ser que o Norberto est trabalhando, Francisco? 
Ele, admirado, olhou para ela e respondeu:
- No sei Raquel. No est pensando em...
- Estou Francisco. Sei que no quis ser nosso scio, mas, se no estiver trabalhando, vai ficar agradecido por encontrar trabalho. Ele  um marceneiro to bom como 
voc, no ?
-  um timo marceneiro, s no sei se vai aceitar...
- No custa tentar. Com ele trabalhando ao seu lado, voc conseguir entregar os mveis no prazo.
- Isso  verdade, s no sei como fazer esse convite. E se ele ficar bravo ou se sentir ofendido?
- No vejo motivo para isso. Foi ele quem no quis ser seu scio. Entretanto, se estiver sem emprego, vai agradecer. Na vida, sempre temos dois caminhos. A nica 
resposta que voc pode ter  um sim ou um no. Nada, alm disso. Portanto, acho que no custa tentar.
- Pensando bem, voc tem razo, Raquel. Quando chegarmos na hora de descer do nibus, antes de voc ir para casa e eu para a marcenaria, vamos passar pela casa do 
Norberto, fazer o convite e ver o que acontece. Afinal, como voc disse, s h uma resposta, no ?
- , sim, Francisco, vamos fazer isso.
O vulto de mulher sorriu e continuou ao lado deles. Assim que desceram do nibus, foram para a casa de Norberto e Lia. Diante do porto, bateram palmas. Lia abriu 
a porta da sala e, ao v-los, surpreendeu-se:
- Raquel, Francisco?
- Isso mesmo, Lia. Estamos aqui para conversarmos com voc e com o Norberto. Ele est em casa?
- Est sim. Podem entrar.
Francisco abriu o trinco do porto e entraram. Lia, tentando no demonstrar a surpresa que estava sentindo, afastou-se para que eles entrassem na sua frente. Eles 
entraram. Norberto, que estava sentado, ouvindo o rdio e lendo jornal, tambm ficou surpreso e, ao v-los, levantou-se:
- Francisco, Raquel? Estou surpreso com a visita de vocs.
- Surpreso por que, Norberto?
- Sei que ficaram magoados por eu no ter aceitado a sociedade. Pensei que nunca mais fossem conversar comigo.
Francisco, sorrindo, disse:
- No posso negar que fiquei chateado, mas vocs tinham o direito de no aceitar. Afinal, precisariam apostar quase todo o dinheiro que tinham em algo que poderia 
no dar certo. Era muito arriscado.
- Mas voc, mesmo assim, arriscou, no foi?
- Foi, mas confesso que fiquei com medo, porm Raquel me convenceu de que deveramos tentar.
- Est dando certo?
- Foi bem difcil. Muitas vezes, ao ver que nosso dinheiro estava indo embora, me apavorei, mas sempre surgia algum trabalho e dava para viver e eu fui continuando.
- E agora, como est?
-  por isso que viemos at aqui. Voc est trabalhando, Norberto?
- No. Sabe que as coisas esto difceis. Percorri todas as marcenarias, mas em nenhuma delas encontrei trabalho. Dizem que no esto vendendo e que, por isso, no 
precisam de marceneiros. Sabe como a situao do pas est difcil, Francisco.
- Sei bem. Tambm passei por momentos difceis, mas agora apareceu uma luz. Recebi uma encomenda grande e preciso entregar no prazo, para isso, terei de contratar 
ao menos um marceneiro. Se quiser, pode vir trabalhar comigo.
Norberto olhou para Lia que a tudo ouvia. Percebeu nos olhos dela um brilho de felicidade. Perguntou:
- Voc quer que eu v trabalhar na sua marcenaria?
- Quero Norberto. Sei que  um timo profissional e estou precisando.
- No acredito que isso esteja acontecendo.
- Por que, est ofendido pelo convite?
- No, Francisco, ao contrrio. Hoje pela manh, ao acordar, depois de uma noite mal dormida, estava desesperado sem saber o que fazer da minha vida. No temos mais 
dinheiro. Quase tudo o que recebi foi gasto durante esses meses que fiquei sem trabalho. No sabia mesmo o que fazer e, agora, voc me aparece com uma proposta desta! 
Claro que quero! Quando posso comear?
Francisco sorriu, aliviado.
- Amanh mesmo! Fiz a encomenda do material que vamos usar. Ficaram de entregar amanh.
- Estarei l bem cedo. Vocs foram anjos que Deus mandou em um momento em que eu pensava que tudo estava terminado, que no existia mais caminho algum...
Francisco riu, olhou para Raquel e disse:
- Segundo o Martin,  assim que Deus trabalha.
- O que est dizendo, Francisco?
- Nada, Norberto. Eu e a Raquel estvamos conversando sobre a religio do Martin e ele sempre diz isso.
- Ele me falou algumas vezes sobre essa religio, mas nunca me interessei muito por ela.
- Nem ns, Norberto. Nem ns, mas agora estamos pensando a respeito, no , Raquel?
-  verdade. Aconteceram algumas coisas que nos fizeram pensar.
- Que coisas?
- Ainda estamos pensando nelas. Outro dia conversaremos sobre isso. O importante, agora,  comearmos a trabalhar e terminarmos, no prazo, a encomenda. Est disposto 
mesmo, Norberto? Olhe que tem muito trabalho!
- Quando tive medo do trabalho, Francisco?
- No quer saber quanto vou lhe pagar?
- No, sei que  um homem justo.
- Mesmo assim, vou dizer. Pretendo dar a voc dez por cento de tudo o que ganhar. Est bem, assim?
- No sei de quanto est falando, mas para mim est timo. Qualquer importncia  melhor do que nada, no ?
- Tem razo, mas posso lhe garantir que  uma boa quantia.
- Est certo, amanh bem cedo estarei l.
- Que bom, agora precisamos ir. Esse moleque est cansado, precisa dormir no seu bero.
- Est bem. At amanh.
Acompanharam Francisco e Raquel, que se despediram. Enquanto se afastavam, Norberto disse:
- , Lia, eles foram anjos mandados por Deus.
- Foram, mesmo, Norberto. S podemos agradecer.
O vulto de mulher olhou para outras duas entidades que estavam ao lado de Lia e Norberto e que jogavam luzes brancas sobre eles. Depois, sorriu e acompanhou Raquel 
e Francisco. No dia seguinte, antes mesmo de Francisco chegar, Norberto j estava em frente  marcenaria. Francisco, ao chegar e ao v-lo, sorriu:
- Bom dia, Norberto. Est mesmo com vontade de trabalhar.
- Bom dia, Francisco.  verdade. No agentava mais ficar em casa sem ter o que fazer e vendo o dinheiro acabar. Vocs chegaram  boa hora.
Francisco abriu a marcenaria e entraram. Ao entrar, Norberto disse admirado:
- Este galpo  bem grande, Francisco. Aqui cabem muitos mveis.
- Tem razo, Norberto. Eu e Raquel procuramos muito um lugar e este foi o melhor que encontramos e que podamos pagar. Terminei o ltimo trabalho e ia ficar sem 
ter o que fazer. Estava preocupado, mas recebi uma encomenda grande e, por um bom tempo, teremos muito trabalho.
- E depois, Francisco?
- Depois, no sei. Mas acho que no devemos nos preocupar com isso. Assim que o material chegar, vamos comear a trabalhar, o depois fica para depois, no ?
- Preciso conversar algo com voc, Francisco.
- Pode falar. Do que se trata?
- Ontem, depois que vocs saram l de casa, eu e a Lia ficamos conversando. Ela acha que ao invs de voc me pagar uma porcentagem pelo trabalho, seria melhor que 
me pagasse um salrio fixo.
- Por que ela acha isso?
- Hoje, voc tem muito trabalho, mas quando terminar e se no aparecer outro? Como vou ficar?
- Sempre apareceu trabalho, Norberto. Desde que abri a marcenaria, nunca fiquei sem trabalho. No to grande como este, mas sempre trabalhei.
- Mesmo assim, ela acha melhor que eu tenha um salrio fixo, para podermos ter a tranqilidade de saber que nunca ficaremos sem dinheiro.
- Poder se tornar difcil, se, depois deste, no aparecer outro trabalho, mas posso pagar a voc o mesmo que recebia no nosso antigo trabalho. Porm, sabe que, 
se receber comisso, poder ganhar muito mais.
- Sei disso, mas gosto de ter garantia, Francisco. Se no se importar, gostaria de ter um salrio fixo.
- Est bem. Voc  quem sabe, mas acho que vai se arrepender.
Estavam terminando de arrumar a marcenaria para comearem o servio, quando um caminho chegou trazendo o material de que precisavam. Ajudaram os outros dois rapazes, 
que vieram no caminho. Em pouco tempo, tudo foi descarregado. Quando terminaram, um dos rapazes deu um papel para que Francisco assinasse e disse:
- Hoje s veio uma parte, depois entregaremos o resto.
- Est timo. Com esse material j podemos comear.
O caminho foi embora. Francisco mostrou a Norberto um papel onde estava desenhada a figura de uma mesa com suas medidas. Disse:
- Vamos fazer uma sala por vez, Norberto. Vamos cortar a madeira necessria para esta mesa. Depois, faremos estes armrios.
- Voc j desenhou todas as salas?
- No, s esta, que  a maior. Vamos comear?
- Vamos.
Pegaram as madeiras e comearam a trabalhar. Enquanto isso, Raquel, em casa, estava junto ao tanque, lavando roupas e pensando: Quando Francisco me passar  medida 
das janelas, vou poder calcular de quanto tecido vou precisar e o quanto cobrar pelo meu trabalho. Ainda bem que o meu pai me deu, de presente de casamento, a mquina 
de costura. Nem ele nem eu imaginvamos que poderia ganhar algum dinheiro com ela. Mesmo no podendo sair de casa para trabalhar, vou ganhar um bom dinheiro. De 
onde estava, viu quando Tereza acompanhou o marido at o porto. Para evitar conversar com ela, pois ainda estava magoada no s por ela no ter tomado conta de 
Mauro, mas, muito mais, por se deixar oprimir pelo marido da maneira como fazia, entrou em casa. Tereza percebeu que Raquel no queria conversar com ela, coisa que, 
naquele horrio, fazia todos os dias. Tambm entrou em sua casa. Na hora do almoo, Francisco telefonou para Mrio, avisando-o de que o material havia chegado e 
pedindo as medidas das janelas para que as cortinas fossem confeccionadas. Mrio, feliz pela notcia, passou as medidas. No dia seguinte, Raquel, carregando Mauro 
no colo, foi at a loja e comprou o tecido para uma das janelas. Como o pacote ficou pesado, e como ela havia combinado com o marido, pediu que guardassem at depois 
do almoo, quando Francisco iria buscar. Foi o que Francisco fez.  noite, ele chegou com o pacote e os acessrios para que ela fizesse a cortina. No dia seguinte, 
ela, como sempre, acordou cedo. Lavou as roupas, deu uma ajeitada na casa e comeou a cortar o tecido no tamanho certo da cortina. Depois de cortada, comeou a costurar. 
Naquele mesmo dia, quase terminou a cortina. Trabalhou com carinho. Esta cortina precisa ficar perfeita. Sei que vai ser a primeira de muitas. No est sendo fcil, 
pois preciso parar muitas vezes para atender ao Mauro, mas vou conseguir. Ela tinha razo em pensar assim, pois, enquanto costurava, Mauro engatinhava pelo cho 
 sua volta e, algumas vezes, chorava, pedindo colo. Ela no se importava. Parava por alguns instantes, pegava o menino no colo, dava-lhe um brinquedo, gua ou alguma 
coisa para comer. Em uma tarde, estava costurando, quando Tereza apareceu na porta da cozinha. Raquel no viu quando ela se aproximou. Tereza ficou algum tempo parada 
na porta. Depois, disse:
- Ol, Raquel.
Raquel levantou os olhos que estavam na costura, ergueu a cabea e, admirada, tambm disse:
- Ol, Tereza.
- O que voc est costurando?
- Uma cortina.
- Mas suas cortinas so novas, vai trocar? 
Raquel no conseguiu disfarar e comeou a rir.
- Est curiosa, Tereza?
- Desculpe Raquel, mas estou sim. Tenho notado que voc est costurando h vrios dias. Vai trocar suas cortinas?
- No, Tereza. Vou contar a voc o que aconteceu. Depois que percebi que no poderia sair de casa levando Mauro, fiquei triste, mas, naquele mesmo dia, aconteceu 
algo que me fez ficar feliz.
- O que foi?
Raquel contou tudo e terminou, dizendo:
- Como pode ver, mesmo sem sair de casa, vou ganhar algum dinheiro e logo poderei comprar o meu ferro de passar roupa e at, quem sabe, um fogo a gs.
- Vai ganhar dinheiro sem sair de casa?
- Vou, sim, e espero que, depois destas cortinas que estou fazendo, venham outras.
- J tinha visto sua mquina de costura, mas no pensei que soubesse costurar.
- Sei, sim. Meu pai me deu esta mquina no dia em que recebi o diploma de corte e costura.
- Comprei um tecido para fazer camisas para os meninos e estava pensando quem poderia costurar. Pode costurar para mim?
Raquel nunca havia pensado que poderia costurar para fora. Fez o curso de corte e costura, no porque gostasse, mas porque sua me quase a obrigou. Naquele momento, 
agradeceu  me, em silncio. Respondeu:
- Posso, sim, Tereza, se puder esperar, pois preciso terminar todas as cortinas.
- Posso esperar. No estou precisando agora.
- Sendo assim, vou costurar para voc.
- No sei se vou conseguir Raquel. Voc conhece o Manuel, mas vou conversar com ele e pedir para que deixe voc colocar uma placa l no muro da frente. Assim, quando 
as pessoas passarem, sabero que aqui tem uma costureira.
- Isso seria muito bom, Tereza, mas no precisa. Sabe o que seu marido pensa da mulher que trabalha. Ele no vai consentir, ainda vai ficar nervoso com voc e brigar. 
Mas voc me deu uma boa idia. Vou conversar com o seu Joaquim do bar e da mercearia e com o seu Rubens do aougue e pedir a eles que deixem que eu coloque um papel 
l. Muitas mulheres vo, todos os dias,  mercearia e ao aougue, no  mesmo?
-  verdade, Raquel. Faa isso. Sei que vai receber muitas encomendas.
- Tambm sinto isso, Tereza. J que no posso ganhar o meu dinheiro de uma maneira, encontrei outra.
Tereza ficou calada, apenas olhando a quantidade enorme de tecido espalhado sobre a cama. Depois se afastou. Raquel, sentindo-se vitoriosa, sorriu. Raquel tambm 
trabalhou muito. Como precisava cuidar de Mauro e da casa, s conseguia trabalhar, com tranqilidade,  noite, quando o menino dormia. Com isso, no s Francisco 
entregou os mveis na data combinada como ela entregou as cortinas e os quadros que ela mesma escolheu para cada sala. Logo no incio do trabalho, ela pediu a uma 
vizinha mudas de folhagens e as plantou. Quando chegou o dia de entregar os mveis, os vasos estavam bonitos com as folhagens que cresceram verdes e saudveis. No 
dia da entrega dos mveis, Francisco e Norberto foram juntos para que eles pudessem ser montados. Aproveitaram o caminho que precisaram alugar para a entrega, passaram 
pela casa de Raquel, pegaram as cortinas, os vasos com as folhagens plantadas e os quadros e levaram com eles. Trabalharam o dia todo sem parar. Enquanto montavam 
os mveis, funcionrios de Mrio e Josaf penduravam os quadros, as cortinas e colocavam os vasos nos seus lugares. No fim da tarde, Mrio e Josaf, acompanhados 
por um senhor, chegaram e olharam as salas que j estavam prontas. No conseguiram esconder a satisfao que sentiam. Mrio disse:
- Senhor Francisco, ficaram muito bons. Seus mveis, realmente, so maravilhosos.
Francisco olhou para Norberto, sorriu e falou:
- Obrigado, senhor. Fico feliz de que tenha gostado.
- No s gostei como pedi ao Frederico, meu amigo, que viesse ver. Ele tambm vai precisar de mveis para seu escritrio de advocacia.
Francisco olhou para Frederico que, rindo, disse:
-  verdade, senhor, e confesso que estou impressionado. Seus mveis e essa decorao do uma nova aparncia para as salas. Precisamos conversar.
- Est bem, podemos fazer isso agora. As salas esto quase prontas. Montaremos amanh as que faltam.
Conversaram e Frederico pediu que Francisco fosse, no dia seguinte, ao seu escritrio para que lhe desse uma idia de como fazer para transform-lo em algo diferenciado. 
Francisco sorriu e aceitou a oferta. Despediram-se. Quando Francisco voltou para casa, contou a Raquel o que havia acontecido e ela contou da idia de colocar cartazes 
na mercearia e no aougue. Ele aprovou a idia, jantaram e foram dormir.

UM PRESENTE DO CU

Francisco conseguiu mais uma encomenda e, daquele dia em diante, no ficou sem trabalho. Raquel, aps colocar os cartazes, recebeu muitas encomendas e no parou 
mais de costurar. O tempo passou, o dia do casamento de Martin chegou. Raquel fez um vestido novo para ela e roupa nova para Mauro. Francisco vestiu o terno que 
usara no dia do seu casamento. Aps a cerimnia na igreja, foram para a casa de Martin, onde uma pequena recepo foi oferecida aos convidados. Havia sanduches 
de pernil assado, doces e muito chope. Um sanfoneiro tocava e as pessoas danavam. Raquel se aproximou de Ldia, que estava feliz com seu vestido de noiva.
- Voc est linda, Ldia!
- Obrigada, Raquel. Estou, realmente, muito feliz.
- Sua casa tambm est linda!
- Est sim, preciso agradecer ao Francisco e a voc a linda mesa e cadeiras que nos deram de presente, alm dos outros mveis que ele fez.
- Sabe que ele fez com todo carinho. Ele gosta muito do Martin e,  claro, de voc tambm.
A festa foi at altas horas, mas Raquel, por causa de Mauro, saiu antes de ela acabar. O tempo foi passando. Francisco e Raquel trabalhavam muito. Mauro ia completar 
dois anos. Raquel estava preparando uma pequena festa. Mandou uma carta convidando seus pais e irmos e Jandira. Seus pais e irmos responderam que no poderiam 
vir, porque a viagem ficaria muito cara e eles no estavam em condies de gastar tanto. Jandira tambm respondeu que no poderia vir, pois estava esperando um filho 
para aqueles dias e no queria fazer uma viagem longa como aquela. Raquel, embora tenha ficado triste, entendeu a dificuldade que cria uma viagem como aquela. Continuou 
preparando a festa. Em uma manh, enquanto preparava o caf, disse:
- Francisco, preciso ir ao mdico.
- Por qu? Est doente?
- No, acho que estou grvida.
Ele se levantou da cadeira onde estava sentado e quase gritou:
- O qu?
Ela, rindo, respondeu:
- No tenho certeza, mas acho que sim.
- Vamos hoje mesmo ao mdico! Estou feliz. Sabe que quero ter muitos filhos!
- Eu tambm, Francisco.
- Voc acha que agora vem uma menina?
- Tomara que sim.
Foram ao mdico e, depois de alguns dias, obtiveram o resultado. Ela estava grvida realmente. Ficaram felizes, porm Francisco tambm ficou preocupado.
- Estou feliz, Raquel, mas temos um problema.
- Que problema?
- O bero que fiz para o Mauro est pequeno. Ele vai precisar de uma cama maior. No nosso quarto no tem lugar para ela, muito menos para outro bero.
- Tem razo, Francisco. No havia pensado nisso. O que vamos fazer?
- No sei, vou pensar em algo. O importante  que voc esteja bem.
- Temos muito tempo at a criana nascer. Sei que voc vai encontrar uma soluo.
Alguns meses se passaram. Em uma tarde, Francisco, para surpresa de Raquel, chegou. Ela, ao v-lo, levantou-se admirada:
- O que est fazendo h esta hora aqui em casa?
- Preciso que venha comigo. Quero lhe mostrar uma coisa.
- Que coisa?
- Logo vai saber. Pegue o Mauro e vamos. No tenho muito tempo. Dei uma escapada da marcenaria, mas preciso voltar logo. Tenho muito trabalho.
Ela no entendeu, mas pegou Mauro que, sentado no cho, brincava com um carrinho, trocou-o e saram. Caminharam a p por alguns minutos. Ela, sem entender, acompanhou-o 
calada. Francisco parou algumas casas acima daquela em que moravam. Um homem que estava dentro da casa saiu.
- Ol, senhor Francisco! Essa  a sua esposa?
-  sim.
- Entrem e fiquem  vontade.
Raquel, ainda sem entender, entrou com Francisco que a conduziu para que olhasse a casa que estava vazia. Ela tinha dois quartos grandes, uma sala e uma cozinha. 
Depois de olhar a casa por dentro, Francisco abriu a porta da cozinha que dava para os fundos. Raquel ficou encantada. Alm de um puxado, onde havia um tanque para 
lavar roupas, havia, tambm, uma rea cercada com bambu, onde foram plantadas verduras e alguns ps de tomates que estavam carregados. Francisco, ao perceber que 
ela estava gostando, sorriu e perguntou:
- O que voc acha desta casa?
- Ela  linda!
- E tambm  sua.
- O qu?
-  sua.
- Como minha? Quem mora aqui  a Madalena.
Eles se mudaram e eram inquilinos. Fiquei sabendo que o dono morava no interior e que estava querendo vender. Entrei em contato com este senhor, que  o dono. Seu 
nome  Pedro. Dei uma pequena entrada e vou pagar o resto em prestaes mensais. Em dois anos, ela ser totalmente nossa!
- Por que no me contou?
- Queria fazer uma surpresa e acho que consegui.
- Pode acreditar que conseguiu mesmo, Francisco! Ela  linda!
- Agora, Mauro e a criana que est chegando tero um quarto s deles. Como vamos ter outros filhos, ainda tem espao para construirmos mais dois quartos!
Raquel, emocionada, comeou a chorar.
- Por que est chorando, Raquel?
-  de felicidade, Francisco. Jamais poderia imaginar que, um dia, teria uma casa como esta...
Ele abraou-a e comeou a rir.
- Se est assim por esta casa, imagine como vai ficar quando comprarmos uma manso.
Agora quem riu foi ela.
- Sabe que o que est falando  uma bobagem.
- Bobagem, por qu?
- Sei que nunca poderemos comprar uma manso.
- Por que no poderemos comprar Raquel? Somos jovens, temos uma vida longa pela frente. A marcenaria est indo muito bem. Vamos comprar uma manso, sim! Voc vai 
ver!
- No sei se um dia poderemos comprar, mas, para mim, esta casa j  uma manso. Estou muito feliz!
- Vai ficar muito mais. Agora, vamos para casa. Precisamos preparar a nossa mudana. Vou conversar com Norberto e pedir que me ajude a pintar a casa.
- Faa isso, Francisco. No vejo a hora de mudarmos.
Francisco e Norberto,  noite, depois de voltarem do trabalho, pintaram a casa. Alguns dias antes de mudarem, quando jantavam, Norberto e Lia chegaram:
- Que surpresa  essa? Vocs aqui em casa? Aconteceu alguma coisa, Norberto? Querem nos acompanhar no jantar?
- No, Francisco, obrigado, ns j jantamos. Estamos aqui porque precisamos conversar.
- Conversar? Sobre o qu?
- Eu e a Lia estivemos conversando. Sabem que moramos longe tanto de vocs como da marcenaria. Lia teve uma idia e eu achei muito boa. Por isso estamos aqui.
- Que idia?
- Deixe que eu fale Norberto. 
Norberto sorriu. Lia continuou:
- J que vocs vo se mudar poderamos alugar esta casa e, assim, moraramos perto. Sabe que no podemos ter filhos e o quanto gostamos do seu. Morando perto, posso 
ajudar voc, Raquel, a cuidar do Mauro e da outra criana que vai nascer.
Raquel olhou para Francisco e, rindo, disse:
- Que boa idia, Lia! Vai ser muito bom ter voc por perto e, tem razo, vou precisar de ajuda, pois tenho costuras para fazer e, com duas crianas, vai ser quase 
impossvel.
- Voc poderia falar com o proprietrio?
- Claro que sim, Norberto. Acho que no haver problema algum.
Sempre paguei o meu aluguel em dia e vou me responsabilizar pelo seu. Trabalhando na marcenaria, no tem como deixar de pagar.
- Faa isso, Francisco. Sei que no vai se arrepender.
- Claro que no! Vai ser bom ter vocs por perto.
Francisco conversou com Manuel, marido de Tereza e ele, como no podia deixar de ser, concordou. Poucos dias depois, fizeram as mudanas. Francisco e Raquel mudaram-se 
para a casa que compraram Norberto e Lia para a que alugaram. Depois de instalados na casa nova, Francisco, feliz, perguntou:
- E ento, Raquel, como est se sentindo na sua casa?
- Estou me sentindo a mulher mais feliz do mundo!
- Isso  s o comeo, da maneira como est indo a marcenaria, vamos conseguir muito mais.
O tempo foi passando. Em uma tarde, Raquel sentiu que a criana estava para nascer. Foi conversar com o taxista que era seu vizinho e pediu para que ele fosse avisar 
Francisco. Em seguida, foi at a casa de Lia e pediu para que ela ficasse com Mauro, enquanto ela fosse para o hospital.
- V em paz, Raquel. Agora j sabe como . Dentro de alguns dias, estar de volta trazendo sua criana. Espero que seja uma menina.
- Eu gostaria muito, Lia, mas, se no for uma menina, no tem importncia, s desejo que tenha sade.
Tereza, que estava ao lado delas, comeou a rir:
-  isso o que toda me fala, mas, l no fundo, voc est torcendo por uma menina, no ?
- Realmente, isso  verdade, mas volto a dizer que, se for um menino, ser bem-vindo.
- Est certa, Raquel. Agora, volte para sua casa, Francisco deve estar chegando.
- Obrigada a vocs duas. Da outra vez, tive s voc, Tereza, hoje, tenho as duas, sou mesmo uma pessoa de muita sorte.
Elas riram, Lia falou:
- Tem razo, mas, agora, coloque toda sua energia para a sua criana.
Raquel saiu dali e, enquanto subia a rua, voltando para sua casa, encontrou Francisco que chegou ao txi. Entraram em casa, pegaram a maleta que Raquel havia preparado 
e foram para o hospital. Como aconteceu quando Mauro nasceu desta vez, tambm, Francisco no pde ficar ao lado de Raquel. Embora sua condio financeira, agora, 
fosse melhor do que naquele tempo, o dinheiro que ganhava era quase todo para pagar a prestao da casa. O horrio da visita era somente s quinze horas. Como j 
eram dezoito horas, ele no poderia v-la mais naquele dia, somente no dia seguinte. Como da outra vez, ficou ansioso e angustiado, esperando, sem saber o que estava 
acontecendo. No dia seguinte, ao chegar para a visita, soube que Raquel estava, naquele momento, tendo a criana. Nervoso, ficou esperando. Meu Deus, por favor, 
faa com que tudo corra bem. Que nada acontea de mal com Raquel ou a criana. Depois de mais de meia hora, uma enfermeira se aproximou da recepo, onde Francisco 
estava e, vendo a angstia em seus olhos, disse:
- Est tudo bem. Nasceu um lindo menino. Parece que ele  muito forte. Sua esposa est sendo levada para o quarto. No momento, o senhor no poder v-la, ela est 
muito cansada, mas, se quiser, pode ir at o berrio e ver o seu filho.
- Um menino?
- Sim. Um lindo menino.
- Pensvamos que seria uma menina, mas, mesmo assim, estou feliz. Queria muito ver minha esposa, no pode ser nem por alguns minutos? Por favor...
A enfermeira, sem saber o porqu, sorriu e disse:
- Est bem. Ela est no quarto trezentos e quinze. Pode ir at l, mas fique s alguns minutos, pois, se algum reclamar, terei problemas.
Ele pegou a mo da enfermeira e, beijando-a, disse:
- Obrigado, senhora!
Afastou-se rapidamente e foi at o elevador. A enfermeira ficou olhando-o se afastar e pensou: No costumo fazer isso, pois, se algum descobrisse, teria de fazer 
com todas as pacientes e isso seria impossvel, mas no sei o que aconteceu dessa vez. O vulto de mulher sorriu e estendeu os braos em direo a ela. Francisco 
encontrou o quarto que a enfermeira disse. Entrou. Raquel estava plida e com olheiras. Parecia dormir. Ele se aproximou, beijou sua testa. Ela abriu os olhos:
- Como voc conseguiu entrar? Disseram que s poderia receber visitas amanh...
- No sei, acho que foi ajuda de Deus, mas agora, s quero saber como voc est.
- Estou bem. Voc viu o nosso filho?  outro menino, Francisco.
- Ainda no fui at o berrio, queria ver primeiro voc. No posso ficar muito tempo. Preciso ir. Logo voc vai estar em casa e no se preocupe, vamos ter uma menina. 
Temos muito tempo.
Beijou-a e saiu apressado. Foi at o berrio e viu o menino. Alguns dias depois, Raquel voltou para casa. Trouxe com ela o menino. Assim que chegou, pediu a Francisco 
que fosse at a casa de Lia e trouxesse Mauro. Francisco saiu e voltou logo depois acompanhado por Tereza e Lia que trouxe Mauro no colo. Assim que entraram, ele 
disse:
- Preciso ir at o cartrio registrar o menino, Raquel. Depois vou para a marcenaria. Meu trabalho est atrasado. Acha que vai ficar bem?
- Vou, Francisco, no se preocupe.
Ele beijou-a e Mauro passou a mo de leve no rosto do recm-nascido e saiu. Assim que Francisco saiu, Lia, olhando para o menino que dormia em um bero maior do 
que aquele que Francisco havia feito para Mauro, disse:
- Nasceu um menino, Raquel, mas  lindo!
-  sim, Lia. Sabe que eu queria uma menina, mas estou muito feliz com ele. Como Francisco sempre fala, somos jovens e temos muito tempo para termos no s uma menina, 
mas duas ou trs. Tereza arregalou os olhos e, olhando para Lia, perguntou:
- Lia voc j viu alguma mulher que fala em ter outra criana assim que acaba de ter uma?
- No, Tereza, nunca ouvi, mas voc se esqueceu de como Raquel  corajosa?
Raquel, fingido estar nervosa, disse:
- Quero ter muitos, Tereza, para, quando ficar velha e doente, ter algum que cuide de mim.
- Sabe que nem sempre isso acontece. Quantas pessoas voc conhece que, aps ficarem velhas, foram abandonadas por seus filhos.
- Muitas. Existe at um ditado que diz: Uma me consegue cuidar de dez filhos. Dez filhos no conseguem cuidar de uma me. Porm, penso que comigo ser diferente. 
Vou criar meus filhos com muito amor e carinho. Eles cuidaro de mim, Tereza.
- Tambm espero que isso acontea comigo, mas confesso que, algumas vezes, tenho medo da velhice...
- No adianta ter medo, Tereza. Precisamos esperar para ver o que acontece. Por enquanto, vamos cumprir a nossa obrigao que  a de dar e fazer tudo o que for possvel 
para que nossos filhos sejam felizes.
- Tem razo.
- Pior sou eu que, por no poder ter filhos, no posso nem pensar em ter algum que cuide mim. Vou ficar velha e sozinha...
- No fique assim, Lia. Quem sabe vocs ainda conseguem ter filhos. A medicina est evoluindo.
- Talvez isso acontea, mas, enquanto no acontecer, vamos amar este menino lindo. J amamos Mauro, no , Tereza?
-  verdade, Lia. Vamos amar os dois. J sabe que nome vai dar a ele?
- Eu e o Francisco conversamos e resolvemos que todos os nossos filhos tero o nome comeando com a letra M. Gosto muito dela. Francisco saiu e vai registr-lo com 
o nome de Moacir. O que vocs acham?
-  um nome bonito, gostei.
Lia e Tereza ficaram ali por mais algum tempo, depois foram embora. Raquel chamou Mauro e, levando-o at o bero onde Moacir estava, disse:
- Este  seu irmo. Ele  menor do que voc, no sabe fazer nada, s chorar. Por isso, voc precisa ajudar a mame a cuidar dele. Voc vai ajudar?
Mauro olhou para Moacir e, meio desconfiado, respondeu:
- Ajudo...
Raquel sorriu, beijou o filho e, olhando para Moacir que dormia, pensou: Meu filho, voc foi mais um presente que Deus me deu. Tomara que eu possa dar a voc tudo 
o que  necessrio para que seja feliz...

O INESPERADO

Como sempre acontece, o tempo foi passando. Raquel, conversando com Lia, contou sobre os dias em que saiu para vender e que s teve de parar por no ter com quem 
deixar Mauro. Aps ouvir com ateno, Lia disse:
- Voc gostou de mostrar e vender os mveis, no foi?
- Gostei muito! Sinto que nasci para isso.
- Por que no volta a sair?
- Como, Lia? Precisei parar porque no tinha com quem deixar o Mauro, imagine agora com os dois?
- Posso cuidar deles, Raquel. Raquel arregalou os olhos:
- Voc faria isso, Lia?
- Claro que sim. Sou s eu e Norberto. Esta casa  pequena, passo, praticamente, o dia todo sem ter o que fazer. Posso cuidar dos meninos. Para mim, no seria sacrifcio 
algum, ao contrrio, seria muito bom. Alm do mais, quanto mais voc vender, mais certeza eu terei de que meu marido no ficar sem emprego.
Raquel riu:
- Tem razo. Vou conversar com Francisco e voc converse com Norberto e, se eles aceitarem, vai ser muito bom.
- Eles vo aceitar Raquel. Embora Norberto ainda seja daqueles que acha que a mulher no precisa trabalhar, se eu trabalhar em casa, no vai haver problema algum.
- Converse com ele, Lia. Se ele aceitar e voc ficar com as crianas  tarde, de todos mveis que eu vender, vou dar a voc uma comisso.
- No precisa Raquel, mas, se fizer isso, para mim, vai ser muito bom.
Eles concordaram. Raquel comeou a sair todas as tardes e a vender. Tinha, realmente, nascido para ser vendedora. Alm de vender os mveis, oferecia as cortinas 
e todo o resto. Apesar de ter de cuidar das duas crianas e sair para vender, ela ainda encontrava tempo para costurar e, assim, ganhar algum dinheiro. Sabia que 
no era muito, mas, com ele, podia comprar coisas de que as crianas precisavam. A marcenaria, depois de muita propaganda feita por Mrio e Josaf, estava crescendo 
e, com as vendas de Raquel, cresceu mais ainda. Tanto que Francisco teve de recorrer a antigos colegas marceneiros que trabalharam com ele e contratou aqueles que 
estavam desempregados. Agora, j tinha oito funcionrios. Norberto continuou ao seu lado. Mauro ia fazer oito anos e Moacir cinco, quando Raquel engravidou mais 
uma vez.
- Vamos ganhar outra criana, Francisco.
- Tem certeza?
- Tenho e, desta vez, vai ser uma menina. Mauro j est indo para a escola. Moacir, quando fizer sete anos, vai tambm,  uma boa hora para termos mais uma criana.
- Tambm acho. Terminamos de pagar a casa e vou construir mais um quarto.
- Vamos fazer isso, Francisco. Estou feliz.
Foi o que ele fez. Enquanto Raquel esperava pela criana, ele construiu um quarto, onde foi colocada uma cama para Mauro. A criana que estava para nascer e Moacir 
dormiriam no quarto em que este j dormia. Uma noite, quando terminaram de jantar, Raquel, que estava sentindo uma dor j sua conhecida, preocupada, disse:
- Est chegando a hora, Francisco. A criana vai nascer.
- Tem certeza?
- Tenho. Alm de estar no tempo, estou sentindo as primeiras dores.
- Acha que devemos ir ao hospital?
- Acho que sim.
- Como vamos fazer com as crianas?
- J conversei com a Lia e com a Tereza. Caso eu tivesse que ir ao hospital durante a noite, Mauro ficaria na casa de Tereza, onde h uma cama a mais, e Moacir, 
com a Lia. Sabe como ele gosta dela. Norberto disse que providenciaria uma cama com algumas cadeiras para que pudesse caber no quarto que, como voc sabe,  pequeno.
- Sendo assim, enquanto voc prepara as coisas, vou levar as crianas.
Mauro, que a tudo ouvia, perguntou:
- Ns vamos ficar sozinhos?
- Vai ser s por esta noite, meu filho. O papai vai levar a mame para o hospital e, talvez, quando ele voltar, j esteja tarde. Vocs so muito pequenos e no podem 
ficar sozinhos, mas amanh, vou dormir aqui com vocs.
- Eu no sou pequeno, me, e no tenho medo, posso dormir sozinho...
- Sei que no  pequeno, mas, mesmo assim, no podem ficar sozinhos e vai ser s por uma noite. Quando eu voltar, vou trazer um irmozinho ou uma irmzinha para 
vocs!
- No quero mais um irmozinho ou uma irmzinha, s o Moacir j est bom.
Raquel comeou a rir e, beijando o filho, disse:
- Sei que s o Moacir j est bom, mas voc vai gostar deste que est chegando. Voc vai ver que nenm lindo vai ser...
O menino, sabendo que no havia jeito, parou de chorar. Francisco, que a tudo acompanhava, disse:
- A mame tem razo, Mauro, como j disse, vai ser s por uma noite. Agora, vamos.
Raquel deu a ele uma sacola com os pijamas para que os meninos pudessem dormir e ele saiu, levando-os seguros em suas mos. Assim que eles saram, Raquel respirou 
fundo e foi pegar a sacola onde havia colocado as coisas de que precisaria no hospital e a roupinha que seria colocada no nenm para que viesse para casa. Logo depois, 
Francisco voltou e, abraando-a, disse:
- Eu j conversei com a Lia e o txi j est a, na frente de casa, esperando por voc.
- Ento, vamos, j estou pronta.
Saram e foram para o hospital e, mais uma vez, no havia condies financeiras para fazer com que Raquel ficasse em um quarto particular. Como das outras vezes, 
deixou-a no hospital, dizendo:
- No posso ficar com voc, Raquel. Queria muito, mas sabe que no temos condies de pagar um quarto particular.
- No se preocupe com isso, Francisco. Sabe que vou ficar bem.
Quando voltar, na hora da visita, a nossa criana j ter nascido e logo voltarei para casa.
- Est certo e espero encontrar, desta vez, uma menina.
- Tambm desejo isso, mas, se for um menino, tambm ser bem recebido. Como voc sempre fala, temos muito tempo para ir tentando. - ela falou, rindo.
Ele tambm riu.
- Tem razo, Raquel. Somos jovens, temos muito tempo. J  tarde, as crianas devem estar dormindo, mas, mesmo assim, vou passar pela casa de Lia e Tereza e, se 
estiverem acordados, vou levar os dois para casa.
- Pode ir, mas acho que no precisa ficar preocupado, a Lia e a Tereza gostam muito dos meninos, por isso, sei que eles esto bem.
- Tem razo, mas, mesmo assim, vou passar pela casa delas. Francisco beijou Raquel e, acenando com a mo, foi embora.
O vulto de mulher estava ali. Enquanto se afastava, olhou para ele, mas, dessa vez, no sorriu. Francisco saiu do hospital. Pegou o nibus e foi para casa. Ele fez 
o que disse. Passou pela casa de Lia e Tereza, viu que as luzes estavam apagadas. Concluiu que todos dormiam, foi para sua casa. Entrou, deitou-se e, tambm depois 
de algum tempo, adormeceu. No dia seguinte, acordou, preparou o caf, tomou-o rapidamente e foi para a casa dos amigos. Estava entrando, quando Norberto saa na 
bicicleta.
- Bom dia, Norberto. J est indo para a marcenaria?
- Bom dia, Francisco. Estou sim. Como est Raquel?
- Eu deixei-a no hospital. Quero confessar que, embora esta seja a terceira vez, ainda est muito ansiosa, mas, fora isso, posso garantir que ela est bem.
- Infelizmente, eu e a Lia nunca poderemos ter um filho, portanto, nunca sentiremos o que vocs sentiram e esto sentindo hoje.
- Acho que no deve perder a esperana. A medicina est evoluindo muito.
- No nosso caso  impossvel, mas isso no nos aflige mais. Gostamos muito dos seus meninos e os consideramos como se fossem nossos.
- Sei disso e tenho a certeza de que, se alguma coisa acontecer comigo ou com a Raquel, vocs cuidaro deles. Sabe que tanto os meus pais como os da Raquel j morreram 
e que nossos irmos precisam cuidar de suas prprias vidas. Todos tm filhos e no teriam como cuidar deles.
- Que conversa  essa Francisco? Nada vai acontecer com voc ou com Raquel! Vocs vo criar essas crianas!
- Claro que vamos, Norberto,  s uma maneira de falar. Temos tempo para ter mais filhos!
- Sendo s uma maneira de falar, pode ficar tranqilo. Seus filhos sempre sero nossos filhos. Antes de irmos para a marcenaria, vou entrar com voc para tomarmos 
caf.
Entraram. Estavam passando pela porta da casa de Tereza, quando ela apareceu:
- Bom dia, Francisco. A Raquel ficou no hospital?
- Bom dia, Tereza. Ela ficou no hospital, sim. Disseram que a criana poderia nascer de madrugada. No sei ainda o que aconteceu, s vou saber na hora da visita.
- Tomara que j tenha nascido.
- Tambm estou querendo isso.
Por trs de Tereza, apareceu Mauro, que correu para os braos do pai. Francisco abraou-o e foram at a casa de Lia, onde Moacir estava. Quando entraram na casa 
de Lia, ela estava dando caf para o menino. Moacir, assim que viu o pai, correu para ele que o pegou no colo e, abraando-o, perguntou:
- Tudo bem, Moacir?
O menino, demonstrando no rosto que ainda estava com sono, no respondeu. Lia apontou uma cadeira para Francisco, que se sentou e, enquanto ela servia caf, perguntou:
- Como est a Raquel?
- No sei, Lia. Ontem, quando a deixei no hospital, pareceu-me bem. H esta hora, a criana j deve ter nascido, mas s vou saber na hora da visita.
- Tomara que j tenha nascido mesmo.
- Tambm espero. No vejo a hora de a visita chegar. Francisco tomou caf e Norberto, apesar de j ter tomado, acompanhou-o.
Enquanto comia, Francisco disse:
- Mauro, a mame vai dar para voc uma irmzinha ou um irmozinho. Est feliz?
- Estou, mas preferia ser s eu e o Moacir. A gente no precisa de mais um irmo...
Francisco olhou para Lia e Norberto, que riram.
- Quando voc vir o nenm que est chegando, sei que vai gostar.
O menino olhou para eles e abaixou a cabea. Francisco abraou o filho com fora e disse:
- Como voc e o Moacir esto bem, agora, vou para a marcenaria e, na hora da visita, vou ver a mame e, quando voltar, conto para vocs se  um irmo ou uma irm 
que chegou.
- Me deixa eu ir junto, papai...
- No pode Mauro, voc no pode entrar no hospital.
- No quero ir ao hospital, quero ir  marcenaria. Sabe que gosto de ajudar.
Francisco olhou para Norberto e perguntou:
- Quando eu for para o hospital, voc cuida dele?
- Claro que sim, Francisco. Ele vai me ajudar no trabalho, no vai, Mauro?
- Vou, sim. Vou lustrar os mveis.
- Est bem. J que Norberto vai cuidar de voc, vamos. Assim, a Lia vai ter menos trabalho.
- Se quiser lev-lo com voc, Francisco, leve, mas no para que eu tenha menos trabalho. Suas crianas so boas, no do trabalho algum e eu as adoro!
- Obrigado, Lia. Voc  um anjo da guarda. Est sempre disposta a nos ajudar.
- O que  isso, Francisco? Quantas vezes Raquel tambm me ajudou e sei que, se eu precisar, ela vai ajudar novamente.
- Obrigado, Lia. Agora, vamos embora, Mauro?
Moacir comeou a chorar:
- Tambm quero ir...
- No pode meu filho. Voc  ainda muito pequeno. Quando crescer um pouco mais, poder ir para a marcenaria. Por enquanto, no pode.
- Seu pai tem razo, Moacir. Voc vai ficar aqui e depois que terminar de tomar o caf, vamos desenhar, est bem?
O menino, embora no quisesse, sabia que o pai no o levaria. Concordou com a cabea. Norberto pegou sua bicicleta e, conduzindo-a com a mo, saram pelo corredor. 
Quando chegaram  rua, Francisco disse:
- Pode ir, Norberto. Vou at a casa pegar a minha bicicleta. Mauro vai comigo.
Norberto subiu na bicicleta e Francisco, segurando na mo de Mauro, comeou a subir a rua em direo  sua casa, quando percebeu que um caminho descia em disparada 
em sua direo. Com fora, empurrou Mauro para longe, mas no teve tempo suficiente para evitar o acidente. O caminho subiu na calada e atingiu os dois, espremendo-os 
 parede de um muro. O estrondo que se ouviu foi muito alto. Norberto tambm ouviu, voltou-se para ver o que havia acontecido e, ao notar que Francisco e Mauro haviam 
sido atingidos, largou a bicicleta e subiu, correndo, a rua em direo ao acidente. Assim que se aproximou, viu que outras pessoas, que tambm ouviram o barulho, 
desesperadas, tentavam tirar os dois que se encontravam presos no muro. Apavorado, Norberto, sem conseguir dizer uma palavra ou fazer um movimento, parou e somente 
conseguiu chorar. As pessoas tentaram ajudar, mas foi em vo. Rapidamente perceberam que no havia o que fazer. Tanto Francisco como Mauro estavam mortos. Norberto, 
depois de algum tempo, recuperou-se e aproximou-se do amigo que, ainda segurando a mo de Mauro, estava com os olhos fechados e com aquela cor caracterstica da 
morte. A notcia se espalhou e, rapidamente, as pessoas foram chegando. Algumas, ao verem aquela cena dantesca, choravam. Outras ficaram paradas, sem acreditar no 
que estavam vendo. Francisco ainda estava com o brao estendido em direo a Mauro. O menino estava de costas para ele a alguns centmetros. Todas as pessoas perceberam 
que o pai tentou afastar o menino, mas no conseguiu. As pessoas, tristes e desesperadas, no podiam ver que muitas entidades tambm estavam ali. Entre tais entidades, 
estava a mulher que sempre estava ao lado deles e um homem, que pegou Francisco adormecido, enquanto ela pegava Mauro e o entregava a uma das entidades que estava 
ali. Os dois, carregando Francisco e Mauro, rapidamente desapareceram. Enquanto muitas delas jogavam luzes sobre as pessoas que estavam ali, outra pegou o motorista 
que, por causa da batida forte, no conseguiu se segurar bateu a cabea no pra-brisa e tambm no resistiu. As entidades saram dali e ela voltou para o lado de 
Raquel que, feliz, aguardava a visita de Francisco para que ele visse o menino que havia nascido. Uma das vizinhas, que tambm ouviu o barulho, ao constatar que 
se tratava de Francisco, correu para a casa de Tereza. Abriu o porto e entrou correndo. A porta da cozinha estava aberta. Tereza, ao v-la transtornada daquela 
maneira, assustada, perguntou:
- O que aconteceu, Norma?
- Uma coisa horrvel!
- O que foi?
- Um acidente a na rua! Um acidente pavoroso com o Francisco e o Mauro!
- O que aconteceu?
- Eles foram atropelados por um caminho que subiu na calada!
- O qu?
-  isso que ouviu, foram atropelados e esto mortos!
Tereza quase desmaiou, soltou um grito forte, vindo do fundo do seu ser. O grito foi to alto que Lia que morava nos fundos, ouviu e correu para ver o que havia 
acontecido:
- O que aconteceu, Tereza? Por que est chorando desesperada dessa maneira?
Realmente, Tereza chorava muito e no conseguia se controlar. Quem respondeu foi Norma:
- O Francisco e o Mauro foram atropelados por um caminho e esto mortos.
Lia ficou parada sem mover um msculo sequer. Depois, chorando, perguntou:
- O que voc est dizendo, Norma? Francisco acabou de sair da minha casa! Ele foi para a marcenaria e levou o Mauro com ele!
- Infelizmente  isso que estou dizendo, Lia. Eles foram atropelados a na rua. Acho que estava indo para sua casa, quando o caminho os pegou.
- Vou pegar o Moacir que est l em casa e ver o que aconteceu.
- No faa isso, Lia. Moacir  muito pequeno, no precisa ver o que aconteceu. V com a Tereza, eu fico aqui tomando conta dele.
- Obrigada, Norma! Vamos, Tereza?
Antes mesmo de responder, Tereza j corria para a rua. Saram em disparada. Lia se aproximou de Norberto que estava ali, parado, apenas olhando:
- O que aconteceu, Norberto?
- No sei, Lia. Ele estava indo para casa pegar a bicicleta. Eu estava indo para a marcenaria quando ouvi o barulho.
Tereza, que estava ao lado e que tambm olhava abismada, disse:
- Meu Deus do cu, como isso foi acontecer? O que vai ser da Raquel? Ela est feliz no hospital e nem imagina que isso tenha acontecido.
Elas no tinham as respostas, apenas choravam, no s pelos dois que jaziam ali, mas, principalmente por Raquel. O ambiente estava tenso. As pessoas comentavam entre 
si o que havia acontecido. Algumas, sem conseguir suportar aquela cena, precisaram ir embora, mas, ao lado de cada uma, havia um esprito amigo que jogava luz sobre 
todas. O carro da polcia chegou e afastou as pessoas que ficaram olhando de longe. Um dos policiais perguntou:
- Algum conhece esse homem?
- Eu conheo!  o meu patro!
- Venha comigo, por favor.
Norberto acompanhou o policial at o carro e respondeu a todas as perguntas. Tereza e Lia, chorando, permaneceram ali, olhando para Francisco e Mauro. Estavam com 
o corao apertado. Lia, chorando, disse:
- Francisco acabou de tomar caf l em casa. No queria levar Mauro para o trabalho, mas o menino insistiu tanto que ele no teve como negar. Se soubesse que isso 
ia acontecer, eu no teria deixado Mauro acompanhar o pai...
- Voc no teve culpa, Lia. Como poderia imaginar que isso ia acontecer?
- Isso no  justo! Ele e Raquel se davam to bem! Formavam um casal feliz! Nunca vi uma briga entre eles e estavam radiantes com a chegada de outra criana! No 
est certo, Tereza! No est mesmo!
- Deus  quem sabe, Lia...
- Que Deus, Tereza? Ele no existe! Se existe como pode permitir que um homem bom como Francisco e uma criana linda como Mauro morram, enquanto existem tantos outros 
que so ruins e malvados e, mesmo assim, continuam vivendo? Com Deus ou sem Deus, no est certo!
Tereza, lembrando-se do seu marido e das maldades que ele fazia com ela e com as crianas, disse:
- Talvez voc tenha razo, Lia. Deus nem sempre  justo...
- Claro que no  justo, Tereza!
- No sei se voc est certa, mas, no momento, o que devemos pensar  em como vamos contar para Raquel que essa tragdia aconteceu...
Lia, com os olhos cheios de lgrimas, passou as mos por eles e respondeu:
- No sei Tereza! No sei! Ela nem imagina o que aconteceu. Vai ser muito difcil aceitar. No sei como falar com ela, ainda mais acabando de ter uma criana.
- Ser que a criana j nasceu?
- Acho que sim. Ela comeou a sentir as dores ontem  tarde. Deve ter nascido sim.
- O que vamos fazer?
Norberto terminou de conversar com o policial e se aproximou delas:
- Dei todas as informaes de que precisavam. Os corpos sero levados. Agora podemos ir para casa.
- Como vamos contar para a Raquel, Norberto?
- J me fiz essa pergunta e no encontrei a resposta. No sei, Lia.
- Acho que devemos conversar com algum mdico, l do hospital. Ele nos dir como falar com ela ou ele mesmo far isso. Ele  quem sabe das condies dela...
- Tem razo, Tereza, essa  a melhor coisa a se fazer.
Depois que os corpos foram levados, eles foram a casa. Encontraram Norma, que estava no corredor com Moacir no colo. Calados, entraram na casa de Tereza e tomaram 
caf. Quando terminaram, Lia e Norberto saram e foram para o hospital. Tereza pegou Moacir que estava no colo de Norma e colocou-o no cho para que brincasse com 
seu carrinho. Olhando para o menino que, sem saber da tragdia que havia acontecido, brincava. Pensou: Lia tem razo. No  justo isso ter acontecido com Francisco, 
muito menos com Raquel. Ser que Deus existe realmente? Enquanto isso, sem imaginar o que estava acontecendo, Raquel, no hospital, esperava ansiosa  hora da visita 
para que Francisco pudesse ver o menino que nascera. Sei que ele, assim como eu, queria uma menina, mas o menino que nasceu  lindo e com sade, isso  o mais importante. 
Como ele sempre diz, somos jovens, temos muito tempo para termos uma menina. Estou feliz por meu filho ter nascido perfeito. Lia e Norberto chegaram ao hospital. 
Contaram a uma recepcionista o que havia acontecido. A moa, aps ouvir o que eles disseram, condoda, disse:
- Que situao terrvel. Esperem um momento que vou conversar com o mdico que est cuidando dela.
Eles sentaram-se em um sof e ficaram esperando. Alguns minutos depois, um mdico entrou por uma porta e olhou para a recepcionista que, com a mo, apontou para 
eles. O mdico caminhou na direo deles. Lia e Norberto perceberam e levantaram-se tambm. O mdico chegou e disse:
- A recepcionista me contou o que aconteceu. Que fatalidade...
- O senhor tem razo, foi mesmo uma fatalidade. Precisamos avisar a esposa dele, mas no sabemos como. Ela est internada neste hospital para ter criana. Nem sabemos 
se j teve.
- J teve sim,  um menino.
- Como ela est?
- Est tima, senhora. O parto no foi muito difcil. Deu tudo certo. Ela e a criana passam bem.
- O senhor acha que ela est em condies de receber uma notcia como essa?
- Foi bom que falassem comigo. Ela precisa saber o que aconteceu. Vou pedir a uma enfermeira que lhe aplique um sedativo e daqui a quinze minutos entraremos juntos 
e contaremos.
Eles voltaram a se sentar e, de mos dadas, ficaram esperando. Permaneceram calados, no tinham o que conversar. Estavam preocupados com Raquel e em como ela reagiria. 
Algum tempo depois, que para eles pareceu uma eternidade, a recepcionista saiu de trs do balco e foi at eles:
- Podem subir at o terceiro andar. O mdico est esperando no corredor, em frente  porta do quarto.
Eles se levantaram, pegaram o elevador e se encontraram com o mdico, que disse:
- Vamos entrar. Eu falarei com ela. J tomou um tranqilizante e logo adormecer.
Entraram. Raquel estava deitada. Um pouco abatida, sorriu quando os viu:
- Lia! Norberto! Vieram ver o meu menino?
- Viemos, sim, Raquel.
- Ainda no  hora da visita, como conseguiram entrar. Lia e Norberto olharam para o mdico, que disse:
- Tem razo, dona Raquel. Ainda no  a hora da visita. Eles esto aqui por um motivo especial que, infelizmente,  triste.
Raquel olhou para Lia e Norberto, notou que ela chorava:
- O que aconteceu, Lia? Por que est chorando?
Quem respondeu foi o mdico:
- A senhora precisa manter a calma. Seu filho acabou de nascer e precisa muito da sua tranqilidade. Aconteceu um acidente com seu filho e marido.
Raquel, com dificuldade, sentou-se na cama e, olhando para Lia, perguntou com a voz embargada:
- Que acidente, Lia? Onde eles esto?
Lia, quase sem conseguir falar, disse:
- Hoje, pela manh, Francisco foi l a casa para ver como o menino estava. Passou primeiro pela casa de Tereza, pegou Mauro e foi l para casa. Tomou caf e, quando 
ia sair, Mauro pediu para ir com ele trabalhar na marcenaria. Ele no queria, mas o Mauro, voc conhece, insistiu muito at que Francisco consentiu. Saram da minha 
rasa e, quando Francisco subia para pegar a bicicleta na sua casa, um caminho, desgovernado, desceu a ladeira e atropelou os dois que caminhavam na calada.
- Meu Deus! Eles esto bem? Esto aqui no hospital?
- No, dona Raquel. Eles no esto aqui no hospital.
- Como no, doutor? Eles devem ter se machucado muito! Onde eles esto?
- Foram levados para o Instituto Mdico Legal.
- O que o senhor est dizendo? S vo para o Instituto Mdico Legal as pessoas que morrem! O senhor est dizendo que eles morreram?
- Sinto muito, dona Raquel, mas foi isso que aconteceu... Raquel parecia estar sonhando e sentia que, a qualquer momento, acordaria.
- No, doutor, no pode ser verdade. O senhor s pode estar brincando...
-  verdade, Raquel. Eles morreram na hora.
- Os dois, Lia? No pode ser! Isso no est acontecendo comigo! Quero ir at onde eles esto!
- Hoje, a senhora no pode sair do hospital. Faz somente algumas horas que deu  luz, precisa ficar aqui pelo menos por vinte e quatro horas.  muito perigoso sair 
antes disso.
- No vou ficar nem mais um minuto! Quero ficar ao lado do meu marido e do meu filho!
- Hoje, a senhora vai ficar aqui e, amanh, na hora do enterro, poder ir para casa, mas se sentir alguma coisa, precisar voltar imediatamente.
Raquel comeou a chorar desesperada.
- No vou ficar aqui, doutor. Ser que o senhor no entende? Meu marido e meu filho morreram! Como posso ficar aqui?
- Sei o que est sentindo, mas, se sair antes do tempo estipulado, poder ter algum problema e tambm morrer...
- O senhor acha que estou me importando com isso? O senhor acha que vou conseguir continuar vivendo sem meu marido e meu filho? Quero morrer tambm!
- Voc precisa viver Raquel. Tem o Moacir e agora esse menino que nasceu. Eles vo precisar muito de voc...
- Eles no tero pai, Lia! Vo ser criados sozinhos...
- Como sozinhos, Raquel? Voc vai estar ao lado deles e ser pai e me...
- No vou conseguir, Lia. No vou conseguir...
Antes mesmo de terminar essas ltimas palavras, Raquel adormeceu. O mdico olhou para Lia e Norberto e disse:
- Agora ela vai dormir por algumas horas. Vou tentar mant-la calma. As enfermeiras j foram avisadas de que ela precisa ser vigiada todo o tempo e que, se ocorrer 
qualquer problema, devem me chamar. Podem ir em paz. No se preocupem com ela, est em boas mos e ficar bem.
Lia, chorando, beijou a testa de Raquel e saram. O mdico ficou ao lado de Raquel e da enfermeira:
- Ela vai dormir por algumas horas. Assim que despertar, avise-me.
- Pode deixar doutor, farei isso.
No viram, mas a entidade de mulher tambm estava ali. Na rua, Norberto disse:
- Lia, preciso ir at o Instituto Mdico Legal para ver o que precisa ser feito para poder enterrar os dois. No sei como fazer,  a primeira vez que enterro algum 
prximo...
- J que Tereza ficou com Moacir, eu vou com voc. Comearam a caminhar em direo ao ponto de nibus.
Logo depois de ter adormecido, Raquel viu diante de si o vulto de mulher que sorria:
- Quem  a senhora? O que est fazendo aqui?
- Sou algum que a ama e que sempre esteve ao seu lado. Um senhor se aproximou e, sorrindo, disse:
- Tambm estou aqui e torcendo por voc, assim como todos os outros, seus amigos. Estamos felizes, pois, at agora, tem cumprido o que prometeu.
- No me lembro de vocs...
- Isso, agora, no tem importncia, no momento certo, lembrar. Agora,  importante que continue sua jornada.
- Francisco e Mauro morreram. Sem eles, no sei se vou ter coragem para continuar. Por que isso aconteceu?
- Eles quiseram renascer ao seu lado, exatamente para isso. Mostrar a voc o caminho que deveria seguir.
- Voc conhece os meus filhos?
- Conheo. Voc sabe quem so?
- Claro que sim! So meus filhos!
- Isso mesmo. So seus filhos e muito mais.
- Muito mais? O que est dizendo?
- No momento certo, saber.
- Por que Francisco me abandonou e levou meu filho?
- Ele no a abandonou. Os dois seguiro voc durante todo o tempo de que precisar. Eles tm outras obrigaes, outros caminhos para seguir. Voc sabia que seria 
assim.
- No lembro. Mas como vai ser minha vida daqui para frente, sem eles para me ajudar?
- Vai depender s de voc, Raquel, das escolhas que fizer.
- Escolhas? O que est dizendo? No estou entendendo...
- No precisa entender. Basta que continue sua jornada que, daqui para frente, ser mais difcil, mas sei que vai conseguir. O importante  que, mesmo sem se lembrar 
do passado, no se esquea de que nunca estar s. Sempre estaremos ao seu lado.
- No vou conseguir viver sem eles. Francisco sempre foi minha fortaleza e Mauro, o motivo da minha luta pela vida. Sem eles, nada mais restou. No estou pronta 
para seguir sozinha...
- No est sozinha. Moacir e Marcos seguiro com voc. E com eles que voc tem dvidas que precisam ser pagas.
- Dvidas? Do que est falando?
- No momento certo, saber.
- No vou conseguir...
- Vai, Raquel, claro que vai. Eu, Francisco e Mauro sempre estaremos ao seu lado.
- No me despedi deles. Onde esto?
- Esto adormecidos e sendo cuidados. Logo mais sero despertados e sabero que voltaram para casa.
- E que eu fiquei sozinha...
- No est sozinha, Raquel. Estamos, todos, ao seu lado. Francisco e Mauro tomaro conhecimento do que lhes aconteceu e ficaro torcendo por voc.
- Estou com medo...
- Medo do qu?
- Da vida aqui na Terra. Queria voltar para casa.
- No precisa ter medo da vida nem de nada, Raquel. A vida  um bem precioso que Deus nos d. Somente com ela, podemos nos aperfeioar, resgatar nossas dvidas e, 
assim, continuar a nossa caminhada. Ao invs de ter medo, agradea por essa oportunidade. Sabe que nem todos conseguem ou demoram muito para conseguir.
- Tem razo...
- Agora, durma. Embora seu esprito esteja forte, seu corpo, por causa do parto, est debilitado. Voc vai ter momentos muito difceis pela frente.
- Tenho muito medo...
- No precisa ter medo, Raquel. Quando acordar, no vai se lembrar do que conversamos, mas, no seu ntimo, saber que no est s.
- Est bem. No saia de perto de mim...
Olmpia, a entidade de mulher que sempre acompanhava Raquel, olhou para Samuel, que estava ao seu lado e sorriu:
- Nunca sa de perto de voc. Nunca vou sair...
Raquel entrou em um sono profundo. Olmpia e Samuel permaneceram ao seu lado jogando luzes brancas sobre ela. Depois de algumas horas, Raquel abriu os olhos. Olhou 
 sua volta e viu duas mulheres que estavam em outras camas e que, tambm, haviam dado  luz. Percebeu que elas tambm a olhavam. Lembrou-se do que Lia e Norberto 
haviam dito e comeou a chorar. Uma das senhoras, vendo que ela chorava, disse:
- Sinto muito pelo que aconteceu com a senhora, mas a vida continua. A senhora tem, agora, que pensar no seu outro filho e nesse que acabou de nascer.
- Que vida? Que filhos? Do que adianta pensar na vida e nos filhos se, de repente, tudo pode acabar? Do que adiantou meu marido ter trabalhado tanto para morrer 
dessa maneira? E o meu filho? Era ainda uma criana! Como vou saber se esses dois vo crescer, no vo morrer tambm? No quero mais viver! No consigo me ver sem 
Francisco e sem o meu menino! Por que isso aconteceu? O que fiz de mal? Eu e meu marido vivamos muito bem, ramos felizes e agora como vai ser?
- Tenha f, tudo sempre passa...
- F? Como posso ter f em alguma coisa? Estou  com muita raiva! No posso aceitar que isso tenha acontecido! Quero ir embora daqui! Quero ficar ao lado do meu 
marido e do meu filho!
- O mdico disse que a senhora s poder ir embora amanh. Precisa ter pacincia...
- Pacincia coisa alguma! Vou sair daqui agora mesmo! Tentou se levantar, mas no conseguiu. A outra senhora que, em silncio, ouvia a conversa, percebendo que Raquel 
estava descontrolada, apertou a campainha que havia perto da sua cama e, em poucos minutos, a enfermeira entrou no quarto. Ao ver Raquel tentando se levantar aproximou-se:
- Para onde a senhora vai?
- Para casa! Para junto do meu marido e do meu filho! No posso ficar aqui! Preciso ver os dois!
- A senhora no pode sair daqui sem que o mdico concorde. Ainda est em observao. Acabou de dar  luz e seu corpo precisa de um tempo para voltar ao normal.
- No entende o que est acontecendo? Meu marido e meu filho esto mortos e preciso v-los!
- Sei o que aconteceu, mas se a senhora sair do hospital sem ordem mdica, estar se colocando em perigo e poder morrer tambm...
- Isso seria muito bom! Como posso continuar vivendo sem eles?
- Ainda tem dois filhos que esto vivos...
Olmpia, que a tudo acompanhava, jogou luzes sobre Raquel que continuou chorando. O mdico entrou no quarto e, pegando a ficha que estava no p da cama, perguntou:
- Como est dona Raquel?
- De sade estou muito bem, posso ir para casa, para junto do meu marido e do meu filho!
- Como lhe disse, hoje no pode sair. Teria de ficar alguns dias aqui no hospital, at que no tivesse mais perigo algum para sua sade, mas, diante do que aconteceu, 
vou permitir que saia amanh cedo, com tempo de ir ao enterro de seus entes queridos, mas, at l, no posso permitir.
- Eu quero ir agora!
- Est bem, vou esperar mais algum tempo, se a senhora se acalmar, vou permitir.
O mdico anotou alguma coisa na ficha, olhou para a enfermeira e saiu. A enfermeira olhou a ficha e tambm saiu. Voltou algum tempo depois e deu um comprimido para 
que Raquel tomasse. A princpio, Raquel no queria tomar, mas a enfermeira disse:
- Este comprimido vai ajud-la a ficar bem.
Vendo que no havia outro jeito, Raquel tomou e, em poucos minutos, voltou a dormir. Olmpia e Samuel permaneceram ao seu lado. Enquanto isso, Norberto e Lia, aps 
perguntarem aqui e ali, conseguiram chegar ao Instituto Mdico Legal, onde, aps receberem os documentos que se encontravam em um dos bolsos de Francisco, foram 
informados dos procedimentos que deveriam seguir. Ao chegarem  funerria, foram informados dos gastos que teriam. Aps saber o valor, Norberto disse:
- Lia, vamos at l fora, precisamos conversar.
Lia sabia o motivo daquilo e acompanhou o marido. J l fora, ele disse:
- Como vamos fazer, Lia? No temos esse dinheiro...
- Sei disso, Norberto, mas no podemos deixar de enterr-los.
- Ser que a Raquel tem esse dinheiro?
- No sei. Como todos os homens fazem, Francisco deve ter sido sempre quem cuidou do dinheiro.
- No sei como fazer, Lia.
- D um cheque, vamos para casa e l conversaremos com alguns vizinhos, talvez possam nos ajudar. Todos conheciam Francisco e gostavam muito dele. Depois, quando 
a Raquel sair do hospital, veremos se ela tem esse dinheiro e devolveremos a todos.
- Est certa, Lia. Vamos fazer isso. E se os vizinhos no puderem ou no quiserem ajudar?
- No sei Norberto. A nica coisa que sei  que eles precisam ser enterrados. Entre, d o cheque e veremos o que vai acontecer.
Foi o que fizeram. Escolheram tudo o que era necessrio para um enterro decente. Norberto deu um cheque e saram. Assim que chegaram a casa, Lia conversou com Tereza 
que, aps ver a nota fiscal com o valor que havia sido pago, disse:
- Vou conversar com Manuel, sei que, apesar de ser como  no vai se recusar. Ele conhecia Francisco e, apesar de ter alguma restrio por ele deixar Raquel trabalhar, 
gostava dele. Vamos fazer uma lista e percorrer as casas dos vizinhos. Acredito que ningum vai se negar. Todos esto entristecidos e inconformados com o que aconteceu.
Foi o que fizeram. Norberto foi o primeiro a assinar. Depois, Lia e Tereza saram, foram conversar com os vizinhos que tambm assinaram.  tarde, j tinham o dinheiro 
necessrio. Norberto foi ao banco e depositou. Raquel, no hospital, passou o tempo todo dormindo. O mdico achou necessrio para que ela, no dia seguinte, pudesse 
sair. Com a ajuda de Lia e de Tereza, funcionrios da funerria prepararam a sala de Raquel para receber os corpos que chegaram  noitinha. Alguns dos vizinhos, 
ao lado de Tereza, Lia, Norberto e Manuel permaneceram ali, durante toda a noite. No dia seguinte, antes das sete horas, Lia e Norberto saram acompanhados pelo 
motorista de txi que havia se comprometido a lev-los, sem cobrar, at o hospital. Assim que chegaram, perguntaram por Raquel. Foram informados de que ela estava 
no quarto, esperando-os para ir embora. Eles tomaram o elevador. Raquel, aps passar o resto do dia e a noite toda dormindo, estava desperta. O mdico chegou cedo 
e foi at o seu quarto. Disse:
- Dona Raquel, vou dar alta para a senhora para que possa ir ao enterro, mas se sentir qualquer coisa, quero que volte imediatamente.
- Est bem, doutor. Vou fazer isso, mas, por favor, deixe que eu v embora. Preciso ver o meu marido e o meu filho.
- Fique calma. A senhora vai, mas no se esquea de que est em recuperao e que precisa se cuidar. No pode se esquecer de que ainda tem dois filhos para criar. 
A senhora poder ir embora, mas a criana, no.
- Por qu? Ele no est bem? Tem algum problema?
- No tem problema algum e est muito bem e, para que continue assim, sem problema, precisa ficar mais alguns dias para ser monitorado. Daqui a trs dias, se estiver 
tudo bem com ele, poder lev-lo embora.
- Est bem, doutor, e obrigada...
- V com Deus. A senhora vai ter de ser muito forte. Tenha f... Lgrimas surgiram nos olhos dela, mas ficou calada.
Em seguida, Lia e Norberto entraram no quarto. Pegaram a maleta que estava pronta. Raquel se despediu das companheiras e saram. Ao chegar a sua casa e ao ver as 
duas urnas morturias, Raquel estremeceu e se encaminhou para elas. Todos esperavam para ver qual seria sua reao. Ela se aproximou, olhou para o corpo de Francisco, 
depois para o de Mauro e permaneceu parada sem reao alguma, apenas olhando e pensando: Isso no pode ter acontecido. Devo estar sonhando. Como vou continuar vivendo 
sem vocs? O que vai ser da minha vida? Como isso pde acontecer? Onde est Deus? O que fiz para merecer isto! Algumas pessoas estranharam aquela atitude. Pensavam 
que ela iria se desesperar, chorar e gritar. Agiram assim, porque no sabiam que ali, junto  Raquel, estavam Olmpia, Samuel e outras entidades que jogavam luzes 
de tranqilidade sobre ela. Aps ficar ali, olhando para as urnas, Raquel se voltou para Lia que estava ao seu lado e perguntou:
- Onde est o Moacir?
- Est com Tereza. Achamos melhor no deix-lo ver o pai e o irmo dessa maneira. Ele  ainda muito pequeno.
- Fizeram bem, Lia. Obrigada.
- Nem sei como agradecer. Vocs so minhas amigas de verdade. Lia ficou calada, apenas sorriu.
Raquel voltou a olhar para Francisco: Como isso foi acontecer, Francisco. Voc  to jovem. Disse que tnhamos muito tempo para termos a nossa menina. Agora est 
a, tudo terminou. Por que Deus teve de tirar vocs dois? Sonhei tanto em ver Mauro crescer, ter sua famlia. No entendo... No consigo entender... Raquel, devido 
aos remdios que havia tomado, no estava em seu estado normal. No sei, acho que estou sonhando. Isso no pode estar acontecendo. Sei que, a qualquer momento, vou 
acordar... Ela permaneceu ali o tempo todo. Lia tentou fazer com que ela sasse, mas ela no aceitou:
- Voc precisa se alimentar Raquel. Est fraca.
- No, Lia, no estou com vontade. Quero ficar ao lado deles at o ltimo minuto. Sei que, depois de hoje, nunca mais voltarei a v-los...
- Isso no  verdade, Raquel.
Ao ouvir aquilo, Raquel se voltou e viu Catarina, a me de Martin, que acabava de chegar. Ela continuou falando:
- Assim que Martin me contou o que aconteceu, vim para c.
- Obrigada, dona Catarina.
- Ouvi o que voc disse Raquel, e volto a dizer que no  verdade. Voc ainda vai ver o seu marido e seu filho. Eles apenas morreram.
Ao ouvir aquilo, Raquel ficou nervosa:
- Como vou ver? A senhora acaba de dizer que eles apenas morreram?
-  verdade, Raquel. Eles apenas morreram, mas isso no quer dizer que nunca mais os ver. Como todos ns, um dia, morreremos tambm, podemos dizer que s foram 
na nossa frente e que um dia voc os reencontrar. O caminho de todos  o mesmo, Raquel. Alguns vo antes, outros depois, mas, um dia, todos iremos, no h como 
escapar.
- Quem pode ter certeza disso? Nem mesmo sabemos se a morte no  o fim de tudo! A nica coisa que sei  que meu marido e meu filho esto a nesses caixes e que 
sero enterrados! S isso, dona Catarina! O resto  s conversa!
- No, Raquel, isso no  verdade. Deus no nos criaria para vivermos apenas por alguns anos. Somos espritos eternos e cada um de ns tem um tempo para viver aqui 
na Terra. Quando esse tempo termina, voltamos para o nosso verdadeiro lar.
Raquel, nervosa a ponto de estourar, falou:
- A senhora est to calma e dizendo isso, porque no  seu filho nem seu marido que esto mortos! Se fosse, sei que agiria de maneira diferente e no aceitaria 
com tanta naturalidade uma conversa como essa! Esse Deus de que fala certamente no deve existir e, se existir,  muito mau! Por favor, dona Catarina, me deixe sozinha! 
No venha com essa conversa!
Catarina entendeu o momento e se calou. Voltou-se para as urnas e, fechando os olhos, pensou: Sei que aqui esto somente os corpos, pois os espritos j devem ter 
sido levados. Que Deus os proteja nessa viagem. S posso vibrar carinho para os dois e dizer um at breve. Tambm agradeo queles que os esto conduzindo. Embora 
tenha permanecido ali at a hora do enterro, Catarina evitou falar com Raquel, que, por sua vez, permaneceu ao lado das urnas, olhando para os corpos. s duas horas 
da tarde, os corpos foram levados e sepultados. Raquel, cercada de muita luz enviada por Olmpia, Samuel e outros espritos que ali estavam, acompanhou com lgrimas 
nos olhos, mas parecendo calma, o que, para muitos, foi motivo de surpresa. Aps o enterro, vizinhos e parentes se aproximaram de Raquel, abraando-a com carinho. 
Ela, ainda parecendo sonhar, aceitou os cumprimentos. Depois, amparada por Lia e Norberto, foi para casa. Ao chegar  sua casa, entrou. Foi para o quarto onde Mauro 
dormia, olhou para sua cama e, a, sim, comeou a chorar. Sentou-se na cama e relembrou os momentos em que outras vezes havia sentado para acordar o menino ou fazer 
com que dormisse. Meu filho, isso no est acontecendo. No pode estar acontecendo... Ficou l por muito tempo, depois, ainda chorando, foi para seu quarto e sentou-se 
sobre a cama. Lia e Norberto a tudo acompanhavam. Em silncio, respeitavam aquele momento. Depois de algum tempo, Lia perguntou:
- Raquel, quer que eu fique aqui com voc?
- No, Lia obrigada. Estou cansada e me sentindo fraca. Acho que preciso comer alguma coisa e, depois, dormir um pouco. Prefiro que voc e Tereza cuidem do Moacir. 
Vou ficar agradecida, sinto que no tenho condies nem vontade de cuidar dele.
- No tem vontade?
- Infelizmente, no, Lia. Nem sei se ainda quero cuidar dele e do menino que nasceu, j que, a qualquer momento, podem morrer...
- No fale assim, Raquel. So duas crianas lindas e precisam da me.
- Sei que, para a sociedade, eu precisaria demonstrar outra maneira de ser, mas no posso, Lia. No posso dizer a voc o que estou sentindo, neste momento, porque 
nem eu mesma me entendo. S sei que no tenho vontade de ficar com meus filhos. Tenho medo de que morram tambm...
- Isso no vai acontecer, Raquel.
- Como pode saber, Lia? Hoje, pela manh, eu estava feliz, esperando meu marido chegar para que visse o nosso filho e ele no chegou! Ele foi embora para nunca mais 
voltar! Meu filho foi com ele! Como posso continuar vivendo? Sei que vai dizer que  para cuidar dos outros que me restaram, mas e se eles morrerem tambm? No quero, 
Lia, no quero sofrer mais!
- Isso no vai acontecer, Raquel! Seus filhos vo crescer e se tornaro homens de bem. Sei que ser muito feliz ainda.  jovem, tem uma vida inteira pela frente. 
Por ora, no se preocupe com Moacir. Eu e a Tereza cuidaremos dele, mas acho que no pode ficar sozinha. No est em condies...
- Est com medo de que eu me mate? No precisa ter esse medo, no vou me matar. Sou covarde para isso. Vou ter de continuar vivendo, mas agirei diferente. No vou 
mais ser aquela me extremosa, no vou!
- Voc est nervosa e no sabe o que est dizendo. Daqui a alguns dias, voltar ao normal.
- Tomara, Lia, tomara...
- Est mesmo bem? Quer mesmo ficar sozinha?
- Quero, Lia. No se preocupe no vou me matar, apenas quero dormir, somente isso.
- Est bem. Preciso ir ajudar Tereza. Ela deve estar maluca cuidando do Moacir. Sabe como ele  terrvel! Ela no est mais acostumada com criana pequena. Os filhos 
dela j esto grandes.
- Pode ir. Quando eu acordar, vou estar melhor e vou at l...
- Antes de dormir, precisa comer. Vou at a casa da Tereza para ver se ela tem alguma coisa para voc comer. Estou fora de casa desde ontem, no preparei nada.
Ela estava saindo quando Tereza entrou:
- Como voc est Raquel?
- Um pouco tonta, achando ainda que tudo no passou de um sonho ruim.
- Essa tontura deve ser por ter acabado de dar  luz e tambm por estar sem comer. Eu trouxe um pouco de comida. No  l grande coisa, mas foi o que fiz para o 
nosso jantar.
- No estou com fome, Tereza.
- Com fome ou no, precisa comer. Venha, vamos at a cozinha. Na cozinha, sentaram-se.
- A comida est aqui, Raquel. Coma logo aproveite que ainda est quente.
Raquel olhou para o prato que ela lhe mostrava. A aparncia e o cheiro estavam bons, mas ela no sentia fome. Sabendo que elas no a deixariam em paz enquanto no 
comesse, pegou um garfo e conseguiu comer um pouco. Quando terminou de comer, olhou para Tereza que disse:
- Agora que comeu, j pode se deitar e tentar dormir.
Lia sorriu, beijou a testa de Raquel e saiu acompanhada por Norberto e Tereza que, assim como ela, estavam preocupados. Raquel deitou-se e, exausta, pouco depois, 
adormeceu.

ATRAINDO COMPANHIA

Olmpia, ao ver que Raquel havia adormecido, ficou, por um tempo, ao seu lado, jogando luzes de paz e de amor. Samuel, que havia se a instado, voltou e perguntou:
- Como ela est Olmpia?
- Pode imaginar Samuel. No est aceitando nem entendendo o que aconteceu.
- Isso era de se esperar. O importante  que, agora, ela consiga continuar sua vida sem Francisco. Ela no sabe, mas ele a acompanhou nesta jornada, apenas para 
coloc-la em condies de seguir sozinha.
- Espero que consiga Samuel. Gostaria de poder interferir e ajud-la.
- Sabe que no pode Olmpia. No pode interferir nas escolhas que ela far. Isso depende somente dela.
- Neste momento, Samuel, como ela pode decidir? No tem condies.
- Ela ter todo o tempo de que precisar. Voc sabe que nosso Pai no tem pressa. Tudo o que est acontecendo estava previsto. Ela sabia e aceitou antes de renascer. 
Ela mesma, ao nosso lado, planejou como seria sua encarnao, como fazem todos os espritos, antes de nascer.
- Sei disso, Samuel, mas, quando encarnados, tudo  diferente,  mais difcil.
- Sabemos disso, Olmpia, mas nada  impossvel. Estamos aqui e ficaremos ao lado dela at o ltimo momento. Usaremos de todas as maneiras para ajud-la sem, contudo, 
interferir nas suas escolhas.
- Sabe como amo essa menina.
- Ns a amamos, Olmpia. Por isso, ficaremos ao seu lado, torcendo para que faa as escolhas certas.
- Acha que devemos acord-la agora, Samuel?
- No, Olmpia. Ela no est em condies de nos ouvir. Alm do mais, seu corpo precisa de descanso. No se esquea de que ela acabou de dar  luz.
-  verdade, Samuel. Marcos ser mais uma prova a qual precisar vencer.
- A maior das provas. Tomara que, desta vez, consiga. Eles vivero juntos e o mais importante  que haja o resgate e o perdo.
- Essa  a parte mais difcil, no , Samuel?
-  sim, Olmpia, mas, com a nossa ajuda, no ser impossvel.
- Francisco e Mauro, como esto?
- Por ora, esto dormindo. Sabemos que, a princpio, no entendero, mas no estaro sozinhos. Seus amigos estaro velando por eles.
- Inclusive ns, no ?
-  isso mesmo, Olmpia. Inclusive, e principalmente, ns. 
Olmpia olhou para Raquel, sorriu e disse:
- Est passando por um momento difcil, minha filha, mas logo tudo passar e voc ficar bem. Neste momento, tomara que consiga fazer a escolha certa. Eu gostaria 
de poder interferir, mas no posso. Todos tm o seu livre-arbtrio e ele pertence a cada um.
-  verdade, Olmpia. Embora, muitas vezes, sintamos vontade de interferir, no podemos. Podemos, sim, ficar ao lado dela, enviando-lhe bons pensamentos que, infelizmente, 
nem sempre so ouvidos, mas  tudo o que podemos fazer.
- Ela vai ter dificuldade, Samuel. Afinal, acabou de perder o marido e o filho. No  fcil aceitar.
- Voc tem razo, Olmpia. Ns sabemos que tudo estava previsto, que tanto Francisco como Mauro renasceram para ficarem ao lado dela at que estivesse pronta para 
continuar. Eles, embora no precisassem, aceitaram de bom grado renascer. Agora, o tempo chegou. Ela est em condies de fazer suas escolhas e eles puderam voltar 
para casa e continuar com seus prprios projetos.
- Voc sabe que no  fcil. Ns sabemos de tudo isso, mas Raquel no. Sabe que, quando o esprito vive na carne, esquece-se de seus compromissos e das escolhas 
feitas antes de renascer.
-  verdade, mas, esquecendo-se ou no, o planejado ser cumprido. Agora, preciso ir embora. Quero estar ao lado de Francisco e de Mauro, quando acordarem.
- Faa isso, Samuel. Eu continuarei aqui ao lado dela.
Ele sorriu, olhou mais uma vez para Raquel que dormia e foi embora. Olmpia olhou novamente para Raquel: Vou ficar sempre ao seu lado, minha filha, e farei tudo 
o que estiver ao meu alcance para que consiga vencer. Embora dormindo, Raquel sentiu um bem-estar enorme, sorriu, virou-se na cama e se acomodou sob as cobertas. 
Olmpia permaneceu ali. Raquel dormiu profundamente e s acordou s onze horas daquela noite. Aos poucos, lembrou-se do que havia acontecido. Olhou para o lado da 
cama onde Francisco dormia. Lgrimas surgiram em seus olhos. Por que isso aconteceu, Francisco? Por que voc teve de me deixar? Depois de tanto tempo de vida juntos 
e de tanta felicidade. Voc foi o melhor marido que uma mulher poderia desejar. Por que nosso Mauro teve de morrer tambm? No entendo por que Deus est me castigando 
dessa maneira. No sou uma pessoa ruim, sempre me preocupei somente com a nossa vida e a dos nossos filhos. No sei o que vai ser da minha vida... No sei se ainda 
quero continuar vivendo... Levantou-se, foi at a cozinha, olhou para o fogo e viu que algumas brasas ainda ardiam e que, ao lado, havia uma chaleira com gua quente. 
Pegou um pouco de ch que estava dentro de um pote sobre uma prateleira. Colocou em uma xcara e jogou gua quente por cima. Adoou e, com a xcara na mo, foi at 
o quarto de Mauro. Olhou para a cama e para alguns brinquedos que estavam espalhados pelo cho. Chorando, comeou a recolh-los. Meu filho, voc era uma criana 
to boa e linda. Por que isso teve de acontecer? Eu tinha feito tantos planos para voc. Queria que crescesse, queria que se casasse e que tivesse muitos filhos. 
Nada disso ser possvel. Por qu? Por qu? Ficou ali por algum tempo, chorando e lembrando-se das coisas que ele falava e de como ria e a abraava. No quero mais 
viver sem voc e sem o seu pai. No quero acompanhar o crescimento de seus irmos. Tenho medo de que, a qualquer momento, possam morrer como aconteceu com vocs... 
Voltou para o seu quarto, deitou-se. Olmpia, que acompanhou todos os seus passos, voltou a jogar luzes brancas e Raquel dormiu quase que imediatamente. No dia seguinte, 
um pouco depois das sete horas, ela acordou. Levantou-se. Foi para a cozinha, avivou as brasas de carvo e colocou gua para ferver. Enquanto a gua esquentava, 
ela se sentou em uma cadeira: Sei que o certo seria ir buscar Moacir, mas no estou em condies de cuidar dele. Vou pedir  Lia para ficar com ele, por hoje. Amanh, 
talvez eu me sinta melhor. A gua ferveu, coou o caf, pegou um pedao de po que estava sobre a mesa, esquentou na brasa do fogo, passou manteiga, comeu e bebeu 
o caf. Depois, voltou para seu quarto e deitou-se novamente. Ficou deitada de costas, olhando para o teto. No consigo entender nem me conformar, Francisco. Logo 
agora que a marcenaria ia to bem e que voc estava com tantos projetos. Como tudo pde acabar assim to de repente? Estava assim, pensando, quando Lia chegou com 
Moacir. Como a porta da cozinha estava aberta, chamou:
- Raquel?
Raquel, ao ouvir, levantou-se e foi at ela:
- Bom dia, Raquel. Desculpe por eu ter vindo to cedo, mas Moacir acordou e quis ver voc.
- Bom dia, Lia. No se preocupe pelo horrio, eu estava acordada. Olhou para Moacir, abriu os braos. O menino correu para ela, que o abraou fazendo um esforo 
imenso para no chorar.
- J tomou caf?
- J, me. A dona Lia me deu.
- Que bom.
O menino se afastou da me e foi para o quarto de Mauro. Voltou em seguida:
- Mame, onde est o Mauro e o nenm que a senhora foi comprar? 
Lia olhou para Raquel que disse:
- O Mauro foi viajar com o papai e o nenm ainda est no hospital. Quando o mdico deixar, eu vou busc-lo.
- Como  o nome dele?
- Marcos. Ele vai brincar com voc.
O menino, calado, foi para seu quarto, pegou um brinquedo e comeou a brincar. Lia, segurando no brao de Raquel, perguntou:
- Como voc est Raquel?
- Pode imaginar, Lia. Completamente perdida.
- Logo voc vai voltar ao normal. Falando nisso, Norberto quer saber como vai ficar a marcenaria.
- No sei, Lia. No estou interessada, no quero saber. Ele, se quiser, continue trabalhando.
- No pode ser assim, Raquel. Voc precisa assumir o lugar do Francisco.
- No quero saber, Lia. No quero mais nada!
- Voc tem dinheiro?
- No sei. Quem cuidava disso era Francisco.
- Precisa saber Raquel.
- Para qu?
- Para cuidar da sua vida e da dos seus filhos. Voc ajudava Francisco, precisa continuar ajudando Norberto. Ele sabe trabalhar como marceneiro, mas no sabe vender. 
Voc sabe e sempre foi muito trabalhadeira.
- Para que trabalhei tanto, Lia? Para que meu marido e filho morressem? No sei se vale  pena tanto sacrifcio.
- Claro que vale Raquel. Seu marido e seu filho morreram, mas restaram Moacir e Marcos. Eles precisam viver e cabe a voc fazer com que isso acontea.
- No tenho mais foras. Estou cansada. Para ser sincera, a nica coisa que quero neste momento,  morrer tambm.
- No fale assim. Voc precisa cuidar de seus filhos.
- Ser que voc pode me fazer um favor, Lia?
- Pode falar.
- Poderia ficar com Moacir por alguns dias. Preciso ficar sozinha, preciso pensar...
- No tenho problema algum em cuidar do Moacir. Sabe que, como no tenho filhos, adoro os seus, mas acho que no  bom, para voc, ficar sozinha.
- No se preocupe comigo, Lia. No vou fazer loucura alguma. S preciso de um tempo para poder pensar e ver que rumo vou dar  minha vida.
- Est bem, eu vou cuidar dele. Quando voc pode ir buscar o nenm no hospital?
- O mdico disse que ele precisa ficar por trs dias e que depois, se tudo estiver bem, posso traz-lo.
- Tudo isso?
- Tambm achei muito, mas acho que ele fez isso, por saber o que aconteceu e que eu no estaria em condies de cuidar de um recm-nascido.
- Deve ter sido isso, mesmo. Est bem. Vou cuidar do Moacir por esses dias, Mas, quando o nenm chegar, voc vai precisar cuidar dele.
- Vou fazer isso...
- S temos um problema, Raquel.
- Qual?
- Moacir no vai querer ficar comigo. Hoje, pela manh, quando acordou, chorou que queria voc.
- Vou conversar com ele.
Assim dizendo, foi at o quarto onde Moacir brincava.
- Moacir, a mame precisa conversar com voc.
O menino largou o carrinho com o qual estava brincando, olhou para a me e ficou esperando.
- Moacir, a mame vai ter de fazer uma viagem e voc vai ficar com a Lia e a Tereza.
- Eu no posso ir junto?
- No, meu filho. Eu vou para muito longe e voc ia ficar muito cansado.
- A senhora vai demorar?
- No, s alguns dias.
O menino quis chorar, mas Lia pegou-o no colo:
- No precisa chorar Moacir. Eu e voc vamos passear e brincar muito. Vou fazer aquele bolo de que voc tanto gosta.
O menino, ao lembrar-se do bolo, sorriu.
Raquel olhou para Lia que sorriu e, voltando-se para o menino, disse:
- Vamos, Moacir? Vamos fazer o bolo?
O menino estendeu a mo que ela pegou e saram. Raquel ficou olhando-os sair. Depois, foi at o fogo, pegou um pouco de caf e foi para o quarto. Deitou-se e comeou 
a chorar. Sob a interferncia de Olmpia, voltou a dormir. Daquele dia em diante, ela s fazia isso. Chorava e dormia. Olmpia, preocupada, continuou ao seu lado. 
Dois dias se passaram. Lia, para evitar que Moacir soubesse que ela estava em casa, no foi at l. Raquel acordou quase s dez horas. Foi at a cozinha, tomou um 
copo de gua e voltou para a cama. Olmpia, preocupada com Raquel, foi at a casa de Lia que, enquanto Moacir brincava no quintal, conversava com Tereza. Olmpia 
se aproximou, estendeu a mo sobre elas e falou:
- Raquel no est bem. Vocs precisam ir at l. 
Como elas estavam conversando, a princpio no ouviram. Olmpia repetiu vrias vezes, at que Lia disse:
- Como ser que a Raquel est Tereza? 
- No sei. Voc disse que ela queria ficar sozinha, por isso no fui at l.
- Estou com pressentimento de que ela no est bem. Voc pode ficar com Moacir para que eu possa ir at l e ver como ela est?
- Claro que posso, Lia. Tambm estou preocupada!
- Vou agora mesmo.
Ela saiu apressada. Assim que chegou, ficou assustada. A casa estava escura, pois Raquel no havia aberto as janelas. A porta estava fechada. Nervosa, bateu com 
fora. Bateu vrias vezes at que Raquel, que dormia, ouviu, levantou-se e abriu a porta.
- Puxa Raquel, estava preocupada!
- Preocupada por que, Lia? 
- Voc demorou em abrir a porta! 
Raquel sorriu:
- Pensou que eu estivesse morta?
- Para ser sincera, pensei, sim.
- Infelizmente, no estou, Lia. Estava apenas descansando.
Lia olhou em volta e viu que a pia estava com muita loua suja e o fogo com as brasas apagadas.
- Raquel, no estou vendo comida. Voc comeu alguma coisa?
- Claro que comi.
- Comeu o qu?
- Po com manteiga - mentiu.
- S isso?
- No tenho sentido fome.
- No pode continuar assim. Esta casa est cheirando mal e voc tambm. Tomou banho?
- No, acho que esqueci.
- Vou acender o fogo, esquentar gua e voc vai tomar um banho agora!
- No precisa se preocupar Lia. Vou fazer isso. Estou cansada, tambm acabei de ter uma criana. Isso  normal.
- No  normal, Raquel! No vou embora, antes que tome banho!
- No fique preocupada, Lia, estou bem.
- No est no, Raquel! Depois que eu acender o fogo e enquanto toma banho, vou at a minha casa pegar um prato com comida e trazer para voc. Precisa se alimentar!
Raquel, conhecendo-a e sabendo que no a deixaria em paz, concordou:
- Est bem, Lia, vou ajudar voc.
Enquanto Lia acendia o fogo, Raquel foi at o poo de gua, desceu um balde que estava preso em uma corda e trouxe gua para cima. Encheu uma lata que estava ali 
e entrou em casa. O fogo, embora aceso, ainda no estava em brasa. Lia ajudou Raquel com a lata que foi colocada sobre o fogo que ardia. Enquanto a gua esquentava, 
Lia abriu as janelas da casa, pegou uma vassoura e disse:
- Vamos dar uma limpada nesta casa, Raquel.
Enquanto Lia varria a casa, Raquel, a contragosto, lavava a loua que estava sobre a pia e a mesa. Antes de terminarem, a gua estava quente. Lia pegou uma bacia 
grande que estava no banheiro, colocou gua quente.
- Agora pode tomar banho, Raquel. Vou at em casa e, quando eu voltar, voc vai comer!
Raquel entrou no banheiro, tirou a roupa e comeou a tomar banho. Quando Lia voltou, trazia um prato com comida e Raquel j havia tomado banho, trocado de roupa 
e estava penteando os cabelos longos.
- Agora, sim, voc est com aparncia de gente, Raquel!
- Estou me sentindo bem, Lia, e com fome!
- Ento, coma, no  muito, apenas arroz, feijo e um pedao de carne que cozinhei.
- Est timo, Lia! Obrigada!
Raquel estava mentindo, no se sentia bem nem estava com fome, mas se esforou para que Lia fosse embora. Foi o que aconteceu. Lia, ao ver que Raquel estava comendo 
e parecendo bem, disse:
- Parece que voc est bem. Preciso ir embora, deixei Moacir com a Tereza.
- Como ele est?
- Esta bem, pergunta sempre por voc e eu respondo que vai voltar logo.
- Amanh, acho que vou estar bem, a, vou busc-lo.
- No tenha pressa. Somente se cuide para retomar sua vida. 
- Obrigada por tudo o que est fazendo, Lia.
- No precisa agradecer amigo  para essas horas, no ? 
Raquel no respondeu, apenas sorriu. Assim que Lia saiu, Raquel largou o prato com comida, fechou as janelas da casa, voltou para o quarto e se deitou. No mesmo 
instante, deitaram-se ao seu lado dois vultos de mulher que, chorando, diziam:
- Ela no pode estar bem. O seu marido morreu e o filho tambm. Coitada...
- Tem razo, como pode estar bem? Eu sei como  esse sofrimento. Tambm perdi meu marido. Ele morreu antes de mim e no consigo encontr-lo. Precisamos ficar ao 
lado dela para que possa sofrer, assim como ns...
-  verdade. Tambm estou procurando meu filho.  Voc perdeu seu marido e eu que perdi o meu filho? No existe dor maior do que essa...
- Tem razo. Ela est sofrendo assim como ns. Vamos ficar aqui junto dela.
Imediatamente, uma nuvem negra envolveu todo o quarto e, principalmente, Raquel, que comeou a chorar e a pensar: No posso ficar bem. Meu marido e meu filho foram 
arrancados de mim! Olmpia, ao ver aquilo, tentou jogar luzes para limpar o ambiente, mas no conseguiu. A nuvem negra era espessa demais e no permitia que as luzes 
a atravessassem. Desesperada, pensou em Samuel, que chegou imediatamente e, ao ver Raquel cercada por aquela nuvem densa, preocupado, perguntou:
- O que aconteceu aqui, Olmpia?
- Raquel se entregou  tristeza, ao inconformismo e atraiu essas duas irms que, como ela, esto tristes. Envolveram-na completamente e eu no estou conseguindo 
afast-las. Estou com medo de que elas consigam induzi-la ao suicdio.
- Isso era de se esperar. Raquel deveria fazer uma escolha e escolheu. Voc sabe que, em casos assim, muito pouco podemos fazer. Somente Raquel poder reagir contra 
a tristeza, o inconformismo e a depresso. No se esquea da Lei do livre-arbtrio, Olmpia.
- s vezes, acho que essa Lei  injusta, Samuel.
- O que est dizendo, Olmpia?
- Isso que voc ouviu. Muitas vezes essa Lei  injusta.
- Por que voc a acha injusta, Olmpia?
- Na situao em que Raquel se encontra depois de tudo o que aconteceu, de ter perdido o marido e o filho, como se pode exigir que ela no fique triste, no se entregue 
ao desespero e, conseqentemente,  depresso?
- No estou entendendo o que est dizendo, Olmpia. Voc sabe que ela no perdeu o marido e o filho. Sabe que eles viveram ao lado dela o tempo necessrio. Eles 
esto vivos espiritualmente e logo podero visit-la. Sabe que, um dia, ela os reencontrar e que, por enquanto, ela precisar seguir sozinha para resgatar seus 
enganos passados. Sabe que eles renasceram apenas para coloc-la no caminho.
- Vivendo no plano espiritual, aqui onde vivemos,  fcil entender, mas, quando se est encarnado,  difcil, Samuel. No consigo me esquecer de que, quando vivi 
do outro lado, sofri e tive dificuldade para aceitar as coisas que me aconteceram. No podemos nos comparar com os encarnados, eles no tm o mesmo conhecimento 
que ns.
-  exatamente por, quando encarnados, no termos conhecimento que conseguimos vencer as nossas fraquezas com a liberdade de escolhas. No existe Lei mais justa 
do que essa, Olmpia. Raquel est, sim, passando por momentos difceis e, por isso, atraiu outros espritos que, assim como ela, no aceitaram passar por aquilo 
que eles mesmos escolheram antes de renascer. No aceitaram, quando encarnados, e trouxeram consigo o sofrimento e a depresso, por isso, continuam vagando sem seguir, 
sem aprender e sem se preparar para uma nova encarnao. Cabe  Raquel, somente a ela, conseguir reagir e afastar essa companhia. Quanto a voc, pelo que est pensando, 
 necessrio que reflita como esprito conhecedor das Leis Divinas e ajude no s  Raquel, mas a essas duas irms que tambm esto perdidas e sofrendo.
- Sabe que me comprometi a ficar ao lado de Raquel durante toda sua encarnao, mas no sei se estou preparada. Existem coisas que no consigo aceitar.
- Nossas dvidas nunca terminam Olmpia. O esprito encarnado, ou no,  um eterno insatisfeito. Est sempre  procura de mais respostas, portanto, de mais conhecimento.
- Voc acha que, por causa das minhas dvidas, no estou conseguindo atingir Raquel com minhas luzes?
- Por que est me perguntando isso, Olmpia?
- Porque, se eu no puder ajud-la, preciso de uma reciclagem, acho melhor que outro venha e permanea ao seu lado.
- No, Olmpia, no existe outro melhor do que voc para ficar ao lado de Raquel. Nas condies em que ela se encontra, luz alguma conseguir ultrapassar essa nuvem 
negra e densa. Precisamos encontrar outra maneira de atingi-la.
- Que maneira, Samuel?
- Ela no consegue nos ouvir. Suas energias esto bloqueadas, precisamos de energia mais densa que s um esprito encarnado possui.
- Est pensando em usar um encarnado para conversar com ela?
- Isso mesmo. Fique aqui. Vou a um lugar. Conheo um esprito que est encarnado, mas possui todas as qualidades para fazer esse trabalho. Ele poder ajudar no 
s a Raquel, mas tambm a essas duas Irms. Enquanto eu no voltar, continue tentando fazer com que sua luz chegue at elas.
- Est bem, vou fazer isso.
Samuel sorriu e, com a ponta do dedo, enviou um beijo para Olmpia e desapareceu. Ela olhou para as trs que estavam unidas e ficou enviando luzes.
 
ESCLARECIMENTO

O escritrio de Martin ficava ao lado da casa de sua me, por isso, todos os dias, ele almoava com ela. Quando chegou, a comida j estava pronta e a mesa colocada. 
Ele sentou-se e comeou a comer. No mesmo instante, Samuel chegou e estendeu a mo em direo  Catarina, que perguntou:
- Tem notcias de Raquel, Martin?
- No, mame. No tive tempo de ir at l, mas deve estar bem, ela  forte.
Ainda sob a influncia de Samuel, ela continuou:
- Estou pensando muito nela. Estou sentindo que preciso fazer uma visita para ver como ela est.
- J conheo esses sentimentos, mame - ele disse, rindo.
- Tambm conheo, por isso preciso me apressar. Assim que terminarmos de almoar, vou at a casa dela.
- Faa isso, mame, depois me conte o que aconteceu.
- Vou contar.
Terminaram de almoar, Catarina nem tirou a mesa e saiu junto com Martin que foi para o escritrio, enquanto ela tomava um nibus. Samuel voltou para junto de Olmpia 
e de Raquel:
- Como ela est Olmpia?
- Da mesma maneira, Samuel. Est totalmente envolvida pelas energias de tristeza, abandono e revolta que so dela, mas, muito mais, dos espritos das mulheres que 
a esto acompanhando. Ela no nos ouve, mas ouve a elas. Estou preocupada, pois, se continuar assim, talvez perca totalmente a conscincia, no consiga voltar ao 
que era e, portanto, no poder continuar esta encarnao, o que seria uma pena.
- Voc est certa, mas no perca a f. Raquel, muitas vezes, j demonstrou a sua fora. Ela s est passando por um momento ruim, mas, com a nossa ajuda, vai se 
recuperar. Como ela est envolvida por essa energia e no consegue nos ouvir, pedi  Catarina para que viesse. Ela deve estar chegando e, sob nossa influncia, Raquel 
a ouvir.
- Eu no conheo Catarina, Samuel.
- Sei disso, mas ela j me ajudou muitas vezes. Ela  muito dedicada.
- Estou curiosa. Quero conhec-la.
- Espere s mais um pouco. Ela est chegando.
- Meia hora depois, Catarina chegou ao porto da casa de Raquel. Bateu palmas vrias vezes, mas ningum atendeu.
Empurrou o porto e ele se abriu. Entrou e caminhou at a porta principal da casa, bateu. Raquel ouviu, ia se levantar, mas uma das mulheres disse:
- No se levante! Voc no quer falar com ningum! Est muito bem aqui na cama! Fique quieta, pois s assim poder ter calma e paz...
Raquel aconchegou-se sob o lenol e fechou os olhos. Catarina insistiu, batendo vrias vezes. Vendo que Raquel no atendia, pensou: Ela no deve estar em casa. Vou 
embora e voltarei outra hora. Voltou-se para sair, quando Samuel e Olmpia estenderam as mos sobre ela. Samuel disse:
- No v embora, Catarina. Ela est em casa.
Catarina olhou para a maaneta da porta e tentou abrir. A porta que Lia havia deixado destrancada se abriu. Catarina entrou, chamando:
- Raquel! Voc est em casa?
Sob a influncia das duas mulheres, Raquel no respondeu e fingiu dormir. Catarina caminhou pela casa e chegou ao quarto. Foi at a cama e, com a voz baixa, chamou:
- Raquel... Raquel...
As entidades tentaram afastar Catarina, mas a sua prpria luz junto com as luzes de Samuel e Olmpia as jogaram para longe. Elas, assustadas, encostaram-se em uma 
das paredes e ficaram observando. Catarina voltou a chamar:
- Raquel... Voc est dormindo?
Raquel, percebendo que ela no iria embora, abriu os olhos.
- Acordei dona Catarina, mas o que est fazendo aqui?
- Vim fazer uma visita para voc e ver como est.
- No precisava, dona Catarina, estou bem.
- Por que est deitada a esta hora do dia?
Raquel ficou nervosa, sentou-se na cama e, com a voz rspida, respondeu:
- Estou cansada! S fico bem quando estou dormindo, pois assim no penso em tudo o que aconteceu!
Catarina olhou em volta, no viu, mas sentiu que ali havia entidades com energias pesadas. Com a voz calma, antes de responder, pensou: Voc no est sozinha, Raquel. 
Depois disse:
- Tem razo, Raquel. Voc tem motivos para esquecer e sofrer. Eu diria at para no continuar vivendo...
Olmpia, ao ouvir aquilo, arregalou os olhos:
- O que ela est falando, Samuel? Ela est louca? Samuel comeou a rir.
- Voc est h pouco tempo fazendo esse tipo de trabalho, por isso no conhece a maneira como Catarina age.
Catarina que, embora no os visse, sabia que estava sendo protegida por espritos de luz, continuou falando:
- Voc tem motivo para querer dormir e esquecer o que aconteceu, Raquel.
- A senhora acha isso, mesmo? No vai dizer que eu tenho de me conformar com o que aconteceu? Que devo continuar a minha vicia, que tenho dois filhos para cuidar, 
como todos falam?
- No, Raquel, no vou falar isso. S estou aqui para ver como voc est.
- Ainda bem, dona Catarina. No agento mais ouvir as pessoas dizerem que est tudo bem, quando, na realidade, nada est bem!
- Claro que no est, mas poder ficar pior, no ?
- Como pior?
- Nada, s pensei algo, mas foi bobagem.
- Agora estou curiosa, a senhora precisa me contar o que pensou.
- No foi nada, Raquel. Sabe que moro longe daqui, almocei e ai em seguida sem tomar caf. Voc tem caf coado?
- Tenho, mas nem me lembro quando coei, se a senhora quiser, posso coar um fresco.
- Se fizer isso, vou ficar agradecida. Costumo tomar caf e, se no tomar, vou ficar com dor de cabea.
- Est bem, vou coar. Vamos at a cozinha?
As entidades novamente tentaram se aproximar. Uma delas gritou:
- No faa isso, Raquel! No se levante! Ela est enganando voc!
Raquel, cercada pela energia de Catarina e dos outros, no as ouviu. Levantou-se, passou as mos pelos cabelos, empurrando-os para trs, e, acompanhada por Catarina, 
caminhou em direo  cozinha. As entidades, ainda tentando falar com Raquel, as acompanharam e, na cozinha, ficaram encostadas em uma das paredes. Na cozinha, Raquel 
viu que o fogo estava apagado.
- Vai demorar um pouco, dona Catarina, preciso acender o fogo.
- No se preocupe com isso, Raquel. Tenho todo o tempo que for preciso.
Raquel sorriu. Pegou alguns pedaos de carvo, colocou no fogo, jogou um pouco de lcool e acendeu. A chama, a princpio, ficou alta, depois, foi se apagando e 
o carvo foi se transformado em brasa. Raquel colocou a chaleira sobre o fogo e disse:
- Logo a gua vai ferver.
- Vamos esperar Raquel. Enquanto isso, no quer se sentar? Podemos conversar um pouco.
Raquel se sentou. Catarina olhou dentro de seus olhos e disse:
- Voc tem razo em no querer ouvir as pessoas dizendo que deve se conformar e continuar com sua vida. Voc precisa entend-las, Raquel. Elas, por mais que tentem, 
no conseguiro entender a enorme dor que voc est sentindo.
-  isso, dona Catarina! Ningum pode imaginar! Como posso seguir a minha vida sem Francisco? Sem meu filho?
-  difcil mesmo, Raquel. Acho que tem direito de sofrer o quanto quiser. Deve ficar em casa sem querer conversar com ningum e deve ficar chorando, derramar todas 
as lgrimas, at que elas sequem.
Olmpia, a cada palavra de Catarina, olhava para Samuel com os olhos arregalados.
- Voc no pode deixar que ela continue falando, Samuel! Ela no est ajudando, est incentivando Raquel a continuar da maneira como ela est e ns sabemos que no 
 bom para ela, que s vai lhe fazer mal...
Samuel voltou a sorrir.
- Continue ouvindo, Olmpia. 
Raquel, confusa, perguntou:
- A senhora est me dando razo, dona Catarina?
- Estou Raquel. Assim como as outras pessoas, por mais que tente, no consigo imaginar o que est sentindo. Dever ser uma dor muito grande, mesmo...
- Pois  como posso agir da maneira que querem? Agir como se nada houvesse acontecido? As pessoas no entendem que perdi meu marido e meu filho!
- Ser que perdeu, mesmo, Raquel?
- Claro que sim! Sei que a senhora vai me dizer que no esto perdidos, que poderei v-los um dia, quando morrer, mas no acredito nisso!  tudo conversa de religio!
- No estou aqui para falar em religio nem para tentar convencer voc de coisa alguma. Estou aqui somente para ver como voc est.
Raquel ficou nervosa:
- Ainda bem, dona Catarina. Pois, por mais que algum tente, no vai conseguir me convencer de que preciso me conformar! Eu nunca vou me conformar! Nunca!
- E no deve mesmo, Raquel! Como pode se conformar com uma injustia igual a essa?
Olmpia, ao ouvir aquilo, com fora, apertou o brao de Samuel:
- Ela no pode falar isso, Samuel!
- Calma Olmpia. Catarina ainda no se despediu, no foi embora. Olmpia, nervosa, olhou para as entidades que riam satisfeitas.
Uma disse para a outra:
- Viu Maria, estamos certas! Fizemos bem em nunca termos nos conformado!
- Olhe o que Catarina est fazendo, Samuel! Alm de no ajudar Raquel, est dando a entender a essas entidades que a acompanham que esto certas, quando, ao contrrio, 
devia aproveitar este momento e ajudar a todas elas!
- J disse que voc precisa ter calma, Olmpia. Vamos esperar e ver o que acontece.
Catarina continuou:
- Estou pensando em algumas coisas que Martin me contou a respeito de Francisco.
Raquel, surpresa, olhou para ela e perguntou:
- Martin falava a respeito de Francisco?
- Muito. Ele admirava a dedicao dele e sempre falava como era trabalhador e que ele no se importava de trabalhar dia e noite, desde que conseguisse dar a voc 
e s crianas uma boa vida.
- Isso  verdade...
- Disse que Francisco tambm admirava muito a voc.
- A mim, como?
- Ele dizia que voc, alm de ser uma tima esposa, era tambm uma companheira para todos os momentos e que fazia de tudo para ajud-lo. Dizia que voc era forte, 
decidida e que devia  sua ajuda o sucesso da marcenaria. Disse a Martin que, sem voc, ele no conseguiria, que, mesmo quando voc no estava trabalhando, sempre 
o incentivava.
Raquel voltou a chorar:
- Ele  quem foi um marido maravilhoso, dona Catarina...
- Que fez de tudo para que voc e as crianas fossem felizes...
- Por isso no  justo ele ter morrido da maneira como morreu!
- Pode no ser justo, mas ele morreu Raquel, e isso no pode ser mudado.
- Sei que no pode ser mudado, mas no me conformo...
- Eu tambm, na sua situao, no sei se me conformaria, mas quem somos ns para entendermos os motivos de Deus.
Raquel ficou furiosa:
- Que Deus, dona Catarina? Como um Deus pode fazer uma maldade igual a essa? Matar um homem que vivia somente para sua famlia? Que Deus  esse que permitiu que 
meu filhinho morresse com toda a vida pela frente? No, dona Catarina. Sempre fui uma pessoa religiosa e temente a Deus, mas hoje, nem sei se acredito que exista, 
realmente, um Deus!
- Se pensarmos dessa maneira, voc tem razo, Raquel. Deus no deve existir mesmo...
Olmpia, nervosa, apertou o brao de Samuel mais uma vez. Ele olhou para ela e sorriu. Raquel, ao ouvir aquilo, disse:
- A senhora concorda comigo? Tambm acha que Deus no existe?
As entidades ficaram olhando firmemente para Catarina, esperando sua resposta.
- Eu disse que, se pensarmos da maneira como voc est pensando, Raquel...
- Existe outra maneira de se pensar?
- Eu penso diferente.
- Como  senhora pensa?
- Para responder a essa pergunta, eu precisaria falar da Doutrina que sigo h muito tempo e, como voc disse, isso no interessa a voc e no  por esse motivo que 
estou aqui.
- Mesmo assim, gostaria de saber o que a senhora pensa.
- Diante do que aprendi e acredito, Deus  o nosso criador e nos ama muito. Para mim, somos espritos devedores e errantes, caminhando em direo  Luz Divina, em 
busca do amanh.
- O que a senhora est querendo dizer? No estou entendendo.
- Voc disse que  religiosa, portanto deve acreditar que temos um esprito ou alma, no ?
- Acredito.
- Acreditando nisso, deve pensar no que acontece com nosso esprito, quando morremos.
- Sim, vamos para o cu, para o inferno ou para o purgatrio.
- Eu penso diferente, mas no tem importncia. O importante  que sabemos que nosso esprito vai para algum lugar e ficar l, no ?
Raquel no respondeu, apenas acenou com a cabea.
- Sendo assim, se o esprito vai para algum lugar e permanece ali, quando morrermos iremos ao seu encontro.
- Isso  teoria, a senhora no pode provar.
- Talvez no, mas  nisso que acredito.
- E se no existir tudo isso? E se, quando morrermos, tudo se acabar e no restar nada?
- Se isso acontecer,  porque nada do que aceitarmos existe realmente, nem sequer Deus.
- Deus existe!
- Claro que existe! Sendo assim, j acreditamos que Deus existe. Voc acha que ele nos criaria para vivermos apenas alguns anos aqui na Terra e depois nos destruiria?
Novamente, Raquel no respondeu, apenas ficou pensando.
- Voc acha que Deus se daria a todo esse trabalho de nos criar para nada?
Raquel continuou pensando.
- Por isso, eu acredito que Deus  um pai amoroso e que nos ama muito. J ouviu sobre a parbola dos talentos, no ouviu?
- Sim, ouvi muitas vezes.
- Na parbola, um senhor, como ia viajar, deu a trs servos moedas com a liberdade de que gastassem como quisessem e, quando voltasse, viria o resultado, o que eles 
haviam feito com a moeda. Os dois primeiros servos saram e dobraram as moedas. O terceiro escondeu. Quando o senhor voltou, ao ver o resultado, parabenizou os dois 
primeiros por terem dobrado as moedas e criticou o outro por estar com a primeira moeda sem dobr-la.
- O que tem a ver isso com o que estamos conversando, dona Catarina?
- Quando Deus nos criou nos deu um esprito e a liberdade para fazermos o que quisssemos com ele. Nascemos e renascemos vrias vezes e a cada encarnao temos a 
oportunidade de dobrarmos o nosso conhecimento a respeito da Luz, e do grande amor de Deus para conosco. Alguns fazem isso, desenvolvem suas qualidades, aprendem 
o valor do amor para com seus irmos e, principalmente, a perdoar. Com isso, o esprito vai criando Luz e retornando para o Pai. Outros, no. Assim como aquele servo 
que escondeu a moeda, tambm se escondem, e insistem em permanecer cultivando o dio, a inveja e tantos outros sentimentos que fazem mal.
- Tudo isso  muito complicado, dona Catarina.
- O esprito, ao ser criado, inicia uma jornada. Durante essa jornada, vai convivendo com outros e criando inimigos, mas, principalmente amigos que, muitas vezes, 
embora tenham sua prpria luz, para ajudar um amigo, aceitam renascer, mesmo sem precisar, e ficam ao lado do amigo pelo tempo que for necessrio, at que seu amigo 
possa continuar sozinho. Quando esse tempo termina, ele volta para o caminho interrompido e segue evoluindo, sem perder de vista o amigo que deixou encarnado.
- A senhora est dizendo que Francisco e Mauro renasceram somente para me ajudar e que por essa ajuda no ser mais necessria, eles morreram?
- No sei Raquel. Somente estou dizendo a voc o que aprendi e no que acredito.
- Isso que est dizendo no pode ser verdade, dona Catarina. Eu, sem Francisco e sem Mauro, no estou pronta para seguir sozinha! Como vou continuar vivendo sem 
eles?
- ... Acho que voc tem razo...  difcil mesmo... 
Olmpia, que ouvia com ateno tudo o que Catarina falava, ao ouvi-la dizer isso, novamente apertou o brao de Samuel, que fingiu no sentir. Catarina continuou:
- Vamos mudar de assunto, Raquel?
- Acho bom, dona Catarina, essa sua conversa no est me ajudando.
- Eu disse a voc que  no que eu acredito voc no precisa acreditar, Raquel. Mas, mudando de assunto, voc viu que, desde que a guerra terminou, muitas pessoas 
esto vindo da Europa para viver aqui?
-  verdade, tambm com a guerra, a Europa ficou destruda...
-  verdade. A guerra, como sempre, s causa dor e sofrimento. Por causa da destruio, famlias inteiras tm chegado, outras pessoas vem sozinhas, principalmente 
os homens. Acho quem eles vm sozinhos para tentar encontrar um emprego, conseguir uma casa para que, assim, a famlia possa vir tambm.
-  isso mesmo que deve acontecer, dona Catarina.
- Vamos imaginar que Francisco e seu filho, por um motivo qualquer, fossem obrigados a ir para um pas distante com a promessa de que, assim que Francisco conseguisse 
um emprego, uma casa, voc poderia ir at l. O que voc faria?
- Eu ficaria esperando que ele me chamasse.
- Ficaria chorando, se lamentando? No teria de sobreviver, at que ele a chamasse?
Raquel pensou um pouco e respondeu:
- Claro que eu precisaria sobreviver, portanto, teria de trabalhar.
- Tambm acho. Se fizer de conta que Francisco foi para um pas distante e que, a qualquer momento, voc ir ao seu encontro, vai ficar chorando, se lamentando at 
esse dia chegar?
- Francisco e meu filho no foram para um pas distante, dona Catarina, eles morreram!
-  verdade. Eles morreram, mas de acordo com o que voc me disse, quando morremos vamos para o cu, para o inferno ou o purgatrio, no foi o que disse?
- Sei, foi o que eu disse...
- Portanto, Raquel, eles devem estar em algum lugar distante de voc, no ?
- Pensando-se dessa maneira, esto, mas nunca voltaro!
- Sim,  verdade, eles no voltaro, mas voc, um dia, ir encontr-los, pois todos ns, um dia, morreremos tambm, no  verdade?
Raquel voltou a pensar naquelas palavras e respondeu:
-  verdade...
- Ento, Raquel, eles apenas foram  sua frente...
- No posso dizer que o que est dizendo no  verdade... 
Catarina, feliz por estar conseguindo falar, continuou:
- Conhecendo Francisco como voc conhece, sabe que ele s iria para um pas distante, sabendo que voc ficaria bem. Voc acha que ele teria tranqilidade para conseguir 
encontrar um emprego ou conseguiria uma casa para vocs, se soubesse que voc, ao invs de trabalhar para sustentar seus dois filhos que ficaram ao seu lado, estivesse 
chorando e se lamentando?
- O que a senhora est falando, dona Catarina?
- Isso mesmo o que voc ouviu. Como acha que Francisco est ao ver voc da maneira como est? Ele, que sempre a admirou, que sabe que voc tem condies para seguir 
sua vida e dar aos filhos que no viajaram com ele todo carinho, amor e uma vida decente?
Raquel voltou a chorar:
- Como vou conseguir fazer isso, dona Catarina?
- Martin sempre disse que voc  uma mulher decidida, que muito do sucesso da marcenaria se deve a voc e ao seu trabalho. Portanto, Raquel, at que o dia de reencontrar 
Francisco chegue voc deve e pode assumir a marcenaria e continuar tocando sua vida. Voc pode Raquel! Sabe como fazer, mesmo que no soubesse, aprenderia. Deus, 
nosso Pai, nunca abandona seus filhos. Ele sempre esteve e estar ao seu lado. Levante-se, assuma sua vida, seus filhos, para que, quando chegar o dia de reencontrar 
Francisco, esteja feliz, com sua misso cumprida e para que ele tambm possa encontrar um trabalho e construir uma casa para vocs.
Raquel caiu em prantos. Catarina continuou:
- Chore Raquel. Chore at que suas lgrimas sequem para nunca mais chorar.
Raquel chorou por alguns minutos, depois, secou os olhos com as mos, olhou para Catarina e falou:
- Obrigada, dona Catarina, por me fazer ver a vida como ela . No posso decepcionar Francisco. Vou, agora mesmo, buscar Moacir que est na casa da Lia, mais tarde 
vou ao hospital visitar meu Marcos que acabou de nascer e, amanh, o mdico disse que ele pode vir para casa e  isso que vou fazer traz-lo. Vou conversar com Norberto 
e trabalhar mais ainda na marcenaria. Vou fazer tudo o que for possvel para criar bem as minhas crianas.
- Faa isso, Raquel. Voc vai conseguir muito mais do que imagina.
Raquel sorriu. Samuel sorriu, estendeu as mos sobre Catarina e disse:
- H duas irms que tambm precisam da sua ajuda. Catarina, embora no tivesse ouvido o que ele disse, captou a mensagem e falou:
- Sabe, Raquel, que muitas pessoas no aceitam quando seus entes queridos morrem, passam o resto da vida chorando e se lamentando. Quando morrem, ao invs de reencontr-los, 
continuam chorando e se lamentando. Ficam vagando de um lugar para outro sem conseguir encontr-los. Se aceitassem que tudo acontece como tem de ser e se entregassem 
 vontade Superior, poderiam olhar ao lado e poderiam v-los, pois sempre estiveram ao lado daqueles que deixaram.
As entidades ouviram aquilo. Olharam uma para a outra e comearam a chorar, s que, desta vez, no era de tristeza, mas de esperana. Aos poucos, aquela nuvem negra 
e densa que as cercava comeou a se desfazer e elas, chorando ainda mais, enxergaram seus entes queridos que, tambm chorando e sorrindo, as abraaram. Ficaram abraados 
por algum tempo, depois os dois olharam para Catarina e, agradecendo, desapareceram, levando com eles aqueles espritos que at aquele momento caminhavam sem destino 
e sem motivo para sofrer. Catarina sorriu. Olmpia voltou a arregalar os olhos e a apertar o brao de Samuel, que, sorrindo feliz, disse:
- No falei para voc ter pacincia, Olmpia? Voc no conhecia Catarina, eu, sim.
Raquel levantou-se da cadeira em que estava sentada e, sorrindo, disse:
- Desculpe dona Catarina, mas preciso ir at a casa da Lia pegar Moacir.
- Tambm preciso ir embora, Raquel. Fiquei mais tempo de que podia. Tenho muito que fazer, l em casa. Hoje  dia de faxina. Deixei pela metade.
Raquel acompanhou-a at o porto. Despediram-se e cada uma foi para um lado. Enquanto caminhava, Catarina respirou fundo, olhou para cu e pensou: Obrigada, meu 
Deus, por ter inspirado as minhas palavras. Olmpia e Samuel tambm sorriram e acompanharam Raquel. Enquanto Moacir brincava com um carrinho feito de madeira por 
Francisco, Tereza lavava roupa no tanque e conversava com Lia:
- Como est a Raquel, Lia?
- No est bem. Est desinteressada de tudo, at dos filhos.
- Precisamos entender que ela passou por um momento muito difcil. J se colocou no seu lugar, Lia?
- No e nem imagino o que faria se algo acontecesse com Norberto.
- Apesar de meu marido ser da maneira como , tambm no me imagino ficar sem ele.
-  verdade. Tomara que ela se conforte e volte a ser a mesma mulher de antes. Ela tem dois filhos para criar e, agora, ter de fazer isso sozinha.
- Tomara que sim.
Lia olhou para o lugar onde Moacir brincava e se admirou ao ver que ele no estava mais l. Olhou para o porto e viu Raquel que abraava e beijava o filho.
- Olhe Tereza! Raquel est aqui!
Tereza olhou e, sorrindo, enxugou as mos no avental. As duas foram ao encontro de Raquel que estava com Moacir no colo.
- Raquel! Que bom que saiu daquela casa!
-  verdade, Lia. Estou bem. Claro que no totalmente, mas agora, tenho claro que preciso continuar minha vida, criar meus filhos, para, um dia reencontrar Francisco 
e Mauro. Eles devem estar em algum lugar e olhando por mim. Afinal, um dia tambm vamos morrer, no  verdade?
Tereza olhou para Lia que tambm a olhava:
-  isso mesmo, Raquel. Todos vamos, um dia, mas, enquanto esse dia no chegar, precisamos cuidar da nossa vida.
-  verdade, Tereza. Vamos cuidar da nossa vida. Lia, precisamos conversar. Sei que preciso recomear e que, para isso, vou precisar da sua ajuda e da de Norberto.
- No se preocupe com isso, Raquel. Vamos fazer tudo o que for preciso para que voc e as crianas fiquem bem.
- Sei disso. Agora, vou at o hospital visitar o Marcos e, amanh, de acordo com o que o mdico falou, j posso traz-lo para casa.
- Vai poder, sim. Amanh, ele ter quatro dias de nascido. Voc  quem precisa se cuidar.
- No se preocupe comigo, estou bem, Lia, mas ainda vou precisar da sua ajuda.
- Minha ajuda?
- Sim, como vou para o hospital, no poderei levar Moacir. Pode ficar com ele mais um pouco?
- Claro que sim, Raquel. Eu adoro essa criana.
- Obrigada mais uma vez, Lia.
Raquel pegou Moacir no colo e, beijando-o, disse:
- Moacir, a mame vai buscar o nenm que nasceu. Voc vai poder brincar com ele.
O menino olhou para a me e continuou brincando. Raquel despediu-se das amigas. Acompanhada por Olmpia, foi embora. Assim que chegou ao hospital, foi at o berrio, 
pelo vidro, viu Marcos, depois foi falar com o mdico.
- Como est o meu menino, doutor?
- Est bem.  um menino muito forte.
- Posso lev-lo?
- Antes, preciso saber se a senhora est bem, se no est sentindo coisa alguma. Sabe que saiu do hospital antes do tempo.
- Estou bem. Com tudo o que aconteceu, at me esqueci de que deveria estar de resguardo, mas estou bem.
- A senhora est em condies de cuidar dele? Sabe que no  a norma, mas, diante do que aconteceu, se quiser, pode deixar que ele fique por mais alguns dias.
- Obrigada, doutor, mas estou bem e preciso retomar minha vida. Como o senhor disse, tenho duas crianas para cuidar. Eu gostaria se fosse possvel, de lev-lo hoje. 
Moro longe e  difcil chegar aqui. Levando hoje, no precisarei voltar amanh.
- Fico feliz em ver que est bem e que sabe o que quer e precisa fazer. S posso desejar que tudo d certo. Seu menino est muito bem. Com este papel, pode ir at 
o berrio que a enfermeira vai entreg-lo  senhora. Aqui, tambm, h uma receita de como deve cuidar dele nos primeiros dias e o horrio da mamada. No se esquea 
de que, embora esteja passando por um momento ruim, outros melhores viro.
- Obrigada, doutor. Preciso passar por este momento e tenho f que outros melhores viro.
Foi at o berrio. Pegou o menino, olhou para a enfermeira e, sorrindo, foi embora. Tomou dois nibus e, finalmente, chegou  casa de Lia para pegar Moacir. Entrou 
no corredor e parou em frente  casa de Tereza. Bateu  porta. Tereza ouviu e abriu a porta:
- J chegou Raquel?
- Sim e aqui est o meu menino!
Tereza pegou o menino no colo:
- Ele  lindo, Raquel! Parece forte tambm!
- Ele  lindo, sim, e o mdico disse que est bem. Agora, vou at a casa da Lia pegar o Moacir. Vou lev-los para casa. Ainda preciso arrumar o bero para poder 
deitar o nenm. Como sa s pressas para o hospital, Francisco ia arrumar tudo para a minha volta, mas...
Tereza percebeu que uma lgrima surgia nos olhos de Raquel.
- Acho que no tenho muito que fazer para ajudar voc, mas, se precisar e quiser, posso ir com voc.
- Obrigada, Tereza, mas no precisa. Preciso assumir minha vida totalmente.
Lia ouviu as duas conversando e saiu de casa. Ao ver Marcos no colo de Tereza, correu para o lado dela e pegou o menino.
- Ele  grande, Raquel!
- , sim, e muito forte tambm. Vim pegar o Moacir, Lia.
- Ele est dormindo. Venha at em casa, precisamos conversar. Raquel olhou para Tereza, que sorriu:
- Obrigada por tudo o que fizeram por mim. No sei o que teria feito se no tivesse vocs. Vamos para sua casa, Lia. Estou morrendo de vontade de tomar um caf. 
Depois, preciso ir para casa preparar o jantar.
- Vamos, sim. Falando em jantar, estive pensando. No precisa fazer o jantar. O meu j est quase pronto. Pode jantar aqui em casa e, depois, poder conversar com 
Norberto.
- Obrigada, Lia. Nem sei se tenho algo para cozinhar. Preciso muito conversar com Norberto.
Entraram em casa. Enquanto Lia temperava o feijo, Raquel comeou a lavar alface para a salada. Conversaram sobre Marcos e como ele estava bem. Eram quase sete horas, 
quando Norberto chegou. Admirou-se por ver Raquel ali.
- Boa noite, Raquel!
- Boa noite, Norberto. Lia me convidou para o jantar.
- Fez bem. Como voc est?
- Estou bem. V at o quarto, tem uma surpresa para voc. Ele entrou no quarto e, ao ver Marcos, ficou parado, olhando de longe, sem coragem de pegar o menino. Raquel 
e Lia estavam ao seu lado. Ele olhou para elas e disse, admirado:
- Ele  grande, Raquel!
- , sim, e muito bonito tambm, no ?
-  lindo!
- Que bom que est aqui, Raquel. Precisava conversar com voc. Estou preocupado.
- Preocupado com o qu?
- Deixem essa conversa para depois do jantar. Agora, vamos comer.
Voltaram para a cozinha. Lia, tendo Raquel como ajudante, colocou a comida sobre a mesa e sentaram-se ao redor dela. Aps o jantar, Lia retirou a loua de sobre 
a mesa e, enquanto tomavam caf, Raquel perguntou:
- Voc disse que est preocupado, por que, Norberto?
- Sabe que sou marceneiro, um bom marceneiro, no sabe?
- Claro que sei, mas por que est me perguntando isso?
- Porque, embora seja um bom marceneiro, no sei vender, conversar com os clientes, cuidar das contas, compras e pagamentos. Quem sempre fez isso foi o Francisco. 
Estou terminando algumas encomendas, mas, depois que as entregar, no sei como vai ficar a marcenaria.
Raquel olhou para Lia, que disse:
- Voc  capaz de fazer isso, Raquel! Fez muitas vendas!
- Talvez at possa. Preciso confessar que gostei muito de fazer isso.
- Ento, voc pode assumir o lugar de Francisco. Comear a vender e a cuidar de tudo o mais.
- Como vou fazer isso, Lia? Tenho duas crianas pequenas...
- Norberto havia conversado comigo e fiquei pensando. Se voc quiser trabalhar, posso cuidar das crianas. Para mim ser um prazer. Sabe como adoro crianas, principalmente 
os seus filhos.
- Com Moacir tudo bem, mas preciso amamentar o nenm.
- Tambm pensei nisso, Raquel. Voc no precisa trabalhar o dia todo. Pode trabalhar s pela manh ou pela tarde. Se for pela manh, voc o amamenta antes de sair 
e deixa uma mamadeira com leite e eu dou trs horas depois. Quando voltar para a hora do almoo, amamenta novamente. S no sei se o leite pode ser guardado.
- No sei, Lia. No hospital, o mdico deu um horrio para que eu amamentasse o nenm. Disse, tambm, que preciso lev-lo a um pronto-socorro para cuidar das vacinas. 
Estou pensando em fazer isso amanh. Eu disse a ele que no queria voltar amanh, mas, diante do que conversamos,  melhor eu ir para tirarmos nossas dvidas. Assim 
saberemos.
- Faa isso, Raquel. Se o leite puder ser guardado, tudo vai ficar mais fcil. Eu coloco a mamadeira em uma panela com gua fria.
Raquel ficou parada com olhar distante, apenas pensando. Depois, disse:
- Com a ajuda de vocs, acho que pode ser. Vamos experimentar. Agora, preciso ir embora. Os meninos precisam dormir. Isto , se Marcos deixar. Todos sabem que um 
recm-nascido no gosta de dormir  noite.
- J ouvi falar, Raquel, mas nunca passei por isso.
- Eu j, Lia. Eu j...
Raquel foi at o quarto, pegou Marcos, Norberto tentou acordar Moacir, mas no conseguiu. Precisou lev-lo no colo. Saram e caminharam para a casa de Raquel. Enquanto 
caminhavam, Raquel foi pensando. Assim que entraram, Raquel foi at seu quarto, colocou Marcos no bero que Francisco havia feito e apontou para sua cama, onde Norberto 
colocou Moacir, que ainda dormia. Depois, foram para a cozinha. Raquel disse:
- Enquanto caminhvamos, pensei em algo.
- Em que, Raquel?
- Sabem que Francisco construiu um quarto que seria usado por Moacir e por Marcos. O outro ficaria para Mauro. Se vamos fazer o que planejamos, se vou precisar me 
ausentar e voc, Lia, vai cuidar das crianas, por que no se mudam para c? Assim tudo seria mais fcil. Sabem que, para eu chegar logo que o comrcio abre, preciso 
me levantar muito cedo. No acho justo ter de acordar as crianas. Morando aqui, esse no seria um problema.
Norberto olhou para Lia que pensou por um momento e disse:
- Acho que pode dar certo, Norberto. Alm do mais, no precisaramos pagar aluguel, no , Raquel?
Rindo, Raquel acenou com a cabea, dizendo que no.
- Economizando esse dinheiro, poderemos, um dia, comprar a nossa casa. O que voc acha Norberto?
- Voc  quem precisa decidir, Lia. Voc  quem vai cuidar das crianas.
- Vamos tentar Raquel. Acho que vai dar certo. Norberto, voc precisa conversar com Manuel e dizer a ele que vamos nos mudar.
- Est bem. Vocs decidem. Ele j deve ter chegado do trabalho e, se no estiver brigando, o que  raro, converso com ele agora mesmo.
Raquel disse:
- De qualquer maneira, amanh, vou acordar cedo, levo as crianas e vou para a marcenaria, Norberto. Preciso ver como esto s contas e tudo o mais. A propsito, 
quem pagou pelo enterro, vocs?
- No, Raquel. Eu no tinha dinheiro. Fiz uma lista e todos os vizinhos daqui e da marcenaria ajudaram.
- Fizeram isso?
- No sei por que essa admirao, Raquel. Todos gostavam muito de Francisco e sentiram o que aconteceu com ele.
Raquel sentiu que um n se formava em sua na garganta, engoliu seco e disse:
- Ele era maravilhoso mesmo. Voc tem essa lista, Norberto?
- Sim, mas no se preocupe as pessoas no querem o dinheiro de volta.
- Sei disso, mas preciso agradecer e, mesmo que no queiram, arrumarei uma maneira de devolver.
- Voc  quem sabe.
Assim que eles saram, Raquel voltou para a casa e foi para seu quarto. Olhou para as crianas que dormiam. Uma lgrima surgiu em seus olhos. Com a mo, enxugou-a 
e se esforou para no chorar. Pensou: Francisco, no entendo por que voc teve de ir embora to cedo e na minha frente... No entendo por que fiquei com essas crianas 
para cuidar, s sei que no h outro caminho. Prometo que vou fazer todo o possvel para que elas sejam felizes. De onde est, por favor, me ajude... Deus me ajude 
a cumprir esta misso.
Preparou-se para dormir e, abraando Moacir, aos poucos adormeceu.

CAMINHOS QUE SE ABREM

No dia seguinte, Lia acompanhou Norberto at o porto. Quando Voltava pelo corredor, Tereza apareceu na porta:
- Bom dia, Lia.
- Bom dia, Tereza.
- Ontem o Norberto conversou com Manuel. Vocs vo, mesmo, se mudar?
- Vamos, sim, Tereza. Raquel precisa trabalhar e eu vou cuidar das crianas. Morando com ela, meu trabalho ser mais fcil e as crianas no precisaro sair de casa.
- Voc tem razo. Coitada da Raquel est mesmo precisando de ajuda.
- Est mesmo...
- Por outro lado, morando com ela, vocs vo economizar o aluguel, no ?
Lia percebeu a ironia de Tereza e, rindo, respondeu:
-  verdade, vou unir o til ao agradvel. 
Tereza, irnica, sorriu. Lia continuou:
- Estou estranhando que Raquel ainda no tenha chegado. Ela disse que ia cedo para a marcenaria.
- Ser que aconteceu alguma coisa, Lia?
- No sei... Vou at l.
- V sim, quando voltar, me conte o que aconteceu.
Lia, preocupada, foi at a casa de Raquel. Abriu o porto e entrou. Est tudo em silncio. Ser que ela ainda est dormindo? No!  muito tarde. Ainda mais com um 
menino recm-nascido. Ser que devo bater na porta? No, vou embora e, se ela no for l a casa, daqui  uma hora eu volto. Estava saindo, quando ouviu o choro de 
Marcos. Voltou-se e foi at a porta. Bateu de leve. Raquel, com olheiras profundas e segurando Marcos no colo, abriu a porta. 
- Bom dia, Raquel. Estava preocupada, voc disse que ia acordar Cedo.
Raquel riu:
- Bom dia, Lia. Ontem, quando fizemos os planos para hoje, nos esquecemos de que eu tinha um recm-nascido e que eles odeiam dormir a noite. Depois que vocs foram 
embora, me deitei e dormi por mais ou menos quinze minutos. Da para frente, Marcos comeou a chorar por de tudo, mas ele s foi adormecer, novamente, s cinco horas 
da manh. Exausta, deitei-me e adormeci. Acordei s agora, com o choro dele. Vamos ter de refazer os nossos planos. No h como eu sair pela manh, somente quando 
passarem esses primeiros meses e ele tiver uma vida normal. Por enquanto, s poderei sair  tarde,
- Como nunca tive filhos, nem imagino o que pode ser.
- Eu sabia, Lia, apenas esqueci. A criana, quando nasce, at que todas as suas funes sejam formadas, sofre muito. Ns, as mes, tambm, mas passa em dois ou trs 
meses, s precisamos de muita pacincia.
- Por mim, no haver problema algum, Raquel. Posso cuidar deles, na hora que voc quiser.
- Obrigada, Lia. No sei o que faria se no fosse sua ajuda e a de Norberto.
- No estamos fazendo nada demais, Raquel. Afinal, somos seus amigos e voc precisa de ajuda para cuidar dessas crianas, que so lindas. Tenho f que voc vai conseguir 
dar a elas tudo do precisam.
- Pelo menos vou tentar.
- Vai conseguir Raquel!
Marcos chorava mais alto.
- Agora preciso cuidar dele, Lia.
- Quer que eu leve Moacir comigo? 
- No sei como ele consegue, mas ainda est dormindo. Depois, se voc ficar com ele, vai ser bom, pois pretendo ir at o hospital e consultar o nenm. Se o leite 
puder ser guardado, vai dar tudo certo. Agora, venha comigo at o quarto. Vou amamentar este comilo.
Lia riu e acompanhou Raquel que, sentando-se sobre a cama, comeou a alimentar Marcos que chupava o leite com muita fora. Raquel, de vez em quando, apertava os 
olhos e fazia uma careta. Lia estranhou:
- Por que est apertando os olhos e fazendo essa careta, Raquel? Est sentindo alguma coisa?
- Sempre que ele mama, sinto muita dor no peito, mas isso tambm faz parte da maternidade - disse rindo.
Lia, sem imaginar a dor que ela sentia, sorriu e disse:
- Ontem, Norberto conversou com Manuel e ele permitiu que mudssemos.
- Que bom. Quando vocs vm?
- Hoje ou amanh.
- Que bom, Lia.
- Como Moacir ainda est dormindo, antes de sair, leve-o l para casa. Pode ir tranqila, eu dou almoo. Agora, vou aproveitar para preparar minha mudana.
- Faa isso, Lia e, mais uma vez, obrigada por tudo o que esto fazendo por mim.
Lia ficou calada e, acenando com a mo, saiu. Raquel continuou dando de mamar para Marcos. Olmpia, que estava ali, percebeu que ela comeou a se lembrar de tudo 
o que havia acontecido e que ia chorar. Estendeu suas mos para ela e para Moacir que dormia ao seu lado. No mesmo instante, uma luz muito branca e imensa iluminou 
todo o quarto. Raquel sentiu-se bem. Moacir acordou:
- Mame, sonhei com Mauro. Brinquei muito com ele. Onde ele est?
Raquel ficou calada por algum tempo, Olmpia aumentou sua luz. Raquel, sob sua influncia, respondeu:
- Ele e o papai foram para o cu.
- Esto morando em uma estrela? 
Raquel no pde deixar de sorrir:
- Isso mesmo, meu filho. Eles esto morando em uma estrela...
- Ns tambm vamos morar com eles l na estrela?
- Um dia, sim, mas, antes, voc vai crescer estudar, depois, vai se casar e ter uma poro de filhos...
- Vai demorar muito!
- No vai, no. O tempo passa depressa. Preciso conversar com voc sobre uma coisa.
- Que coisa?
- Como o papai no est mais aqui, a mame precisa trabalhar.
- Por qu?
- Para poder comprar roupas e dar comida para voc e para o nenm.
- Ele no precisa de comida, ele est mamando!
Ela, rindo, disse:
- Ele est mamando porque  muito pequeno, mas logo vai querer comer de verdade. Por isso, a mame precisa trabalhar. A Lia e o Norberto esto se mudando para c 
e ela vai cuidar de voc e do nenm. Tem algum problema?
- Eu quero ir trabalhar tambm.
- No pode meu filho, ao menos por enquanto, quando crescer, vai trabalhar muito. Agora voc s precisa brincar.
- Vai demorar muito para eu crescer?
- No, Moacir. Logo voc vai ser grande como o papai. Agora, preciso levar o nenm ao mdico e voc vai ficar na casa da Lia.
- Eu gosto de ficar na dona Lia, mas queria ir ao mdico tambm. Estou com dor de barriga.
Raquel sorriu.
- Hoje no posso levar voc. O mdico s atende nenm e voc j  grande, mas, amanh, se a dor continuar, eu levo s voc. Est bem assim?
No estava bem, mas ele sabia que a me no o levaria. Respondeu:
- Est...
Raquel arrumou a casa rapidamente, deu banho e trocou os filhos, colocou em uma sacola tudo o que precisaria levar. Com Marcos no colo, segurou a mo de Moacir e 
se encaminhou para a casa de Lia. Ao passar pelo local onde havia acontecido o acidente, sentiu um caroo na garganta. Ia comear a chorar, mas Olmpia, que estava 
ao seu lado, estendeu a mo sobre ela e sobre as crianas. Moacir disse:
- Mame, me deixa eu ir junto com a senhora... 
Raquel, ao ouvir o filho, sorriu:
- J disse que no pode meu filho. Voc precisa ficar com a Lia. Eu volto logo.
Distrada com o filho, esqueceu-se do acidente. Olmpia sorriu. Entrou pelo porto da casa de Lia. Atravessou todo o corredor. Deixou Moacir e, beijando-o, disse:
- Agora a mame vai embora, mas volto logo. Obedea a tudo o que Lia disser.
Moacir, embora amuado, ficou calado. Raquel sorriu e, abanando a mo para Lia, saiu. No hospital, conversou com o mdico que lhe deu instrues e datas para que 
Marcos recebesse as vacinas. Raquel estava saindo da sala, quando perguntou:
- Posso retirar e guardar meu leite para que ele tome algumas horas depois?
O mdico estranhou:
- Por qu? A senhora no pode dar na hora?
- Preciso trabalhar e deixar o meu filho com uma vizinha.
- Trabalhar? No pode esperar mais alguns meses?
- No, doutor. Meu marido morreu e preciso cuidar dos meus filhos.
O mdico sentiu a tristeza em sua voz e, emocionado, disse:
- Sendo assim, se conseguir gelo, pode guardar at oito horas.
- Gelo?
- Sim, com gelo, o leite pode ser conservado.
- Est bem, doutor, vou ver se consigo. Obrigada.
Ela se despediu e saiu. Assim que saiu, o mdico pensou: To jovem e tendo uma carga to grande. Que Deus a abenoe. J na rua, Raquel tambm pensava: No vou ter 
como conseguir gelo. No vou poder trabalhar, ao menos enquanto preciso dar de mamar. O que vou fazer? Olmpia, que continuava ao seu lado, sorriu. Continuou caminhando 
at o ponto de nibus. Estava quase chegando, quando pensou: Preciso ir at a marcenaria para saber como esto as finanas. Acho que vou fazer isso agora mesmo. 
Desceu do nibus em que estava, pegou outro e chegou  marcenaria. Quando estava chegando, lembrou: No posso entrar na marcenaria levando Marcos. Ele  ainda muito 
pequeno e l tem muita poeira. Preciso encontrar algum que v chamar Norberto. Em frente  marcenaria, do outro lado da rua, olhou para dentro dela. Viu Norberto 
em frente a uma mquina. O barulho era imenso e a poeira tambm. Olmpia, percebendo sua dificuldade, aproximou-se de Norberto e falou: Norberto, Raquel precisa 
conversar com voc. Ela est a fora. Sem entender o porqu, Norberto parou a mquina e olhou para a rua. Viu Raquel que gesticulava. Limpou as mos em um pano que 
estava sobre a mquina e foi ao seu encontro.
- Raquel!
- Ol, Norberto. Levei Marcos at o mdico e resolvi passar por aqui.
- No quis entrar por causa da poeira, no foi?
- Isso mesmo. Ele  ainda muito pequeno. Vim aqui para conversar com voc sobre os problemas da marcenaria, mas acho que no devia ter vindo. No vai dar para conversarmos.
- ... Acho que no, mas o que quer saber?
- Como voc disse que quem cuidava de tudo era Francisco, preciso saber como esto s finanas.
- No sei Raquel. Era ele quem lidava com isso, mas em sua gaveta deve haver alguns papis, nmero da conta do banco. Sei que ele anotava tudo em um caderno. O dinheiro 
que entrava as contas que precisavam ser pagas, os pedidos e o material que precisava ser comprado. Para que no precise entrar, posso pegar esses papis e o caderno. 
 noite, quando for para casa, conversaremos.
- Boa idia, Norberto. Por favor, faa isso. Somente tendo todas essas informaes, vou poder comear a cuidar de tudo.
- Est bem, Raquel. Vou pegar tudo e  noite conversaremos.
- Faa isso. Agora, preciso ir para casa. O nenm est cansado e preciso trocar a fralda.
- Est bem.
Raquel sorriu e saiu. Tomou o nibus que a levaria at sua casa. Sentada no banco do nibus, deu de mamar para Marcos que, com o balano do nibus, dormiu tranqilo. 
Quando estava subindo a rua, viu que um homem carregava em seus ombros uma pedra muito grande de gelo e que entrou no bar e mercearia que havia ali, onde ela comprava 
alimentos. Imediatamente, pensou: Devo ter visto esse homem carregando gelo mil vezes, mas nunca prestei ateno. Entrou no bar. O homem com a pedra se encaminhou 
para os fundos. Ela se aproximou daquele que sabia ser o dono do bar.
- Dona Raquel, precisa de alguma coisa?
- Preciso sim, seu Joaquim.
- O que aconteceu com seu marido e com seu filho foi tristeza. Sinto muito.
- Obrigada. Devido ao que aconteceu, preciso trabalhar para sustentar meus filhos.
- A senhora quer que eu arrume um emprego para a senhora?
Ela sorriu:
- No, seu Joaquim. Vi que um homem entrou no bar carregando uma pedra de gelo.
- Foi mesmo. Ele vem todos os dias. Preciso do gelo para que a cerveja e o leite fiquem gelados. Assim, vendo mais.
- O senhor sabe que este nenm acabou de nascer. Preciso trabalhar na marcenaria do Francisco, mas tenho, tambm, de dar de mamar para o menino. O mdico disse que, 
se eu colocar o leite no gelo, poderei guard-lo por at oito horas. Assim que vi esse homem carregando o gelo, pensei; ser que o senhor no poderia me vender um 
pedao de gelo todos os dias?
- Claro que sim, dona Raquel, e nem precisa pagar!
- Obrigada, senhor Joaquim. O senhor no imagina o quanto vai me ajudar!
- Ora, dona Raquel, isso no  nada. Se quiser, j pode levar um pedao de gelo.
- Hoje no vou precisar, mas amanh bem cedo eu venho pegar.
- Pode vir.
- At logo, seu Joaquim!
- At logo, dona Raquel!
Feliz, Raquel chegou  casa de Lia e contou o que havia acontecido.
- Que bom Raquel! Parece que Deus est ajudando voc! 
Raquel ia dizer o que estava pensando, mas disse:
-  a nica coisa que Ele pode fazer, depois de tudo que me tirou!
Lia entendeu a mgoa da amiga, por isso, ficou calada. Raquel pegou Moacir e foi para sua casa. Deu um banho nos dois. Amamentou Marcos e colocou-o na cama. Estava 
terminando de lavar a loua do jantar, quando Lia e Norberto chegaram. Ele trazia em suas mos uma pasta na cor amarela.
- Raquel, trouxe alguns papis que encontrei e o caderno de que falei.
- Que bom Norberto. Entrem e se sentem. 
Eles sentaram-se e ela disse:
- Deixe-me ver.
Norberto entregou a pasta. Ela abriu, olhou os papis, depois o caderno. No final, disse:
- Parece que Francisco tem guardado no banco dinheiro suficiente para pagar as contas e ainda vai sobrar um pouco, Norberto.
- Sim e ainda falta receber dos mveis que estou terminando. Acho que, por algum tempo, no vamos ter problemas, Raquel. S precisamos de mais encomendas. Os documentos 
da empresa esto com Martin. Acho que voc precisa conversar com ele. Vai precisar ir ao banco, conversar com o gerente para poder usar o dinheiro que est l.
- Tem razo, Norberto. Amanh, vou falar com Martin. Lia, amanh, bem cedo, vou buscar o gelo. Dou de mamar para Marcos e tiro duas mamadeiras que comprei na farmcia, 
antes de vir para c. Vamos experimentar. Com voc tomando conta das crianas, poderei visitar muitos escritrios e conseguir novas encomendas. Acho que vai dar 
certo!
- Claro que vai, Raquel. Voc j fez isso e provou que tem capacidade! Os mveis de Francisco j esto conhecidos e um fregus sempre indica outro.
- Estou esperanosa.
- Amanh, vai ser o primeiro dia que vou ficar com os dois, tomara que d conta. J conversei com Tereza e ela disse que, at eu estar totalmente confiante, vai 
me ajudar.
Raquel sorriu:
- Tomara que eu consiga dormir um pouco esta noite, embora saiba que vai ser difcil. Mas, de qualquer maneira, com sono ou no, vou retomar minha vida.
- Estaremos aqui para ajudar voc, Raquel.
- Sei disso e no sei como agradecer.
- No precisa agradecer. Quando eu estava sem emprego, desesperado, apesar de eu ter magoado vocs, me empregaram e eu consegui tocar a minha vida. Uma mo lava 
a outra, Raquel.
- Obrigada, Norberto. S posso dizer que, assim que estiver tudo sob controle, vou aumentar o seu salrio.
- No precisa Raquel. Vindo morar aqui, no tenho de pagar aluguel e posso guardar esse dinheiro. Vamos fazer de conta que recebi um aumento de salrio. O mais importante 
 criarmos essas crianas.
- So verdadeiros amigos.
Conversaram mais um pouco, depois, sabendo que Raquel precisava dormir cedo, pois, com certeza, acordaria durante a noite, se despediram. Raquel colocou Moacir para 
dormir ao seu lado e, sob o olhar amigo de Olmpia, adormeceu.

DO OUTRO LADO

No dia seguinte, bem cedo, Francisco abriu os olhos e olhou  sua volta. Que quarto  este? Onde estou? Olhou para o lado e, em outra cama, viu que Mauro dormia 
profundamente. Mauro tambm est aqui? Onde est Raquel?  Confuso, chamou:
- Raquel! Raquel!
A porta se abriu e ele viu Samuel e Olmpia entrando e rindo. Samuel perguntou:
- Como est se sentindo, Francisco?
- Estou bem, s no estou entendendo que lugar  este e o que estou fazendo aqui.
- Logo saber.
- Conheo vocs, mas no me lembro de onde...
- Disso, tambm, logo se lembrar.
- No estou entendendo. Onde est Raquel? Por que no est aqui?
- Ela est bem e logo poder ir se encontrar com ela.
- O que  tudo isto? Por que s Mauro est aqui?
- Ele est fazendo companhia a voc.
- Eu sei, quando saamos para a marcenaria... Francisco parou de falar e, aps pensar por alguns segundos, desesperado, disse:
- Eu estava com ele, quando vi aquele caminho se aproximando tentei jog-lo para o lado. Eu consegui?
Samuel olhou para Olmpia, que respondeu:
- No, Francisco. O caminho atingiu vocs dois.
- Como? O que est querendo dizer?
- Estou dizendo que o caminho atingiu vocs dois. Por isso esto aqui.
- Aqui, onde? Que lugar  este?  um hospital?
- Pode-se dizer que sim.
- No estou machucado! No estou sentindo dor alguma. Posso ir para casa! Preciso ir ao hospital visitar Raquel. Ela est l para ter criana!
- A criana nasceu e  um menino. O nome dele  Marcos e est muito bem.  forte e saudvel.
- Ento, o que estou fazendo aqui? Preciso ir para o hospital!
- Voc ir, mas, antes, precisamos conversar.
Mauro esticou o corpo e tambm acordou. Assim como o pai, estranhou o quarto e, ainda mais, aquelas pessoas que no conhecia. Com a voz trmula, chamou:
- Pai!
Francisco, ao ouvir sua voz, voltou-se para ele:
- Voc acordou Mauro? Que bom. Notando o olhar assustado do menino, continuou:
- Est tudo bem, meu filho. No precisa se assustar. 
Samuel e Olmpia tambm olharam para ele. Samuel disse:
-  verdade, Mauro, est tudo bem. Agora, preciso conversar com seu pai. Olmpia vai levar voc a um lugar de que vai gostar muito.
O menino olhou para o pai, que disse:
- Pode ir, Mauro. Est tudo bem.
O menino, contrariado, obedeceu ao pai e saiu com Olmpia. Assim que saram, Francisco perguntou:
- Preciso saber o que est acontecendo realmente.
- Todos ns, ao renascermos, temos um tempo certo para viver na Terra. O renascer sempre tem um motivo. Na maioria das vezes,  para resgatar erros passados, porm, 
outras vezes,  simplesmente para ajudar um esprito amigo, para dar condies a ele de resgatar seus erros.
- No entendo o que est falando. Renascer?
- Embora no tenha dado muita ateno, j ouviu falar sobre isso. Somos espritos criados por Deus. Ao ser criado, assim como acontece com as crianas, todo esprito 
precisa viver em um corpo fsico para desenvolver suas qualidades.
Francisco, sem entender muito bem o que ele falava, apenas ouvia com ateno. Samuel, sabendo o que ele estava sentindo, sorriu e continuou:
- Quando so criados, os espritos tm o mesmo conhecimento e ao dadas a todos as mesmas oportunidades. Poderamos chamar de talentos.  medida que forem vivendo 
em um corpo fsico, alguns mais outros menos, vo desenvolvendo esses talentos. Durante essa vivncia, grupos so formados e tornam-se como se fossem uma grande 
famlia. Como acontece em todas as famlias, alguns caminham com mais rapidez do que outros. Embora alguns se desenvolvam mais rapidamente, no abandonam aqueles 
que ficaram para trs.
- Isso tudo o que est falando  muito confuso e no entendo. O que tem a ver com o que est acontecendo comigo?
- Voc, assim como eu e todos os espritos que reencontrou enquanto renascido, faz parte de uma mesma famlia.
Francisco, ao ouvir aquilo, gritou:
- Enquanto renascido? Est dizendo que morri que no vivo mais na Terra?
- Calma Francisco. Voc entendeu o que eu disse. Voc no vive mais na Terra, est de volta. Est no plano espiritual.
- No pode estar dizendo a verdade! Estou com meu corpo, sinto as mesmas necessidades! Est brincando comigo?
- Sente que est com seu corpo e tambm sente suas necessidades, mas, na realidade, no  bem assim. No  mais um corpo fsico. Ele ficou na Terra.
- O caminho tambm matou Mauro?
- Sim. Vocs dois voltaram.
Francisco engoliu seco. Sentiu vontade de chorar, de gritar, mas no conseguiu, apenas disse:
- Se estou morto, como est Raquel? Ela  to jovem, acabou de ter um filho! O que vai acontecer com ela? Deve estar desesperada! Perdeu de uma s vez a mim e a 
seu filho! Isso no podia ter acontecido!
- Ela no perdeu vocs dois. Voc e Mauro apenas voltaram antes. No se esquea de que, um dia, ela tambm voltar e, no s vocs, como todos ns a receberemos 
com muito amor e carinho.
- Isso que est dizendo  para o futuro, mas e hoje, agora? Como ela vai conseguir criar nossos filhos?
- Conhecendo Raquel como voc conhece, no deveria se preocupar com isso.
- Como no?
- Ela  forte e decidida. Alm do mais, ter toda a ajuda necessria. No se preocupe, depender s de suas escolhas e esperamos que ela saiba fazer as escolhas 
certas.
- No entendo, por que isso teve de acontecer, logo agora que tudo estava caminhando to bem? A marcenaria comeou a dar lucro. Eu estava at pensando em comprar 
um caminho para fazer as entregas, sem precisar pagar carretos.
- Tudo acontece na hora certa e como foi planejado. Seu tempo e o de Mauro terminaram. Agora, Raquel ter de continuar sozinha.
- Ela no vai conseguir... Preciso ir at onde ela est!
- Claro que voc vai at l e at conversar com ela, s no poder interferir em seu livre-arbtrio. Somente ela  responsvel por ele.
- Por que ela teve de ficar sozinha?
- Porque faz parte daquela famlia que eu disse. Alguns caminham com mais rapidez, outros demoram um pouco mais. Voc, embora tenha caminhado com mais rapidez, sempre 
esteve ao lado de Raquel. Nesta encarnao, renasceu para ajud-la a caminhar. Fez isso, agora, ela tem condies de caminhar sozinha.
- Embora diga tudo isso, no consigo concordar nem me conformar com essa situao. Raquel  muito jovem, no tem experincia alguma da vida!
- No se preocupe com Raquel. Eu e Olmpia sempre estivemos ao lado dela e continuaremos.
Enquanto Francisco e Samuel conversavam, Olmpia abriu uma das portas que havia em um imenso corredor e, para surpresa de Mauro, apareceu um campo enorme com grama 
rasteira e muitas crianas que corriam, riam e brincavam em brinquedos que ele nunca havia visto. Admirado, ficou olhando. Olmpia sorriu ao ver o espanto de Mauro. 
Perguntou:
- Quer brincar tambm?
- Aqui  muito bonito, mas quero ir para casa. Quero ficar perto da minha me.
- Ela no pode vir at aqui, mas logo voc vai para casa. Por enquanto, aproveite e brinque. Venha comigo, vou apresentar voc a um nosso amigo. Ele vai dizer a 
voc tudo o que pode fazer aqui.
Segurou na mo de Mauro e se encaminhou em direo a um rapaz que olhava as crianas brincando. O rapaz, ao v-la, sorriu e se encaminhou at ela:
- Olmpia aqui novamente?
- Sim, Gabriel. Estou de volta outra vez e trouxe Mauro para que ele fique ao seu lado por um tempo. Ele acabou de chegar e est um pouco confuso.
Gabriel olhou para Mauro e, passando a mo sobre a cabea do menino, disse:
- Que bom que chegou Mauro. Vai gostar daqui. 
Mauro comeou a chorar:
- Quero ir para casa...
- Voc vai, s precisa esperar um pouco. Venha, vou apresentar voc a outras crianas.
Olmpia, ao ver o desespero e o medo do menino, carinhosamente, falou:
- No precisa ter medo, Mauro. Aqui tem muitas crianas. Com o tempo, voc vai reconhecer algumas.
- Eu no os conheo!
- Conhece sim, s no est lembrando. Alguns so seus amigos.
Mauro olhou para onde as crianas estavam e se admirou:
- Aquele ali est voando?
- Est sim. Gostaria de voar tambm?
- Claro que quero voar!
- Com o tempo vai aprender. 
Gabriel, ao ouvir aquilo, sorriu e chamou:
- Marcelo! Venha at aqui.
Um dos meninos que estavam ali ouviu e se aproximou. Assim que chegou perto e viu Mauro, feliz gritou:
- Mauro! Voc chegou? Eu estava esperando por voc. 
Mauro olhou primeiro para ele e depois para Olmpia.
- Isso mesmo, Mauro. No disse que voc tem muitos amigos aqui?
- No est se lembrando de mim, Mauro?
- No...
- Isso no tem importncia, Marcelo. Com o tempo, ele vai lembrar. Agora, leve Mauro at as outras crianas e tente ensin-lo a voar.
Mauro olhou para Olmpia que, com a cabea, acenou que sim. Marcelo pegou a mo de Mauro, falando:
- Vem, Mauro, vamos brincar.
Mauro o acompanhou e, como toda criana, logo estava brincando. Olmpia olhou para Gabriel, que disse:
- Ele ficar bem, Olmpia.
- Sei disso, Gabriel. Agora, vou embora, preciso ficar ao lado de Raquel. Ela vai precisar da minha intuio.
- Faa isso, Olmpia. Embora saibamos que ela est se saindo bem, no pode ficar sozinha.
- Tem razo.
Assim dizendo, sorriu para Gabriel, que retribuiu o sorriso, e voltou para a mesma porta por onde havia entrado. Em alguns segundos, chegou ao quarto onde Samuel 
conversava com Francisco. Sorrindo, disse:
- No precisa se preocupar com Mauro, Francisco. Ele est bem, brincando com uma poro de crianas. Muitos j conviveram com ele em vrias encarnaes.
- Eu, como adulto, estou tendo dificuldade para entender o que est acontecendo, posso imaginar como ele, sendo ainda uma criana, est se sentindo.
Samuel olhou para Olmpia e, sorrindo, disse:
- Est enganado, Francisco. Embora hoje ele ocupe um corpo de criana, foi criado ao mesmo tempo em que voc e todos ns. Teve mais encarnaes do que ns. Por isso, 
 um esprito bem preparado. Quando foi decidido que Raquel precisava renascer, ele, embora no precisasse, assim como voc, decidiu renascer e ficar um tempo ao 
lado dela. Ela precisava sentir a dor de perder um filho.
- Por qu?
- Isso, na hora certa, voc saber.
- Como j disse, estou cada vez mais confuso.
- Sei disso, mas, para que tudo seja esclarecido e voc possa continuar a sua jornada com tranqilidade, hoje, durante a noite, voc ter mais explicaes.
- Hoje  noite? Por que no agora?
- S pode ser  noite, pois Raquel precisa estar presente.
- Por que no podemos ir at ela, agora?
- Ela, quando adormecer, ser trazida at aqui. Durante o dia, com ela desperta, isso  impossvel.
- Est dizendo que, quando dormimos, deixamos nosso corpo?
-  assim que acontece. A isso, costuma-se dar o nome de sonho, mas, na realidade,  um encontro com os amigos da espiritualidade. Muitas vezes a presena de um 
encarnado  necessria, pois sua energia pesada nos ajuda em muitas curas, principalmente aquelas que so causadas por obsessores.
- No sei do que est falando. Existem doenas que no tm causas naturais?
- Quase todas as doenas so causadas por esse motivo, mas isso vai ficar para outra vez. Por ora, enquanto Olmpia volta para ficar ao lado de Raquel, se quiser, 
posso lev-lo para ver que Mauro est bem e, assim, voc ficar mais calmo.
- Est bem. J que no posso ver Raquel e os meninos, preciso ao menos saber que Mauro est bem.
Olmpia se despediu e desapareceu. Francisco acompanhou Samuel.

RECOMEANDO

Naquela manh, Raquel, aps acordar vrias vezes por causa de Marcos, tambm abriu os olhos. Olhou para o relgio e viu que eram quase oito horas. Estava cansada, 
pois no havia dormido bem. Olhou para o lado, Moacir dormia tranqilo e Marcos, no bero, tambm. Levantou-se, foi at a cozinha, colocou carvo sobre as brasas 
que ardiam, abanou com a tampa de uma panela e, assim que a chama se formou, colocou sobre ela uma chaleira com gua. Voltou para o quarto e, vendo que as crianas 
estavam bem, trocou de roupa e, rapidamente, foi at a mercearia. Comprou po, leite e pegou um pedao de gelo que Joaquim havia separado. Voltou para casa e viu 
que as crianas ainda permaneciam da maneira como as havia deixado. Comeou a arrumar a casa, lavou a roupa do dia anterior e, duas horas depois, estava pronta para 
levar as crianas at a casa de Lia. Lia aguardava a amiga e pensava: Hoje vai ser um dia decisivo. Tomara que eu consiga cuidar das duas crianas. Raquel chegou 
trazendo Marcos no colo, Moacir seguro na outra mo e no ombro uma sacola. Enquanto colocava a sacola sobre a mesa, disse:
- Bom dia, Lia. Trouxe as crianas e as mamadeiras com leite, tambm esse pedao de gelo para que possa coloc-las nele.
- Bom dia, Raquel. Tomara que eu consiga cuidar bem das crianas.
- Vai conseguir, Lia. Voc tem o mais importante,  vontade.
- Nisso voc tem razo. Sabe o quanto gosto de crianas, principalmente das suas.
- Por isso estou deixando meus filhos com voc, sem preocupao alguma. Tenho certeza de que no vai ter problema algum. Mesmo que tenha,  s uma questo de tempo, 
logo vai se acostumar. Agora, preciso ir at o Martin, para saber como est a marcenaria e o que preciso fazer para que ela continue da maneira como est. Assim 
que falar com ele, volto para ver como voc est. Sei que hoje no vai ser fcil.
- Tambm sei Raquel. Vou fazer o possvel para que eles fiquem bem.
- Sei disso, por isso estou tranqila.
Raquel se despediu e foi para o ponto de nibus. Vinte minutos depois, entrava no escritrio de Martin, que ficava no segundo andar de um prdio comercial. Assim 
que ele a viu, sorriu:
- Raquel! Voc aqui?
- Sim, Martin. Preciso que me ajude.
- No que precisar e eu puder, Raquel. Minha me disse que conversou com voc.
- Conversou, e s estou aqui por tudo o que ela me falou. Eu estava perdida sem saber o que fazer da minha vida e, para ser sincera, s queria morrer.
- Minha me sabe como falar sobre o que sente e em que acredita. Ela sempre me diz que Deus usa as pessoas para que seu trabalho seja feito.
- Depois de tudo o que ela me falou, chego at a acreditar nisso, Martin. Seguindo o conselho dela, estou aqui para que me ajude a retomar minha vida. Sabe que no 
est sendo fcil. De repente, do nada, meu marido e meu filho foram tirados de mim. No entendo bem por que isso aconteceu, mas, como disse sua me, preciso cuidar 
daqueles que restaram. So crianas e s tm a mim, no ?
-  sim, Raquel. O que precisa que eu faa?
- Vender at que sei, mas nunca mexi com dinheiro, com banco. No sei como fazer. Pode me ajudar?
- Claro que posso Raquel! Os documentos da marcenaria esto em ordem. Francisco sempre foi muito preocupado com isso. Quanto ao dinheiro, vamos at o banco e conversaremos 
com o gerente. Ele gostava muito do Francisco e acredito que far tudo o que for possvel para ajudar voc.
- Voc vai comigo?
- Claro que vou, Raquel. Agora mesmo. Nunca vou me esquecer de que foi por causa de vocs que abri meu escritrio. Ele foi to bem que consegui at me casar e consigo 
criar, sem problema algum, minhas duas crianas. Vou ficar sempre ao seu lado e a ajudarei em tudo o que precisar.
- Obrigada, Martin. Voc  mesmo um grande amigo. 
Martin deu algumas ordens para a moa que trabalhava com ele e saram. Conversaram com o gerente do banco, que providenciou para que Raquel pudesse assinar cheques 
e controlar a conta. Depois disso, Raquel se despediu de Martin e foi para a marcenaria. Conversou com Norberto:
- Est tudo certo com o banco, Norberto. J posso assinar os cheques e pagar as contas que esto para vencer. Amanh, vou visitar alguns escritrios e tentar vender. 
Vamos ver o que vai acontecer.
- Vai dar certo, Raquel! J provou que consegue!
Raquel sorriu:
- Precisa dar certo, Norberto. Disso depende a minha vida e a dos meus filhos.
- Tem razo, mas no se esquea de que sempre estaremos ao seu lado.
- Nunca vou conseguir agradecer tudo o que esto fazendo por mim.
- Voc merece Raquel.
- Agora vou para casa e ver como Lia se saiu com as crianas. Ela estava com um pouco de medo.
Norberto comeou a rir:
- Com medo? Ela estava apavorada!
Raquel tambm riu. Despediu-se dele e foi para o ponto de nibus. Esperou por algum tempo, at que, finalmente, ele chegou. Como era hora do almoo, estava vazio 
e ela pde se sentar. Enquanto o nibus andava, ela olhava pela janela e pensava: Francisco no sabe por que teve de me deixar. No sei se vou conseguir criar nossos 
filhos com dignidade, mas vou fazer o possvel. No vejo a hora que chegue o dia em que eu possa encontrar voc novamente. De onde estiver me ajude... No me abandone... 
Chegou  casa de Lia. Como estava tudo quieto, entrou devagar. Lia estava deitada, Moacir dormia ao seu lado e Marcos dormia na cama improvisada com cadeiras. Ao 
ver aquela cena, Raquel sorriu. Lia, pressentindo sua entrada, acordou e perguntou baixinho:
- Chegou cedo, Raquel.
- Resolvi tudo no banco e somente amanh vou sair para vender. As crianas, pelo que estou vendo, esto bem.
Lia se levantou e foram para a cozinha. Sentaram-se.
- Est bem, sim, Raquel, e confesso que me deram menos trabalho do que eu imaginava. Moacir ficou brincando e Marcos acordou duas vezes, dei a mamadeira, troquei 
a fralda e ele voltou a dormir. Raquel riu novamente.
- Sei disso, ele dorme durante o dia para ficar acordado durante a noite.
Lia tambm riu:
- Ainda bem que quem cuida dele durante a noite  voc.
- Isso mesmo, mas no me incomodo. Sei que, daqui a alguns meses, ele dormir a noite toda. O importante  que ele esteja bem. Agora vou l para casa. Preciso terminar 
de arrumar tudo, recolher a roupa que lavei e preparar o jantar.
- Faa isso, Raquel, assim que eles acordarem, eu os levo at l.
- Obrigada mais uma vez, Lia.
- No precisa agradecer Raquel. S cuido das crianas porque gosto delas.
Raquel sorriu novamente e foi embora. Ao passar pelo local do acidente, novamente sentiu vontade de chorar, mas Olmpia, que estava ao seu lado, colocou as duas 
mos sobre suas costas, amparando-a, e ela mudou de pensamento. Entrou em casa, fez tudo o que precisava fazer. Enquanto passava roupa com o ferro a carvo, sorriu 
e pensou: Ainda vou ter um ferro eltrico, igual quele que vi na revista. Logo depois, Lia chegou com as crianas. No pde ficar muito tempo, pois tambm precisava 
preparar o jantar. Entregou as crianas e foi embora. Raquel deu banho nas crianas. Em seguida, Marcos mamou e Moacir jantou. Depois, ela comeu alguma coisa, lavou 
a loua e, cansada pelo dia atribulado, deitou-se para dormir. Deitada, pensou: Sei que vou dormir s por algumas horas porque logo essa coisinha vai me acordar.
 
RELEMBRANDO O PASSADO

Raquel adormeceu profundamente. Algum tempo depois, abriu os olhos e viu, diante de si, Olmpia e Samuel. Admirada, perguntou:
- Pai, me! Como esto aqui? Vocs morreram!
Francisco, que estava ao lado deles, tambm se admirou:
- Pai, me? Voc os conhece?
- Claro que conheo. So meus pais, morvamos no Cear.
- O que est dizendo? Nem seus pais nem voc nunca moraram no Cear! Conheo seus pais e, com certeza, no so esses!
- Claro que so meus pais! O que est acontecendo com voc, Durval?
- Durval? Meu nome no  Durval!
Ela, parecendo preocupada, perguntou:
- Est com amnsia? Seu nome  Durval e  meu marido.
- Sou seu marido, mas meu nome  Francisco!
- Acho que voc est doente, mesmo. Sei que  meu marido, sim como sei tambm que seu nome  Durval.
- Voc  quem est confusa, Raquel. Meu nome  Francisco...
- Raquel? Por que est me chamando por Raquel?
- Porque  o seu nome!
- No! No sei o que est acontecendo aqui, mas meu nome no  Raquel. Meu nome  Eliete!
Francisco olhou para Olmpia e para Samuel que a tudo acompanhavam. Desesperado, perguntou:
- Que est acontecendo aqui?
- No se preocupe, fizemos de propsito.
- Fez o qu, Samuel?
- Precisamos fazer isso.
- No estou entendendo...
- Nem eu, Durval...
- Depois do que aconteceu com voc, agora, vivendo como Raquel e diante da sua tristeza, inconformismo e revolta,  preciso que entenda por que isso aconteceu para 
que possa continuar esta jornada. Por algum tempo, vocs vivero o que aconteceu na encarnao anterior, para que possam entender por que algumas coisas aconteceram 
e esto acontecendo nesta em que esto vivendo.
Francisco e Raquel se olharam e, quase juntos, perguntaram:
- Encarnao anterior? 
Francisco perguntou:
- Do que est falando, Samuel?
- Sei que parece estranho, mas j tiveram muitas vidas e  sobre a ltima delas que precisamos conversar. Em um tempo em que voc, Francisco, chamava-se Durval e 
voc, Raquel, chamava-se Eliete. Depois dessa conversa, vocs vero que as escolhas feitas ontem refletem hoje e as feitas hoje refletiro amanh.
Confusos e sem entender o que estava acontecendo, Francisco e Raquel ficaram olhando para Samuel, esperando que ele continuasse a falar. Ele olhou para Olmpia e, 
com os olhos, fez um sinal que ela entendeu. Colocou-se por trs de Raquel, de Francisco e abriu os braos. De suas mos, comearam a sair luzes brancas. Samuel 
fez o mesmo, s que pela frente, e luzes tambm comearam a sair de suas mos. As luzes encontraram-se. Raquel e Francisco ficaram dentro delas. Assustados, abraaram-se. 
No mesmo instante, aquele crculo de luz se expandiu e eles se viram no meio de muitas pessoas que bebiam e danavam. Raquel olhou para Francisco e disse:
- Est tendo uma festa? 
Francisco, sem entender, respondeu:
- Parece que sim.
- Conheo as pessoas que esto aqui, Durval!
- No me chame de Durval, Raquel! Meu nome  Francisco!
Ela no deu ateno ao que ele disse e correu para um rapaz que danava com uma moa. Colocou-se no meio deles e abraou o rapaz com muita fora.
O rapaz tambm a abraou e, parecendo surpreso, perguntou:
- O que est acontecendo, Eliete? Por que est me abraando dessa maneira?
- Estou feliz por ver voc.
Francisco se aproximou. Assim que o rapaz o viu, rindo, perguntou:
- O que est acontecendo com a sua mulher, Durval?
- No sei o que est acontecendo, Norberto.
- Norberto? Meu nome no  Norberto. Chamo-me Hilrio. Vocs ficaro loucos?
Raquel e Francisco se olharam. Samuel, sorrindo, disse:
- Est certo. O nome de vocs agora  outro, mas nesta encarnao que estamos revivendo, chamavam-se Durval e Hilrio. Porm, para que no fiquem a todo instante 
repetindo que o nome de vocs no  aquele pelo qual esto sendo chamados, de agora em diante, continuaro a ser chamados pelo nome atual. Est bem, assim?
Norberto olhou para Francisco, que disse:
- Prefiro que seja assim, do contrrio penso que se trata de outra pessoa. O que acha Norberto?
Samuel sorriu.
- No me lembro de ter sido chamado por Norberto, mas se tiver de ser chamado assim, que seja...
Samuel sorriu, olhou para Raquel e perguntou:
- Voc, Eliete, est de acordo? Podemos cham-la de Raquel, que  o seu nome atual?
Ela, confusa, com a cabea, disse que sim. Samuel perguntou:
- Vocs no se lembram do dia em que esta festa aconteceu?
Raquel, confusa, ficou olhando para ele e, de repente, falou alto:
- Estou me lembrando! Foi no dia em que papai fez setenta anos! Voc no se lembra Francisco? A famlia estava muito feliz!
Francisco, sem saber explicar como aquilo acontecia, aps alguns segundos, disse:
- Tambm estou lembrando...
- Isso mesmo, Francisco!
Raquel, parecendo surpresa, olhou para Norberto e quase gritou:
- Voc  meu irmo Hilrio que agora se chama Norberto!
- Claro que sou, mas o que est acontecendo?
- Nada est acontecendo, Hilrio. Sua irm est apenas feliz.
- Ainda bem, papai. Ela est me deixando preocupado.
- Francisco, que confuso  esta? Como posso ter sido Eliete ontem e hoje ser Raquel?
- No sei Raquel, mas ainda bem que se lembrou de quem  e de quem sou.
Samuel continuou:
- Bem, agora que esto se lembrando, podemos conversar.
- Vejo que esto lembrando. Agora, podemos sair desta festa, ir para casa e voltar no tempo.
- Est bem. Estamos curiosos, eu, pelo menos, estou. E voc, Francisco?
- Pode imaginar o quanto.
Samuel se voltou para Norberto e disse:
- Norberto, enquanto vou para casa com eles, fale com Lia e venha tambm. Todos precisamos conversar.
Diante deles, surgiu uma enorme manso. Entraram pela porta da frente. Raquel parecia conhecer bem aquela casa, mas Francisco encontrava um pouco de dificuldade 
para se lembrar com clareza de tudo o que havia acontecido. Por isso, olhava tudo com admirao. Passaram por uma sala bem decorada, porm sbria. Entraram por uma 
porta e deram com outra sala. Nela havia uma grande mesa com doze cadeiras  sua volta. Sentaram-se. Norberto e Lia chegaram logo depois e tambm se sentaram. Samuel 
comeou a falar.
- Para que esta conversa possa continuar, preciso que olhem para Eliete e Durval. Eles j entenderam o que est acontecendo. E preciso que entendam tambm.
Lia olhou para Raquel e Francisco e, diante deles, os rostos foram se modificando, inclusive os deles. Norberto e Lia se reconheceram:
- O que est acontecendo aqui, Raquel. Que lugar  este? Francisco, como voc est aqui? Voc morreu?
- No sei, Lia.
- Ns morremos tambm? 
Olmpia e Samuel riram. Ela disse:
- No, Lia, vocs ainda no morreram, esto apenas dormindo e sonhando. Quando o encarnado adormece, seu esprito fica livre para ir aonde quiser. Ns trouxemos 
vocs para c. Quando acordarem, vo se lembrar de algumas coisas e acharo que sonharam.
Intrigados, um olhou para o outro, mas ficaram calados. Samuel continuou.
- Naquele dia da festa em que eu completava setenta anos, enquanto as pessoas danavam, comiam e se divertiam preocupado com minha idade, sabendo que voc, Norberto, 
no se preocupava com nada, alm de se divertir e viver a vida chamei voc e disse:
- Preciso conversar com todos vocs sobre um assunto muito srio. Com ar enfadonho, voc perguntou:
- Conversar sobre o qu, papai?
- Sobre algo muito srio.
- Sabe que no gosto de conversas srias, mas se deseja minha presena, no posso me negar.
- Sei que no gosta Hilrio, mas  preciso. Quero que sua mulher tambm esteja presente.
- Precisa ser hoje, papai?  dia de festa!
- Para vocs, todos os dias so de festa.
- Est bem, vou chamar a Odila.
Hilrio, rindo, caminhou em sua direo, Odila, que, distrada, conversava com outra moa. Disse:
- Papai quer ter uma daquelas reunies chatas de famlia.
- Hoje, Hilrio?
- Sim, hoje e sabe que, quando ele quer alguma coisa, no gosta de ser contrariado. Vamos, acho que no vai demorar muito.
Samuel continuou:
- Vi que vocs olharam para a nossa direo e, ao lado de Francisco e Raquel, comecei a caminhar para casa.
- Lembro-me daquele dia, Samuel. Olhei para trs e vi que Norberto e Lia nos seguiam.
- Sim, Francisco. Entramos nesta mesma sala, nos sentamos. Em seguida, Norberto e Lia tambm chegaram e se sentaram.
Samuel, segurando mo de Olmpia, perguntou:
- Voc se lembra da conversa que tivemos naquele dia, Raquel?
- Mais ou menos. Tudo est confuso.
- Sei disso, mas, aos poucos, as coisas ficaro mais claras. Depois de todos sentados, eu disse:
- J conversei com seu irmo, Raquel, e agora, preciso conversar com vocs a respeito de algo muito srio.
- Sobre o que quer falar?
- Faz dois anos que sua me morreu. Desde que ela morreu, andei pensando muito na minha vida. Sinto que logo vou morrer tambm.
- Que conversa  essa papai?
- No se trata de conversa, Raquel.  a lei da vida. Nascemos, crescemos, envelhecemos e morrermos. Essa  a realidade e, contra isso, nada podemos fazer.
- O senhor  forte, ainda  cedo para pensar em morte.
- No  cedo, minha filha. Como disse, tenho pensado na minha vida. Toda a fortuna que temos comeou l atrs com meus avs, quando vieram tentar a vida aqui. Com 
a venda de caf e de escravos, conseguiram uma fortuna incalculvel. Depois, meu pai, tambm com caf e fazendo outros negcios com terras, no s conservou a fortuna 
herdada, como a aumentou. Eu consegui continuar e, hoje, nem sei quanto dinheiro tenho. Vejo agora que, embora tenha todo esse dinheiro, a vida est se acabando 
e todas as minhas lutas vo ficar para trs. Todo o dinheiro que tenho tambm vai ficar aqui, na Terra.
- Ao menos teve uma vida boa, pai, e ns tambm tivemos.
-  verdade, Norberto, mas estou preocupado. Voc, sendo meu filho mais velho e homem, deveria continuar nosso legado, mas parece que isso no vai acontecer. S 
pensa em se divertir, viajar e gastar dinheiro sem pensar.
- O senhor tem razo. Nunca conseguiria ser como o senhor. Quero viver a vida, para que, quando ficar velho, no me arrependa de no ter feito tudo o que poderia.
- Nem filhos voc quis, meu filho! O que mais me estranha  que sua mulher tambm no quis.
Ao ouvir aquilo, Lia nervosa disse:
- Para que vou querer filhos? Para no poder mais ir a festas, freqentar a sociedade, ficar com meu corpo todo disforme nem viajar? No, no quero isso. Estou bem 
da maneira como estou!
- No entendo como voc, sendo mulher, no quer ter filhos, Lia?
- Sou eu quem no entende o porqu dessa pergunta, Raquel? Eu  que no entendo qual foi  vantagem de voc ter tido trs filhos? Eu gosto da vida que tenho e no 
quero mudar!
Samuel continuou
- Fiquei bravo com vocs duas.
- Fiquem quietas! No viemos aqui para falar bobagens! Estamos aqui para decidir o futuro da nossa famlia!
- Foi Raquel quem provocou! No gosto de ouvir palpites sobre a minha vida! Ela, ao invs de se preocupar comigo, devia prestar mais ateno na vida dos filhos!
- O que est acontecendo com meus filhos que eu no sei?
- Nada! Como seu pai disse, no viemos aqui para isso. Fizeram com que eu abandonasse a festa para qu? Para isso?
- Agora voc vai ter de dizer o que est acontecendo com eles! 
- Nervoso com aquela discusso intil, gritei: 
- J disse que parem com essa discusso intil! O assunto que nos traz aqui  muito mais srio!
- Diante do meu grito, vocs se calaram. Raquel, olhando para Francisco, emocionada, disse:
- Francisco, estou me lembrando, agora, claramente de tudo o que aconteceu e, principalmente, daquele dia. 
Lia tambm falou:
- Eu tambm, Raquel. Eu disse mesmo aquilo... 
Olmpia, sorrindo, disse:
- Sabamos que isso aconteceria. Quanto mais Samuel falar, mais vocs se lembraro. Continue Samuel.
- Vocs se calaram e ficaram olhando para mim, esperando que eu continuasse. Eu continuei:
- Depois de pensar muito, resolvi que, j que voc, Norberto, nada entende sobre negcios, sabendo que  Durval quem sempre esteve ao meu lado, aprendeu e me ajudou 
em todos os momentos, acho justo passar para ele e Raquel todos os nossos negcios para que, na minha falta, continuem trabalhando.
- Vai dar todo nosso dinheiro para eles?
- Juntamente com todo o trabalho, Lia.
- Como vamos continuar vivendo?
- Da mesma maneira que viveram at agora.
- Se o dinheiro no for mais nosso, no entendo como isso pode acontecer.
- Antes de conversar com vocs, pensei em tudo. Embora no goste da maneira como vivem, sendo meu filho aceito. Por isso, vocs tero uma boa mesada que vai garantir 
que nada mude na vida de vocs. O resto ficar com Francisco e Raquel. Eles cuidaro de tudo.
- Voc, Lia, olhou para Norberto, esperando que ele dissesse alguma coisa. Como no disse, voc perguntou:
- Teremos dinheiro suficiente para que nossa vida no mude?
- Sim, j calculei todos os gastos que podem ter.
- Sendo assim, no tenho a que me opor. Estou de acordo. E voc, Norberto?
- Voc acha que vai dar certo, Lia? Ser que no vamos nos arrepender?
- Seu pai est dizendo que vamos ter tudo do que precisamos e com o que estamos acostumados.
- Se voc acha que est bem, tambm concordo. 
Samuel sorriu e continuou falando:
- Eu sabia que concordariam, pois, na realidade, era aquilo que vocs queriam. Ter dinheiro sem precisar trabalhar e se preocupar. Por saber isso, j tinha comigo 
todos os documentos necessrios. Todos assinaram e eu, satisfeito, propus um brinde. Quando terminamos de beber, voc, Lia, disse:
- Agora que est tudo dito e assinado, posso voltar para a festa? Estava combinando com a Nomia uma viagem a Paris.
- Vamos, Lia. Gostei da idia.
Lia comeou a chorar. Samuel perguntou:
- Por que est chorando, Lia?
- Depois de me lembrar desse tempo, entendo o porqu de, hoje, sermos pobres e no termos filhos.
-  verdade, Lia... Olmpia interferiu:
- Sim, esse  o motivo. Ontem, vocs tiveram tudo, dinheiro e tranqilidade, para terem e criarem muitos filhos com todo conforto, mas, usando do livre-arbtrio, 
se recusaram. Quando ficaram velhos, encontraram-se sozinhos e perceberam a inutilidade da vida que viveram. Depois, quando morreram e quando iam renascer, escolheram 
a vida que teriam. Para dar valor, seriam pobres e no teriam filhos. Vocs escolheram e esto vivendo isso.
- Estamos entendendo, no , Norberto?
- Sim, Lia. A sorte  termos os filhos de vocs para que no seriamos totalmente infelizes.
Samuel falou:
-  verdade, como podem ver Deus nunca nos abandona. Vocs continuaro ao lado deles, tratando-os como filhos e eles como se fossem seus pais. Agora, vamos continuar. 
Voc tambm saiu Francisco, dizendo:
- J que est tudo acertado, vou para o escritrio. H algumas coisas que preciso ver.
- Est bem, Francisco, pode ir.
- Voc tambm se levantou para sair, Raquel, mas eu disse:
- Fique, Raquel, ainda no terminei com voc. Raquel, parecendo aflita, disse:
- Antes que o senhor continue, eu poderia ir at onde est Mauro, preciso muito v-lo, saber como est...
- Ele est bem.
- J disseram isso, mas preciso ver como ele est...
- Est bem. Olmpia, enquanto eu continuo conversando com eles, v buscar Mauro. Ela vai ver que, realmente, ele est bem.
Olmpia se levantou, sorriu para Raquel, que correspondeu ao sorriso. Depois que Olmpia saiu, Samuel continuou falando.
- Naquele dia, depois que todos saram, ns continuamos. Voc, Raquel, estava preocupada com aquilo que Lia havia dito a respeito de seus filhos. Perguntou:
- Pai, o senhor sabe o que est acontecendo com meus filhos?
- Por que est perguntando a mim?
- Sei que meus filhos conversam sobre tudo com o senhor. Por isso, se alguma coisa estiver acontecendo, o senhor deve saber.
- Est com cime?
- Confesso que algumas vezes me incomodei com isso, mas, conhecendo o senhor como conheo, sei que eles, assim como eu, confiam no senhor. No sei o que faz para 
obter tanta confiana dos jovens.
- J estive pensando a esse respeito, minha filha. Talvez seja por nunca me esquecer de como era quando jovem. Por mais que o mundo mude, que se modernize, as crianas 
e jovens sero sempre iguais. Precisam viver para aprender. Depois de tanto tempo de vida, aprendi que no adianta querermos passar nossas experincias para eles, 
pois s sabero o que dizemos no momento em que estiverem vivendo.
- Deve ser isso mesmo, pai. Confesso que tenho dificuldade para pensar assim e uso de todas as maneiras possveis para evitar que sofram.
- No adianta minha filha. Tero de passar por experincias que sero s deles.
- Preciso me convencer disso, mas, voltando ao assunto, Lia insinuou que est havendo algo, preciso saber do que se trata. O senhor sabe algo a respeito?
- Sim. Ela deve ter se referido ao que est acontecendo com Joo Pedro. Algo que, para mim, no tem importncia alguma, mas que, para voc, poder ser um problema.
- Do que se trata papai?
- Ele est namorando Maria Rita.
- O qu?
- Isso mesmo e, pelo que me disse, est apaixonado.
- No pode ser pai! Ela  uma...
- Negra? E isso que a incomoda? Ela ser uma negra?
- No! No  isso! O senhor sabe que no tenho preconceito.
- Sei, sim, desde que um negro no tente entrar para a nossa famlia.
- No  bem assim, pai. No  por ser uma negra, mas, sim, por no ter instruo nem uma famlia respeitvel.
- Voc quer dizer uma famlia com dinheiro, no  mesmo?
- Sim, pai. O senhor acabou de dizer que nossa fortuna  incalculvel! No podemos permitir que algum que nada tem se aproprie dela!
- Para que serve o dinheiro, Raquel?
- Quando fiz essa pergunta, voc pensou por alguns segundos e depois respondeu:
- Para termos uma boa vida.
- Para o que mais?
- No sei pai. Para comprarmos tudo o que desejamos.
- Para o que mais, Raquel?
- Lembra-se de como voc ficou nervosa, quando insisti na pergunta?
- Tive de ficar, porque, por mais que eu respondesse o senhor queria sempre mais. Eu no sabia para que mais o dinheiro servia.
-  verdade. Eu sabia que ainda no havia descoberto para que o dinheiro servia, realmente. Nervosa, foi voc quem perguntou:
- No sei pai, para o que mais ele serve?
- No acha que  para nos trazer a felicidade?
- Como?
- Ele serve somente para nos trazer a felicidade, para nada mais, filha...
- No estou entendendo o que quer dizer. J disse que serve para termos uma boa vida e comprarmos tudo o que queremos. Isso no  felicidade?
- De certa maneira , mas voc disse que uma pessoa que nada tem no pode ter aquilo que julga ser seu.
- Pai! O senhor est me confundindo...
- Supondo-se que Maria Rita s esteja interessada no nosso dinheiro, o que no acredito, qual seria o problema se, para obt-lo ela faa Joo Pedro feliz? Se o dinheiro 
pode ser usado para a felicidade dele, que seja!
- No, pai, no posso aceitar isso! Ele precisa se casar com algum do nosso nvel!
- Est querendo dizer com o nosso dinheiro?
-  isso mesmo!
- Estou velho, minha filha. Sei que logo mais vou deixar esta terra, mas fico triste ao ver que pensa assim. Agora que estou perto da morte, vejo que o dinheiro 
no tem valor algum e que, principalmente, no tem dono. Assim que eu fechar meus olhos, todo o trabalho que tive, todo o dinheiro que acumulei, ficar aqui e ser 
usado por aqueles que vieram depois de mim. Ser que sabero usar? Ser que esse dinheiro trar a eles a felicidade ou ser que o dinheiro se transformar em motivo 
de brigas e desavenas?
- Lembra-se disso que eu falei a voc, Raquel?
- Lembro-me, pai e, infelizmente, embora eu tenha ouvido, no o escutei.
- Tem razo, infelizmente voc no escutou e cometeu aquela injustia, aquele crime contra Maria Rita, o que causou a infelicidade de seu filho.
-  verdade, depois que conversou comigo, fui conversar com Joo Pedro.
- Foi isso que aconteceu, mas, agora, precisamos parar de conversar. Precisa voltar ao seu corpo. No pode se esquecer de que, agora, voc  Raquel e que est sozinha, 
criando duas crianas. No pode se esquecer de que, embora estejamos conversando aqui, seu corpo est adormecido, mas logo ser acordado por seu filho que est com 
fome.
- No pode fazer isso!
- Por que no, Raquel?
- No posso ir sem ver Mauro. Olmpia ainda no voltou com ele!
Samuel sorriu:
- Ele est bem, no se preocupe. Voc vir aqui, ainda, vrias vezes e poder ver seu filho. Mas, hoje, no vai dar. Conversamos demais e Marcos precisa de voc.
Antes que ela dissesse alguma coisa, Marcos comeou a chorar e ela acordou. Enquanto tirava o menino do bero, pensou: Tive um sonho estranho... Acho que me encontrei 
com Francisco... Estvamos em uma festa. Vi a Lia e o Norberto tambm. No me lembro muito bem, s sei que estava feliz.  uma pena no me lembrar de todos os detalhes. 
Ser que Francisco est aqui? Bem, preciso deixar o sonho para depois, agora, tenho que cuidar do meu nenm. Embora tivesse trocado a fralda, dado de mamar, Marcos 
no parava de chorar. O choro era to alto e estridente que acordou Moacir que, sonolento, disse:
- Faz parar de chorar, me...
- Estou fazendo o possvel, volte a dormir logo ele vai dormir tambm.
O menino, com sono, virou-se na cama e voltou a dormir. Raquel sorriu. Depois de mais de meia hora de balanos e afagos, Marcos tambm voltou a dormir. Raquel, com 
cuidado, colocou-o de volta no bero e se deitou: Preciso dormir mais um pouco, pois sei que daqui a duas horas ele vai acordar novamente. Amanh vou recomear a 
minha vida. Espero conseguir vender bastante para poder cuidar bem dos meus filhos. Francisco, no sei se existe mesmo outra Vida. S sei que, se existir, voc estar 
cuidando de Mauro e de ns tambm e vai me ajudar a conseguir vencer. Assim pensando, sorriu e logo adormeceu. Francisco, que estava ali ao lado de Samuel e Olmpia, 
sorriu. Olmpia estendeu as mos sobre Raquel e, de suas mos, luzes brancas surgiram e iluminaram todo o quarto.
 
DEDICAO

No eram ainda seis horas da manh, quando Marcos acordou. O choro dele fez com que Raquel acordasse tambm. Ela se levantou, tirou o menino do bero, colocou-o 
para mamar. Enquanto ele mamava, carregando-o no colo, foi para a cozinha e, com uma das mos, colocou carvo sobre as brasas que haviam restado da noite anterior, 
abanou com a tampa da panela. Quando as chamas ficaram fortes, tirou gua de um balde que estava sobre uma cadeira, colocou em uma chaleira e, depois, colocou a 
chaleira sobre as chamas. Voltou para o quarto, sentou-se sobre a cama e esperou que Marcos terminasse de mamar. Quando o menino se fartou, trocou sua fralda e colocou-o 
novamente no bero. Antes que Moacir acordasse, pegou as roupas que estavam no cho, ao lado da cama, levou-as para os fundos do quintal, onde Francisco havia feito 
um pequeno coberto e colocado o tanque, que ficava junto ao poo de gua. Ela baixou o balde, que estava preso em uma corda, e, lentamente, trouxe o balde, com gua, 
para cima. Fez isso vrias vezes at ter gua suficiente para lavar a roupa. Rapidamente, lavou as roupas, depois as prendeu em um varal e entrou em casa. Moacir 
ainda dormia. Acordou-o, dizendo:
- Acorde Moacir. A mame precisa trabalhar e voc vai ficar com a Lia.
O menino, com dificuldade, abriu os olhos.
- Precisa trabalhar, por qu?
- Para poder dar a voc e ao seu irmo tudo do que precisam.
- O pai vai demorar muito para voltar?
Ela se emocionou, mas disfarou, perguntando:
- Por que est fazendo essa pergunta?
- Porque quando ele estava aqui, a senhora no precisava trabalhar...
- Sei disso, mas ele vai demorar em voltar e, enquanto ele no chegar, eu vou cuidar de vocs. Agora, levante-se, precisa tomar caf.
O menino se levantou e, sonolento, foi para a cozinha, sentou-se em uma cadeira. Raquel pegou uma caneca de alumnio, colocou dentro dela um pedao de po do dia 
anterior e, sobre ele, jogou um pouco de caf e misturou com leite. Bateu bem e deu uma colher para que o menino pudesse comer. Enquanto ele comia, ela pegou algumas 
mamadeiras que estavam em uma panela com gua. Elas haviam sido fervidas. Voltou para o quarto, tirou leite e colocou nas mamadeiras que deixaria com Lia. Depois 
de tudo arrumado, pegou Marcos, ainda dormindo, no colo e, segurando Moacir com a outra mo, foi para a casa de Lia. Assim que entrou, viu que Norberto estava do 
lado de fora da casa.
- Bom dia, Norberto.
- Bom dia, Raquel. Eu, ontem, avisei ao Augusto que no iria trabalhar hoje, preciso fazer a nossa mudana.
- Est bem, Norberto.  bom que se mudem logo. Assim no vou precisar tirar as crianas to cedo da cama.
Lia, ao ouvi-los conversando, saiu e, com carinho, pegou Marcos do colo de Raquel e Moacir pela mo.
- Venha Moacir, j preparei alguns brinquedos para voc brincar. O menino entrou e correu para os brinquedos que estavam espalhados pelo cho. Sentou-se e comeou 
a brincar.
Raquel, sorrindo, tambm entrou. Assim que entrou, Lia disse:
- Raquel, sonhei com voc!
- Comigo?
- Sim, no sei o que sonhei, mas Francisco e Norberto tambm estavam no meu sonho.
- Estranho...
- Estranho, por que, Raquel?
- Tambm sonhei com voc, com Norberto e com Francisco. Parece que estvamos em uma festa...
- No sei onde estvamos, mas estvamos juntas em algum lugar.
- Acho que  porque estamos preocupadas com a vida e com sua mudana l para casa.
- Deve ser isso mesmo. Para ser sincera, no vejo a hora de me mudar. Sei que assim vou poder cuidar das crianas com mais espao facilidade.
-  verdade, Lia. L em casa tem muito mais espao do que aqui. Agora, vou at o bar do seu Joaquim para pegar po, leite e o pedao de gelo. Depois, vou sair e 
tentar vender os mveis.
- Faa isso e no se preocupe, sabe que cuido dos seus filhos como se fossem meus. Suas crianas, para mim, foram como presentes de Deus.
- Sei disso, Lia. Por isso no me preocupo. Agora, preciso ir.  tarde, quando eu voltar, j dever estar na minha casa.
Raquel beijou os filhos e, acompanhada por Olmpia, saiu. Em sua bolsa, levava as fotografias dos mveis. Visitou vrios lugares, mas no conseguiu vender. Olhou 
para o  relgio que tinha em seu pulso, pensou: J so quase trs horas e no vendi nada. Hoje, definitivamente, no vou vender. Acho melhor voltar para casa. Lia 
j deve estar l e precisando de ajuda para a arrumao de tudo. Sei que, com as crianas, isso no  fcil.
Caminhou em direo ao ponto do primeiro nibus que deveria tomar. Estava andando, quando Olmpia fez com que ela olhasse para o outro lado da calada. Ela viu que 
um prdio, j em fase de acabamento, estava sendo construdo. Parou, olhou e percebeu que era um prdio de apartamentos, mas que no trreo estavam construindo lojas. 
Atravessou a rua e parou em frente. Um senhor se aproximou:
- A senhora est interessada em comprar?
- Bem que gostaria, mas no tenho dinheiro para isso.
- Vi que estava olhando com tanto interesse, achei que queria comprar. Sou o construtor. Os apartamentos j foram vendidos, mas restam, ainda, duas lojas.
- No quero nem posso comprar, mas pode me informar que tipo de lojas haver aqui?
- Daquele que o comprador quiser. Como pode ver, so quatro lojas. Duas j foram compradas. Uma vai ser de sapato, outra ser de roupas. As outras duas ainda no 
sei. Por que est perguntando, j que no vai comprar?
Ela tirou as fotografias da bolsa e mostrou ao senhor que, aps olhar, disse:
- Os mveis so muito bonitos. A senhora trabalha para esta empresa?
- No, senhor, sou dona.
- Dona da empresa? Uma mulher?
- Embora parea estranho, sou dona, sim. A vida me levou a isso.
- Como a vida a levou?
Ela no entendia o porqu, mas confiou naquele senhor que poderia ser seu pai e contou tudo o que havia acontecido. Quando terminou de falar, o homem, demonstrando 
pesar, disse:
- Nossa, moa, quanto sofrimento!
- O senhor no pode imaginar como estou me sentindo. Embora saiba que preciso cuidar dos filhos que me restaram, confesso que, muitas vezes, sinto vontade de abandonar 
tudo.
- No pode moa! Essas crianas so a sua salvao!
- Por que est dizendo isso? Eles nasceram e continuaro crescendo, mesmo que eu no esteja mais aqui. J fiz a minha parte, permiti que nascessem.
- Nem pense isso, ao contrrio, deveria perguntar o que fez na outra encarnao para estar sofrendo assim.
- No, por favor, no venha com essa conversa de reencarnao! Isso  uma loucura!
- J ouviu falar sobre isso?
- Sim. Muitas vezes, mas no acredito que algum possa ser castigado por algo de que no se lembre! Deus no poderia ser to malvado assim!
- Deus no  malvado, Ele no  responsvel por aquilo que passamos. S existe um responsvel.
- Quem?
- Ns mesmos. Deus s nos d a chance de resgatarmos os erros que praticamos.
Raquel, furiosa, falou:
- No d para aceitar, no! O senhor quer que eu acredite que fui muito m, que matei meu marido e meu filho e que por isso eles morreram? No aceito isso! No pode 
ser!
- No disse que tenha feito isso, mas pode ter feito, sim. Quem vai saber o que fizemos em outra vida...
- Eu s aceitaria isso, se conseguisse me lembrar, como no me lembro, no aceito!
- Pode estar certa, mas, se lembrasse, no haveria mrito algum. Mudaria sua atitude por interesse, no para progredir, como esprito. Deus no quer nos impor nada, 
quer que faamos o que sentimos vontade. Ele  o mais democrata de todos. Deixa que cada um decida o caminho que quer seguir.
- No consigo entender dessa maneira! Supondo-se que seja verdade, eu no posso ter feito algo to grave para merecer a vida que estou tendo!
- Quem  que sabe moa... Quem  que sabe, mas no adianta ficarmos conversando, o que preciso fazer  tentar ajudar  senhora. Posso ficar com essas fotografias?
- Pode, sim. Eu tenho o filme e vou mandar revelar mais.
- A senhora manda revelar sempre?
- Sim, sempre que deixo em algum lugar, preciso mandar fazer mais.
- Fica muito caro! Por que no manda fazer folhetos em uma grfica?
- Folhetos? No sei, mas deve ficar muito caro e eu no tenho dinheiro para isso.
- No  to caro assim e garanto que  muito mais barato do que fazer revelao de fotografias. Alm disso, ter muito mais para poder mostrar. Procure se informar. 
Tenho um amigo meu que tem uma grfica, vou lhe dar o endereo. V at l, sei que ele vai facilitar para que possa fazer os folhetos. Assim, todas essas fotografias 
ficaro juntas em um s folheto e poder deix-las por todo lugar. Vai ver como o resultado ser melhor.
- O senhor acha?
- Tenho certeza. Seus mveis so muito bonitos e diferentes de tudo que j vi. Vai ser um sucesso. Acho que a senhora vai se tornar uma grande empresria!
- Tomara que seja verdade!
- Vai ser, pode ter certeza. No foi  toa que a senhora passou por aqui e parou para conversar. Isso aconteceu para que eu pudesse lhe falar da grfica e dos folhetos. 
Embora no acredite, Deus trabalha assim. Sempre que precisamos, Ele usa as pessoas para nos ajudar.
- Ser verdade?
- No sei, mas pense a respeito e vai ver que, por pior que seja o momento que estamos vivendo, nunca estamos ss e que, de alguma maneira, a ajuda sempre vem.
- No sei se foi Deus, mas o senhor me deu uma tima idia. 
Ele tirou do bolso um carto e deu a ela, falando:
- No vai acreditar, mas este carto estava esquecido na gaveta da minha escrivaninha e, hoje, quando estava saindo, abri a gaveta para pegar um pedido de material 
de construo que havia feito e vi o carto. Sem saber o porqu, peguei-o e coloquei-o no bolso. V at l e diga ao Domingos que foi o Luiz quem a mandou. Aqui 
no tem telefone, mas assim que chegar ao meu escritrio vou telefonar e pedir a ele que faa o que for possvel para ajud-la.
- O senhor vai fazer isso?
- Claro que vou. Embora no acredite, acho que Deus me fez um Seu instrumento para ajud-la neste momento difcil pelo qual est passando.
- Nem sei como agradecer.
- No precisa agradecer. A senhora  uma mulher muito forte. Uma guerreira! Vai vencer na vida, disso tenho certeza!
Ela olhou para o carto e, rindo, disse:
-  aqui perto, justamente na rua em que vou pegar o meu nibus.
- A senhora vai passar por essa rua?
- Sim. Estava indo para l.
- Ento, vou junto com a senhora e converso com o Domingos. Sei que ele vai ajudar. Espere s um pouquinho.
Entrou na construo, falou alguma coisa a um dos pedreiros e saiu.
- Agora podemos ir. Avisei que vou sair, mas que voltarei logo. Saram caminhando.
Chegaram  grfica. Luiz mostrou as fotografias:
- Esta senhora tem uma pequena marcenaria. Precisa fazer alguns folhetos para divulgar sua mercadoria, mas no tem dinheiro. Queria ver se voc pode ajud-la.
Domingos olhou as fotografias e disse:
- Podemos fazer um folheto, no muito grande, mas que mostre bem os mveis que, por sinal, so bonitos.
- Tambm achei e sinto que, com uma boa propaganda, ela tem futuro. Por isso, voc poderia facilitar a maneira de pagamento.
- Somos amigos h muito tempo, Luiz, e voc sabe que minha grfica tambm  pequena e que no costumo fazer isso, mas, no sei por que, vou ajudar  senhora. Vou 
fazer os folhetos e poder pagar em duas vezes. Vou fazer ainda mais. Pagar a primeira prestao em trinta dias e a segunda em sessenta. O que acha?
Raquel, que acompanhava a conversa e ao ouvir aquela pergunta, ficou calada por alguns minutos, depois disse:
- O senhor ainda no falou quanto vo custar os folhetos.
- Vou fazer um oramento e amanh poderei dizer com certeza. Mas no se preocupe. Sei que no vai se arrepender e que seus mveis sero vendidos com mais facilidade 
e menos trabalho.
- Est bem. Faa o oramento e amanh bem cedo eu passo por aqui.
Domingos olhou para Luiz e sorriram. O mesmo fez Olmpia que continuava ao lado de Raquel. Saram da grfica. Despediram-se.
- Obrigada por sua ajuda, senhor Luiz.
- J disse que no precisa agradecer e, quando os folhetos ficarem prontos, leve-os a minha obra. Vou tentar vender seus mveis e acho que vou conseguir.
Raquel sorriu, foi para o ponto de nibus e Luiz voltou para sua construo. O nibus chegou e ela entrou. Assim que entrou, percebeu que no havia lugar para se 
sentar, mas no se incomodou. Em p, segurando-se no banco  frente, pensou: Foi muito bom ter conhecido esse senhor. Nunca havia pensado em fazer folhetos. Acho 
que ele tem razo, meu trabalho vai se tornar mais fcil e os mveis sero conhecidos por mais pessoas. Aps quase quarenta minutos, finalmente o nibus parou no 
ponto em que ela deveria descer. Desceu. Acompanhada, sem saber, por Olmpia, comeou a caminhar em direo  sua casa. Sabia que Lia havia se mudado. Entrou, viu 
Lia que dava comida para Moacir. Assim que a viu, Lia disse:
- Raquel! Chegou cedo!
Antes de responder, Raquel abraou e beijou Moacir, que continuou comendo. Depois, respondeu:
- Cheguei, Lia. Estou cansada, andei muito, mas valeu  pena.
- Conseguiu vender?
- No, mas aconteceu algo que, acho, vai me ajudar muito.
- O que foi?
Raquel contou o encontro com Luiz e terminou, dizendo:
- Acho que  uma boa idia, voc no acha que , Lia!
- Acho Raquel! Como no pensamos nisso?
- No sei, Lia.
Moacir terminou de comer, desceu da cadeira e chegou perto de Raquel que, pegando-o no colo, perguntou:
- Ento, meu filho, voc est bem?
- Estou j tomei banho e comi. 
Lia sorriu:
-  verdade, Raquel. Ele  um bom menino. J tomou banho e logo poder ir dormir.
- O Marcos, como est, Lia?
- Depois de mamar e chorar um pouco, est dormindo. 
Raquel sorriu:
- Est dormindo agora para ficar acordado quase a noite toda. Vou at o quarto para v-lo.
Estava indo para o quarto, quando Lia disse:
- Ele no est mais no seu quarto, Raquel.
Raquel parou, voltou-se, perguntando:
- Por que no, Lia?
- Durante o dia nos mudamos. Tirei os mveis que eram de Mauro e que estavam no quarto, levei para o quartinho dos fundos e coloquei nossa cama e o guarda-roupa 
no lugar. Pensei um pouco e, j que precisa sair todos os dias e eu vou ficar em casa, no acho justo que fique acordada cuidando de Marcos. Coloquei o bero dele 
no meu quarto, assim, eu cuidarei dele e voc poder dormir melhor.
- Sua inteno foi muito boa, mas acho que no vai passar da primeira noite. Voc no imagina o que um nenm faz. Voc no pode evitar o choro dele, mas, de qualquer 
maneira, obrigada por ter feito isso. Preciso muito dormir, tomara que d certo.
- Tomara que d certo, mesmo, Raquel. Depois que o vir, volte. O jantar est quase pronto e, enquanto eu cozinhava, deixei este caldeiro com gua sobre o fogo 
para que esquentasse e, se quiser, pode tomar banho. Depois, eu coloco outra gua para Norberto.
- Nossa, Lia! Voc  perfeita! Obrigada!
Lia sorriu e voltou-se para o fogo, onde uma panela com feijo fervia.
Raquel foi tomar banho. Quando Norberto chegou, jantaram. Aps o jantar, Raquel, cansada, deitou-se. Olhou para o lado e pensou: Parece que tudo est se encaminhando, 
mas voc no est mais aqui, Francisco. Durante o dia, chego at, por alguns momentos, a me esquecer de tudo, mas, agora, aqui, a saudade de voc e de Mauro  muito 
grande. Sinto meu corao at doer. Ouvi tanto falar em outra vida, seria to bom que fosse verdade e que eu, um dia, me encontrarei com vocs. Poder abraar e beijar 
meu filho outra vez. Dormir abraada a voc, como fazia antigamente. Se tudo o que disseram for verdade, voc deve estar aqui ao meu lado. Tomara que seja verdade... 
Lgrimas caram de seus olhos. Aps algum tempo, cansada, adormeceu.

SONHO REPARADOR

Algum tempo aps adormecer, Raquel foi acordada por Olmpia e Francisco:
- Acorde Raquel! Precisamos ir a um lugar e sei que vai gostar. Ela, no demonstrando surpresa, sorriu:
- Aonde vai me levar, Francisco?
-  uma surpresa. Vamos! Vai ser uma surpresa!
- Est bem.
Ela levantou-se, olhou para a cama e viu que seu corpo dormia.
- Meu corpo vai ficar aqui?
- Vai, sim. Ele precisa de repouso, mas o esprito nunca dorme. Antes, porm, vamos acordar os meninos. Eles precisam ir conosco.
- Para onde vai nos levar?
- J disse que  surpresa, Raquel. No se preocupe, sei que vai gostar.
Olmpia estendeu os braos em direo a Moacir que, no mesmo instante, abriu os olhos. Ao ver a me em p, estranhou:
- A senhora no est dormindo?
- No, filho. Olhe quem est aqui.
Moacir olhou para onde ela apontava e, com alegria, gritou:
- Papai! J voltou de viagem?
Francisco pegou o menino no colo e, emocionado, respondeu:
- No, Moacir, estou apenas visitando vocs.
O menino no se deu conta do que estava acontecendo realmente, apenas sorriu de felicidade. Entraram no outro quarto onde Marcos dormia e o acordaram tambm. Assim 
que viu Moacir, o menino gritou:
- Voc est aqui, mesmo, Moacir?
- Estou o Gabriel no disse que amos nos encontrar?
- Ele disse, mas eu estava com medo de no encontrar voc.
Raquel, ao ouvir aquilo, olhou para Francisco que, tambm surpreso, olhou para Olmpia que, sorrindo disse:
- Por que toda essa admirao?
- Marcos  ainda um beb, como pode falar e reconhecer o irmo?
- Vocs se esquecem de que, embora em um corpo de criana, todo esprito foi criado h muito tempo?
- Sim, mas, mesmo assim, no estou entendendo o que est acontecendo aqui...
- Viemos buscar vocs justamente para isso, para que entendam.
- Para onde vamos?
- Vamos nos dar as mos.
Obedecendo, Raquel pegou Marcos no colo. Francisco segurou Moacir pela mo e, em poucos minutos, estavam naquele mesmo lugar onde havia muitas crianas. Raquel, 
admirada, olhava sem se conter. Perguntou:
- Existem, aqui, crianas de todas as idades, Olmpia!
Antes que Olmpia dissesse algo, Marcos e Moacir, assim que viram Gabriel, correram para ele, que, assim que os viu, abriu os braos. As crianas o abraaram com 
carinho e saudade. O rapaz, abraando-os, disse:
- Eu no falei que vocs iam se encontrar, Moacir?
- Falou Gabriel, mas, mesmo assim, eu estava com medo, no queria nascer. No queria deixar Marcos, ele  meu amigo de muito tempo. Fiquei com medo de que ele no 
fosse ao meu encontro.
- Sei disso, mas eu disse que voc iria primeiro e que ele iria depois, no foi?
Os meninos, com a cabea, disseram que sim. Gabriel continuou:
- Como esto vendo, isso aconteceu. Ele, agora,  seu irmo e vocs crescero juntos. Um ajudar ao outro a caminhar, a aprender e a resgatar.
Raquel e Francisco, ao ouvirem e virem aquilo estranharam. Raquel perguntou:
- No estou entendendo, Olmpia. O que est acontecendo aqui?
- O que voc no est entendendo, Raquel?
- Agora pouco, voc disse que todo esprito foi criado h muito tempo. Como existem tantas crianas aqui?
-  muito simples, Raquel.
- Como simples?
- Todo esprito foi criado h muito tempo, mas quando morre no corpo de uma criana, seria muito estranho, para ele, ao voltar para c, ver se em um corpo adulto. 
As crianas precisam de um tempo para se adaptarem  nova realidade. Por isso, elas so enviadas para lugares como este, onde espritos amigos as recebem, instruem 
e vo, aos poucos, contando o que aconteceu. Com o tempo, vo sendo esclarecidas e se adaptando.
- Parece ser uma escola!
- Pode-se dizer que  mesmo, Raquel. Os espritos que trabalham com as crianas que chegam aqui, na maioria das vezes, aqui e quando renascidos, foram e sero sempre 
professores.
- Existem espritos que sempre so professores?
- Sim, assim como mdicos, advogados e de todas as profisses. O esprito, antes de renascer, escolhe a profisso que quer seguir. Quantas vezes voc ouviu algum 
dizer: O que ele tem  um dom...
-  verdade, muitas vezes j ouvi dizer isso.
- Sei que sim e  verdade. Esse dom foi adquirido atravs de muitas vidas e vai sempre sendo aperfeioado.
- Nunca imaginei que fosse assim, embora, muitas vezes, tenha ficado admirada com coisas que as pessoas fazem.
- Todo esprito, antes de renascer, aps escolher como vai viver,  mandado para c, onde, como criana, recebe instrues. Ele fica algum tempo aqui, vivendo e 
convivendo com espritos em um corpo de criana como ele, espritos esses que encontrar durante sua vida de renascido. Seria muito estranho, para todos, se as crianas 
nascessem sabendo tudo. Durante o tempo em que ficam aqui, se adaptando ou se preparando, encontram-se com amigos de vrias vidas e planejam como ser o seu encontro. 
Algumas vezes, renascem na mesma famlia. Algumas vezes, conhecem-se e se tornam amigos inseparveis. J no ouviu, tambm, algum dizer: "eu e ele somos mais que 
irmos".
-  verdade, Olmpia, isso realmente acontece... 
Francisco interferiu:
- Est certo, Raquel. Lembra-se do Paulo, ele era mais do que meu irmo. Fiquei muito triste quando ele foi para o exterior, mesmo assim, nos correspondemos por 
cartas!
-  mesmo, Francisco. Eu tambm me dava melhor com Jandira do que com minha irm.
Olmpia sorriu e continuou falando:
- Puderam ver o que aconteceu agora pouco com Moacir e Marcos. So espritos amigos h muito tempo, sempre renascem na mesma gerao e se reencontraram de vrias 
maneiras, na mesma famlia ou no. H pouco tempo, eles estavam aqui, sendo preparados por Gabriel para a volta a Terra. Moacir teve dificuldade para ir embora, 
tendo de separar-se de Marcos, mas, depois de muito conversar com os dois, Gabriel conseguiu convenc-los. Moacir foi  frente e Marcos ficou ansioso, esperando 
a sua hora de ir, tambm, para poder reencontrar o amigo. Depois da partida de Moacir, hoje  a primeira vez que se reencontram. Por isso, vocs puderam ver a felicidade 
deles.
Raquel e Francisco estavam boquiabertos. Ela perguntou:
- A criana, quando morre, permanece como criana, mesmo sendo um esprito criado h muito tempo?  isso que est dizendo?
- Isso mesmo. Claro que no  para sempre. Somente at que, aos poucos, v relembrando as outras vidas que teve e aceitando que no  criana.
- Demora muito tempo para que isso acontea?
- Depende de cada esprito. Nada  forado. Cada um vai escolher quando quer voltar a ser adulto. Aqui, a liberdade de escolha  total. Como acontece aqui ou em 
qualquer lugar, o esprito sempre tem seu livre-arbtrio.
- Sendo assim, Mauro est aqui?
- Est, Raquel, e foi por isso que a trouxemos at aqui, para que possa encontr-lo. Ele ainda no entendeu o que aconteceu. Est triste e perguntando por voc.
- Onde ele est?
- Est ali, conversando com Neide. Ela  quem est cuidando dele. 
Raquel olhou para onde ela apontava e viu Mauro, voltou a olhar para Olmpia que, com a cabea, consentiu. Saiu correndo em direo ao menino. Quando estava chegando 
perto, avisado por Neide, a professora que cuidava dele, o menino se voltou e viu Raquel se aproximando. Correu para ela. Chorando, abraaram-se. O menino, feliz, 
mas chorando, perguntou:
- Onde a senhora estava, me? Perguntei, mas ningum soube me responder, nem o papai.
Raquel, entre lgrimas, olhou para Francisco, que sorriu. Depois, olhou para Olmpia, que respondeu:
- Sua me estava viajando, Mauro, e vai precisar viajar novamente, mas voc vai ficar aqui com todas essas crianas e com seu pai.
- Onde est Moacir?
- Est ali com Marcos, o seu irmozinho que nasceu.
- Ele vai ficar aqui comigo?
- Ele ainda  muito pequeno e precisa ficar com a sua me, no , Raquel?
Raquel, que nunca havia mentido para o filho, ficou sem saber o que dizer. Francisco foi quem respondeu:
- , sim, Olmpia. Mauro, Marcos acabou de nascer. Nenns que nascem precisam ficar com a mame. Voc sabe que eles so ainda muito pequenos. Voc, como j est 
bem grande, vai ficar comigo. O que acha? Podemos fazer uma poro de coisas. Soube que h uma marcenaria aqui. Vou trabalhar nela e, se quiser, pode me ajudar.
- Posso ir  marcenaria?
- Pode meu filho. Sempre que quiser.
- Eu quero!
- Est bem. Depois que a mame for embora, ns vamos conhecer a marcenaria que tem aqui, no  mesmo, Olmpia?
- Claro que sim, Francisco. Sei que vai gostar da marcenaria que tem aqui, Mauro, e, se quiser, pode at desenhar e construir alguns mveis.
O menino voltou a abraar a me:
- Me, a senhora vem sempre me ver?
Raquel, com lgrimas nos olhos, mas tentando evitar que o menino visse que estava chorando, abraou-o e respondeu:
- Sempre que eu puder meu filho, e, enquanto isso no acontecer, vou morrer de saudade.
- Eu tambm vou.
A um sinal de Olmpia, Neide segurou a mo do menino, dizendo:
- Venha comigo, Mauro, vamos ver aquela mesa de que voc gostou tanto. Pode tirar as medidas e depois construir igual, como o papai faz. Voc quer?
- Quero!
Raquel no conseguia parar de chorar nem largar o filho. Ainda abraada a ele, olhou para Olmpia e perguntou:
- Preciso mesmo ir embora? No posso continuar aqui ao lado dele?
- No, Raquel. Voc tem, ainda, uma longa caminhada. Mas no se preocupe, o tempo passa depressa e, antes que se d conta, seu tempo vai terminar e voc estar de 
volta.
- Por que tem de ser assim? No me conformo com esta separao.
- Tudo tem um motivo, Raquel. Um dia entender, mas, agora, precisa voltar. No pode esquecer que seus filhos pequenos precisam muito de voc.
Ao ouvir aquilo, Mauro se soltou dela e falou:
- Ela est certa, me. Eles so muito pequenos. Pode ir sossegada, vou ficar com o meu pai e na marcenaria!
Raquel olhou mais uma vez para Francisco que a abraou.
- V, Raquel. Como pode ver, estamos bem. Prometo a voc que sempre estarei por perto para ajudar no que for preciso e possvel. Nem sei se posso fazer isso, mas, 
se puder, vou estar sempre ao seu lado. Eu amo voc e aos meus filhos. Tambm, ainda no entendi o porqu de tudo isso ter acontecido, mas sei que um dia saberemos. 
V. Sei que sua vida vai ser difcil, mas voc  um esprito lutador e vai vencer.
Ela ia dizer alguma coisa, mas ouviu o choro de Marcos e acordou. Ainda sem acordar totalmente, levantou-se, saiu para o corredor, onde, no fundo, estava o quarto 
de Lia e Norberto. Caminhou at a porta e viu que a luz estava acesa e que Marcos chorava. Bateu devagar. Lia, com Marcos no colo, abriu a porta.
- Volte a dormir Raquel. Ele est bem. J troquei a fralda e vou dar um pouco de ch. Ele vai dormir em seguida. No se preocupe.
- Tem certeza, Lia?
- Tenho. Pode ir.
- Est bem, mas, se precisar, pode me chamar.
- Eu fao isso.
Voltou para o quarto. Antes de se deitar novamente, olhou para Moacir que dormia tranqilo, sorriu e estendeu o cobertor, que ele havia tirado, cobriu-o. Deitou-se, 
pensando: Sei que sonhei com Francisco e com Mauro, s no consigo saber o que foi. Queria tanto lembrar... Olmpia e Francisco, que estavam ao seu lado, sorriram. 
Ela estendeu os braos e jogou luzes sobre Raquel, que adormeceu imediatamente. Quando acordou novamente, Raquel olhou para a janela e, atravs de suas frestas, 
pde ver que estava claro. Olhou para o relgio e se assustou: Quase oito horas! Como pude dormir tanto? Levantou-se, rapidamente, abriu a porta e foi para a cozinha. 
Marcos estava sobre a mesa e Lia trocava sua fralda. Ao ver Raquel, perguntou, sorrindo:
- Bom dia, Raquel! Dormiu bem?
- Bom dia, Lia! Dormi bem, mas muito! Por que no me acordou.
- Voc est muito cansada, Raquel. Achei melhor deixar que dormisse mais um pouco. No se preocupe com Marcos, ele tomou ch duas vezes e dormiu o resto da noite. 
S acordou depois que Norberto saiu para o trabalho. Assim que eu terminasse de trocar a fralda, ia acord-la. Ele est com fome.
Raquel se aproximou da mesa e, aps Lia terminar de trocar sua fralda, pegou o menino no colo e, beijando-o, sentou-se e comeou a dar de mamar. Enquanto ele mamava, 
disse:
- Sonhei com Francisco e com Mauro, Lia.
- Sonhou? O qu?
- No lembro, mas sei que foi um sonho bom. Se acreditasse realmente em tudo o que dona Catarina diz, diria que eles esto bem.
- Devem estar Raquel. Francisco era um bom homem e Mauro uma criana linda...
- Devem mesmo, Lia. Estranho...
- Estranho o qu, Raquel?
- Embora sinta saudade deles, no estou mais com aquela tristeza enorme que sentia. Meu corao no est mais apertado, como estava antes. Sinto que preciso continuar 
e que, como dona Catarina diz e tomara que seja verdade, logo mais vou reencontrar Francisco e Mauro.
- Credo, Raquel! Pare com essa conversa! Vai demorar muito para isso acontecer!
Raquel comeou a rir:
- Tambm espero, Lia, mas sabemos que esse dia vai chegar para todos ns.
- Que vai chegar, vai, mas no quero pensar nisso agora! Quero viver muito!
Raquel apenas sorriu. Terminou de dar de mamar. Trocou de roupa e foi at o bar buscar o gelo. Voltou, tirou o leite necessrio para as mamadeiras que deveria deixar 
no gelo. Foi at o quarto, beijou Moacir, que ainda dormia. Beijou Marcos que estava sobre a cama de Lia e saiu para mais um dia de trabalho. Olmpia, como sempre 
fazia, acompanhou-a.

DESEJO REALIZADO

Daquele dia em diante, Raquel dedicou-se ao trabalho e Lia cuidava da casa e das crianas. Com os folhetos em mos, Raquel andava o dia todo, visitando imobilirias, 
prdios em construo, lojas e escritrios, oferecendo os moveis e tambm as cortinas. Quando conseguia vender cortinas, ficava at altas horas da noite costurando. 
As encomendas comearam a chegar e foram tantas que o galpo ficou pequeno. Precisou se mudar, comprar um pequeno caminho para fazer as entregas e contratar mais 
funcionrios. Cinco anos se passaram. Raquel quase no via os meninos, pois, quando saa para o trabalho, eles estavam dormindo e,  noite, quando voltava, eles 
estavam cansados e querendo dormir novamente. J no pensava com tanta dor em Francisco e Mauro. O dia a dia tomava conta de todo o seu tempo. Somente na hora de 
dormir  que se lembrava deles e pensava: Estou conseguindo, Francisco. O que me alenta  saber que voc est me esperando. Lia era quem contava as gracinhas e travessuras 
que os meninos faziam. Foi Lia que viu Marcos andar pela primeira vez e foi a ela que ele chamou de mame. Naquele dia, quando Raquel chegou cansada e as crianas 
j estavam dormindo, Lia estava radiante:
- Raquel! Hoje Marcos me chamou de mame!
Raquel sentiu um aperto no corao, mas sabia que nada poderia ser feito. Ela precisava trabalhar e precisava de Lia para que isso acontecesse.
- Que bom, Lia. Mas no se esquea que a me deles sou eu...
- Eu sei Raquel, e sempre falo com eles, mas no pude deixar de me emocionar. Sabe o quanto quis ter um filho. No entendo por que Deus no me mandou nenhum.
- Tambm no sei, Lia. Em minhas andanas, tenho estado em muitos lugares, desde os mais ricos at os mais pobres. Tenho visto mulheres pobres com muitas crianas, 
maltrapilhas e mal alimentadas. Quando vejo isso, me pergunto: por que Deus permite que mulheres pobres tenham tantos filhos, enquanto outras, assim como Lia, no 
conseguem ter uma criana que teria tudo para crescer bem alimentada e feliz?
- J me fiz essa pergunta muitas vezes, Raquel, e, assim como voc, tambm no entendo.
- Quem sabe, algum dia, teremos essa resposta.
-  quem sabe...
Alguns dias depois, Raquel chegou a casa trazendo um pacote, embrulhado em um papel azul. Assim que entrou, disse:
- Trouxe uma coisa, Lia. Abra este pacote, sei que vai gostar.
- O que  Raquel?
- Abra e veja. Sei que vai gostar.
Lia curiosa, pegou o pacote que estava sobre a mesa e, com cuidado, tirou o papel que o envolvia.
Assim que tirou o papel, uma caixa surgiu:
- Um ferro eltrico, Raquel?
- Sim. Agora que j temos eletricidade na Vila e que Norberto fez a instalao na casa, nada melhor do que um ferro eltrico, no ?
- Como funciona?
- A moa da loja que me vendeu disse que basta colocar na tomada. Vamos ver?
Antes mesmo de responder, Lia tirou o ferro da caixa e, com cuidado, colocou a tomada em outra que Norberto havia colocado na parede. Em poucos minutos, o ferro 
estava quente. Nesse mesmo instante, Norberto entrava em casa.
- Olhe Norberto! Raquel trouxe um ferro eltrico! No vou mais precisar ficar soprando naquele com carvo!
- Vamos dar viva  eletricidade que finalmente chegou aqui!
- Tem razo, Norberto. Com ela, nossa vida vai mudar. Sempre quis ter um ferro eltrico, um fogo a gs e uma geladeira, tambm.
- Essas coisas so novidades que s os ricos podem comprar Raquel. Estou feliz com o ferro eltrico. Ele vai me ajudar muito!
- Sei disso, Lia. Quando eu dizia a Francisco que queria ter um ferro eltrico, ele falava que a marcenaria ia bem e que logo poderia comprar um ferro e outras coisas 
que facilitam a vida da mulher. Ele tinha razo. Como a marcenaria est indo muito bem, consegui guardar um pouco de dinheiro e, como esta casa fica muito longe 
do galpo novo, estive pensando em comprar aquela casa grande, perto da marcenaria que fica naquela esquina, Norberto. Hoje vi que est com uma placa de vende-se. 
Amanh, vou conversar com o dono e, conforme for comprarei e nos mudaremos para l.
- Aquela casa  enorme, Raquel!
- Sim,  mesmo. Exatamente a que merecemos. Percebi que o quintal  grande. As crianas podero brincar muito l!
- Bem, voc  quem sabe. A marcenaria est indo bem, mesmo. Os pedidos so tantos que, para dar conta de tanto trabalho, vou precisar contratar mais funcionrios.
- Faa isso, Norberto. Contrate quantos forem necessrios. Alm de entregarmos os mveis de acordo com o contrato, estaremos dando trabalho a outras pessoas que 
precisam. No sei o porqu, mas, de repente fiquei pensando que o dinheiro serve unicamente para nos trazer felicidade e quando o temos, podemos, dando trabalho, 
fazer com que outras pessoas sejam felizes tambm.
- De onde tirou essa idia, Raquel?
- No sei, Lia. Acho que ouvi em algum lugar. Acho que cada um deve saber qual  a felicidade que deseja. Para voc, vejo que  apenas um ferro eltrico. Para mim, 
 dar uma boa vida para meus filhos.
- Parece estranho, mas, pensando bem, se no for para nos trazer felicidade, o dinheiro no serve para nada, mesmo. Como voc disse, estou muito feliz com meu ferro!
Raquel, rindo, disse:
- Que bom que esteja feliz, Lia. Agora, preciso jantar e depois vou costurar. Preciso terminar aquela cortina para que possa ser entregue amanh, junto com os mveis.
- Voc podia me ensinar, Raquel. Assim, poderei costurar durante o dia. Voc trabalha muito!
- No precisa, Lia. Voc tem muito mais trabalho cuidando da casa e dos meninos. 
Trabalho no mata! O que mata  a falta dele.
Lia, conhecendo Raquel, apenas sorriu. Raquel trabalhou at tarde da noite, mas conseguiu terminar a cortina. No dia seguinte, bem cedo, saiu novamente. Norberto 
colocou a cortina no caminho que ele dirigia e foi para a marcenaria. Aquele seria mais um dia de entregas. Raquel, aps visitar alguns clientes, foi at a casa 
que estava sendo vendida. Entrou, olhou e se admirou, pois, por fora, no parecia ser to grande. Conversou, soube o preo, regateou, combinou a forma de pagamento 
e fechou o negcio.
Foi para casa mais cedo. Precisava contar a novidade para Lia. Quando chegou, encontrou os meninos que brincavam no pequeno quintal. Os meninos, assim que viram 
a me, correram para ela, abraaram-na e foram abraados com carinho. Lia, ao v-la, estranhou:
- O que est fazendo aqui em casa to cedo, Raquel?
- Vim buscar vocs para irem a um lugar comigo! Enquanto arrumo as crianas, arrume-se tambm, Lia. O txi est esperando a fora.
Raquel vestiu os meninos. Lia colocou seu melhor vestido. Tomaram o txi e foram embora. O txi parou em frente a um porto. Raquel desceu e, rindo, disse:
- Esta  a casa em que vamos morar.
-  muito grande, Raquel!
- Est dizendo isso, porque no viu por dentro, Lia! Ela  maior do que parece! Vamos entrar, estou com as chaves.
Entraram. Assim que ela abriu o porto, as crianas entraram e ficaram paradas olhando o enorme quintal. A casa havia sido construda no meio de um terreno muito 
grande. Na frente, havia um jardim. Dos lados, havia vrios tipos de verdura e, nos fundos, rvores frutferas. Ao ver as rvores, os meninos no se contiveram e 
correram para uma delas, carregada de laranja. Subiram pelo tronco e, l do alto, jogavam laranjas para baixo. Raquel e Lia felizes, acompanhavam toda essa movimentao. 
- Vamos entrar, Lia! Venha ver a casa por dentro. Garanto que nunca viu outra igual!
Entraram e, realmente, Lia ficou encantada.
- Esta sala  grande e linda, Raquel!
-  sim, mas os quartos so maiores e olhe que tem quatro!
- Quatro quartos?
- Sim! Agora cada menino vai poder ter seu prprio quarto! Estou muito feliz, Lia! Quando me lembro daquele quartinho em que eu e Francisco moramos, quando nos casamos, 
nem acredito ter comprado uma casa como esta. Nunca sonhei que houvesse igual e, muito menos, que algum dia seria minha! Est vendo para que  que serve o dinheiro? 
Para nos dar toda essa felicidade!
-  verdade, Raquel. Tambm estou feliz. E esses mveis so lindos! O antigo dono vai lev-los embora?
- No. Os mveis vo ficar. Conversei com o dono e ele me disse que est se mudando para uma casa maior e que, se eu quisesse, poderia ficar com toda a moblia tambm. 
Como acho que est perfeito concordei.
- Ele vai para uma casa maior do que esta? No imagino de que tamanho possa ser!
- Nem eu, Lia! Agora venha ver a cozinha, sei que vai gostar muito!
Lia, empolgada, acompanhou Raquel, que abriu uma porta para entrarem.
- O que  isso, Raquel?
- Esta cozinha  muito grande, no ?
-  enorme! O que  aquilo?
- Eu mesma no acredito, mas  um fogo a gs, Lia! Voc no vai mais precisar colocar carvo e esperar que o fogo fique em brasa, basta s girar este boto e riscar 
um fsforo!
Enquanto falava, Raquel acendeu o fogo e Lia ficou extasiada.
- Como pode ser isso, Raquel?
- Tambm fiquei encantada, mas ainda tem mais.
- Tem mais?
- Isso aqui  uma geladeira, Lia! Agora vamos ter gua gelada para beber sempre que quisermos e a comida pode ser guardada! No vai precisar cozinhar todos os dias!
- Isso  uma maravilha, Raquel!
-  mesmo! Sempre que via tudo isso nas revistas, ficava imaginando como seria ter todas essas coisas. Agora vejo que  maravilhoso!
Raquel foi at a pia, abriu a torneira e a gua comeou a jorrar:
- Olhe, Lia? Quanta gua sai desta torneira! No vamos mais ter de tirar gua do poo. Ela sai aqui desta torneira! Tem torneiras aqui na pia da cozinha e nos banheiros 
tambm!
- Banheiros? Quantos banheiros tem?
- Trs! Tem um dentro do meu quarto, outro no corredor e outro no seu quarto tambm!
- Banheiro dentro de casa?
- Sim e em cada um deles h um chuveiro eltrico! Ns nunca mais teremos de esperar a gua esquentar para podermos tomar banho! No  uma maravilha!
- Como funciona?
- Venha, vou mostrar a voc!
Pegando Lia pela mo, Raquel saiu da cozinha e entrou no banheiro que havia ali. Abriu a torneira e em pouco tempo a gua comeou a jorrar.
- Coloque a mo, Lia! Veja como est quente! 
Lia colocou a mo e gritou, rindo:
- Est quente mesmo, Raquel! Que maravilha!
- Quando poderamos imaginar que isso existisse, no ? Esta casa  perfeita, no ?
- Perfeita e maravilhosa e, se no estivesse vendo, no acreditaria! Como pode acontecer isso, Raquel? Como essa gua chega s torneiras?
- O antigo dono me disse que mandou colocar uma bomba. Essa bomba tira gua do poo, joga para uma caixa grande que est no alto da casa e dessa caixa a gua vai 
para todas as torneiras. Isso se chama modernidade, Lia!
- Nossa, Raquel, para onde esse mundo vai?
- Estive pensando. J imaginou como tudo vai ser daqui a quarenta ou cinqenta anos? Sei que no vai ser possvel, mas bem que eu gostaria de estar viva para poder 
ver!
- Eu tambm, Raquel!
- Vai ser difcil pagar. Vamos ter de fazer algumas economias, mas, no final, vai valer  pena. Vamos morar em um castelo!
Lia comeou a rir:
- No acha que est muito velha para ser princesa?
- Velha coisa nenhuma! Tenho muito para fazer nesta vida! Este  s o comeo!
- Conhecendo voc como conheo, sei que realmente  s o comeo!
- Tudo isso eu devo a voc e ao Norberto, Lia.
- A ns, por qu?
- Se no fosse pela ajuda que me deram, se voc no tivesse cuidando dos meus filhos e Norberto da marcenaria, eu jamais teria chegado at aqui.
- Para ns no foi sacrifcio algum, Raquel! Gosto de seus filhos como se fossem meus, e Norberto adora trabalhar na marcenaria. Est tudo certo.
- So amigos verdadeiros.
- Deixe isso para l, Raquel. O que pensa fazer da casa em que moramos?
- Ainda no sei. Talvez a venda ou alugue. Agora no  hora para se pensar nisso. Precisamos ir para l, arrumar nossas coisas e nos mudarmos o mais rpido possvel.
- J que no vamos trazer os mveis, vai ser muito simples. Basta fazer algumas trouxas com as roupas, Norberto coloca no caminho e ns nos mudamos. S de pensar 
que no vou mais precisar esquentar o ferro de passar com carvo nem o fogo e que vou ter gua gelada para beber. No quero mais nada desta vida, Raquel!
Feliz, Raquel sorriu. Saram da casa. No quintal, os meninos, rindo, corriam e caam sobre uma grama rasteira e muito verde. Raquel chamou:
- Vamos, meninos! Precisamos ir para casa! 
Moacir, de longe, gritou:
- No queremos ir, me! Queremos ficar brincando!
- Vamos para casa arrumar as coisas e, amanh, nos mudaremos para c e podero brincar  vontade!
- Vamos morar aqui, de verdade?
- Sim, Marcos. Vamos morar aqui, de verdade! Os meninos correram para ela e a abraaram.
Assim que chegaram a casa, Raquel e Lia comearam a arrumar as roupas que levariam.
Quando Norberto chegou, admirou-se com toda a baguna.
- O que est acontecendo aqui?
Lia, correndo para ele, abraou-o e respondeu:
- Raquel comprou aquela casa, Norberto! Ela  linda e vamos nos mudar!
- Comprou Raquel?
- Comprei. Fui at a marcenaria para que fosse comigo, mas voc havia sado para fazer uma entrega.
- Fiquei na rua quase o dia todo. Ainda bem, consegui vrios cheques.
- Que bom Norberto, vamos precisar de muito dinheiro para pagar a casa.
- Vamos pagar Raquel. No se preocupe. Tudo est caminhando bem.
- Amanh no vou sair para trabalhar, Lia. Vou ficar em casa e ajudar voc com a mudana. Norberto,  tarde, voc pode vir no caminho para levar tudo?
- Tem que ser bem  tarde, Raquel. Tenho mais entregas para fazer.
- Venha a hora que puder. O mais importante  que todas as encomendas sejam entregues como o combinado.
No dia seguinte, bem cedo, elas continuaram a separar as roupas que levariam. Aquelas que estavam pequenas para os meninos seriam doadas. Tereza apareceu na porta 
da cozinha.
- Bom dia.
Raquel e Lia se voltaram.
- Bom dia, Tereza. Tudo bem com voc?
- Como podem ver, no est nada bem... 
Raquel foi para junto dela:
- O que aconteceu, Tereza, por que est chorando?
- Ainda bem que voc ainda no saiu para o trabalho, Raquel. Estou desesperada e no sei o que fazer...
- Entre, Tereza, e sente-se. Ela entrou e, chorando, falou:
- Arlete est grvida...
- O qu?
- Ela contou ontem  noite.
- Est chorando por causa disso?
- Ela no  casada, Raquel!
- Mas pode se casar, no pode? Ela no namora aquele rapaz que trabalha na farmcia?
- Trabalhava...
- No estou entendendo...
- Assim que soube que ela estava grvida, ele desapareceu.
- E agora, Tereza? Manuel j sabe?
- Sabe e pode imaginar. Ficou furioso. Espancou Arlete e, quando fui defend-la, me espancou tambm e deu at esta manh para que Arlete saia de casa. No quer ser 
envergonhado perante as pessoas.
- Para onde ela vai?
- No sei. Sabe como so as coisas, nas condies em que ela est ningum vai querer receb-la.
- O que pretende fazer, Tereza?
- Ela  minha filha, Raquel. No posso deixar que fique na rua, mas no tenho o que fazer.
- Nunca entendi como suportou ser espancada da maneira como ele faz...
- Eu sei que  terrvel, mas o que podia fazer? Nunca trabalhei e tinha trs filhos para cuidar. Para onde eu iria com trs crianas?
Raquel, furiosa, disse:
- Agora no so mais crianas, Tereza! Todos vocs podem abandonar aquele monstro, arrumar um emprego e viver uma vida de paz!
-  o que mais desejo e vou fazer isso. No vou deixar Arlete sozinha. Sei que ela errou, mas  minha filha e essa criana que vai nascer  minha neta. S no sei 
para onde ir. Por isso, vim aqui conversar com voc. Voc, diferente de mim, sempre foi to decidida, sempre soube tomar atitude. O que me aconselha a fazer?
Raquel olhou para Lia que tudo ouvia sem nada dizer. Com o rosto srio, perguntou:
- Tereza, quer mesmo largar aquele homem?
- Quero Raquel. Preciso escolher entre ele e minha filha. No tem outro caminho, s posso e quero escolher minha filha...
- Tem certeza de que  isso que quer?
- Tenho! Sempre que ele me espancava por motivo algum, eu queria fazer isso, mas nunca tive coragem. Tinha medo de ficar sozinha...
- Est bem. Sendo assim, posso ajudar voc, mas a deciso final ser sua.
- No quero mais ficar com ele, Raquel! Chega de tanto sofrimento! Seria to bom se a vida fosse como acontece nas novelas, no final sempre acaba bem e todos ficam 
felizes...
- A vida no  uma novela, Tereza. A vida  a realidade. Por outro lado, se abandonar aquele homem, realmente, tudo terminar bem para voc e seus filhos. Talvez 
no tenha o mesmo conforto que tem hoje, mas vai ter paz.
- Como vai me ajudar?
- Como pode ver, a casa est uma baguna e eu no fui trabalhar hoje. Estamos nos mudando. Comprei uma casa maior. Se, realmente, quiser largar aquele homem, pode 
vir morar aqui com seus filhos. Podemos arrumar um lugar para que trabalhem na marcenaria. Norberto precisa de um ajudante para fazer as entregas. Julinho pode fazer 
isso. Netinho pode comear como aprendiz, assim como aconteceu com Francisco. Voc, no comeo, pode cuidar da limpeza e aprender datilografia. Assim, em pouco tempo, 
poder me ajudar no escritrio. Arlete, enquanto estiver esperando a criana, ficar em casa, depois vamos arrumar um trabalho para ela tambm. Com o dinheiro que 
receberem, podero viver muito bem, sem precisar sofrer a violncia que sofreram at hoje.
- Vai fazer isso, Raquel?
- Se voc quiser, sim. S tem um problema. Ficaro morando na mesma rua em que Manuel mora. Ser que voc vai suportar? Ser que ele no vai convenc-la a voltar?
- Nunca, Raquel, nunca!
- Sendo assim, como vamos nos mudar  tarde e ainda hoje, vocs podem vir para c.
- Obrigada, Raquel.
- No precisa agradecer, s no diga a palavra "nunca". Ela representa muito tempo e, durante esse tempo, decises e escolhas so mudadas. Agora, vamos voltar ao 
nosso trabalho, Lia. Hoje quero dormir na casa nova!
- Vamos, sim, Raquel!
Voltaram a dobrar as roupas que iam levar. Sem que imaginassem, Olmpia, Samuel e Francisco estavam ali, felizes pela felicidade delas.
 
O MOTIVO

Como sempre acontece, o tempo passou. Raquel continuou trabalhando muito. Atravs do correio, distribuiu os panfletos para outras cidades e outros estados. Isso 
fazia com que precisasse viajar e ficar vrios dias longe de casa, porm, no se preocupava, pois sabia que Lia cuidaria no s da casa, mas das crianas tambm. 
Com a exportao dos mveis para outras cidades e outros estados, o galpo onde ficava a marcenaria ficou pequeno e ela foi obrigada a comprar uma rea grande de 
terra e a construir um galpo bem maior do que aquele que usara at o momento. Precisou contratar mais funcionrios. Norberto, agora, s cuidava dos funcionrios. 
No saa mais para fazer entregas. Moacir, aps terminar a faculdade de administrao, era quem, ao lado de Martin, cuidava da administrao. Marcos, embora quisesse 
ser engenheiro e construir casas e arranha-cus, por exigncia de Raquel, tambm estava no ltimo semestre de Administrao. Ela desejava que, com sua morte, os 
filhos continuassem com a empresa. Durante todo esse tempo, todos os dias, Raquel se lembrava de Francisco e de Mauro. Em uma noite, antes de dormir, pensou:  uma 
pena que vocs no estejam aqui para poderem ver como tudo mudou, mas como dona Catarina disse, naquele dia, sei que esto me esperando. Logo mais estarei chegando. 
O importante  que meus filhos esto bem e felizes. Acho que tudo est bem e vai continuar assim, Francisco, pois, sempre que existe um problema, geralmente no 
me lembro do que foi, mas sei que sonhei com voc. Agora, faz muito tempo que isso no acontece. Ser que se esqueceu de mim?  Francisco, que estava ali ao lado 
de Olmpia e Samuel, sorriu. Raquel adormeceu e pouco tempo depois foi acordada por ele:
- Acorde, Raquel, precisamos conversar. 
Ela abriu os olhos e sorriu, perguntando:
- Hoje mesmo pensei em voc, Francisco. Chegou minha hora? Veio me buscar?
Francisco olhou para Samuel, que respondeu:
- No, Eliete! Sua hora est muito distante. Viemos buscar voc porque precisamos conversar.
Ela olhou para o lado e viu Olmpia, que sorria.
- Ol, Eliete! Como voc est?
- Estou muito bem e feliz, mas no consigo me acostumar a ser chamada por Eliete. Meu nome agora  Raquel.
Samuel continuou:
- Sim, mas ontem voc foi Eliete e  sobre ela que precisamos conversar.
- Podemos conversar, mas, por favor, me chamem de Raquel. Gosto mais desse nome!
- Nomes no so importantes. Os nomes mudam, mas o esprito continua e ele  que tem importncia. Portanto, para que se sinta bem, podemos cham-la por Raquel.
- Obrigada...
Samuel sorriu e continuou:
- Depois de esse ponto ter sido esclarecido, vamos continuar. Voc disse que est feliz, posso saber por qu?
Ela olhou para Francisco que segurava sua mo e respondeu:
- Consegui tudo o que queria nesta vida! Meus filhos esto criados e so lindos! A marcenaria, agora,  uma grande empresa! No tenho mais o que desejar!
- Estou feliz por voc, Raquel, mas precisamos conversar. As coisas vo mudar.
- Mudar, como? Por qu?
- Todo esprito, ao nascer, traz consigo algumas tarefas para serem cumpridas, outras para serem concludas e outras, as principais, para que sejam resgatados enganos 
ou erros cometidos. Para que o esprito possa continuar sua caminhada,  necessrio que esteja livre de qualquer amarra.
- No entendi muito bem.
- Vou tentar explicar melhor.
- Todo esprito tem uma misso a cumprir. O no cumprimento dessa misso faz com que ele seja obrigado a renascer muitas vezes at que consiga cumpri-la.
- Todos no cumprem sua misso?
- Infelizmente, no.
- Por que isso acontece?
- Antes de renascer, os espritos escolhem a misso, mas, depois de renascidos, algumas vezes no a aceitam e se afastam dela. Isso acontece, porque, depois de renascidos, 
o sonho de todos  fazer algo importante, que seja reconhecido, mas, na maioria das vezes, isso no acontece. A misso quase sempre  algo simples. Algo que no 
lhe trazer glria nem reconhecimento. Como exemplo, saber ouvir  uma misso das mais valiosas, mas aqueles que a praticam no se do conta disso. Querem fazer algo 
maior, que lhes d glria e fama, dinheiro e poder. Muitas vezes, no tm pacincia com aqueles que precisam apenas de uma palavra amiga.
- Todos querem ser reconhecidos, ter glria, dinheiro e poder! Estou feliz por ser a dona de uma grande empresa! De ter muito mais dinheiro de que preciso e at 
de ter certo poder sobre as pessoas que trabalham para mim! Que mal h nisso?
- Na verdade, no h mal algum, mas o reconhecimento e a glria no querem dizer que seja o melhor para o esprito; ao contrrio, s vezes, fazem com que ele se 
afaste de sua real necessidade. s vezes, fazem com que se deixe dominar pelo orgulho, o que  muito prejudicial, pois, por ser homenageado, glorificado por algo 
que faz, sente-se superior aos demais, quando, na verdade, no o .
- No , Samuel?
- No, Raquel, no  e, na maioria das vezes, como todo esprito renascido, no importa se tem fama, glria e dinheiro, est resgatando erros ou enganos passados.
- Eu estou cumprindo minha misso?
- Sim, at aqui. Voc, quando perdeu tudo, ajudada por Catarina conseguiu se levantar e levar sua vida para frente. Criou seus filhos e os encaminhou para a vida. 
Cabe a eles seguirem, sozinhos, sua jornada, fazendo suas escolhas, cumprindo sua misso sem que haja interferncia alguma. Est vendo? Mesmo no sendo reconhecida 
ou glorificada, cumpriu uma misso das mais gloriosas.
- Est dizendo que essa foi a minha misso, mas no percebi. Estava apenas tentando sobreviver.
Samuel comeou a rir e disse:
- Foi sua misso, sim, Raquel e, como aconteceu com voc, a maioria no percebe que sua misso est sendo cumprida, mas no se esquea de que sobreviver tambm  
uma misso.
Ela olhou para Francisco que a abraou e beijou sua testa.
- Voc venceu todos os problemas, meu amor.
- Consegui, somente porque tive voc sempre no meu pensamento, Francisco.
Olmpia, tambm a abraou, dizendo:
- Todos estamos felizes por voc, Raquel. 
Samuel continuou:
- Sua misso foi cumprida, Raquel, mas, agora, chegou o momento do resgate.
- Resgate? O que preciso resgatar? Procurei viver minha vida sempre dentro dos padres!
- Sim, sem se afastar um minuto deles.
- Fala como se isso fosse condenvel!
- No, no  condenvel, mas, agora, vai precisar sair dos seus padres e seguir sentimentos de amor, de igualdade. Ter de deixar de lado os preconceitos.
- No tenho preconceito algum!
- Ser que no, Raquel?
- No que eu saiba. Converso com todas as pessoas sem me preocupar se so ricas, pobres, negras, brancas ou amarelas.
- J pensou em ter na sua famlia algum negro ou pobre?
Raquel parou e ficou olhando para Francisco, que sorriu. Samuel insistiu:
- J pensou Raquel?
- No, nunca pensei...
- Voc cumpriu sua misso, Raquel, agora, falta resgatar alguns erros passados. Est em suas mos fazer a escolha certa.
- No estou entendendo. Sempre achei que havia feito as escolhas certas.
- Sim, tem razo. As escolhas que fez foram s fceis, aquelas que a ajudaram a, como voc diz, sobreviver, porm, vai chegar a hora em que ter de resgatar erros 
passados, de tentar, desta vez, escolher o que, realmente,  certo.
- Estou assustada com seu tom de voz.
- No precisa ficar assustada, somente ter de escolher o caminho que deseja seguir.
Francisco, segurando a mo de Raquel, disse:
-  verdade, meu amor, mas no se preocupe, haja o que houver, escolhendo certo ou errado, estarei sempre ao seu lado.
Ela, assustada, olhou para ele e sorriu. Samuel continuou:
-  verdade, Raquel, no precisa ficar assustada. Fomos buscar voc, enquanto dormia, para ajud-la a fazer essa escolha.
- No estou entendendo...
- Lembra-se daquela vez em que conversamos em que voc se lembrou da Eliete do passado?
- Sim, mas, embora tenha sonhado muitas vezes com vocs, nunca mais conversamos a esse respeito.
- Deixamos para voltar ao assunto na hora certa e  hora  agora, mas, antes, espere. Olhe para l.
Raquel olhou para o lado em que ele apontava e viu Yara, que chegou acompanhada por duas entidades. Raquel se admirou:
- Yara? O que ela est fazendo aqui?
- Estiveram unidas no passado e esto agora, portanto, as duas precisam recordar o que, juntas, fizeram.
Yara, um pouco sonolenta, ao ver Raquel, perguntou:
- Que lugar  este, dona Raquel? O que estamos fazendo aqui?
- Tambm no sei Yara, mas sente-se aqui ao meu lado e logo descobriremos.
Olmpia disse:
- Isso mesmo, Yara. Sente-se ao lado de Raquel. 
Yara, desconfiada, sentou-se. 
Samuel continuou:
- Acalme-se, Yara. Est tudo bem. Somos seus amigos e voc est aqui para que possa entender o momento que est vivendo. Daqui a alguns minutos, estar totalmente 
consciente e se lembrar do tempo em que se chamava Maria da Glria.
Realmente isso aconteceu. Poucos minutos depois, Yara disse: 
- Estou me lembrando de quando era Maria da Glria...
- Sim, filha de um homem poderoso, uma moa mimada e que nunca aceitou um no como resposta.
Yara abaixou a cabea e Samuel continuou:
- Lembra-se, Raquel, de que, naquele dia, conversamos at o momento em que voc me disse que ia conversar com Joo Pedro?
- Sim, lembro-me daquele dia e dessa conversa.
- E o que fez em seguida?
Ela pensou um pouco e respondeu:
- Sim, eu, furiosa, procurei Joo Pedro. Ele estava em casa, lendo um livro, me aproximei e perguntei, gritando:
- Joo Pedro,  verdade que est namorando a Maria Rita?
- Ele levantou os olhos do livro e, calmamente, respondeu:
- Sim.
- O que est pretendendo com ela?
- Quero me casar.
- O qu?
- Isso que a senhora est ouvindo. Quero me casar com ela.
- No pode fazer isso nem sequer pensar em uma coisa como essa!
- No posso, por qu? Eu gosto dela e ela de mim, no vejo problema algum em nos casarmos.
- No v problema algum?
- No, mame, no vejo. Ela  a mulher da minha vida!
- No pode ser Joo Pedro!
- No pode ser por qu?
- Ela  uma negra! Neta de escravos! Como pode pensar em se casar com uma negra? Com algum que tem como herana a escravido! Nada mais que isso!
- A cor dela no tem importncia. Eu a amo e vou me casar com ela! Quanto a ser escrava, a senhora se esqueceu de que a Princesa Isabel assinou a lei que diz que 
no existe mais escravido no Brasil?
- Essa lei foi assinada em um momento de loucura da Princesa! Essa Lei precisa ser derrubada! Imagine um pas como o nosso sem escravido! Mesmo que seja, o negro 
sempre ser negro e pobre!
- Est enganada! Essa Lei veio para ficar! Os negros no so melhores ou piores que todos ns! So pessoas iguais, com a mesma inteligncia e sentimentos! No existe 
diferena alguma! Muitos deles, assim como acontece com os brancos, podero estudar trabalhar e ter uma vida decente. Quanto  pobreza, existem muitos brancos que 
nunca sero ricos ou poderosos! No existe diferena, mame! Somo iguais...
- Voc est louco, mesmo!
- No, mame, no estou louco, apenas apaixonado e nada far com que eu me afaste de Maria Rita! Vou me casar com ela!
- Vou falar com seu pai, ele no vai permitir uma loucura como essa!
- Papai j sabe, eu mesmo contei.
- Ele sabe?
- Sim e disse que devo fazer o que eu achar quer for melhor. Ele s quer que eu seja feliz.
- Ele no pode ter dito isso, sabe que temos um compromisso com o coronel Lencio! Voc vai se casar com Maria da Glria, a filha dele!
- Quem tem esse compromisso  a senhora, no eu! J disse que vou me casar com Maria Rita.
- No vai, no! Eu no vou permitir!
- A senhora no pode fazer isso! No pode interferir na minha Vida! Eu e Maria Rita estamos juntos desde o tempo em que ela trabalhava aqui em casa. Escondemos, 
para que ningum mais soubesse. Quando ela engravidou, no poderia continuar morando aqui, por isso inventou aquela histria de que ia para a casa de um tio no interior, 
mas, na realidade, aluguei um quarto em um cortio, e  onde ela est morando. O lugar  horrvel, mas  o nico que eu posso pagar com a mesada que papai me d. 
Porm, agora, com o nascimento do menino, isso no pode continuar! Estou muito feliz com o meu filho! Por isso, quero me casar com ela para dar um nome a ele.
A voz de Raquel, enquanto falava, tremia. Samuel, pegando sua mo, disse:
- Est relembrando com muita fora aquele dia, no , Raquel?
- Sim. Fiquei possessa e perguntei, gritando:
- Um filho? Voc est louco mesmo! Acha que vou receber e chamar de neto um negrinho qualquer? Acha que vou mostrar para nossos amigos a loucura que voc fez?
- No me importo com o que a senhora ache ou pense, vou me casar com ela, porque  a mulher que amo, somente por isso!
- No vou permitir que faa essa loucura e, se insistir, no o aceitarei mais como meu filho! Voc vai pegar essa negra e a sua cria e sumir desta casa, sumir da 
nossa vida!
- Eu sabia que sua reao seria essa, por isso no contei. No se preocupe, eu j havia dito a Maria Rita que precisaramos ir embora daqui, desta casa e da sua 
vida! Sabia que a senhora no aceitaria o nosso amor!
- Lembro-me de que, com ironia na voz, eu perguntei:
- Vai embora, ? Pode me dizer para onde? Como vai viver? Est pensando em continuar recebendo nosso dinheiro?
- No, mame, se o preo que tiver de pagar para ficar com Maria Rita e ser feliz for esse,  um preo muito alto e estou disposto a pagar. Ainda no sei como vamos 
viver, mas encontrarei uma maneira.
Samuel interrompeu o que Raquel contava:
- Lembre-se de que, ao ver que o caminho que estava seguindo no a levaria a lugar algum, resolveu mudar de ttica?
- Sim, percebi que ele no desistiria daquela loucura e falei:
- Est bem. J que seu pai no se importa com o fato de voc se casar com uma negra e de quebrar o compromisso que temos com o Coronel Lencio, no vejo como me 
opor. Seja feliz, meu filho. Nada farei para interferir.
- Est falando a verdade, mame?
- Claro que estou Joo Pedro! Conheo voc o bastante para saber que no vai mudar de idia, por isso, no vou me opor, ainda mais agora, com uma criana. Embora 
no seja o neto que sempre desejei, prometo que vou amar essa criana com toda fora do meu corao. Disse que essa  a mulher da sua vida, ento, case-se e seja 
feliz.
Ele, incrdulo, voltou a perguntar:
- Est falando a verdade, mame?
- Claro que estou meu filho. Desculpe eu ter sido to dura, me conhece para saber que sou assim mesmo. Grito fico nervosa, mas, no fundo, sou mole como uma gema 
de ovo.
Samuel, sorrindo, perguntou:
- Voc disse aquilo, mas estava mentindo, no estava, Raquel?
- Sim. Eu precisava pensar em outra maneira de afastar meu filho daquela mulher e evitar que ele fizesse aquela loucura. Sa dali e fui procurar voc, Francisco.
- Lembro-me daquele dia, Raquel. Eu estava em meu escritrio, quando voc entrou, bufando de raiva. Chegou perto de mim e perguntou, gritando:
- Voc sabia da loucura que seu filho estava fazendo e no me contou?
- Olhei firme para voc e respondi:
- Sabia e no contei, porque sabia que sua reao seria essa que est tendo.
- Que reao queria que eu tivesse? Ela no passa de uma negra e teve um negrinho!
- Ela  a mulher que seu filho ama e o menino que voc chama de negrinho  o filho dele, nosso neto!
- Voc est louco como ele, para aceitar uma coisa como essa! Jamais vou aceitar um negrinho como meu neto!
- No entendo voc, Eliete.
- Como no entende?
- Quando quisemos nos casar, seu pai no queria. Dizia que eu era pobre e que s queria o seu dinheiro. Lembra-se de quanto resolvemos de lutar para conseguir que 
ele me aceitasse? Lembra-se de que estvamos dispostos afazer qualquer coisa para ficarmos juntos? Conseguimos convenc-lo e, hoje, ele gosta de mim como se fosse 
seu filho! O mesmo vai acontecer com Maria Rita e o menino que nasceu. Em pouco tempo, diante da felicidade de nosso filho, nem vamos nos lembrar de que so negros.
- Com voc foi diferente!
- Diferente, por qu?
- Voc no era negro!
- Mas era pobre e o preconceito  o mesmo! Nada disso importa Eliete! O que importa  a felicidade que vejo nos olhos do meu filho quando ele fala na mulher que 
ama e no filho que nasceu! Isso  que tem verdadeiro valor!
- Pode ser para voc, no para mim! 
Francisco, com tristeza na voz, continuou:
- Voc no quis mais me ouvir, Raquel, e saiu dali muito nervosa.
- Sim, estava muito nervosa. Fui para casa e fiquei pensando em uma maneira de acabar com aquilo tudo. Depois de pensar muito, encontrei uma soluo.
Samuel a interrompeu novamente:
- Apesar de toda ajuda espiritual no sentido de que voc se acalmasse, Raquel, e compreendesse o que estava se passando, afastou qualquer bom pensamento que o plano 
lhe mandava e se uniu s foras malignas que lhe deram a resposta de que precisava. Achou que era voc quem estava pensando, quando, na realidade, os pensamentos 
eram delas.
-  verdade. Tive uma idia, sa dali e fui procurar voc, Yara, pois era a moa com quem eu queria que Joo Pedro se casasse. Eu queria, porque, alm de ser bonita, 
era filha de um homem poderoso que muito poderia nos ajudar para que nossa fortuna aumentasse ainda mais. Contei-lhe o que estava acontecendo. Lembro-me de que, 
quando terminei de falar, voc ficou furiosa e disse aos gritos:
- Isso no pode acontecer, dona Eliete! Eu amo seu filho e quero me casar com ele! Se isso no acontecer, vou morrer!
- No vai precisar morrer! Ele no vai se casar com ela! S precisamos encontrar uma maneira para que isso no acontea, mas vou precisar da sua ajuda. Estou pensando 
em algo que s pode dar certo!
- Que idia?
- Vou  busca de uma pessoa que conheo.  uma negra velha que mexe com ervas e que, quando eu era criana, trabalhou l em casa. Depois que conversar com ela, preciso 
descobrir onde aquela negra, que pensa que vai entrar para minha famlia, mora e ir at l.
- Para fazer o que, dona Eliete?
- Para pr fim a essa histria e meu filho poder se casar com voc!
- No sei, no. Conhecendo Joo Pedro como conheo, acho que isso s vai acontecer se ela e o menino morrerem.
- Essa  a idia!
- A senhora est pensando em matar os dois?
- Isso mesmo, mas, como j disse, preciso da sua ajuda.
- Voc pensou um pouco e, decidida, falou:
- Para poder ficar com ele, fao o que a senhora quiser!
- Est bem. Depois que eu for  casa da negra velha e conseguir um veneno bem forte, vou conversar com Zefinha, outra negrinha ignorante, que trabalha l em casa. 
Ela  muito amiga da outra. Deve saber onde ela mora. Com o veneno na mo e o endereo, vou marcar um dia para ir at a casa da negra e do menino. Vou at l e fao 
o servio. Vai ser nesse dia que vou precisar de voc.
- A senhora quer que eu v junto?
- No, quero que, no dia em que for  casa de Maria Rita, Voc v almoar l em casa. Depois do almoo, eu, como sempre fao, vou dormir. Voc precisa ficar conversando 
com ele, at que eu volte.
- Por que quer que eu o segure?
- No posso me arriscar. Ele no pode chegar e me encontrar l. Sabendo que ele est com voc, ficarei mais tranqila.
- Sobre o que vou falar? Sabe que ele sempre me evita.
- No sei sobre o que vai falar Maria da Glria! Precisa inventar um assunto qualquer! Se ele se recusar, insista! S poderei fazer o que pretendo se tiver a certeza 
de que ele est com voc.
- Vou tentar, mas no sei se vou conseguir.
- Claro que vai! Insista que o assunto  urgente. Quando ele perguntar do que se trata, diga que ficou sabendo do romance dele com aquela negra! Diga que entende 
e, por desejar que ele seja feliz, o compromisso que h entre vocs est desfeito, no existe mais. Ele vai ficar tranqilo e, da para frente, basta inventar um 
assunto qualquer. O importante  que o segure at eu voltar!
- Est bem. Quando souber o dia, me avise e vou tentar fazer da maneira como  senhora falou.
Yara comeou a chorar:
- Ns fizemos aquilo, dona Raquel...
Raquel, com o olhar distante e parecendo no acreditar, respondeu:
- Fizemos Yara. No sei como tivemos coragem, mas fizemos.
Francisco, que at aquele momento ouvia calado, desesperado, perguntou:
- O que vocs fizeram?
Raquel, sem coragem para responder, olhou para Samuel, que respondeu:
- Tenha um pouco mais de pacincia, Francisco, em breve saber tudo o que aconteceu. Continue Raquel.
Com os olhos marejados, ela continuou:
- Quando cheguei  casa da preta velha, ela me recebeu com um sorriso:
- O que mia fia quer com a nega?
- Estou tendo muito rato l em casa, me Albertina. Sei que a senhora mexe com ervas, preciso de um veneno forte para acabar com eles. Um veneno que no faa mal 
para os cachorros e gatos. A senhora sabe como gosto de animais.
- Lembru, sim, desde o tempo em que trabaiei pra vossa me. Unc era piquitita e gustava muito do seu cachorro, Lorde.
- A senhora se lembra do Lorde?
- Craro qui mi lembru, minina!
- Por isso, por gostar muito de animais, preciso de um veneno que no faa mal a eles.
- Rato tumem  animar...
- Sei disso, mas ele  nocivo!
-  virdade. O xixi faz muito mal. Num tenho veneno que no faz mal pra animar. Posso dar um, que fao com erva, mas tem que ter cuidado e s colocar onde os animar 
no chega.
- Para o ser humano, faz mal?
-  muito perigoso, mata na hora! Tem qui t cuidado.
- Sendo assim, vou tomar cuidado. Raquel, com os olhos marejados, disse:
- Ela me deu um pouco de p enrolado em um jornal.
- Tome muito cuidado com esse veneno. Deixa-o longe dos animar e das crianas.
- Pode ficar sossegada, vou tomar muito cuidado.
- Estava saindo com o pacotinho na mo, quando pensei: Se eu usar veneno primeiro no menino, ela pode desconfiar.
- Voltei-me e disse:
- Estou tendo dificuldade para dormir, me Albertina. Ser que a senhora no tem alguma erva para me ajudar?
- Tenho, sim.
- Entrou em casa e, de cima do guarda comida, pegou um pote de barro. Colocou sobre a mesa e foi tirando uma poro de pacotinhos menores. Olhou um aps outro, at 
que encontrou o que queria.
- Este aqui  muito bom. Se colocar um pouquinho em qualquer ch, dorme na hora e por muito tempo.
-  verdade? Vou poder dormir a noite toda?
- Dependendo da quantidade, pode dormir at mais. Por isso, no usa muito.
- Muito obrigada, me Albertina. Quanto vai custar o veneno e o calmante?
- No custa nada, no. Essas coisa aprendi cum minha me, que aprendeu cum a me dela. Est na famia h muito tempo.  coisa de Deus. Por isso, num possu cubr, 
no.
- Est bem, sendo assim, obrigada. Depois eu trago um presentinho para a senhora.
- Num percisa no, minha fia. S quero que seja filiz.
- Com o pacotinho na mo, sa de l e voltei para casa. Encontrei Zefinha lavando o quintal. Olhei em volta e vi que no havia ningum que pudesse ouvir nossa conversa, 
me aproximei:
- Zefinha, voc sabe onde Maria Rita mora?
Ela me olhou desconfiada:
- Para que a senhora quer saber?
- Joo Pedro me contou que esto juntos e que nasceu um menino. Embora possa parecer o contrrio, fiquei muito feliz e quero conhecer o menino. Comprei um presente 
para ele e quero dizer para Maria Rita que vou providenciar o casamento. Joo Pedro disse que ela mora em um lugar muito ruim. Isso no pode continuai acontecendo. 
O menino  meu neto, precisa ter o melhor!
- Ela, ainda desconfiada, perguntou:
- A senhora est falando a verdade?
- Claro que estou Zefinha! Para que ia inventar uma coisa como essa? No sou aquele monstro que todos pensam! Esse menino  o meu primeiro neto!
- Ela pensou mais um pouco:
- Parece que a senhora est falando a verdade. Eu sei onde ela mora, sim. Vou dar o endereo e, quando vir o menino, vai ficar apaixonada! Ele  lindo, forte que 
nem um touro! Estou muito feliz, porque a senhora aceitou seu neto. No sei escrever, mas vou ensinar direitinho. No tem erro, vai achar logo.
- No vejo a hora de conhecer o meu neto!
- Depois de entender bem o endereo, agradeci e entrei em casa. Fiquei algum tempo, andando de um lado para outro, depois sa e fui conferir se havia entendido bem 
onde ficava o cortio. Como ela havia dito, ficava ali perto e no foi difcil achar. Feliz por tudo estar caminhando como eu planejara, fui para sua casa, Yara.
- Lembro-me muito bem daquele dia...
- Eu tambm, infelizmente. Depois de contar a voc o que havia conversado com Zefinha, disse:
- Vai ser amanh, Maria da Glria. V at l em casa e, depois do almoo, faa da maneira como combinamos. Voc vai ficar conversando com ele na sala da frente. 
Vou sair e entrar pelo porto dos fundos. Ele vai pensar que eu estarei dormindo. Quando eu voltar, vou at a sala e, s a, voc poder ir embora. Se fizer direito, 
vai dar tudo certo e ficaremos livres daquela mulher. Depois que ela e o menino morrerem, voc ficar ao lado de Joo Pedro, confortando-o, dando-lhe apoio. S assim 
voc poder se casar com ele!
- Sei disso, dona Eliete, vou fazer o possvel para que d certo.
- O possvel, no, Maria da Glria! Vai fazer o impossvel, mas precisa conseguir!
- Ele no vai querer ficar conversando comigo...
- Fale daquela negra! Diga que est feliz por ele! Pergunte como tudo comeou! Diga que quer conhecer seu filho! Diga que tambm no queria se casar com ele e que 
s estava aceitando por insistncia de seus pais! No sei, invente qualquer coisa, mas no permita que ele saia de casa!
- Est bem, vou fazer como est dizendo. E se ele no quiser falar comigo?
- Precisa arrumar um jeito de me avisar e teremos de pensar em outra maneira, mas, se falar como eu disse, sei que vai escut-la.
- Fiz o que a senhora mandou. Fui almoar e, depois do almoo, ele quis sair, mas consegui impedir. Comecei a falar de Maria Rita. Ele parou para me escutar. Eu 
fui puxando um assunto aps o outro, sempre falando dela. Disse que tambm no queria me casar com ele, que estava sendo obrigada por meus pais. Disse que, assim 
como ele, tambm gostava de outro. Ao ouvir isso, ele se sentou e ficamos conversando at quando a senhora voltou.
- Depois do almoo, vendo que voc estava na sala conversando com ele, fui at l.
- Desculpe Maria da Glria, mas todas as tardes eu preciso dormir. Fique conversando com Joo Pedro at que eu acorde. Espero que no fique brava, mas estou acostumada.
- De maneira alguma, dona Eliete. Conheo seu costume.
- Percebi que Joo Pedro no ficou contente, mesmo assim, me afastei e caminhei em direo ao meu quarto. Entrei, coloquei um casaco comprido sobre o vestido, peguei 
um cachecol e enrolei sobre a cabea e o rosto, deixando apenas os olhos para fora. Precisava tomar cuidado para que ningum me visse, no podia deixar rastro algum 
da minha passagem pela casa de Maria Rita. Como no era muito longe, fui caminhando. Poderia tomar uma charrete, mas, caso a polcia desconfiasse de alguma coisa, 
poderia ser reconhecida pelo chofer. Quando cheguei frente ao porto, olhei para os lados e, para minha alegria, no havia ningum na rua. Abri o porto e entrei. 
O corredor era imenso.  medida que caminhava, pude ver que, de um lado, s havia quartos e do outro, as cozinhas. O lugar era deprimente. Lembro-me de que, enquanto 
caminhava, pensava:
Este lugar  digno de uma negra como ela!
- Caminhei alguns metros, at que cheguei  porta em que Zefinha me disse que ela morava. Pude ouvir o choro de uma criana. Bati  porta e fiquei esperando. Quando 
Maria Rita abriu e me viu, comeou a tremer:
- O que a senhora quer aqui? Como me descobriu?
- Fique calma. No estou aqui para fazer mal a voc. Ao contrrio, Joo Pedro me falou do menino e eu quero conhec-lo. Posso entrar?
- Ela, receosa, se afastou para que eu entrasse. Entrei e o que vi me deixou arrepiada. O quarto era minsculo. Tinha s uma cama de casal e roupas penduradas em 
pregos presos s paredes. Sobre duas cadeiras forradas com um travesseiro, estava o menino que chorava sem parar. Maria Rita seguia todos os meus movimentos. Quando 
me aproximei do menino, ela se colocou na minha frente e, nervosa, perguntou:
- O que a senhora quer com o meu filho?
- Apenas conhec-lo e levar voc e ele para a nossa casa, at que os papis do casamento fiquem prontos.
- Casamento?
- Claro que sim! Joo Pedro me contou tudo. No entendo por que esconderam por tanto tempo. Ainda mais agora que esta coisa linda nasceu!  o meu primeiro neto e 
ele vai ter tudo do que precisa e ainda mais! Ele vai ser o nosso prncipe!
Raquel, ao se lembrar daquela cena, comeou a chorar:
- Como pude fazer aquilo, meu Deus? 
Samuel respondeu:
- Usou seu livre-arbtrio. Teve a chance de escolha.
-  verdade...
Francisco, nervoso e curioso, perguntou:
- O que voc fez Raquel?
- Maria Rita, acreditando no que estava dizendo, pegou o menino e deu para que eu o segurasse. Quando peguei o menino no colo, senti um frio pela espinha e um asco 
to grande que no consegui olhar no seu rosto. Aconcheguei-o junto ao meu peito e comecei a embal-lo. Ele, parecendo pressentir o que estava para acontecer, chorava 
sem parar. Maria Rita, confiante, disse:
- No sei o que fazer dona Eliete, ele no para de chorar. J dei de mamar, troquei a fralda, mas ele no para!
-  normal, Maria Rita. Isso acontece com todo recm-nascido. Eles sentem clica. No sei qual  o motivo, deve ser porque seu organismo precisa funcionar. Sabendo 
disso, antes de vir para c, fui conversar com me Albertina. Voc se lembra dela?
- Claro! Todo mundo conhece! J fui a sua casa em busca de algum medicamento.
- Foi por isso que, antes de vir para c, fui at l. Quando eu tive meus filhos, ela tinha um p que colocava na chupeta e essa clica passava na hora. Conversei 
com ela. Contei que voc tinha tido um filho de Joo Pedro e pedi que me desse aquele p para que eu trouxesse para voc. Quer experimentar?
- No vai fazer mal?
- Claro que no! Usei com meus filhos e eles se acalmaram na hora! No se esquea de quem me deu foi me Albertina, ela sabe o que faz!
- Nisso a senhora tem razo. Ela  muito boa no que faz. Vamos experimentar.
- Pegue a chupeta dele e vamos colocar um pouco desse p. Precisa molhar um pouco para que o p grude.
- Ela, confiando, pegou a chupeta, molhou em um copo onde havia gua e me deu. Peguei a chupeta, passei pelo p e coloquei na boca do menino que, aps chupar, adormeceu. 
Ela ficou encantada:
- Deu certo, dona Eliete! Ele est dormindo!
- No falei que funcionava? Quando ele comear a chorar, faa isso novamente. Ele vai deixar de sofrer e voc vai ficar mais calmo.
- Vendo que meu plano estava dando certo, falei:
- Est muito frio, Maria Rita. Voc tem algum tipo de ch?
- Tenho de cidreira. A senhora quer?
- Gostaria.
- Vou preparar. A senhora no se importa de ficar tomando conta dele?
- No, pode ir. Estou, realmente, com muito frio.
- Ela, ainda acreditando em mim, saiu do quarto. Eu sorri. Sabia que a cozinha ficava em frente. Logo depois, ela voltou com duas xcaras. Colocou em uma pequena 
mesa que havia ali e disse:
- Desculpe, mas no tenho pires nem aucareiro. Adocei da minha maneira, espero que esteja bem, mas, se no estiver, eu pego outro ou coloco mais acar.
- Peguei a xcara e tomei um gole.
- Desculpe Maria Rita, mas est um pouco amargo.
- Coloquei bastante acar, mas, se quiser, posso colocar mais.
- Se no se incomodar, gostaria muito.
- Ela saiu e eu aproveitei para colocar o veneno no ch que ela ia beber. Voltou logo depois e me entregou a xcara. Enquanto eu tomava o meu ch, ela tomava o dela. 
Quando terminei, disse:
- Agora que colocou mais acar, o ch est muito bom, Maria Rita. Eu precisava mesmo. Estava com muito frio.
- Ela sorriu. Ia dizer alguma coisa, mas no conseguiu. Sentiu o corpo fraco, contraiu o rosto e, com os olhos abertos, caiu sobre a cama. Vendo que ela ainda no 
estava morta, peguei um travesseiro, coloquei sobre seu rosto e fiquei apertando bem firme. Percebi quando tentou, em um ltimo esforo, se mexer, mas no dei importncia. 
Continuei segurando e apertando, at perceber que seu corpo havia amolecido. Tirei o travesseiro e constatei que ela no respirava mais. Feliz por ter dado certo, 
voltei-me para o menino que dormia. Peguei o mesmo travesseiro, coloquei sobre seu corpinho e apertei sobre seu rosto. Ele demorou bem menos que a me para deixar 
de respirar. Depois disso, peguei uma das xcaras em que ainda havia um pouco do veneno e, com cuidado, abri os dedos dela e coloquei a xcara, para parecer que 
ela havia tomado o ch com veneno. Peguei a chupeta que estava ao lado do menino, passei pelo p e, com esforo, consegui abrir a boquinha dele e colocar a chupeta. 
Peguei a xcara em que eu havia bebido o ch, sa dali e, rapidamente, voltei para casa. Entrei pelo porto dos fundos. Fui para o meu quarto, troquei de roupa, 
depois de alguns minutos, para poder respirar tranquilamente, fui at a sala, onde voc, Yara, ainda conversava com Joo Pedro.
- Quando vi a senhora entrando na sala, respirei aliviada. J havia falado sobre todos os assuntos. Ele estava se despedindo, dizendo que ia ver Maria Rita e o menino. 
Eu no sabia mais o que fazer. Fiquei com medo de que ele a encontrasse l.
- Tambm fiquei com medo, Yara, mas confiei que voc estivesse seguindo nosso plano.
Samuel disse:
- Deveria ter temido no pelo fato de Joo Pedro poder encontr-la ali, mas, sim, pelos vultos negros que a esperavam do lado de fora do quarto de Maria Rita. Assim 
que voc saiu, eles a envolveram e acompanharam at depois de sua morte.
- Eu sei. Eles me aterrorizaram por muito tempo.
Raquel tentava segurar as lgrimas de arrependimento que caam sobre seu rosto. Yara estava plida e tambm chorava. Raquel, olhando para todos, disse:
- Eu mereci tudo o que veio depois. O que eu fiz? Tirei uma criana inocente dos braos da me para mat-la? Matei uma mulher sem motivo algum?
Samuel, que segurava sua mo, afastou-se.
- Foi isso o que fez Eliete, ajudada por voc, Maria da Glria. Porm, embora estivesse feliz por seu plano ter dado certo, na realidade no deu. Assim que voc 
chegou, Joo Pedro saiu dali e foi ao encontro de Maria Rita. Quando chegou e viu que ela e o filho estavam mortos, ficou desesperado, sem entender o que havia acontecido. 
Comeou a gritar o que atraiu os vizinhos. Todos se comoveram com o sofrimento dele. Chamaram a polcia e, enquanto os corpos foram levados, voc, Eliete, e voc, 
Maria da Glria, ainda conversavam. Entusiasmada, voc contava:
- Consegui que ela confiasse em mim, Maria da Glria. No desconfiou nem por um minuto de que aquilo que eu falava era mentira! Deu tudo certo. Joo Pedro deve voltar 
logo, por isso voc vai ficar aqui para consol-lo. Vai precisar ter pacincia. Por algum tempo, ele vai sofrer muito, mas logo esquecer e vocs podero se casar 
e sero felizes para sempre!
Samuel continuou:
- Realmente isso aconteceu. Quando os corpos foram levados, Joo Pedro voltou para casa. Como vocs previram, ele estava arrasado e desesperado. Assim que ele entrou, 
vocs correram para ele.
- O que aconteceu, meu filho?
- Ele, chorando, respondeu:
- Esto mortos...
- Demonstrando um nervosismo que no sentia voc perguntou:
- Quem morreu Joo Pedro?
- Maria Rita e meu filho...
- O que voc est falando?
- Eles esto mortos, mame!
- Morreram como?
- No sei! Quando cheguei, encontrei os dois mortos...
- Como isso aconteceu?
- No sei! No sei...
- Mesmo diante do desespero de seu filho, voc no se comoveu Raquel. A nica coisa com que se importava era que seu plano havia dado certo. Voc tambm, Maria da 
Glria, estava feliz. Sabia que agora poderia se casar com o homem que tanto queria. Ainda chorando, Joo Pedro foi para seu quarto. Assim que ele saiu, voc, vitoriosa, 
disse:
- Deu certo, Maria da Glria! Ele no desconfia do que aconteceu! Por alguns dias, ele vai ficar assim, mas logo todo esse sofrimento vai passar e ele poder ser 
s seu!
-  s isso que quero dona Eliete! Quero ficar com ele para o resto da minha vida!
- Tambm quero isso! Imagine se eu ia permitir que uma negra ignorante como aquela entrasse para a minha famlia que tem nome e tradio!
Raquel, agora, estava em prantos:
- Lembro-me de tudo isso e no entendo como pude fazer uma coisa como aquela...
- Hoje, voc pensa assim, mas, naquele dia, achava que estava certa. Ao cometer aquele crime, voc escreveu o seu destino, a sua prxima encarnao.
- Estou comeando a entender... 
Samuel continuou:
- Aps uma rpida investigao, a polcia concluiu que Maria Rita havia matado o filho e se matado depois. Joo Pedro no se conformou, no entendia por que ela 
havia feito aquilo. Julgava-se culpado por no t-la assumido logo e por t-la colocado ali naquele cortio. Desde esse dia, ele se trancou no quarto e s saiu para 
ir ao enterro. Depois que o enterro terminou, ele foi para um bar e bebeu sem parar.
- Foi isso que aconteceu. Comeou a beber e, embora eu e voc, Yara, tenhamos tentado, ele no parou nunca mais. Logo pela manh, saa de casa, bebia muito e ficava 
perambulando pelas ruas. A culpa que sentia no o abandonava.
-  verdade, Eliete. Voc, que no quis que seu nome fosse comentado por ter uma negra na famlia, era, agora, comentado, por ter um bbado, que mais parecia um 
mendigo. Com a vida que levou e a quantidade de bebida que tomou, em pouco tempo, Joo Pedro adquiriu uma doena no fgado e morreu muito jovem. No momento de sua 
morte, Maria Rita estava ao seu lado, esperando-o. Com a morte de seu filho, voc ficou inconsolvel. Ningum havia desconfiado do que acontecera realmente, o que, 
a princpio, deixou-a muito feliz e tranqila, mas, ao ver seu filho naquela situao e sabendo o que havia feito, sentiu-se culpada. Como companhia, voc tinha 
os vultos negros que, com suas energias, no a deixavam esquecer.
- Com o peso da minha culpa, tambm adoeci e morri. Assim que dei o ltimo suspiro, pude ver essas energias de que est falando, Samuel. O medo que senti foi terrvel. 
Sem que falassem qualquer coisa, eu sabia o motivo de estarem l. Tentei fugir, mas no consegui. Em todos os lugares, eu via o rosto de Maria Rita e do menino. 
As energias me rodeavam, no importando o lugar onde eu tentasse me esconder.
- Foi isso o que aconteceu. Quando se ouve dizer que, mesmo no pagando um mal na Terra, Deus tomar conta, muitos do risadas e no acreditam, porm, isso  verdade. 
Ningum fica impune de um crime praticado.
- Eu corria e me escondia. O lugar era horrvel, ouvia prantos, gemidos e monstros me atacavam, no importando o lugar em que eu estivesse. Sentia-me s e desamparada.
- Mas no estava, Raquel. Apesar do que havia feito, seus amigos estavam sempre ao seu lado, at mesmo Maria Rita e Mauro, o filho dela.
- Mauro?
- Sim, ele mesmo. Mauro, que depois seria seu filho, era o menino que voc havia matado. Depois de voc ser resgatada, e chegando a hora de renascer, ele aceitou 
ser seu filho. Ambos sabiam que ele morreria cedo. Assim, voc sofreria a dor de perder um filho, ainda criana. O mesmo aconteceu com Francisco. Mesmo sabendo de 
tudo o que voc havia feito, ele quis renascer ao seu lado e ficar at o dia em que estivesse pronta para caminhar sozinha, para fazer suas escolhas e, assim, resgatar 
todos os erros cometidos.
- Espero que, desta vez, eu esteja agindo certo.
- At aqui, sim. Por isso trouxemos voc at aqui. Voc sentiu a dor de perder um filho e reagiu muito bem a isso. Tambm superou a dor de perder um marido e a de 
ficar sozinha. Agora, vai passar por uma prova definitiva. Nunca se esquea de que tudo por que est passando foi opo dada e aceita por voc.
- O senhor falou em prova definitiva. Que prova vai ser essa?
- Sempre que falhamos em algo, a mesma situao se repete. Voc, por orgulho, ignorncia e preconceito, falhou com Maria Rita, seu filho e com Joo Pedro. Isso acontece 
h vrias encarnaes, mesmo assim, eles sempre voltam para ajud-la a superar esses sentimentos nocivos.
- J cometi esse crime outras vezes?
- Sim, infelizmente. Por mais que se arrependa, sempre volta a fazer, de maneira diferente, as mesmas coisas. Precisa resgatar o mal que lhes causou. Antes de renascer, 
sabia que esse dia chegaria. Estamos aqui somente para ajudar voc, neste momento decisivo.
- Nunca mais vou fazer o que fiz!
- No fale com tanta certeza, Raquel. O orgulho, a ignorncia e, principalmente, o preconceito so sentimentos muito fortes, difceis de serem superados.
- Sei disso, mas, como Raquel, no tenho preconceito algum. Converso com todas as pessoas. Hoje estou bem, tenho dinheiro e tranqilidade, mas no esqueo os momentos 
difceis por que passei! Dessa vez, tenho certeza, vou vencer!
- Estamos torcendo por voc. Tomara que consiga!
- Vou conseguir!
- Agora, precisa voltar. Est amanhecendo e voc vai ter um longo dia de trabalho. Descanse.
- Est bem e obrigada por tudo o que esto fazendo por mim. Voltou-se para Francisco.
- A voc, tambm, preciso agradecer por ter ficado sempre ao meu lado.
- Acontea o que acontecer, estarei sempre ao seu lado... 
Ela beijou-o e disse:
- Sempre soube disso e  por isso que tive foras para continuar. 
Yara perguntou:
- E eu? O que vou fazer?
- Ter a mesma chance que Raquel. Em muitas vidas, tem sido sua cmplice, tomara que, nesta, consiga reagir e fazer a coisa certa.
- Vou conseguir! Desta vez no vou me deixar influenciar!
- Est bem, faa isso e s nos trar alegria e, para voc, ser um aval para continuar em busca do amanh, da eternidade.
Antes que pudesse dizer algo, desapareceram. Raquel acordou sentindo sede. Yara virou-se na cama e continuou dormindo.

A COBRANA

O tempo passou. Raquel continuou viajando. Ela se ausentava duas ou trs vezes por ms. Fazia isso com tranqilidade, pois sabia que em sua casa, tudo estava bem, 
porque Lia cuidava de tudo. Em uma tarde, Lia estava conversando com uma das empregadas da casa, quando Marcos entrou. Como sempre fazia, beijou-a no rosto.
- O que est fazendo em casa a esta hora, Marcos? No foi  faculdade?
Ele abriu um largo sorriso e respondeu:
- Como sempre, curiosa, dona Lia! No, no fui  faculdade. Vou me encontrar com alguns amigos para fazermos um trabalho juntos. Eles viro para c. Espero que no 
fique nervosa.
- Quando foi que fiquei nervosa por trazer amigos aqui em casa? Se fosse Moacir, eu estranharia, pois sei que ele no  de fazer muitos amigos, mas voc, no,  
amigo at de desconhecidos.
- Moacir  muito srio. Gosta mesmo  de trabalhar com a mame. Gosta de empresa. Eu no quero viver a vida e ser feliz!
- Ainda bem que ele  assim. Quando sua me resolver parar de trabalhar, algum vai precisa continuar com a empresa.
- Que seja ele. No quero ser como minha me.
- O que est dizendo, Marcos? Sua me  uma grande mulher! Trabalhou muito para transformar a pequena marcenaria que seu pai comeou nessa grande empresa! Com muito 
trabalho, conseguiu dar a voc e a seu irmo a vida com que sempre sonhou! Voc deveria agradecer a Deus pela me que tem!
- Eu agradeo, dona Lia! Mas, de vez em quando, fico pensando em quanto eu perdi para ter tudo o que tenho.
- O que voc perdeu Marcos?
- Nunca tive minha me por perto. Sempre que a via ou tentava conversar com ela, no podia, porque ela estava entrando ou saindo. Ela nunca teve tempo para ns, 
seus filhos.
- Voc est sendo injusto, Marcos! A nica preocupao dela foi sempre com vocs. Conseguiu pagar uma boa escola e a faculdade. Poderia ter se casado outra vez e 
olhe que no faltou oportunidade, mas sempre recusou. Quando eu perguntava por que no aceitava que qualquer homem se aproximasse, ela respondia:
- No quero dar outro pai para meus filhos, Lia! Francisco foi o nico homem da minha vida!
- Moacir gosta disso, eu no.
- Por que no, Marcos?
- Quando meu pai morreu, minha me passou a se preocupar s em ganhar dinheiro, se esqueceu de que precisvamos da sua presena. Eu preferia que ela tivesse se casado, 
assim teria ficado mais tempo ao nosso lado. A sorte foi que tivemos a senhora e o seu Norberto, que so os nossos verdadeiros pais.
Lia, emocionada, disse:
- E vocs sempre foram os filhos que no tivemos, mas voc no est sendo justo com sua me. Ela s pensou em dar tudo a vocs. Ela sempre quis que vocs fossem 
felizes e crescessem com tranqilidade.
- Isso, ela conseguiu, graas  senhora e ao seu Norberto, mas, mesmo assim, senti muito sua falta. S sei que nunca vou me casar, mas, se isso acontecer e eu tiver 
um filho, vou estar sempre presente em sua vida!
- Olhe quem est falando! Voc que nunca se interessou realmente por moa alguma! Voc s quer namorar todas, mas sem compromisso!
Ele comeou a rir:
- Tem razo! Para que vou me casar e ficar s com uma, quando posso ter tantas? Nunca vou me casar! Quero continuar vivendo assim como vivo!
- Sabe que essa vida, quando terminar a faculdade, vai acabar no sabe?
- Sei. Minha me j deixou isso bem claro. Ela quer que eu tambm trabalhe na empresa. Vou ter que fazer isso, mas, enquanto essa hora no chegar, vou aproveitar 
a vida.
- Faa isso, meu filho. Aproveite bem a vida. Nunca sabemos quando ela vai terminar.
- Pare com isso, dona Lia! Vou viver muito!
- Claro que vai, Marcos!
- De uma coisa eu tenho certeza!
- Do qu?
- No vou fazer como Moacir!
- O que seu irmo faz que desagrada tanto a voc?
- No sei como ele conseguiu namorar e se casar com uma moa como a Joice.
- Por que est dizendo isso, Marcos? Ela  uma boa moa.
- Pode ser uma boa moa, mas  pedante. J viu as roupas e sapatos que usa?
- Sim, so bonitos.
- E muito caros dona Lia! No sei como ela consegue gastar tanto!
- Seu pai sempre teve muito dinheiro e sempre fez todas as suas vontades.
- Pode ser, mas, mesmo assim, acho que gasta mais do que pode. Sempre que a vejo, est carregando um pacote de alguma grande loja. Quem compra roupas em lojas? A 
senhora compra? Minha me compra? Olhe que minha me, se quisesse, poderia usar roupas muito cara, mas no faz isso.
- Raquel  diferente, sempre foi muito simples, j Joice gosta de andar bem arrumada.
- O que ela gosta  de gastar! No sei se Moacir vai ter tanto dinheiro assim.
- Com o tempo, ela vai mudar.
- No sei, no. Jamais me casaria com uma mulher igual a ela.
Lia comeou a rir:
- Vamos ver com quem voc vai se casar. Sabe que sua me quer muito que voc se case com Yara. Ela, alm de muito bonita,  filha de deputado!
- Quem quer  minha me, eu no! Yara pode ser muito bonita, mas no quero me casar nem ter compromisso, mas, se um dia for me casar, com certeza no vai ser com 
ela!
- Esse casamento deixaria sua me muito feliz.
- Ento ela vai ficar infeliz para o resto da vida. No vou me casar com Yara nem com ningum! Nunca vou me casar! Quero viver a vida!
- Est bem, vamos esperar o tempo passar. Quando encontrar aquela que vai ser sua mulher, garanto que vai mudar de idia.
- Pode esperar sentada. Isso nunca vai acontecer!
- Vamos esperar Marcos.
Ele, beijando-a novamente, disse:
- Vamos esperar, mas, agora, vou para a biblioteca. Meus amigos devem estar chegando.
- V e, assim que eles chegarem vou servir um lanche para que comam enquanto estudam.
Antes de sair, Marcos, parecendo lembrar-se de alguma coisa, perguntou:
- Como est o seu Norberto?
- Do mesmo modo. Ele est sofrendo muito com a doena. Quando o vejo sofrer dessa maneira, sem que eu possa nada fazer para evitar sua dor, sofro muito, mas o mdico 
disse que no podemos ter esperana. No h cura para sua doena.  s uma questo de tempo. Ele  um bom homem, um bom marido e fez de tudo para que eu fosse feliz 
e, agora, nada posso fazer para que no sofra...
- Sinto o mesmo que a senhora, pois, alm de tudo o que a senhora falou, ele foi o melhor pai que poderamos ter tido. No entendo por que a morte precisa ser assim...
- Assim como, Marcos?
- Por que precisamos sofrer tanto para morrer? Um homem como ele no merece tanta dor, tanto sofrimento. Penso que, quando chegasse h nossa hora, devamos dormir 
 noite e, no dia seguinte, no acordar. Sem dor, sem sofrimento...
- Isso seria o ideal, mas, infelizmente, no  assim.
- Quando vejo o quanto ele est sofrendo, eu penso que, se ele tivesse sido um homem mau, at que merecia sofrer tanto, mas no, ele sempre foi bom! Foi o pai que 
no tivemos! No merecia isso!
- Tambm penso assim, mas o que sabemos da vontade de Deus?
- Embora todos falem muito em Deus, tenho c as minhas dvidas...
- O que est dizendo, Marcos? Tem dvidas sobre o qu?
- Quando vejo o que est acontecendo com o seu Norberto, chego a duvidar de que Deus exista realmente...
Raquel estava entrando e ouviu o que Marcos disse. Nervosa, falou:
- No fale isso nem brincando, Marcos!
Ele e Lia se voltaram. Ele, rindo, disse:
- Ol, mame! A senhora j chegou?
Ela, ainda nervosa, respondeu:
- J cheguei e no gostei de ouvir o que voc falou!
- A senhora est dizendo isso, porque no ouviu toda a nossa conversa.
- No ouvi, mas nada existe que possa colocar em dvida a existncia de Deus! De onde tirou essa idia, meu filho?
- Estvamos falando sobre a doena de seu Norberto, de quanto ele est sofrendo.
- Tambm no entendo tanto sofrimento, mas, mesmo assim, no iremos duvidar de que Deus existe.
- No sei como logo  senhora pode falar algo assim.
- Logo eu, por qu?
- A senhora perdeu o marido e o filho no dia em que nasci como pode, ainda, acreditar que Deus existe? Eu penso ao contrrio, mesmo que exista  muito mau!
- Quando seu pai e seu irmo morreram tambm me revoltei, mas, graas a Deus, uma pessoa me ajudou muito a entender que Deus existe e que  muito bom.
- Que pessoa? O que ela disse?
- Dona Catarina, a me de Martin. Ela, infelizmente, j morreu, ela foi de grande ajuda naquele momento pelo qual eu estava passando e graas a ela, consegui retomar 
minha vida e chegar at aqui, sentindo-me vitoriosa. Embora muitas vezes no entendamos os motivos de alguns sofrimentos, Deus existe e  muito bom, Marcos.
- O que posso fazer, se a senhora pensa assim. Eu ainda tenho minhas dvidas.
- No vou tentar mudar sua opinio. Porm foi muito bom encontrar voc em casa. Precisamos conversar.
- Eu  quem digo isso. Quase nunca vejo a senhora. Quando no est trabalhando, est viajando.
- Graas ao meu trabalho, voc tem uma boa vida.
Marcos, rindo, perguntou:
- Sobre o que quer conversar?
- Como est o seu namoro com Yara? 
Ele rindo, mais ainda, respondeu:
- Eu no namoro a Yara, mame! De onde tirou essa idia?
- Como no namora? Vocs saem juntos! Vo a teatro, cinema e festas?
- Assim como vou com ela, vou com outras mais! No existe namoro! No quero namorar srio com ela nem com ningum! Ela  uma boa companhia e minha amiga! Nada mais 
que isso!
- Voc precisa se casar com ela, Marcos.
- Precisa? O que est dizendo, mame!
-  o que ela mais quer!
- Nem pensar, mame! J disse que no estou pronto para me casar e, quando estiver, com certeza no ser com ela que me casarei!
- No entendo o porqu dessa rejeio quanto  Yara. Ela  uma moa bonita, educada, fala nem sei quantos idiomas e j viajou por muitos lugares.  uma moa preparada 
para ser sua mulher!
- Ela  tudo isso, mas no a amo para me casar com ela. Quando eu me casar, se isso acontecer, vai ser com uma mulher a quem amo e com queira viver ao lado por toda 
minha vida e Yara, definitivamente, no  essa mulher!
Raquel, nervosa, falou:
- Voc precisa se casar com ela, Marcos!
- No estou entendendo por que tanta insistncia para que eu me case! O que est acontecendo?
- Hoje almocei com o deputado, pai dela. Conversamos muito e ele me falou de quanto ela gosta de voc e do quanto gostaria que se casassem.
- O que mais ele disse para que a senhora viesse falar comigo a esse respeito?
- Ele me contou que est sendo terminado o prdio onde vai ser instalada a Cmara e que, por isso, vai ser aberta licitao. Disse que, com sua ajuda, a nossa empresa 
poder ganhar a licitao, Marcos!
- O que eu tenho a ver com isso?
- Ele no falou claro, mas falou nas entrelinhas que s tem uma filha, que  a coisa mais importante na vida dele e que faria qualquer coisa para que ela fosse feliz. 
Depois, falou do grande interesse que ela tem por voc. Depois dessa conversa, deduzi que, se voc se casar com Yara, poderemos vencer a concorrncia e ganhar muito 
dinheiro!
Marcos voltou a rir:
- A senhora est me vendendo, mame?
- No  isso, Marcos! S estou vendo uma maneira de ganharmos muito dinheiro!
- No entendo a senhora! Nossa empresa  slida! Exportamos no s para outros estados como para alguns pases da Amrica do Sul! A senhora conseguiu bens mveis 
e imveis Temos tanto dinheiro que meus filhos e netos podero ter uma boa vida! Para que a senhora precisa de mais dinheiro?
- Para dar a voc e ao seu irmo tudo do que precisam! 
Ele voltou a rir, s que muito nervoso:
- No, mame! No princpio, pode ter sido esse o motivo, mas agora no  mais! A senhora se tornou gananciosa! Largou seus filhos para correr atrs de um sonho! 
De umas conquista! Conseguiu, mas no venha pedir que eu sacrifique minha juventude, minha vida! No farei isso! No vou me casar com Yara nem com qualquer outra 
que no ame e que eu mesmo no escolha! No vou fazer isso!
Raquel, perplexa, olhou para Lia que a tudo assistia:
- Voc ouviu o que ele disse, Lia? Depois de tanto trabalho, tanto sacrifcio, eu ouvir que sou gananciosa! No consigo acreditar que tenha dito isso, Marcos! Vivi 
a minha vida por vocs! Dei tudo do que precisavam! Moram em uma boa casa, comem o que sentem vontade, usam as melhores roupas, sempre freqentaram as melhores escolas 
e nunca sentiram frio! Sempre dormiram em uma boa cama! Quando seu pai morreu, eu no tinha trinta anos! Nunca quis me casar para no dar um padrasto para vocs 
e  assim que me agradece?
Marcos, ainda nervoso, respondeu:
- Essas foram suas escolhas que eu agradeo, mas no  justo exigir que eu pague por tudo isso!  um preo muito alto, que no estou disposto a pagar! No vou me 
casar com qualquer mulher que a senhora escolher! S vou me casar com aquela que eu amar e escolher!
Lia, ao pressentir para onde aquela conversa caminhava nervosa, falou:
- Parem com isso! Nem parece que so me e filho! Os dois esto errados e no  assim, ofendendo um ao outro, que resolvero essa situao!
Raquel ia falar qualquer coisa, mas a campainha tocou. Lia ainda nervosa, disse:
- Seus amigos chegaram Marcos.  melhor deixarmos essa conversa para depois.
Calada e muito nervosa, Raquel saiu. Marcos se voltou para Lia e, beijando seu rosto, disse:
- Obrigado por tudo o que sempre fez por ns, dona Lia.
Ela sorriu e foi abrir a porta e, disfarando o nervosismo, recebeu-os com um grande sorriso. Eles, tambm sorrindo e brincando, entraram. Estudaram a tarde toda. 
Quando estavam indo embora, Jos Carlos, um deles, perguntou:
- No se esqueam da festa, sbado, na minha casa!  o meu aniversrio e vai ser muito boa.
Marcos, feliz, perguntou:
- Convidou muitas moas?
- Claro que sim, Marcos! Se elas no fossem, no haveria festas! 
Um deles disse:
- No v querer ficar com todas elas!
- Por que est dizendo isso, Paulo?
- Olhe a cara de inocente dele! Voc nunca se contenta s com uma! Quer todas!
- No sei por que est reclamando, todos vocs j tm uma fixa! Eu, ao contrrio, ainda estou procurando a minha!
- No tem uma fixa porque no quer! Yara faria qualquer coisa para namorar voc!
Marcos lembrou-se da conversa que havia tido com a me, mas, disfarando, disse:
- Ela  somente minha amiga.
- Pode ser para voc, mas, para ela, no  no! Ela gosta de voc e no esconde isso!
- Est exagerando, Paulo!
- Eu no! Voc  que no quer ver!
- Deixe isso para l! O importante  que no se esqueam do meu aniversrio! Vamos embora.
Todos olharam para Jos Carlos, riram e, acompanhados por Marcos que os levou at o porto, foram embora.

O ENCONTRO

Marcos e Raquel no conversaram mais sobre Yara. Ela queria muito que aquele casamento se realizasse, mas conhecia o filho e sabia que ele nunca se deixaria dominar 
pela presso. Resolveu esperar o momento oportuno para voltar ao assunto. O dia do aniversrio de Jos Carlos chegou. Aps vestir um terno azul-marinho, uma camisa 
rosa - clara, e de se olhar no espelho pela quarta vez, Marcos saiu do quarto e foi para a sala, onde Raquel e Lia conversavam. Entrou e, ainda da porta, perguntou:
- Como estou? Sei que muito bem! - disse rindo. 
Lia e Raquel levantaram-se.  Lia disse, entusiasmada:
- Voc est lindo, Marcos!
- Est mesmo, meu filho, mas no sei por que voc est to surpresa, Lia? Ele sempre foi bonito, parece com o pai!
-  verdade, Raquel. Francisco era um homem muito bonito.
- Seu irmo tambm vai  festa?
- No, mame. Embora Jos Carlos tenha convidado, Moacir, desde que se casou, no faz mais parte da nossa turma. No entendo como ele se casou com Joice, aquela 
pedante...
- No fale assim, Marcos. Ela  uma boa moa, de uma boa famlia.
- Pode ser de uma boa famlia, mas no deixa de ser pedante. No sei o que Moacir viu nela. Nunca pensei que se casaria com uma moa como aquela. Logo ele que  
to responsvel! Ser que ele no v como ela gosta de dinheiro! Ela vai lev-lo  falncia!
- Voc est exagerando! Ele gosta dela e, quando isso acontecer com voc, vai entender.
- Nem pense isso, dona Lia! Nunca vou me apaixonar por mulher alguma!
Lia olhou para Raquel e, rindo, disse:
- Vai sim. Todos, um dia, se apaixonam.
- S quando eu for bem velho! Antes disso, tenho muitas moas para conhecer! No quero me prender a ningum!
Beijou-as e, fazendo uma espcie de continncia, sorrindo, saiu. Assim que saiu, Raquel disse:
- Ele  mesmo muito bonito, Lia...
-  sim, Raquel, por isso que namora tantas moas de uma s vez.
- Isso me preocupa...
- Preocupa, por que, Raquel?
- Ele j est com vinte e oito anos. Est passando da hora de se casar.
- Ora, Raquel, deixe o menino! Voc  a primeira me que conheo que quer que os filhos se casem! Nunca vi isso!
- Sabe que o casamento dele com Yara  importante para a empresa.
- Pode ser para a empresa, mas no  para Marcos. Deixe o menino viver a vida!
- Eu no entendo como um irmo pode ser to diferente do outro. Enquanto Marcos  assim, folgado e brincalho, Moacir  srio e concentrado no trabalho e j est 
casado.
-  verdade, mas no se esquea de que ele  mais velho do que Marcos.
- Tem razo, mas, mesmo assim, ele sempre foi muito responsvel.
- Marcos no suporta a Joice. Ele diz que ela s anda com roupas caras e que gasta mais do que tem.
- J notei isso, Lia, mas tudo isso vai passar. Ela vai entender que no pode continuar assim.
- Tomara que isso seja verdade, Raquel.
Raquel ia dizer algo, quando uma das empregadas entrou na sala.
- Com licena, dona Lia, parece que o senhor Norberto no est bem.
Lia e Raquel levantaram-se e, apressadas, foram para o quarto. Assim que entraram, correram para junto da cama onde Norberto estava. Lia se ajoelhou e, olhando para 
o rosto dele, desesperada, gritou:
- Ele no est bem mesmo, Raquel! O que vamos fazer?
- Acalme-se, Lia. Ele j teve essas crises outras vezes. Vamos lev-lo ao hospital.
Marcos saiu com o carro e o seu est na oficina. Como vamos fazer?
- Vou telefonar para o hospital e pedir que mandem uma ambulncia.
- Vai ficar muito caro, Raquel!
- Graas a Deus temos dinheiro para isso, Lia. No final das contas  s dinheiro! Fique aqui com ele, vou at a sala e j volto. 
Raquel saiu e voltou em seguida.
- A ambulncia j est vindo.
Lia no conseguia parar de chorar. Raquel permaneceu ao seu lado at que a ambulncia chegou. Rapidamente, Norberto foi colocado nela e levado para o hospital. Aps 
um exame, o mdico internou-o. Diferente do tempo de Francisco, agora, Raquel podia pagar, por isso, ele foi colocado em um quarto particular e elas puderam ficar 
ao lado dele.
Raquel disse:
- No chore mais, Lia. Ele vai ficar bem.
- No vai, no, Raquel! Ele, dessa vez, no est bem. Nem me ouve mais...
- Parece que no a est ouvindo, Lia, mas olhe, ele est olhando para frente e sorrindo!
- Ser que ele est nos ouvindo, Raquel?
- No sei, Lia.
Norberto, olhando para frente, sorrindo, disse:
- Me, pai, Jos?
Lia olhou para Raquel e, assustada, perguntou:
- Ele est vendo seus pais e seu irmo que morreram Raquel?
- No sei, Lia, mas parece que sim...
- Ser?
Elas no podiam ver, mas Norberto, efetivamente, estava vendo seu pai, sua me e seu irmo. Sua me, sorrindo, disse:
- Est na hora, meu filho, e estamos aqui para acompanhar voc. No tenha medo, tudo vai ficar bem.
- Sua me tem razo, meu filho. Voc vai ficar bem e todas essas dores que sente vo desaparecer.
Lgrimas surgiram em seus olhos.
- No vou mais sentir dor, pai?
- No, meu filho. Seu tempo aqui na Terra est terminando e voc est voltando vitorioso. Desta vez, conseguiu cumprir quase tudo o que havia prometido.
- Ainda no posso ir...
- Por que no?
- Como vai ficar Lia? Vivemos tanto tempo juntos. Ela vai sofrer muito...
- Vai sofrer, sim, mas o tempo se encarregar para que essa dor fique cada vez mais distante. Ela ainda vai ficar um pouco mais, mas, como acontece com todos, logo 
estar ao seu lado. Voc, agora, tem um novo caminho para seguir e ns estaremos ao seu lado. Agora, voc precisa dormir. Durma meu filho.
Ele abriu os olhos, olhou para Lia e sua respirao parou. Seus pais pegaram o esprito adormecido e o levaram embora. Lia e Raquel perceberam que ele acabara de 
morrer. Lia comeou a chorar. Raquel, abraando-a, disse:
- Terminou, Lia. O sofrimento dele terminou...
- Sei que o sofrimento terminou, mas  triste, Raquel. Como vou viver sem ele?
- Da mesma maneira que eu continuei, Lia. Como dona Catarina me disse naquele dia, ele, apenas, est indo na sua frente. Assim como voc fez comigo, vou ficar ao 
seu lado. Embora voc no seja minha irm, eu a considero como se fosse. Sabe o quanto eu e meus filhos gostamos de voc. No est e nunca ficar sozinha. Estaremos 
sempre ao seu lado.
Lia ouviu o que ela disse, mas no conseguiu parar de chorar. Depois, olhou para Norberto e disse:
- Parece que ele est dormindo, Raquel...
-  verdade, Lia. Agora, a dor passou. Precisamos ir. Temos de avisar os meninos e Martin.
- No, Raquel. Vamos deixar para mais tarde. Moacir telefonou dizendo que ia ao teatro com Joice e Marcos estava to animado com a festa. Vamos para casa e vamos 
esperar que Marcos volte. Mais tarde, avisaremos Moacir.
- Tem razo, Lia. Podemos esperar que Marcos volte para casa, mas acho que precisamos chamar o Martin. Ele  mais experiente.
- Vamos fazer isso.
Lia olhou mais uma vez para Norberto, beijou sua testa e, abraada por Raquel, saiu. Conversaram com o mdico que as encaminhou at a recepo do hospital. Ali, 
depois de esperarem um pouco, pegaram o atestado de bito e as instrues de como deveriam agir. Raquel pagou a conta e foram para casa. Em casa, telefonaram para 
Martin. Lia, por mais que quisesse, no conseguia parar de chorar.
- Foram tantos anos juntos, Raquel. Como vai ser a minha vida sem ele? Por que a morte existe? J que existe, acho que as pessoas que se amam deveriam morrer todas 
juntas e no mesmo dia. S assim um no ficaria sofrendo tanto pela falta do outro.
-  verdade, Lia, mas como vamos saber os mistrios da vida e da morte. Hoje, enquanto Norberto partiu, garanto que muitas crianas esto nascendo e, assim, a vida 
vai continuar. O mundo vai evoluir e cada um deixar um pouco de si, uma histria...
Enquanto isso, Marcos, na festa, conversava com algumas moas junto a uma mesa de salgados que estava em um dos cantos de uma sala enorme. Entre as moas que o rodeavam, 
estava Yara, que disse:
- A festa est boa, no , Marcos.
- Est sim e esses salgados esto uma delcia!
- Voc diz isso, porque ainda no foi at a mesa dos doces. Eles, sim,  que esto maravilhosos!
- Mais tarde vou at l.
- Como est sua me?
- Est bem. Hoje est em casa com a dona Lia. O seu Norberto no est bem.
- Ele tem sofrido muito...
- Tem sim e no acho justo. Foi sempre um homem to bom. Foi o pai que no tive. Ele no merecia sofrer tanto.  difcil v-lo sofrendo daquela maneira sem poder 
fazer nada. No entendo por que a vida  assim, Yara.
- Nem eu, Marcos, mas, como voc disse, no h o que se fazer. S mesmo esperar a vontade de Deus.
- No me fale em Deus, Yara! Como sua vontade pode ser a de ver algum sofrendo como o que est acontecendo com seu Norberto?
Percebendo que ele estava alterado, ela disse:
- Acho que voc tem razo, mas vamos mudar de assunto? Hoje  dia de festa, precisamos festejar! Depois que terminar de comer, vamos danar?
- Vamos, sim.
As outras moas tambm ficaram conversando. Todas tentando chamar a ateno de Marcos, mas ele no se interessou por nenhuma delas. Na realidade, dava a mesma ateno 
para todas, igualmente. Quando terminou de comer, disse:
- Agora vamos danar? Quem vai ser a primeira? 
Yara, sorrindo, respondeu:
- Eu, Marcos.
- Est bem. Voc vai ser a primeira, mas no se esquea de que vou danar com todas. No vim at aqui para ficar somente com uma! Quero a todas!
Elas, que j o conheciam, sorriram. Ele, pegando a mo de Yara para conduzi-la at o centro da sala, onde as pessoas estavam danando, voltou-se rapidamente e deu 
de encontro com uma moa que carregava uma bandeja com copos que continham cervejas e refrigerantes. O encontro foi to forte que os copos caram sobre ele, molhando 
todo seu palet e camisa. Desnorteada, a moa quase chorou:
- Desculpe moo, no pensei que fosse se virar...
Yara, procurando secar o palet dele com um guardanapo, gritou:
- Voc  uma irresponsvel! No olha por onde anda!
- Desculpe...
- Agora no adianta pedir desculpas! Como ele vai ficar molhado dessa maneira?
- Acalme-se, Yara. No  para tanto. Foi um acidente, no foi, moa?
Ela levantou os olhos que se encontraram com os dele. Um arrepio percorreu o corpo dos dois. Marcos ficou algum tempo olhando para aqueles olhos que parecia conhecer. 
Ela, desajeitada, abaixou os seus. Yara, sem perceber o que estava acontecendo, disse, quase gritando:
- Isso  imperdovel!
- J disse para se acalmar, Yara! No  para tanto! Moa pode me levar a algum lugar para que eu possa me secar?
- S se for  cozinha. H toalhas e panos de prato. Mesmo assim, acho que no vai conseguir se secar. Molhou muito...
- Sei disso, mas, pelo menos me secarei um pouco. Pode me acompanhar?
- Eu vou com voc, Marcos.
- No precisa Yara. Vou, me seco e volto imediatamente.
- Eu vou, Marcos.
Ele, nervoso, disse:
- J disse que no precisa Yara! Vou com a moa e voc v danar com algum!
Yara, raivosa, mas no querendo contrari-lo, obedeceu. Ele, acompanhado por aquela moa que o havia impressionado tanto, foi para a cozinha. Assim que entrou, encontrou 
Lena, a cozinheira da casa. Ao v-lo com a roupa molhada e manchada, curiosa, perguntou:
- O que aconteceu com suas roupas, Marcos? 
Quem respondeu foi  moa:
- Fui eu quem derramou uma bandeja com copos sobre ele...
- Como foi fazer uma coisa dessa, Marlia? Logo hoje, no seu primeiro dia de trabalho!
Marcos interferiu:
- Ela no teve culpa, Lena. Eu me voltei rpido, ela no teve como desviar.
Lena, parecendo no ouvir o que ele dizia, continuou falando:
- Sei que no est acostumada, mas precisa prestar mais ateno minha filha.
- No tive como evitar, me...
- Me? Ela  sua filha, Lena? Conheo voc desde que era menino e nunca ouvi falar que voc tivesse uma filha!
-  minha filha, sim, Marcos. Quando o pai dela morreu, ela s tinha cinco anos. A cidade em que eu morava era muito pobre. No tinha trabalho. Minha tia, que trabalhava 
aqui, ficou doente e perguntou se eu no queria ocupar o seu lugar. Sabendo que, com o dinheiro que eu ia ganhar aqui, poderia dar uma vida melhor para minha filha, 
vim embora e ela ficasse com minha me. Agora que minha me morreu e ela j est com dezoito anos, veio para c e vai trabalhar aqui por algum tempo, at conseguir 
coisa melhor. Ela  estudada, no  burra como eu.
Marcos olhou para a moa que o olhava.
- Ela  muito bonita, Lena...
- , sim, mas no pense que vai brincar com ela. Conheo voc, sei o que faz com todas as moas...
Ele, rindo, disse:
- Nem pense nisso. Ela  diferente...
Novamente os olhos se encontraram e novamente os coraes bateram forte. Lena, percebendo algo, disse:
- Marlia, v servir mais bebidas.
Ela, desajeitada, pegou alguns copos, colocou sobre a bandeja e saiu. Ele a acompanhou com os olhos. Lena, aps Marlia sair, pegou um pano de pratos, molhou e, 
enquanto limpava o palet e a camisa dele, disse:
- Ela no  diferente coisa nenhuma, Marcos!  uma moa como outra qualquer e no  do seu meio.  honesta, mas pobre. No brinque com ela.
- No se preocupe com isso, Lena. Pode dizer que ela no  diferente, mas eu digo o contrrio. Ela , sim, diferente de todas as moas que conheci at aqui.
- Pode parar Marcos! Ela no  do seu meio.  honesta, mas pobre. Fique longe dela!
Ele, rindo novamente, disse:
- Vou tentar Lena. Prometo que vou tentar... 
Ela, aps terminar de limpar, disse:
- Foi o que deu para fazer. No ficou muito bom, mas deu para disfarar.
- Est timo, Lena. Tambm j so quase dez horas. A festa est terminando.
-  verdade. Aproveite para se divertir um pouco mais.
Ele, rindo, saiu da cozinha. Entrou na sala. As pessoas continuavam danando, conversando, bebendo e comendo. Com os olhos, procurou por Marlia, que servia a todos. 
Yara se aproximou:
- Conseguiu limpar?
- Mais ou menos, mas est bom. Tambm, a festa j est terminado.
- Voc vai me levar para casa?
Ainda com os olhos em Marlia, ele respondeu:
- Como foi que voc veio?
- Com um txi, mas h esta hora  difcil conseguir um. Voc sempre me leva de volta, por isso no me preocupei.
- Est bem, eu levo voc. 
Marlia continuou servindo, mas, mesmo no querendo, no conseguia evitar que seus olhos procurassem por ele. Ficaram assim pelo resto da noite. Quando todos comearam 
a se despedir, Marcos se aproximou dela:
- Boa noite, Marlia. Seja bem-vinda. Fiquei feliz em conhec-la espero poder v-la outras vezes.
Ela pegou a mo que ele lhe oferecia e, olhando em seus olhos, sorriu:
- Obrigada. Boa noite.
O contato das mos fez com que os dois estremecessem. Rapidamente, ela retirou a mo e se afastou. Ele, sorrindo, acompanhou-a com os olhos. Yara, sem que ele imaginasse, 
seguia todos os seus movimentos. Assim que Marlia se afastou, ela se aproximou de Marcos.
- Vamos embora, Marcos?
Ele, ainda olhando em direo  Marlia, respondeu:
- Vamos, Yara.
Despediram-se de todos, saram e entraram no carro. Enquanto ele dirigia em silncio, ela, tentando disfarar o nervosismo, perguntou.
- Quem  aquela moa, Marcos?
- Que moa, Yara?
- Aquela servial, Marcos.
- Por que est falando assim a seu respeito?
- Porque ela  uma servial, alm de negra!
- Que preconceito  esse, Yara?
Ela, no conseguindo esconder seu cime e nervosismo, respondeu:
- No  preconceito,  uma realidade! Ela  uma servial e negra!
- Tem razo, mas tambm  filha da Lena que conhecemos desde que ramos crianas. Ela veio morar e trabalhar com a me. S no entendo o motivo da sua preocupao.
Percebendo que ele estava nervoso, ela, procurando se controlar, disse:
- No estou preocupada, s achei que ela  uma desastrada! No viu o que fez com sua roupa?
- Foi um acidente, Yara, e tambm tive minha parcela de culpa.
- Voc no teve culpa, era ela quem devia ter prestado ateno.
Ele ficou calado. O carro chegou a frente  casa de Yara. Marcos parou o carro, desceu, deu a volta e abriu a porta para que ela sasse.
- No quer entrar um pouco?
- No, j est tarde. Boa noite, Yara.
Ela, percebendo que ele estava nervoso, resolveu no insistir.
- Boa noite, Marcos.
Ele deu a volta, entrou no carro, ligou e saiu. Chegou a casa, desceu do carro e abriu o porto. Voltou ao carro e, assim que entrou, viu que o carro de Martin estava 
ali. Preocupado, estacionou o carro e entrou apressado. Assim que entrou, viu Lia, Raquel e Martin conversando. Preocupado, perguntou:
- O que aconteceu para estarem acordados h esta hora?
Lia, chorando, levantou-se e abraou-se a ele:
- Norberto morreu. 
Marcos abraou-a e perguntou:
- Como? Onde ele est?
- Hoje  noite, assim que voc saiu Marcos, ele passou mal, levamos para o hospital, mas ele no resistiu, morreu. Est l.
- Por que no me chamou? Sabiam onde eu estava!
- Sabamos que estava bem e que logo chegaria a casa. Martin est aqui e vai nos ajudar com a papelada.
S ento Marcos se lembrou que Martin estava ali.
- Boa noite, Marcos.
- Boa noite, Martin. O que vamos fazer?
- J peguei os papis que o hospital deu, com eles, vamos providenciar o sepultamento. S estava esperando voc chegar.
- Vamos agora mesmo!
Beijaram Raquel e Lia, depois saram. No dia seguinte, pela tarde, acompanhado por parentes, amigos e conhecidos, Norberto foi sepultado. Lia inconformada, abraada 
 Raquel, chorava sem parar ao mesmo tempo em que pensava. Voc foi meu companheiro por tantos anos. Sei que vou sentir sua falta, mas, ao menos, no est sofrendo 
mais. Espero que, de onde estiver, possa me ajudar a terminar minha jornada... Olmpia e Samuel, que estavam ali, sorriram e jogaram luzes brancas sobre todos os 
presentes, principalmente sobre Lia.
 
A DECISO

Mais de um ms se passou. Daquele dia em diante, Lia, apesar de chorar pelos cantos, aos poucos, foi se envolvendo com os afazeres da casa. Enquanto Raquel trabalhava, 
era ela quem comandava as compras, os empregados e tudo de que os meninos precisavam. Marcos, por mais que tentasse, no conseguiu esquecer-se de Marlia, que, por 
sua vez, embora tivesse sido avisada por sua me de como ele era namorador, tambm no se esquecia dele. Em uma manh, enquanto tomava caf, ele disse:
- Dona Lia, pela primeira vez em minha vida, acho que estou apaixonado.
Lia comeou a rir:
- O que est dizendo, Marcos? Voc, apaixonado? Deve estar brincando!
- No sei se estou apaixonado, mas no consigo esquecer o rosto lindo de uma moa que conheci no dia da festa do Jos Carlos! Ela  linda! A senhora precisa ver 
os seus olhos! Nunca vi iguais!
- Nossa! Parece que est apaixonado mesmo! Que bom, meu filho, j estava na hora! Quando vai traz-la aqui em casa para que possamos conhec-la?
- No sei...
- Como no sabe?
- Eu disse que estou apaixonado, mas ela ainda no sabe.
Lia comeou a rir:
- O que est dizendo, a moa no sabe que voc est apaixonado por ela? Voc no disse? Estou desconhecendo voc!
- S a vi na festa.
- Ela gosta de voc?
- No sei. Porm, conhecendo as mulheres como conheo, acho que sim. Ela me olhou de um jeito...
- Que jeito?
- No sei explicar, de um jeito que s olhamos quando gostamos da pessoa.
- Quem  ela, a que famlia pertence? Sabe que sua me j tem planos para voc...
- A  que est o problema. Ela no pertence a nenhuma famlia importante e no tem um nome, como mame diria. Ela  filha da empregada da casa de Jos Carlos.
- Filha da Lena?
- Dela mesmo. Seu nome  Marlia e  linda!
- Mas a Lena ...
- Negra?  isso que ia dizer?
- Sim, exatamente. Ela  negra, portanto, a filha deve ser tambm...
- Ela, alm de ser negra,  linda! Estou verdadeiramente apaixonado!
Lia, preocupada, disse:
- Por mim, no vejo problema algum, j com sua me, no sei, no. Ela, para o bem da empresa, quer muito o seu casamento com Yara.
- Ela pode querer, mas eu no quero! Eu sempre disse que nunca me casaria, mas, agora, se tiver de me casar, vai ser com Marlia!
- Ser que no est interessado justamente por ela ser diferente?
- No, dona Lia! No sei o que aconteceu, mas assim que olhei seus olhos, senti que era a mulher da minha vida!
- No consigo acreditar que estou ouvindo voc dizer isso! Pretende falar com ela?
- Eu no disse que estou apaixonado? Preciso falar com ela, mas no sei como me aproximar. Sabe que a Lena, assim como  senhora, me conhece e no quer que eu me 
aproxime da filha.
- Ela tem razo. Est vendo, ganhou a fama, agora deite na cama. Vai ser difcil voc convencer a Lena ou qualquer pessoa que o conhea. Todos sabem que voc  um 
namorador...
- Eu era, agora, no sou mais! S quero Marlia.
- Sendo assim, no vejo motivo algum para que no v at a casa de Jos Carlos. Sempre foi l e sempre foi bem recebido. V at l, converse com a moa e com Lena 
e veja o que acontece. Na vida, para uma pergunta, existe somente uma resposta:  um sim ou um no.
- Tem razo,  isso que vou fazer. Hoje  tarde, aps a faculdade, vou com Jos Carlos at sua casa. Vou falar com Marlia, depois com a Lena. Como voc disse, s 
posso ter uma resposta: sim ou no. Tomara que seja um sim.
- Faa isso, meu filho. Vai dar tudo certo. 
Marcos beijou Lia no rosto e saiu apressado. A tarde, no fim das aulas, aproximou-se de Jos Carlos:
- Preciso ir a sua casa.
- A minha casa, por qu? No temos que estudar!
- Quero falar com Marlia.
- Marlia? Por qu?
Marcos contou o que havia acontecido e como estava desde o dia da festa. Terminou, dizendo:
- Ela  o amor da minha vida! No consigo esquec-la por um minuto!  a mulher com quem quero me casar!
Jos Carlos ficou nervoso:
- Marcos! Conheo voc, sei o que costuma fazer, mas no vai fazer com Marlia! Ela  uma moa simples, no merece ser enganada! Alm do mais,  filha da Lena! Sabe 
como a Lena gosta de mim e dos meus irmos e como gostamos dela! No vou permitir que a faa sofrer!
Agora, quem ficou nervoso foi Marcos:
- Ser que voc no entendeu o que falei? Eu disse que ela  a mulher da minha vida e que quero me casar com ela!  difcil entender o que estou falando?
- No, no  difcil, s  inacreditvel.
- Pode parecer inacreditvel, mas  a verdade, Jos Carlos! Nunca senti por outra mulher o que estou sentindo por ela!
- No acredito no que est dizendo, mas, supondo-se que fosse verdade, j pensou nas conseqncias disso que est querendo fazer?
- Que conseqncias? Apenas vou me casar.
- Como pode dizer isso?
- Eu s disse que vou me casar! O que tem isso demais?
- Todos sabem que voc vai se casar com a Yara!
- Todos? Que todos?
- Todos os nossos amigos! Todos aqueles que fazem parte do nosso meio social!
- Eu nunca, at hoje, disse que ia me casar com Yara nem com outra qualquer!
- Nunca disse, mas sempre deixou isso muito claro!
- Como, muito claro?
- Esto sempre juntos! Depois da cada festa, se no estiver acompanhado, leva-a para casa! Alem disso, sua me e os pais dela tm certeza de que esse casamento vai 
acontecer! Todos sabemos que, depois de se cansar de todas as outras, vai ficar com ela!
- Eu gosto da Yara como companhia. Ns nos conhecemos desde que ramos crianas! Ela  alegre, engraada, mas nunca a namorei nem fiz qualquer promessa! Esto todos 
enganados!
- Sua me tambm?
- Principalmente ela! J discutimos vrias vezes a esse respeito e sempre deixei bem claro que no vou me casar com Yara nem com outra qualquer que ela escolha! 
At agora, apesar de ter namorado muitas moas, nunca me interessei realmente por nenhuma delas! Hoje, sei que amo Marlia e, se ela me aceitar, com ela, sim, quero 
me casar!
- Est bem, mas, supondo-se que esteja falando a verdade, acha que sua me vai consentir nesse casamento?
- No vai por qu?
- Marlia no pertence ao nosso nvel social e, alm de ser pobre,  negra...
- O que tem isso, Jos Carlos. No me importo a que nvel social ela pertena! No me importo de que cor ela ! S sei que a amo! Minha me no vai se importar com 
isso. Ela se orgulha de ter comeado do nada e de ter chegado aonde chegou e, pelo que saiba, nunca teve preconceito de cor ou de qualquer coisa. Nenhum desses motivos 
ser um empecilho para que eu e Marlia sejamos felizes.
- Voc est perturbado! Est doente!
- No, meu amigo, estou apaixonado!
- Nossa, Marcos, pelo seu tom de voz, parece que est dizendo a verdade! Nunca vi voc assim!
- Claro que estou dizendo a verdade! S preciso que me leve a sua casa para poder conversar com ela! No acha engraado estarmos tendo essa conversa sem que ela 
imagine o que est acontecendo? Sem saber se ela me quer? Preciso falar com ela, Jos Carlos!
- Est bem, vou ajudar voc, mas, se fizer algo que a magoe, nunca vou perdoar! Ela no merece!
- Sei disso, e jamais farei algo que a machuque! S quero  am-la e fazer com que seja feliz! Vamos para sua casa!
- No adianta irmos para minha casa. Ela no est l.
- Como no? O que aconteceu, ela foi embora?
- No, est trabalhando como balconista na mercearia.
- Balconista?
- Sim, ela no se acostumou como domstica e Lena conseguiu esse trabalho para ela. Com o salrio das duas, alugaram uma casa pequena. Lena no mora mais l em casa, 
mas continua trabalhando l.
- At que horas Marlia trabalha voc sabe?
- Acho que  at as seis.
- Ainda so duas horas. Vou para casa e, mais tarde, vou at a mercearia, esperar que ela saia. Vou conversar com ela, dizer do meu amor e espero que me aceite. 
Da maneira como me olhou na festa, acho que a impressionei.
- No sei, no, Marcos. A Lena j deve ter dito a ela como voc  namorador.
- Sei disso, mas vou provar o contrrio. Vou fazer com que ela acredite em mim, no meu amor.
Jos Carlos comeou a rir:
- Do que est rindo?
- Nunca pensei, em minha vida, que um dia veria voc dizer algo como o que est dizendo. Imaginem Marcos, o namorador, aquele que sempre teve a mulher que queria 
apaixonado! Acha que isso no  para rir?
- No amole Jos Carlos...
- No quero amolar voc, s no posso deixar de rir.
- Est bem, ria  vontade. Estou indo para casa. Amanh, vou contar o que ela decidiu.
Acenando com a mo, Marcos entrou no carro e foi para casa. Jos Carlos, ainda no acreditando no amigo, respondeu ao aceno e tambm entrou em seu carro. Marcos 
chegou a casa. Lia o esperava. Assim que entrou, ela percebeu que alguma coisa estava acontecendo. Perguntou:
- O que aconteceu, Marcos?
- Nada aconteceu, dona Lia, mas vai acontecer. Conversei com Jos Carlos e ele me disse que a Marlia est trabalhando em uma mercearia. Hoje, s seis horas, vou 
at l para conversar com ela.
- O que ele achou disso que pretende?
- No acreditou, mas no me importo. Gosto dela de verdade!
- Voc disse que ela no sabia do seu interesse...
- No sabe, mas vai saber. Sinto que ela tambm gosta de mim! Vai dar tudo certo, a senhora vai ver!
- O que  que vai dar certo, Marcos? 
Voltaram-se e viram Raquel que havia feito a pergunta.
- Nada, mame...
- Como nada? Estou vendo que voc est eufrico. Posso saber o que est acontecendo?
- Ele est apaixonada, Raquel, e diz que vai se casar.
- Apaixonado? Casar?
-  isso mesmo, me! Assim que eu terminar a faculdade, pretendo me casar.
- Com quem?
Lia comeou a rir e respondeu:
- Com uma moa que no sabe das intenes dele.
- Como ?
- Isso mesmo, mame. Estou apaixonado, quero me casar, mas ela ainda no sabe.
Raquel comeou a rir:
- Como pode ser isso?
-  uma longa histria. Agora, no posso contar. Vou tomar um banho e me preparar para um encontro muito importante. Dona Lia, conte para ela o que est acontecendo.
- Est bem. V tomar seu banho.
Ele foi para seu quarto. Raquel sentou-se ao lado de Lia:
- Que histria  essa, Lia?
Lia contou tudo o que havia acontecido e terminou, rindo e dizendo:
- Como pode ver Raquel, parece que ele est apaixonado mesmo!
- Sabe que eu preferia que fosse com Yara, mas se ele no quer nada posso fazer.
- Ainda bem que pensa assim. Estava preocupada, achei que voc no fosse aceitar e, conhecendo Marcos como conheo isso seria um problema.
- Estou estranhando voc, Lia.
- Por qu?
- Disse que conhece Marcos, mas me conhece muito mais. Sabe que a nica coisa que sempre quis nesta vida foi  felicidade dos meus filhos.
- Sei disso, mas...
- No tem mais nem menos. Voc disse que ele conheceu essa moa na festa de Jos Carlos. Quem  e a que famlia pertence?
- Ela  filha da Lena.
- Que Lena?
- A empregada da Cndida.
Raquel parou e ficou pensando. Transtornada, perguntou:
- Filha de uma empregada?
- Sim e negra...
- Negra? No pode ser, Lia!
- Voc nunca teve preconceito algum, Raquel.
- No tenho, mas isso no quer dizer que quero uma negra como nora! No vou aceitar de maneira alguma!
- No fale assim, Raquel. Marcos est apaixonado e decidido. Nada vai fazer com que mude de idia.
- Vai ter de mudar! No vou aceitar!
- Voc no pode agir assim, se continuar intransigente dessa maneira, vai perder seu filho. No faa com que ele precise escolher entre voc e ela.
- Vai ter de escolher, sim, Lia! Se ele a escolher, eu no o quero como filho! Depois de tanto sacrifcio que fiz para cri-lo! No vou permitir que se una a uma 
moa que, alm de ser pobre, ainda  negra! No vou aceitar! No vou!
- No faa isso, Raquel...
Raquel, calada e pisando firme, foi para seu quarto. Olmpia e Samuel, que estavam ali, olharam-se. Ela disse:
- Ser que tudo vai se repetir, Samuel?
- No sei Olmpia. Tomara que no. Ela, at aqui, se comportou to bem. Superou todos os problemas. Agora est em suas mos resvalar o que fez de mal. Como voc 
sabe, no podemos interferir. Ela tem seu livre-arbtrio. Por isso, s ela pode decidir.
- Tem razo, Samuel. Vamos esperar que, desta vez, ela decida bem. 
Faltavam dez minutos para as seis horas e Marcos j estava em frente  mercearia onde Marlia trabalhava. De onde estava, podia v-la atendendo, com um sorriso, 
aos clientes. Ele estava nervoso, com medo de que ela no o aceitasse. Sabia da sua fama de namorador, sabia tambm que, por causa disso, teria dificuldade para 
convenc-la, mas estava decidido: Ela precisa acreditar em mim. Estou realmente apaixonado. Os minutos demoraram a passar, at que, finalmente, Marlia saiu. Apressada, 
sem imaginar que ele a esperava, se encaminhou para o ponto de nibus. Ele, rapidamente, atravessou a rua e seguiu-a. Assim que se aproximou, chamou:
- Marlia!
Ela se voltou e, ao v-lo, estremeceu. Seu corao comeou a bater forte.
- Marcos? O que est fazendo aqui?
- Preciso conversar com voc.
- Comigo, conversar sobre o qu?
- Para onde est indo?
- Para o ponto de nibus. Ele tem hora certa para passar por aqui e, se me demorar, eu o perco e o outro vai demorar muito.
- Meu carro est ali na esquina. Posso levar voc at a sua casa.
Ela pensou um pouco, depois disse:
- No, obrigada. Vou de nibus.
- Precisamos conversar. No se preocupe, prometo que estar em casa no mesmo horrio.
- No sei sobre o que deseja conversar, Marcos.
- Preciso conversar sobre ns.
- Sobre ns? No entendo o que est dizendo.
- Eu queria que fosse diferente, mas, j que insiste em no me ouvir, vou ser direto. Eu, desde que a conheci na festa, estou apaixonado e quero namorar voc.
Ela, com um sorriso assustado, perguntou:
- O qu?
- Isso que ouviu. Desde aquela noite, no consigo me esquecer de voc. Por isso, precisamos conversar.
Ela, lembrando-se de tudo o que sua me havia dito sobre ele, disse:
- Minha me me avisou sobre voc. No quero envolvimento algum com voc.
- Tem razo em pensar assim. Sei que j namorei muitas, mas um voc  diferente. Nunca senti por ningum o que estou sentindo por voc. Estou realmente apaixonado. 
Nunca levei moa alguma para conhecer minha me, mas, se voc quiser, estou disposto a levar voc, Marlia.
- Est ouvindo o que est falando, Marcos?
- Sim, claro que estou!
- Sabe que somos diferentes.
- Diferentes por que, em qu, Marlia?
- No perteno ao seu meio. Sou filha de uma domstica e esclarecida o suficiente para saber que sua me nunca me aceitaria, pois, alm de pobre, sou negra.
- Minha me nunca teve preconceito algum. Ela foi muito pobre trabalhou muito para chegar aonde chegou. Ela s quer a minha felicidade e a minha felicidade s ser 
completa no dia em que me casar com voc.
- Casar?
- Sim, casar! No estou brincando, estou falando srio. Da maneira como me olhou, naquele dia, sei que voc tambm gostou de mim.
Ela ficou calada. Ele continuou:
- Quero muito ficar com voc e, se me aceitar, hoje mesmo, vou falar com sua me.
Marlia comeou a rir:
- Ela vai colocar voc para fora de casa! 
Ele tambm riu:
- Tem razo, sei que  isso que vai acontecer, mas no se preocupe. Sei que vou convenc-la e, se voc me aceitar, no haver empecilho algum.
Ela ficou sem saber o que dizer. Ele, segurando-a pelos braos e fazendo com que seus olhos se encontrassem, disse:
- Olhe em meus olhos e diga que tambm no tem pensado em mim... 
Ela tentou desviar o olhar, mas ele no deixou:
- Diga que no pensou em mim.
- No posso fazer isso, pois, embora saiba que no devo, no consegui evitar pensar em voc.
- Est vendo? Eu sabia que tambm havia gostado de mim! Sendo assim, nada poder nos separar! Assim que eu terminar a faculdade, vamos nos casar. Minha me sempre 
quis que eu trabalhasse com ela, eu nunca quis, mas agora, para ter o meu prprio dinheiro e poder sustentar voc e aos nossos filhos que vo nascer, vou trabalhar 
muito!
- No sei o que falar...
- Somente diga que quer me namorar!
- No sei, custa-me acreditar que est falando a verdade...
- Estou falando a verdade, sim! Para provar, podemos pegar o meu carro e ir at sua casa para falar com sua me.
- Ela, assim como eu, no vai acreditar.
- Sei que vai ser difcil, mas vou conseguir convenc-la, porque estou falando a verdade! Vamos pegar o meu carro?
Sem que ela tivesse tempo de pensar, ele pegou sua mo e quase a obrigou a segui-lo. Percebendo que ele no ia desistir, ela resolveu acompanh-lo. Entraram no carro 
e aps dirigir por mais de vinte minutos, ele parou em frente a uma casa que ela lhe mostrou. Desceram e entraram por um corredor longo.
- Eu e minha me alugamos um quarto e cozinha nos fundos.
Ele, calado, acompanhou-a. Quando estavam chegando, Lena saiu  porta e, ao v-los, estranhando, perguntou:
- Marcos? O que est fazendo aqui?
Ele, rindo, respondeu:
- Boa noite, Lena! Estou acompanhando sua filha.
- Ela no precisa de companhia! Conhece o caminho muito bem!
- No precisa ficar nervosa. Estou aqui para conversarmos.
- No sei o que tem para conversar comigo, Marcos!
- Sei que deve estar estranhando a minha presena, mas logo saber do que se trata. Posso entrar?
Ela, a contragosto, se afastou para que ele entrasse. Ele entrou, percebeu que, embora fosse uma casa pobre, estava limpa e bem arrumada. Lena, ainda desconfiada, 
mostrou-lhe uma cadeira onde ele se sentou. Ela e Marlia sentaram-se em outras. Depois de sentados, Lena, muito nervosa, perguntou:
- Agora pode me dizer qual  o motivo da sua visita?
- Pensei que gostasse de mim. Afinal, me conhece desde que eu era ainda um menino.
- Gosto, sim, mas no entendo o porqu da sua visita e acompanhado pela minha filha.
-  muito simples. Eu e Marlia estamos namorando.
- O qu?
- O que a senhora ouviu. Eu e Marlia estamos namorando e estou aqui para pedir o seu consentimento.
Ela olhou para a filha e perguntou nervosa:
- Por que no me contou Marlia?
- Tambm no sabia me...
- Como no sabia?
- Vou explicar para a senhora o que aconteceu. Contou tudo, desde a primeira impresso que teve quando conheceu Marlia na festa. Terminou, dizendo:
- Sei que no vai acreditar, mas, assim que vi sua filha, senti que era a mulher que eu queria para minha esposa. Aquela com a qual vou passar o resto da minha vida! 
Aquela com a qual vou ter uma poro de filhos!
Ela, ao ouvir aquilo, levantou-se e, apontando o dedo para ele, disse nervosa:
- Voc est brincando ou quer mais uma para sua coleo!
- No, Lena, no estou brincando e no quero outra para minha coleo! Tudo o que disse  verdade! Quero me casar com sua filha!
- No pode ser! Se no estiver brincando, no est bom da cabea!
- No entendo o porqu de todas as pessoas falarem isso!
- Porque todas as pessoas esto vendo aquilo que voc no est! Elas tm bom senso! Somos pobres, Marcos! No pertencemos ao seu meio!
- E so negras! No  isso que vai dizer Lena?
- Isso mesmo, somos negras, Marcos!
- Ser que s eu ouvi que a escravido terminou? Ser que s eu no vejo motivo algum para julgar as pessoas pela cor da sua pele? No me importo que sejam pobres 
ou negras! Amo sua filha e ela tambm gosta de mim, isso, sim,  o que importa!
- No pode ser... No pode ser...
- Claro que pode e ! Sua me no vai aceitar.
- Ela vai, sim. Sempre disse que s quer a minha felicidade e a do meu irmo. Ela vai entender que minha felicidade  me casar com a sua filha.
Lena olhou para Marlia e perguntou:
- O que voc acha de tudo isso? Gosta mesmo dele, Marlia?
- A senhora sabe que sim. Eu j havia comentado, mas tentei esquec-lo por saber quem era.
- Embora ele diga que no vai haver problema algum, sei que vai. Est disposta a enfrentar?
Ela olhou para ele que, pegando sua mo, sorriu.
- Estou me. Vamos enfrentar tudo o que vier pela frente.
- Sendo assim, no posso me opor. Como sua me disse Marcos, s o que me importa  a felicidade da minha filha. Estou acreditando no que est dizendo, mas se for 
mentira, eu mato voc!
Ele, sem pensar, levantou-se e beijou Lena no rosto;
- No vai precisar me matar! Sua filha vai ser feliz ao meu lado, a senhora vai ver!
- Est bem. Espero que esteja dizendo a verdade. Agora, j que est aqui, no quer jantar? A comida  simples, mas garanto que est muito boa.
- Eu conheo sua comida, Lena, por isso, no posso me recusar a com-la uma vez mais.
Lena sorriu e voltou-se para o fogo. Ele, segurando a mo de Marlia, sorriu. Enquanto isso acontecia na casa de Lena, Raquel, em seu quarto, nervosa, pensava: 
Eu no vou permitir que meu filho se case com uma domstica! Com uma negra! No foi para isso que trabalhei tanto! No foi para isso que sacrifiquei a minha vida! 
Sacrifiquei a minha juventude para cuidar somente deles, para, no final, receber isso? No! No vou aceitar! Vou fazer o que for possvel e impossvel, mas ele no 
se casar com ela! Preciso que se case com Yara para que seu pai facilite a licitao.  uma oportunidade sem par para a minha empresa. Preciso pensar em uma maneira 
para evitar que ele faa uma loucura como essa! Saiu do quarto e foi para a sala, onde Lia assistia  televiso. Lia que a conhecia muito bem, percebeu que estava 
nervosa:
- Por que est nervosa assim, Raquel?
- No  para estar, Lia? Voc no est vendo que Marcos vai acabar com sua vida?
- Por que est dizendo isso?
- No ouviu quando ele disse que est apaixonada por uma moa que alm de pobre,  negra?
- Ouvi Raquel, e no vejo tanto problema como voc est vendo. Ele est feliz e isso era o que devia importar. Condio financeira  questo de momento e, quanto 
 cor, no vejo motivo algum para esse nervosismo. Somos todos iguais. J foi o tempo em que as pessoas eram julgadas pela cor da pele. Deixe disso.
- No posso deixar, Lia! Tinha muitos planos para ele! Isso de que somos todos iguais no passa de balela! No somos iguais! Branco  branco e negro  negro e, entre 
os dois, existe uma enorme distncia! No foi para isso que criei meu filho! No foi para isso que passei minha vida toda trabalhando! Ele merece o melhor e o melhor, 
com certeza, no  uma negra!
- Ele merece ser feliz e se sua felicidade estiver ao lado de uma negra que seja Raquel! Voc trabalhou, sim, se sacrificou, sim, mas isso no lhe d o direito de 
cobrar de seus filhos! As escolhas que fez foram suas, no deles! A vida que teve foi sua, no a de seus filhos! Cada um deles tem sua vida, voc no pode nem deve 
interferir!
- Como pode falar assim, Lia? Logo voc que acompanhou toda minha vida! Que sabe por tudo o que passei!
- Estive todo esse tempo ao seu lado. Sempre a admirei por sua luta, por sua garra! Pensei que a conhecesse, mas, para minha tristeza, vejo que nunca a conheci! 
O que voc est fazendo no  certo, Raquel! Por ser me, no pode fazer planos em relao ao seu filho! Com essa atitude vai afastar seu filho! No faa com que 
ele tenha de escolher entre voc e a mulher que ama, pois, com certeza, ele vai escolher a mulher e voc s vai sofrer. Deixe que ele decida a vida que quer! At 
aqui, voc foi uma tima me e mulher, no se deixe levar pelo preconceito nem estrague uma vida to cheia de realizaes!
- Est dizendo isso porque ele no  seu filho, se fosse, pensaria diferente!
Lia ficou furiosa:
- Ele no  meu filho porque no nasceu de mim, mas  muito mais do que seu Raquel! Eu cuido dele desde que era um beb! Enquanto voc esteve trabalhando, fui eu 
quem cuidou deles, deu ateno e ensinou a serem quem so! Seus filhos so mais meus do que seus!
- Eles no so seus filhos, Lia! So meus!
- Sei disso, mas no vou permitir que faa com que sofram, por um preconceito qualquer! Moacir j est casado e Marcos vai se casar com quem quiser!
- Ele, se casar com essa moa, vai se arrepender muito! No vai ser recebido em muitos lugares e, por todo lugar por que passar com ela ser sempre apontado!
- Isso no deve importar a voc, Raquel! Ele  quem vai ter de enfrentar toda essa situao! No interfira. Deixe que ele decida a vida que quer ter e, se der certo, 
muito bem, se no der, foi mais um aprendizado, foi escolha dele.
- Pode falar o que quiser, mas vou encontrar uma maneira de impedir que esse casamento acontea!
- Nem sabemos se vai haver casamento! A moa nem sabe que ele est apaixonado! Estamos tendo essa conversa sem necessidade, Raquel! Vamos esperar para ver o que 
acontece!
- Voc acha que ela no vai querer ficar com ele? Claro que vai, Lia! Ele, alm de ser bonito,  rico e pode dar a ela uma vida com a qual nunca sonhou! No posso 
e no vou permitir que isso acontea!
- No sabemos o que vai acontecer, mas, seja o que for, precisamos apoiar Marcos.
- Nunca vou apoiar uma coisa como essa, Lia! Nunca!
- Nunca  muito tempo, Raquel. Vamos esperar para ver o que acontece. Agora, vou preparar um ch. Vamos tomar e ficaremos mais calmas. Depois,  s esperar.
Foram para a cozinha. Lia colocou gua para ferver. O ch ficou pronto, comearam a tomar. Marcos chegou e, ao v-las sentadas, tomando ch, sorrindo e feliz, beijou-as 
e perguntou:
- Como esto as mulheres da minha vida!
- Estamos bem, Marcos. Voc parece que est feliz!
- Estou, sim, dona Lia. Marlia me aceitou! Vamos namorar e, assim que eu terminar a faculdade vamos nos casar!
Lia olhou para Raquel, que disse:
- Tem certeza do que est fazendo, Marcos?
- Claro que tenho mame! Assim que a vi, senti que era a mulher da minha vida! Aquela que tenho procurado entre tantas! A senhora vai conhec-la e vai me dar razo! 
Ela, alm de ser linda,  educada.
- Como vai ficar Yara nessa histria?
- O que tem Yara a ver com esta conversa? 
- Todos sabem que vocs esto namorando.
Ele comeou a rir:
- Todos sabem menos eu! Nunca namorei Yara, mame. J lhe disse isso mil vezes. Somos amigos, samos juntos, mas sempre foi sem compromisso e ela sabe disso.
- O pai dela pensa diferente. Ele at me falou da casa que est comprando para vocs morarem.
- Ele pode comprar quantas casas quiser, mas no vou me casar Yara.
- Eu me comprometi com ele... 
- No devia ter feito isso, me. Agora, ter de quebrar esse compromisso. Sempre disse que nunca ia me casar, mas como  senhora fala, dona Lia, nunca  muito tempo. 
Encontrei a mulher da minha vida e s com ela vou me casar, com mais ningum.
Lia olhou para Raquel e percebeu que ela ia falar algo de que se arrependeria. Apressada, disse:
- Est bem, mas agora j est na hora de dormirmos. Vamos, Raquel. Deve estar cansada, trabalhou o dia inteiro.
Raquel, percebendo sua inteno, levantou-se, dizendo:
- Est certa, Lia. Realmente estou cansada. Outro dia conversamos a esse respeito, Marcos.
- No h o que conversar mame. Vou me casar com a mulher mais maravilhosa deste mundo!
Raquel e Lia se retiraram Marcos sentou-se e tambm tomou um pouco de ch.
 
SITUAES QUE SE REPETEM

Trs meses se passaram. Marcos e Marlia continuaram apaixonados. Todas as tardes, ele a esperava na hora em que ela saa da mercearia. Namoravam por algum tempo 
sentados em um banco da praa e, depois, iam para casa de Lena. Como isso se tornou uma rotina, aos poucos, Lena foi confiando nele e no colocou mais empecilho 
algum. Aos sbados e domingos, ela permitia que sassem que fossem ao cinema ou simplesmente passear. Marlia estava encantada com todo o carinho e ateno com que 
ele a tratava.
- Me, ele  maravilhoso e acho que gosta realmente de mim. Estamos fazendo muitos planos para o nosso casamento.
-  difcil acreditar que ele esteja falando a verdade. Ele  muito namorador, minha filha. Tome cuidado.
- No se preocupe me. Ele esta sendo sincero. Quer mesmo se casar comigo!
- Est bem, mas tome cuidado. Sempre ouvi dizer que ele namora at conseguir o que quer, depois, ele abandona as moas.
- No acredito que isso seja verdade. Ele, comigo, est sendo sincero. Quer mesmo se casar.
Raquel, por sua vez, no se conformava com aquele namoro. Fez simpatia, acendeu vela e tudo o que lhe ensinavam para que Marcos se desinteressasse de Marlia. Todas 
as noites, antes de dormir, dizia: 
- Francisco, voc precisa me ajudar a salvar o nosso filho. Ele no pode se casar com essa moa! Ela no o merece. Se for verdade que existe vida depois da morte, 
voc, que sempre foi to bom, deve poder fazer alguma coisa. Francisco e Olmpia ouviam o que ela pedia. 
Ele, desesperado, dizia:
- Nada posso fazer Raquel. No posso interferir no seu livre-arbtrio ou no de Marcos. Mesmo que pudesse, eu no o faria. Voc j cometeu um erro muito grande. Est 
tendo a chance de se redimir. No interfira, deixe que Marcos viva a vida da maneira que escolher. No cometa o mesmo erro de antes. Voc fez tudo to certo! Conseguiu 
vitrias, no estrague a sua encarnao. Sempre que foi possvel, para ajud-la a superar as crises, estivemos ao seu lado, mas, para isso,  impossvel. Somente 
voc vai poder escolher o caminho que quer seguir. Tomara que escolha bem. Precisa agir certo para que, quando chegar a hora do seu regresso, possamos nos encontrar.
Embora sem saber, ela ouvia o que ele dizia, mas no dava ateno, continuava a pensar em uma maneira de evitar aquele casamento. Sempre que estava em casa, Marcos, 
para desespero de Raquel, s falava em Marlia.
- Est quase terminando o ano e vou pegar meu diploma. Assim que isso acontecer, vou me casar.
- No acha que ainda  cedo, Marcos? Voc  ainda muito novo!
- Como novo, mame! Estou com quase trinta anos! Moacir se casou com vinte e trs.
- Moacir sempre foi mais responsvel, estudou e nunca repetiu o ano. Voc, ao contrrio, repetiu muitos anos e, a muito custo, vai conseguiu se formar.
- Eu queria viver a vida, mame, mas isso terminou. Daqui para frente, vou ser um homem decente e trabalhador. Quero dar a Marlia tudo o que ela merece! Para isso, 
vou fazer aquilo que a senhora sempre quis, vou trabalhar na sua empresa e ter um salrio como Moacir. Vou trabalhar muito, a senhora vai ver!
- Realmente eu sempre quis que voc fosse mais interessado na empresa. Eu continuei com o trabalho de seu pai para que vocs pudessem crescer com tudo, mas, agora, 
acho que est sendo precipitado. Deveria, ao receber seu diploma, comear a trabalhar e s depois de um ano ou dois, pensar em se casar.
- No entendo a senhora, me! Queria porque queria que eu me casasse com Yara. Agora que encontrei a mulher da minha vida e quero me casar, diz que  cedo?
- Com Yara  diferente...
- Diferente, por qu? Porque com o meu casamento a senhora poderia obter lucro para a empresa?
- Tem razo, mas no  somente esse o motivo. Yara  uma moa rica, viajada, tem um diploma e pertence a uma boa famlia.
- Ela pode ter tudo isso, mas no  a mulher com quem quero passar o resto da minha vida! A senhora precisa aceitar me! Vou me casar com Marlia e vou ser feliz!
- Est bem, a vida  sua. Faa o que quiser com ela.
Depois de falar isso, ela saiu e foi para seu quarto. Lia, que a tudo vira, disse:
- No ligue para o que sua me pensa ou diz Marcos. Conheo-h muito tempo e sei que ela s quer a sua felicidade. Depois que se casar e ela vir que voc  feliz, 
vai aceitar Marlia e tudo vai ficar bem.
- Espero que seja assim, dona Lia. No queria ter de escolher entre Marlia e minha me...
- No vai ter de fazer isso. Ela vai aceitar.
Embora Lia falasse isso, Raquel, em seu quarto, tremia de tanto dio: Ele no vai se casar com ela! No vai! No vou permitir que uma mulher como aquela entre para 
a minha famlia! Seu dio era tanto que atraiu para perto de si entidades que, assim como ela, sentiam muito dio. Juntas, rodopiavam  sua volta e iam intuindo-a 
com vrios pensamentos de como ela poderia agir para conseguir o que queria. Raquel, achando que os pensamentos eram seus, pensou: Essa pode ser uma maneira de evitar 
que esse casamento no acontea. Amanh, bem cedo, vou conversar com Yara. Somente ela poder me ajudar a evitar que Marcos se case com aquela moa! No dia seguinte, 
logo cedo, ela estava na casa de Yara que, ao v-la estranhou:
- A senhora to cedo aqui, dona Raquel, o que aconteceu?
- Precisamos conversar Yara.
- Sobre o qu?
- Sobre Marcos.
- Acho que no adianta. Ele est comprometido com aquela moa. J apresentou para todos os nossos amigos.
- Voc desiste muito cedo, Yara! Se eu tivesse agido assim, no teria chegado aonde cheguei! No quer mais se casar com Marcos?
- Claro que quero! Foi o que sempre quis! 
- Pois bem, sendo assim, existe uma maneira que, talvez, d certo.
- Que maneira?
- Essa moa diz estar apaixonada por Marcos. No que eu acredite, ela, na realidade, est apaixonada  por nosso dinheiro, nossa posio.
- Ser dona Raquel?
- Claro que sim, Yara! Porm, poderemos tirar essa dvida.
- Como?
- Voc vai ao encontro dela. Diz que est grvida de Marcos e que ele no quer assumir a criana, pois diz estar apaixonado por ela. Diga que ele a enganou at que 
se entregasse! Vai precisar ser uma atriz, Yara! Precisa convenc-la a abandon-lo! Diga que se ele no se casar com voc, seus pais a colocaro para fora de casa!
- No sei se vou conseguir...
- Precisa conseguir! Essa  a nica maneira de poder se casar com ele! Chore! Implore!
- Mesmo que ela o abandone isso no quer dizer que ele vai se casar comigo...
- Primeiro, vamos nos concentrar para que ela o abandone, depois encontraremos uma maneira de fazer com que ele se case com voc.
- Ela pode contar a ele.
- Voc precisa fazer com que ela no faa isso!
- Como?
- Diga que, se ele souber que voc foi falar com ela, ele a abandonar de vez e voc estar perdida.
- Ser que vou conseguir?
- Claro que vai, Yara!
- Ela pode no se importar...
- Se fizer isso, teremos a certeza de que ela s quer o nosso dinheiro!
- Marcos, se descobrir, vai me odiar e ficar com ela para sempre!
- No! Isso no vai acontecer! Ele no vai se casar com ela, nem que, para isso, eu tenha de mat-la!
Olmpia, Samuel e Francisco estavam ali. Olmpia, assustada, perguntou:
- Ser que ela vai cometer o mesmo erro novamente, Samuel?
- No sei Olmpia. Tomara que no... 
Francisco, tambm preocupado, perguntou:
- O que vai acontecer, se ela voltar a praticar o mesmo crime?
- Ter de passar por todos os tormentos por que passou e esperar a oportunidade de uma nova encarnao para poder, novamente, tentar resgatar.
- Mas Raquel, desta vez, fez tudo perfeito! Conseguiu superar os momentos difceis por que teve de passar! Foi valente, guerreira! No  certo que, por no ter cumprido 
uma s das etapas, seja condenada para sempre!
- No vai ser condenada para sempre, Francisco! Ter, simplesmente de renascer e passar novamente pela mesma prova! Embora seja mais uma das etapas,  a mais importante! 
No se esquea de que na encarnao anterior, ela cometeu dois crimes horrendos! Tirou a vida de uma mulher inocente e, o pior, tirou a vida de uma criana que no 
podia se defender! At os juzes da Terra condenam uma atitude como essa! Precisou passar pelos tormentos do vale, mas teve a oportunidade de renascer e consertar 
o mal que fez. Porm, se no aproveitar essa oportunidade, ter muito mais tempo de sofrimento no vale. O plano espiritual, sempre h justia e dela ningum escapa. 
Olmpia, desesperada, disse:
- Parem com essa conversa! No sabemos o que ela vai fazer! Vamos orar para que faa o certo.
-  a nica coisa que podemos fazer Olmpia. Orar e esperar que as coisas aconteam. Podemos, tambm, jogar luzes de amor e paz sobre ela, mas sabemos que, por estar 
envolvida por essas entidades que atraiu sobre si, essas luzes dificilmente conseguiro chegar a ela.
Raquel, alheia a tudo o que falavam e na tentativa de ajud-la, eufrica, continuou falando:
- Voc precisa convenc-la de que est grvida Yara! Precisa fazer com que acredite que Marcos somente a est usando, como usou voc! Diga que seu pai, por ser deputado, 
no vai permitir que voc tenha um filho sem pai! Sei l, invente qualquer coisa, mas precisa convenc-la! No final, se fizer tudo direito, da maneira como estou 
falando, vai dar certo.
- Vou tentar, dona Raquel, tomara que d certo...
- Vai dar Yara! Vai dar!
- Seria to bom se fosse verdade, se realmente eu estivesse esperando um filho de Marcos, sei que ele se casaria comigo sem pensar...
- Esse casamento vai se realizar, Yara!
- Queria ter a mesma certeza que a senhora.
- S venci na vida, porque sempre acreditei em mim!
Yara, embora soubesse que aquilo que Raquel queria fazer era errado, concordou com a cabea. Raquel disse:
- Vamos sair agora mesmo. Durante a manh, Marcos est na faculdade, portanto, no h perigo de que a encontre l conversando com aquela moa!
- A senhora vai comigo?
- Vou, mas ela no pode me ver. Enquanto conversa com ela, vou ficar na praa, sentada em um banco. Faa da maneira que falei. Procure ser verdadeira para que ela 
no desconfie.
- O que vou dizer a minha me para sair to cedo? 
Raquel pensou um pouco, depois, disse:
- Vamos dizer que preciso ir a um mdico e que, por no querei ir sozinha, pedi a voc que me acompanhasse.
Fizeram isso. Depois de mentir  me, que aceitou prontamente, saram.
Chegaram  praa que ficava perto da mercearia. Raquel, olhando firme para Yara, disse:
- Agora, v, Yara. No se esquea de que desta conversa depende o seu futuro... O seu casamento...
- Est bem, dona Raquel, vou fazer o melhor que puder.
- Vai conseguir! Agora, v. Vou ficar aqui esperando por voc.
Yara respirou fundo e se encaminhou para a mercearia. Assim que entrou, viu Marlia que servia a um cliente. Assim que o cliente se afastou, ela se aproximou:
- Bom dia, Marlia!
Marlia, admirada, disse:
- Bom dia.
- Voc me conhece, no ?
- Acho que j a vi algumas vezes na casa da patroa da minha me.
- Isso mesmo. Sou amiga de Jos Carlos. Fazemos parte da mesma turma.
- Agora, estou me lembrando, mas o que est fazendo aqui, to distaste da sua casa?
- Preciso conversar com voc. Ser que poderia sair por alguns minutos?
- No posso. Estou trabalhando.
- Sei disso, mas o assunto que tenho para conversar  urgente. 
- Urgente?
- Sim, e de seu interesse.
- No posso imaginar que assunto, partindo de sua parte, possa ser de meu interesse.
- Assim que falar o motivo de eu estar aqui, vai ver que temos muito em comum.
Marlia, curiosa, olhou para o dono da mercearia. Sabia, tambm, que, quela hora o movimento era fraco. Aproximou-se dele e perguntou:
- Senhor Fernando, ser que posso sair por alguns minutos? Preciso conversar com aquela moa.
Ele olhou para Yara que tambm o olhava e percebeu que ela no pertencia quele bairro. Tambm curioso, disse: 
- Est bem, desde que no demore muito.
- No vou me demorar.
Saram e, j na rua, Marlia perguntou:
- Qual  o assunto urgente que tem para conversar comigo?
- Voc disse que me conhece, sabe que perteno ao mesmo grupo de Jos Carlos, portanto ao mesmo grupo de Marcos. Sendo assim, j deve ter ouvido que eu o namoro.
- Ouvi dizer que ele namorou muitas.
- Sei, mas, desde que ramos crianas, sabamos que amos nos casar. Fizemos um acordo que, enquanto ele estivesse estudando, teria a liberdade de namorar quem quisesse, 
mas, assim que se formasse todas elas ficariam para trs e ns nos casaramos.
- Eu e ele estamos namorando...
- Sei disso e  por isso que estou aqui.
- No entendi...
- Como ele est terminando os estudos, resolvemos que vamos marcar a data do nosso casamento.
- Ele disse que quer se casar comigo!
Yara, esforando-se para disfarar seu nervosismo, sorriu:
-  o que ele diz para todas. Faz isso at que elas se entreguem.
Marlia, assustada, porque aquilo j havia acontecido, argumentou:
- Ele me pareceu sincero...
- Ele sempre parece, mas o real motivo para eu estar aqui  outro.
- Que motivo?
- Estou grvida.
- Como?
-  isso que ouviu. Estou grvida de um ms e precisamos marcar o nosso casamento.
- No pode ser...
- No pode ser por qu?
- Estamos namorando h trs meses e ele me jurou que nunca mais teve interesse por outra...
-  bem a maneira como ele age, mas o que estou dizendo  a verdade.
- Ele j sabe?
- Claro que sabe e ficou muito feliz!
- Preciso conversar com ele.
- Eu preferia que no fizesse isso, pois ele poder ficar bravo comigo. Nem a me dele nem meus pais sabem. Marcos quer que contemos juntos, a eles. S estou aqui 
para alertar voc.
- Desculpe, mas preciso conversar com ele, no mnimo, para dizer que no presta!
- Por favor, no faa isso!
- No tem como eu aceitar o seu pedido! Ele me enganou, aproveitou-se do meu amor! No posso deixar que fique impune! Hoje  tarde, ele deve vir me pegar, quando 
eu sair da mercearia. Vou conversar com ele, dizer que sei sobre tudo o que est acontecendo, coloc-lo em seu lugar! Depois, pode se casar e espero que seja feliz! 
Desculpe, mas preciso voltar para o meu trabalho!
Sem mais nada dizer, com lgrimas nos olhos, Marlia entrou na mercearia. Yara, desesperada por ver que o plano no havia dado certo, foi ao encontro de Raquel que, 
ansiosa, a esperava:
- Ento, Yara, saiu tudo como planejamos?
- No, dona Raquel. No deu certo.
- Como no deu certo? O que voc fez de errado?
- Fiz tudo como a senhora disse. Ela acreditou, mas disse que vai conversar com Marcos, hoje  tarde, quando ele vier busc-la. Sabe que se fizer isso, tudo estar 
terminado e ele vai me odiar para o resto da vida! Agora, sim, que esse casamento jamais acontecer...
Raquel, nervosa e envolta pelas entidade escuras, ficou pensando por alguns segundos. Depois, disse:
- Temos o dia todo pela frente. Vou encontrar uma maneira para evitar que ele fale com ela! Nem que para isso eu tenha de mat-la!
- No fale assim, dona Raquel!
- Como no, Yara! Ele no pode se casar com essa mulher! No pode! Ela vai acabar com a vida dele!
- Tambm penso assim, mas acho que  inevitvel. Assim que ela contar o que eu disse, ele vai saber que menti. Quando ele vier falar comigo, eu no sei o que dizer...
- Ele no pode saber que voc falou com ela! Vamos pensar em alguma coisa!
- No consigo pensar em nada...
- Deixe que eu pense! Agora, vamos embora. Vou para casa e, em meu quarto, sozinha, vou encontrar uma soluo.
Foram embora. Yara, chorando, foi para sua casa e Raquel, tomando um caminho diferente, foi para a sua. Em seu quarto, ficou pensando. Olmpia, Samuel e Francisco 
estavam ali, tentando demov-la daquela idia. No conseguiam, porque as entidades a envolviam totalmente. Falavam sem parar. Cada uma falando pensamentos diferentes. 
De repente, sem saber que estava sendo influenciada, Raquel disse em voz alta:
- J sei o que vou fazer para evitar que eles se encontrem. 
Olhou para o relgio. Faltavam quinze minutos para Marcos, como fazia todos os dias, sair de casa e ir se encontrar com Marlia. Levantou-se foi para a cozinha, 
onde Lia dava as ltimas orientaes para o jantar. Assim que Raquel entrou, ela estranhou:
- O que est fazendo h essa hora aqui em casa, Raquel? No vi quando chegou.
- Quando cheguei voc estava em seu quarto e no quis preocup-la.
- Preocupar-me, por qu?
- No sei o que tenho, mas no estou me sentindo bem.
- O que voc est sentindo?
- Uma dor aqui, sobre o corao.
- Voc nunca teve problema algum no corao, Raquel!
- Sei disso, por isso no estou entendendo esta dor. Est muito forte...
- Acho melhor irmos ao hospital.
- No, no acho que seja necessrio. Logo vai passar.
- No sei no. Nunca vi voc reclamar de dor alguma...
- Nunca senti dor alguma, Lia, mas esta vai passar.
- Estou preocupada.
- No se preocupe, logo vai passar.
Raquel ficou o tempo todo com a mo sobre o corao. Quando ouviu que Marcos saa de seu quarto, deu um grito e caiu no cho, fingindo estar desmaiada. Lia desesperada 
comeou a gritar:
- Raquel! O que voc tem?
Marcos, ao ouvir o grito, correu e chegou  cozinha. Ao ver a me cada, tambm ficou desesperado. Abaixou-se e, segurando sua mo, comeou a chamar:
- Me! Acorde! O que a senhora tem?
Raquel, que a tudo observava, no movia um msculo do rosto. Permaneceu fingindo estar desmaiada. Marcos, desesperado, perguntou:
- O que ela tem, dona Lia?
- No sei Marcos. Ela chegou cedo e disse que estava com dor no corao.
- Dona Lia, precisamos lev-la para o hospital!
- Vamos fazer isso! Voc consegue carreg-la?
- Acho que sim! Preciso que me ajude a levant-la.
Ao ver que Marcos colocava, com cuidado, os braos sobre suas costas, Raquel, parecendo no saber o que estava acontecendo, abriu os olhos e, com a voz trmula, 
perguntou:
- O que aconteceu, Lia?
- Voc desmaiou Raquel.
Marcos, ainda tremendo e assustado, disse:
- Precisamos ir ao hospital! 
Raquel, tentando se levantar sorriu:
- No, meu filho. No foi nada, foi apenas um mal-estar. Ajude-me a me levantar.
Enquanto ele a ajudava, nervoso, dizia:
- Claro que aconteceu algo, mame! Ningum desmaia do nada! Dona Lia disse que a senhora estava com dor no corao. Vamos ao hospital e pedir que faam alguns exames! 
- No precisa. Agora, estou bem...
- Bem ou no, vamos ao hospital!
Raquel, feliz por ver que seu plano estava dando certo, demonstrou fraqueza, levantou-se e, apoiada por Marcos e Lia, foi at onde o carro estava. Com cuidado, ele 
a acomodou no assento de trs. Lia sentou-se leu lado. Ele entrou no lado do motorista, ligou o carro e, dirigindo com cuidado e devagar, foram para o hospital. 
Assim que chegaram, foram atendidos por um mdico que, aps ouvir o que havia acontecido, disse:
- Vamos examinar a senhora, dona Raquel.
Mediu a presso, ouviu o corao e, finalmente, disse:
- Aparentemente no h nada errado, mas nunca se sabe. Para que no haja dvida alguma, vamos fazer um eletrocardiograma. Ele vai nos dizer, realmente, como est 
o seu corao.
Raquel olhou para um relgio que estava em uma parede. Marcava seis horas e quarenta e cinco minutos. Feliz, mas demonstrando preocupao, disse:
- No acho necessrio. Estou bem...
- Bem ou no, a senhora vai fazer o exame, mame! No quero nunca mais ter um susto como o que tive hoje!
Ela, sorrindo, disse:
- Est bem, meu filho, se isso vai deixar voc mais tranqilo, vamos fazer o exame, mas garanto que estou bem. Foi s um mal-estar, no , doutor?
- Nunca se sabe dona Raquel. Depois do exame, eu confirmo ou no o que a senhora est dizendo.
O eletrocardiograma foi feito. Depois de algum tempo, veio o resultado. O mdico, sorrindo, disse:
- Est tudo bem com seu corao, mas um desmaio como  senhora teve no  normal. Sugiro que, hoje, v para sua casa, mas, amanh, procure seu mdico e faa mais 
alguns exames.
Lia comeou a rir:
- Ela no tem mdico algum, doutor, sempre diz que no acredita neles.
Quem riu foi o mdico:
- Muitos dizem isso, mas, quando a coisa aperta, todos correm atrs de um mdico.
Raquel tambm riu. O mdico, olhando para Raquel, disse:
- Acreditando ou no, acho melhor que procure um e faa os exames.
- Vou procurar doutor.
Despediram-se. Estavam saindo, quando Marcos se lembrou da hora. Olhou o relgio em seu pulso e, nervoso, disse:
- Nossa! So quase dez horas! Marlia deve ter ficado me esperando e deve estar preocupada! Depois que as deixar em casa, vou at a casa dela!
- No, meu filho. Est muito tarde. Sabe que tanto ela como a me trabalham cedo. Devem estar dormindo. Amanh, com mais calma, voc conta a ela o que aconteceu. 
Ela vai entender.
Ele ficou algum tempo com o olhar distante, depois, disse:
- A senhora tem razo, mame. Amanh vou conversar com ela.
Chegaram a casa. Marcos acompanhou Raquel at seu quarto.
Lia ajudou-a a colocar a camisola e a se deitar. Depois que Raquel estava acomodada, ela, preocupada, disse:
- Voc precisa se cuidar, Raquel... Toda sua vida s pensou em trabalho. Est na hora de descansar. No  mais jovem...
Raquel sorriu:
- No se preocupe, Lia, estou bem.
- Est bem. Boa noite. Procure dormir bem, Raquel, mas, se sentir alguma coisa, me chame.
- Eu chamo, mas no vou sentir nada. J disse que estou muito bem. Boa noite Lia.
Assim que Lia saiu, Raquel, ajeitando-se na cama, pensou: Obrigada, meu Deus, por ter me ajudado a que tudo desse certo. Depois de tudo o que Yara contou e Marcos 
no comparecendo ao encontro, espero que ela desista e v embora para bem longe. Obrigada a voc tambm, Francisco. Sei que, de onde est, cuida muito bem de todos 
ns. Francisco, que estava ali, ao ouvir aquilo, olhou espantado para Samuel e Olmpia:
- Ela est pensando que eu a ajudei? Ela acha que est certa?
Samuel, tristemente, sorriu:
- Sim, Francisco. Todos, quando conseguem algo que querem muito, de bom ou de ruim, sempre agradecem a Deus por isso. Quando conseguem algo de bom, sentem-se felizes, 
mas se for algo que, intimamente, sabem ser ruim, no param para pensar que Deus jamais as ajudaria a prejudicar a outra pessoa, mas precisam dividir as responsabilidades.
- Isso acontece mesmo?
- Muito mais do que possa imaginar. No est vendo. Agora mesmo, Raquel, em seu ntimo, sabe que mentiu e enganou ao prprio filho, mas est feliz e, sem medir as 
conseqncias do seu ato, tenta dividir com Deus e com voc a responsabilidade pelo que fez.
- Est errado! No h uma maneira de ajud-la a entender que o que fez foi errado?
- Como disse, ela sabe que  errado, mas seu orgulho e preconceito so maiores. Voc est ao nosso lado h muito tempo, sabe o quanto fizemos tentando ajud-la, 
mas, ela, com seus pensamentos destrutivos, atraiu para junto de si essas entidades que no permitem que nos aproximemos.
- Sempre ouvi que a fora do bem  maior! Que Deus pode tudo!
-  verdade, mas s quando algum est sendo injustiado. Quando o prprio esprito escolhe o caminho que quer percorrer, nada pode feito, a no ser esperar.
- Esperar pelo qu?
- O esprito sempre tem a chance de se arrepender e tentar consertar aquilo que julga ter sido errado. Para que isso acontea, vamos continuar ao lado de Raquel, 
tentando enviar-lhe bons pensamentos, Normalmente, a isso se d o nome de conscincia.
- Ser que vamos conseguir?
- Esperemos que sim, mas, se ela continuar acompanhada por essas entidades, dificilmente conseguiremos. Vamos tentar conversar com as entidades e, talvez, eu disse 
talvez, consigamos que elas tambm entendam que esto no caminho errado e que esto sofrendo, abandonadas sem motivo. Quem sabe elas aceitem as nossas palavras e 
mudem de atitude e, se isso acontecer, ser bom para Raquel, mas muito mais para elas mesmas.
- Quando vamos comear a conversar com elas, Samuel?
Olmpia, olhando para Samuel, sorriu e respondeu:
- J comeamos Francisco. Tudo o que dissemos a voc, elas ouviram e, agora, esto conversando entre si.
- Tomara que aceitem a nossa ajuda.
-  o que esperamos.
Raquel, alheia ao que acontecia no mundo espiritual, feliz, tentou dormir. Marcos, em seu quarto, pensando em Marlia, adormeceu. No dia seguinte, assim que acordou, 
Marcos foi para a cozinha, onde Lia sentada tomava caf:
- Bom dia, dona Lia!
- Bom dia, Marcos. Sente-se e tome seu caf.
- Como minha me passou a noite? Estou preocupado. No me lembro de algum dia v-la doente.
- Parece que dormiu bem, ao menos no me chamou. Tambm estou preocupada. Ela  forte, mas o tempo passa e o corpo vai ficando mais fraco.
- Hoje vou lev-la a um mdico para que possa ser mais bem examinada.
- Faa isso, meu filho.
- Fazer o qu?
Voltaram-se e viram Raquel, que entrava na cozinha.
- Vou levar  senhora ao mdico. Precisamos saber o que foi aquilo que aconteceu ontem...
- J fui ao mdico e, como vocs viram o eletro no acusou nada. Foi somente um mal-estar. Hoje, estou muito bem.
- No sei, no. Acho melhor fazer mais exames, Raquel...
- Esto se preocupando  toa. Voc, Marcos, v para a faculdade, voc, Lia no fique preocupada. Estou bem, depois de tomar caf, vou me trocar e sair. Tenho uma 
reunio importante.
- Tem certeza, mame?
- Claro que sim, meu filho. No sou criana, se sentir algo, vou para o hospital ou volto para casa.
- Est bem. Sei que a senhora no vai mudar seu pensamento. Agora preciso ir. Hoje  noite vou me encontrar com Marlia e contar o que aconteceu.
Raquel, fingindo preocupao, disse:
- Faa isso, meu filho. Diga a ela que eu fui  culpada por voc no ter ido encontr-la.
- Ela vai entender. At mais. 
Beijou as duas e saiu.  tarde, minutos antes das seis horas, Marcos chegou  mercearia e estranhou por no ver Marlia servindo os clientes. Entrou e perguntou 
ao dono:
- A Marlia no est? 
- No. Ela no trabalha mais aqui.
- Como? Por qu?
- No sei o motivo. Ela veio logo cedo, pediu as contas e disse que precisava viajar.
- Viajar para onde?
- No sei, ela no disse. S sei que seus olhos estavam vermelhos e inchados. Parece que chorou muito...
- Chorou? Por qu? 
- J disse que no sei...
- Est bem, obrigado. 
Desnorteado, Marcos saiu. Na rua, parou e ficou pensando: Ser que ela ficou nervosa por eu no ter vindo ontem? No, isso no pode ter acontecido. Ela deveria saber 
que, se eu no vim, foi por algum motivo. Precisava me dar  oportunidade de contar o motivo. O que ser que aconteceu? Preciso saber. Vou at sua casa. Ela deve 
estar l. Entrou no carro e foi para a casa de Lena. Estava entrando pelo corredor que o levaria  casa dos fundos, onde elas moravam, quando uma senhora que morava 
na casa da frente disse:
- Elas no esto em casa...
- Onde esto?
- A moa foi viajar e a dona ainda no voltou do trabalho.
- Sabe para onde a moa foi viajar?
- No, no sei. S vi quando ela saiu carregando duas malas. Perguntei se ia viajar e ela confirmou com a cabea.
- A que horas dona Lena chega?
- Deve estar chegando.
Marcos saiu e ficou sentado no carro, esperando que Lena chegasse. Meia hora depois, viu que ela descia do nibus. Saiu do carro e foi ao seu encontro. Assim que 
o viu, ela, nervosa, perguntou:
- O que est fazendo aqui, Marcos?
- Quero ver Marlia! No estou entendendo essa pergunta! 
Lena, muito nervosa, disse:
- Eu pedi a voc que no fizesse com ela o que faz com as outras moas!
- O que eu fiz? O que ela disse?
- Ela no quis dizer o que voc fez, s disse que voc no presta e que no quer v-lo nunca mais!
- No estou entendendo! Para onde ela foi? Precisamos conversar!
- Ela me fez jurar que eu no diria e no vou dizer! Deixe minha filha em paz! Continue a sua vida de conquistas e enganos!
- No quero mais essa vida, Lena! Amo Marlia! Quero me casar com ela!
- No precisa continuar mentindo! Ela foi embora e no quer ver voc nunca mais! Agora, boa noite, preciso entrar e preparar o meu jantar!
- Para onde ela foi Lena?
- No sei. Ela no disse.
- Deve saber Lena, porque, do contrrio, estaria to nervosa como eu! Sei que ela no tem dinheiro para ir a um lugar que nem ela nem voc conhece!
- Para ver minha filha longe de voc, dei a ela todo o dinheiro que consegui economizar durante o tempo em que trabalhei na casa de dona Cndida. Ela disse que, 
assim que estiver instalada, me avisa de onde est.
Sem dar tempo para que Marcos falasse alguma coisa, ela entrou pelo porto e fechou-o. Ele, sem imaginar o que havia acontecido, ficou ali, parado, olhando-a entrar 
em casa. Depois, nervoso e surpreso, entrou no carro e foi para casa. Assim que chegou a casa, Lia percebeu que ele no estava bem:
- O que aconteceu, Marcos? Por que est assim?
- Marlia foi embora... Abandonou-me... 
- Embora? Por qu?
- No sei. Ela no disse, simplesmente viajou e proibiu sua me de me dizer para onde foi.
- O que voc fez para que ela tomasse essa atitude?
- Nada! No fiz nada! Somente no fui, ontem, ao nosso encontro. A senhora sabe o motivo de eu no ter ido.
- Sei Marcos, e esse no pode ter sido o motivo para ela tomar uma atitude como essa! Deve ter acontecido alguma coisa mais...
- Tambm penso assim, mas o que foi que aconteceu? Ela no me deu chance alguma! No sei o que fazer...
- Primeiro, fique calmo e vamos pensar em uma maneira de encontr-la. Assim que isso acontecer, ela vai explicar o motivo. Sua me deve estar chegando. Ela sempre 
tem soluo para tudo. Ela tem muitos conhecidos, quem sabe consiga encontrar Marlia. Fique calmo, Marcos.
- Como posso ficar calmo, dona Lia?
- No sei como, s sei que precisa ficar calmo. Enquanto o jantar fica pronto, v tomar um banho. Depois, conversaremos com ela. Sei que vai encontrar uma soluo. 
Ela sempre encontra. 
- Est bem. No tenho mesmo o que fazer... 
Marcos saiu. Lia ficou pensando:
- O que ser que aconteceu? Por que ela tomou uma atitude como essa? Logo agora que, pela primeira vez, Marcos est mesmo interessado em algum? Ele estava to feliz! 
Logo depois, Raquel chegou:
- Boa noite, Lia. Est tudo bem aqui em casa?
- Antes de responder, preciso saber como voc est, Raquel, passou bem o dia?
- Estou muito bem. No senti mais nada. Por que est me fazendo essa pergunta? Aconteceu alguma coisa com que deva me preocupar?
- No sei se vai ficar preocupada, mas Marlia desapareceu.
Raquel, fingindo surpresa, perguntou:
- O que est dizendo, Lia?
- Isso que ouviu, Marlia desapareceu e Marcos est desesperado.
- Desapareceu? Como e por qu?
- Marcos no sabe. Ela foi embora e a me no quer dizer para onde.
- Ser que ela foi embora com outro homem, Lia?
- No, Raquel, como pode pensar isso? Ela parecia gostar muito de Marcos.
- Parece no quer dizer que gostava realmente. Mulher alguma desaparece, sozinha, sem dizer para onde. Sabe que a mulher, dificilmente, consegue se sustentar sozinha. 
Deve ter um homem por trs dessa histria.
- O que a senhora est dizendo, mame? 
Raquel se voltou e, ao ver Marcos, tentou disfarar:
- Nada, meu filho! No estou dizendo nada.
- Claro que est eu ouvi. A senhora acha que ela foi embora com outro homem?
- No sei Marcos. S acho estranho que uma mulher possa ir embora sozinha. Como balconista, ela no consegue se sustentar. Sabe que a mulher  dependente em tudo 
de um homem.
- No, me, ela no foi embora com um homem. Lena deu a ela todo o dinheiro que havia economizado. Marlia tem dinheiro, no precisa de um homem para sustent-la. 
Aconteceu alguma coisa e eu vou descobrir!
- Faa isso, Marcos, mas no espere muito. Pense que o fato de ela haver sumido dessa maneira demonstra que ela no gosta de voc. Falando nisso, convidei Yara para 
vir jantar esta noite. No podia imaginar que voc estivesse to nervoso.
- No estou em condies de fazer sala para Yara nem para ningum, mame!
- Eu sei que no, mas no podemos tratar mal uma convidada. Como eu poderia imaginar que uma coisa como essa ia acontecer? Como eu poderia imaginar que aquela moa 
ia embora e que voc ficaria dessa maneira? Yara no tem culpa do que aconteceu. Por isso, por favor, precisa receb-la bem. Seja educado.
- Embora eu esteja nervoso, vou tratar Yara como sempre tratei.
- Faa isso e no se preocupe. Amanh, vou falar com algumas pessoas para ver se consigo encontrar Marlia.
- Vai me ajudar, me?
- Claro que sim, meu filho. Sabe que vivi toda minha vida em funo da sua felicidade e a de seu irmo. No importa para onde essa moa foi ns vamos encontr-la 
e voc vai saber o que aconteceu realmente. Agora, trate bem Yara.
Marcos foi para o seu quarto e Lia para a cozinha, orientar a cozinheira. Raquel ficou na sala, assistindo  televiso. Assim que a campainha soou, Raquel foi at 
o porto para receber Yara, que chegava curiosa e ansiosa:
- Ento, dona Raquel, o que aconteceu? 
Raquel contou e terminou, dizendo:
- Como pode ver Yara, saiu melhor do que espervamos. 
- A me dela no quis dizer para onde a filha foi? 
- No! Disse tambm que no sabe qual foi o motivo.
- Como Marcos est?
- Pode imaginar. Est desesperado, mas isso vai passar. Voc deve ficar ao lado dele. Tente entender sua dor e o aconselhe a procurar por ela.
- No vou fazer isso! No quero que ele a procure! 
- Sei que no quer, mas ele no precisa saber. Voc precisa ser a melhor amiga que ele vai querer por perto. Com o tempo, ele vai se esquecer dela e vai entender 
que voc  a pessoa que serve para ser mulher!
- A senhora acredita nisso?
- Claro que sim. Voc precisa ter pacincia, Yara, mas vai conseguir se casar com ele!
- Est bem, vou fazer como est dizendo. Tomara que d certo...
- Vai dar Yara! Claro que vai dar! 
Entraram. Marcos recebeu Yara com um sorriso. Sentaram-se para jantar. Em dado momento, Raquel disse:
- Marlia desapareceu, Yara.
Marcos, com olhar de reprovao, olhou para a me.
- Por que est me olhando assim, Marcos?
- Esse assunto no  para ser tratado assim, me!
- Por que no, Yara  nossa amiga e sempre soube tudo o que acontece nesta casa...
Yara, fingindo surpresa e ignorando o que Marcos disse, perguntou:
- Ela desapareceu? Como? Por qu?
- Marcos no sabe, ela simplesmente desapareceu.
- Voc precisa encontr-la, Marcos. Deve existir uma razo para ela ter feito isso. Sei o quanto est sofrendo, porque, pela primeira vez, vi em voc interesse por 
uma moa, como nunca havia visto antes. Se eu puder ajudar de alguma maneira, pode contar comigo.
- Obrigado, Yara. Vou continuar procurando por ela e sei que vou encontr-la.
- Assim espero. Sabe que o meu desejo foi sempre o de que voc fosse feliz.
- Sei disso e, mais uma vez, obrigado.
- Pode contar comigo. Voc sabe o quanto gosto de voc. J est tarde, preciso ir embora. Poderiam telefonar pedindo um txi.
- Voc veio de txi, Yara?
- Sim, dona Raquel. O motorista l de casa est acompanhando meu pai, que tinha um compromisso.
- No pode ir sozinha h esta hora. Marcos pode lev-la para casa. No pode Marcos?
Ele, a contragosto e, embora no quisesse, respondeu:
- Posso claro que posso. Vamos, Yara?
Levantaram-se. Yara despediu-se de Raquel e de Lia e, acompanhada por Marcos, saiu. Assim que saram, Lia surpresa, perguntou:
- O que aconteceu aqui, Raquel?
- Aconteceu, o qu, Lia?
- Por que pediu a Marcos para levar Yara? Sabe que ele no est bem!
- Claro que sei, por isso mesmo no pode ficar sozinho, somente pensando.
- Tambm concordo, s no entendo por que precisa ficar com Yara. Voc sabe o interesse que ela tem por ele.
- Sei por isso mesmo, ningum melhor do que ela para ficar com ele neste momento pelo qual est passando.
- No consigo entender voc, Raquel. Parece que est feliz com o que est acontecendo com seu filho.
- No posso esconder a minha felicidade! Era o que mais queria! Sabe que o casamento de Marcos com aquela moa ia acabar com a vida dele!
- Voc teve alguma coisa com esse desaparecimento?
Raquel, demonstrando indignao, respondeu:
- Claro que no, Lia! Como poderia ter alguma coisa com isso! 
- No sei Raquel. A nica coisa que sei  que voc no queria esse casamento. Conheo voc h muito tempo e sei que, quando quer uma coisa, consegue.
- Tem razo, sempre consegui o que desejei, mas jamais interferi na vida dos meus filhos. Sempre deixei que escolhessem seus caminhos. 
- Preciso concordar com isso.
- Bem, agora vou dormir. Tive um dia cheio e cansativo. Boa noite Lia.
- Boa noite, Raquel.
No carro, enquanto Marcos dirigia, Yara disse:
- No consigo entender o motivo pelo qual Marlia desapareceu. 
- Nem eu, Yara. At ontem, estava tudo bem.
- Ser que ela tem outro namorado?
- Claro que no, Yara! Por que est perguntando isso? 
- Por nada. Desculpe s que no consigo entender o motivo. 
- Nem eu, mas vou descobrir.
Chegaram  frente do porto da casa de Yara. Ele desceu, deu a volta e abriu a porta do carro. Assim que desceu, ela tentou beijar a boca dele, mas ele, percebendo 
sua inteno, voltou-se e ela conseguiu somente, beijar seu rosto. Constrangida, disse:
- Desculpe Marcos.  uma questo de hbito.
- Sou eu quem precisa pedir desculpas, Yara, mas estou desesperado. Sei que no sou boa companhia.
- No fique assim, voc vai encontr-la.
- Vou, sim! Nem que seja apenas para descobrir o que aconteceu! Boa noite, Yara.
Marcos entrou no carro e foi embora. Yara ficou olhando at que o carro desaparecesse na esquina. Esperanosa, entrou. Raquel, em seu quarto, mais uma vez agradecia 
a Deus e a Francisco por tudo estar saindo como imaginara. Obrigada, Francisco! Com o desaparecimento de Marlia, Marcos vai se casar com Yara. Esse casamento no 
vai ser bom apenas para ele, mas para a empresa tambm. Sorrindo, ajeitou-se na cama e tentou dormir. Durante seis meses, Marcos ia sempre  casa de Lena para saber 
de Marlia, mas a resposta era sempre a mesma. Ela lhe mostrava uma carta em que Marlia escrevia. Me estou bem. No se preocupe. Lena tambm sempre dizia a mesma 
coisa:
-  s isso que ela me mandou, Marcos. No tenho o seu endereo.
- No vem escrito na carta, no lugar do remetente?
Lena lhe mostrava o envelope e, realmente, no havia remetente, nem endereo. Depois de seis meses, em uma manh, como sempre fazia, Marcos voltou  casa de Lena 
e recebeu a mesma resposta de sempre. Desanimado, disse:
- Esta  a ltima vez que venho aqui, Lena. J que Marlia no quer que eu saiba onde est, vou respeitar sua deciso. Quando ela voltar ou conseguir falar com ela, 
diga que no sei o motivo de ela haver me abandonado, mas que sabe onde me encontrar. Estarei esperando por ela.
- Voc gosta mesmo da minha filha, Marcos?
- Claro que gosto, Lena! No entendo por que ela fez e est fazendo isso!
- Estou acreditando em voc e, se eu soubesse onde ela est, diria a voc, mas no sei...
- Est bem, Lena. At qualquer dia.
Ele, cabisbaixo, se afastou e ela o acompanhou com os olhos.

O CHAMADO DA CONSCINCIA

Dois anos se passaram. Naquela manh, Raquel, que estava sentada em uma cadeira em frente a uma mesa grande, pensava: Hoje estou completando sessenta anos, por isso 
pedi  Lia que esforce para que o jantar desta noite esteja perfeito. Afinal no  todo dia que se completam sessenta anos. Levantou-se, foi at uma janela de vidro, 
pela qual pde ver um grande galpo, onde vrios homens e mulheres trabalhavam em mquinas cujo barulho era ensurdecedor. Andou at o lado oposto e viu caminhes 
que entravam e saam carregados de mercadorias. Sorriu e voltou para sua cadeira. Acomodou-se confortavelmente e olhou para a parede  frente de sua mesa, onde um 
quadro estava pendurado. Nele, havia uma fotografia de Francisco, que sorria. Olhando para a fotografia, comeou a pensar:  uma pena, Francisco, que no esteja 
aqui para ver no que se transformou aquela pequena marcenaria com a qual tanto sonhou. Hoje  uma grande empresa. Os mveis que voc desenhou so vendidos aqui e 
no exterior. A sua pequena marcenaria se transformou em uma grande potncia com filiais, espalhadas pelas principais capitais. Lgrimas surgiram em seus olhos. Rapidamente, 
secou-as, mas continuou pensando: Perante meus filhos e todos que me conhecem sou uma mulher forte e incapaz de chorar, no , Francisco? Essa imagem precisa, continuar 
por mais um pouco de tempo. Ningum pode saber deste momento de fraqueza. Durante toda minha vida, nunca pude me deixar levar pelas emoes, pois, se o tivesse feito, 
no teria conseguido vencer, sozinha, como consegui! No sei como, mas consegui! Por mais que no quisesse, as lgrimas continuavam molhando seus olhos. Voltando 
a sec-las, continuou pensando:
O que est acontecendo comigo? Hoje  um dia de festa. Ser que  por que estou ficando velha, Francisco? Comeando, no! J sou. Rindo, voltou a se levantar e, 
olhando-se em um espelho, disse:
- Apesar da minha idade, voc no pode negar que ainda sou uma mulher bonita, no ? Claro que estou longe de ser aquela com a qual voc se casou e no tenho mais 
a beleza da juventude. Minha cabea est bem, porm, meu corpo j no a acompanha mais, mas, mesmo assim, ainda sou bonita, sim!
Voltou a olhar para a fotografia e a pensar: No sei por que estou pensando tanto em voc. Sabe que isso quase nunca acontece. Sempre que penso muito em voc da 
maneira como estou pensando agora, alguma coisa acontece e, na maioria das vezes,  coisa ruim. O que est para acontecer, Francisco? Sentou-se novamente. Pegou 
o interfone que estava sobre a mesa e discou um nmero. Do outro lado, uma voz de mulher respondeu:
- Pois no, dona Raquel.
- Por favor, Marisa, traga-me um pouco de caf.
- Vou coar e levarei em seguida, senhora.
Raquel acenou com a cabea e continuou pensando: Durante todos esses anos em que estive trabalhando, quase nunca tive tempo para parar e rever a minha vida. Agora, 
que est tudo bem, que consegui ganhar muito dinheiro, muito mais do que alguma vez sonhamos, sinto um vazio muito grande e uma saudade imensa de voc, Francisco. 
Eu no queria pensar em voc, mas quem consegue mandar no pensamento? Quem consegue deixar de pensar por um segundo sequer? O que ser o nosso pensamento? Ser a 
nossa alma? No sei, mas, embora tenha medo de pensar em voc, pois sei que alguma coisa vai acontecer, no consigo evitar. Tambm, no sei por que estou pensando 
assim, nem sempre aconteceram coisas ruins, algumas vezes foram boas e me deixaram feliz. Ouviu uma leve batida  porta e a mesma se abriu em seguida. Por ela, entrou 
Marisa, que trazia em suas mos uma bandeja, sobre ela, uma xcara, um pequeno bule e um aucareiro confeccionados em porcelana e pintados a mo. Aproximou-se:
- Aqui est o seu caf, dona Raquel. Pedi que fosse feito da maneira como  senhora gosta. Trouxe tambm os seus biscoitinhos.
Marisa sorriu e, enquanto Raquel tomava o caf, pediu licena e saiu. Raquel, com a xcara na mo e olhando para parede onde estava a fotografia, continuou pensando: 
Est vendo, Francisco, quanto tempo se passou? E eu no tive tempo para notar. O trabalho sempre, graas a Deus, foi muito. Hoje, sinto que minha misso terminou. 
Nossos filhos esto criados. Nossos netos so lindos e a nossa empresa est caminhando muito bem. Com ela, muitos empregados conseguiram criar seus filhos e tocar 
suas vidas. Estou bem e em paz. Acho que est na hora de me afastar. J trabalhei muito. Preciso aproveitar um pouco o tempo que ainda me resta. Vou deixar tudo 
nas mos dos meninos e vou fazer aquilo que sempre sonhei. Viajar, conhecer o mundo. Acho que tenho o direito, posso me dar a esse luxo, voc no acha? O vulto de 
Francisco, acompanhado por Olmpia e Samuel, sorriu e, com a cabea, concordou. Raquel terminou de tomar o caf, colocou a xcara na bandeja. Ainda com os olhos 
molhados, olhou para uma foto que estava sobre sua mesa. Nela estavam, Francisco, Moacir e Mauro. Os trs sorriam. Ela tambm sorriu. Embora eles tenham crescido 
e sejam adultos, lembro-me do dia em essa fotografia foi tirada. Levamos as crianas ao zoolgico. Eles adoraram e eu tambm. Fui eu quem bateu essa foto, logo depois 
de comermos o lanche que eu havia levado. Gosto muito dessa fotografia, pois, alm de voc estar nela, Mauro tambm est.  a nica fotografia que tenho dele. Por 
que aquilo teve de acontecer? Por que tive de perder voc e nosso menino to cedo? Novamente seus olhos voltaram a se encher de lgrimas e, novamente ela os secou. 
De qualquer maneira, esse dia foi especial. Eles eram crianas e no podiam imaginar como seriam suas vidas. No sabiam das dificuldades que passvamos para que 
nada lhes faltasse. Mesmo assim, eram crianas felizes e ns tambm. Aquele tempo foi difcil, mas agora, como sempre acontece, tudo passou. Mauro deve estar com 
voc. Moacir est casado e bem, quanto a Marcos... Ele no est bem e a culpa  minha. Ultimamente, tenho pensado em tudo o que fiz para separ-lo de Marlia, achando 
que estava fazendo um bem, mas acho que me enganei... Estava distrada, pensando, que no ouviu a batida na porta. Assustou-se quando Moacir entrou:
- Bom dia, mame! Feliz aniversrio! Sessenta anos, est ficando velha!
- Obrigada, meu filho. Estou ficando velha? J sou! Sabe o que  se carregar sessenta anos nas costas?
- Velha coisa nenhuma! Tem muito ainda para fazer. Esta empresa no estaria onde est se no fosse  senhora com sua luta e garra. Est animada para o seu jantar?
- Estou sim. No sei por que, mas desde cedo no paro de pensar em como tudo comeou e em seu pai. Parece que ele est aqui ao meu lado.
Moacir comeou a rir:
- Quando foi que ele no esteve mame? Acho que, se existe mesmo uma vida depois da morte, ele deve ter estado sempre ao nosso lado.
- Tem razo, mas, hoje, no sei por que, parece que sinto a sua presena mais forte. Marcos j chegou?
- No. Ele telefonou, disse que vai chegar mais tarde.
- Por qu?
- No deve ter tido vontade de vir. A senhora sabe como ele  no sabe? Ele s vem aqui, porque a senhora o obriga. Sabe que ele no se interessa por nada, muito 
menos pela empresa.
- Sei disso. Ele queria se casar com aquela moa que desapareceu. No entendo por que ele se recusou a se casar com Yara e olhe que ela tentou! No podemos negar 
que esse casamento seria um bom negcio para a empresa.
- Para a empresa poderia ter sido, mas para Marcos, no. Ele nunca esqueceu Marlia.
- Sim,  verdade, mas no sabemos o que aconteceu com ela. Desapareceu sem deixar endereo.
- A senhora no sabe mesmo, mame?
Raquel, intrigada, olhou para o filho:
- Por que est perguntando isso, Moacir? Acha que tive alguma coisa a ver com o desaparecimento dela?
- No sei mame, sempre tive dvidas a esse respeito, mas hoje no  dia de falarmos sobre isso.  o dia do seu aniversrio!  um dia de festa!
- Tem razo. De qualquer maneira, no tive nada a ver com o desaparecimento de Marlia. No sei o que aconteceu para ter ido embora e nunca ter escrito uma linha 
para seu irmo.
- Tambm nunca entendi. Ela parecia to apaixonada. Mas, como j disse, vamos deixar essa conversa para outro dia. Hoje  dia de comemorar o seu aniversrio.
- Como voc est com a Joice? Ela continua gastando dinheiro sem parar?
- Agora ela est bem. A senhora sabe que  uma doena. Ela no consegue se controlar. Tudo o que v, quer comprar e compra. Agora est se tratando e parece bem.
- No sei se  doena, s espero que fique boa. J lhe avisei que no vou dar mais dinheiro para cobrir as dvidas dela. Chega Moacir! Voc, por conta da irresponsabilidade 
dela, j levou muito dinheiro. Se continuar assim, logo estaremos na falncia.
- No se preocupe, ela est bem. J lhe disse que hoje no  dia de falar em problemas.  dia de festa! 
Raquel sorriu e abraou e beijou o filho.
- Tem razo, meu filho. Outro dia conversaremos sobre isso. Hoje  meu aniversrio e tenho uma coisa importante para anunciar. 
- Que coisa, mame?
- Vamos deixar para a noite, s posso lhe adiantar que afetar a voc e ao seu irmo.
- Estou curioso, o que  mame?
- A noite saber.
- Est bem, vou esperar. Agora vou para minha sala. Preciso ver algumas notas fiscais. Assim que Marcos chegar, sei que vem aqui para cumprimentar a senhora.
Ele saiu. Ela, olhando para a fotografia, sorriu e pensou: Est vendo, Francisco, em que belo moo se transformou o nosso pequeno Moacir? Alm de muito bonito  
responsvel, um bom marido e melhor ainda como pai. Marcos tambm nunca me deu trabalho. O nico problema que teve foi quando quis se casar com aquela moa. Francisco 
aproximou-se mais e disse:
- Voc no devia ter interferido, Raquel. Ser que no percebe no que Marcos se tornou?
Sem imaginar que Francisco estivesse conversando com ela, continuou pensando: Percebeu como ele se parece com voc? Como ele  lindo! s vezes, quando o vejo triste 
pelos cantos, sinto remorso pelo que fiz. Depois daquilo, nunca mais sorriu. Vive triste e pensativo. No tem mais amigos, no sai de casa. S vem aqui,  empresa, 
porque eu o obrigo. Se eu no fizesse isso, ele no sairia do quarto e ficaria s pensando. Por que ser que ele no reagiu diferente? Francisco, que a ouvia, disse:
- No devia ter interferido, Raquel. Muito menos da maneira como fez. Ele no consegue se conformar por no saber o que aconteceu. Um dia antes, eles haviam feito 
muitos planos. Ele estava feliz. Ainda  tempo de consertar tudo. Est em suas mos.
Raquel, sem imaginar que Francisco lhe mandava seus pensamentos, pensou: Eu poderia contar a ele o que fiz. Assim, ele saberia que aquela moa foi enganada. Poderia 
procur-la e, quem sabe, ser feliz ao seu lado. Francisco olhou para Olmpia e Samuel e, feliz, perguntou:
- Ela est me ouvindo?
- Est sim, Francisco. Com o tempo, ela deixou de pensar com dio em Marlia e as entidades que a acompanhavam, vendo que nada mais conseguiriam, se afastaram e 
levaram com elas aquela nuvem densa que impedia que Raquel nos ouvisse. Isso no quer dizer que ela vai fazer o que voc est intuindo. No se esquea de que, mesmo 
sem as entidades, ela ainda tem seu livre-arbtrio.
- Como poderia esquecer Olmpia? 
Raquel continuou pensando: Estou feliz com a minha famlia e com a vida que tive Francisco. Apesar dos momentos ruins pelos quais tive de passar e algumas decises 
difceis que tive de tomar, que nem sempre agradaram a algumas pessoas, no tenho o que reclamar de Deus. Tudo o que fiz de errado ou certo, no momento em que aconteceu, 
era o que precisava ser feito. Agora que o tempo passou e que tudo est em ordem, nossos filhos esto criados, nossa empresa est a todo vapor, j posso descansar 
e esperar o momento de reencontrar voc. Quem falou agora foi Samuel:
- Ningum  perfeito, Raquel. Todo esprito, renascido ou no, comete erros e acertos. Os acertos devem ser felicitados e os erros, se houver como, devem ser consertados. 
Voc teve muito mais acertos do que erros e o erro que cometeu ainda pode ser consertado. Basta contar a Marcos o que aconteceu. Fazendo isso, ter seu filho de 
volta, da maneira como ele era, feliz e descontrado. Como Francisco falou, est em suas mos consertar tudo o que fez. 
No mesmo instante, Raquel pensou: Estou preocupada com Marcos. Ele no reagiu bem ao sumio de Marlia nem se casou com Yara. Para que foi que fiz tudo isso? Que 
preconceito foi aquele? Logo eu que comecei do nada! Logo eu que tive como melhor amiga, depois de Lia, Jandira, que  uma negra adorvel! Onde eu estava com a cabea? 
Vou contar a Marcos tudo o que fiz.  Francisco, ao ouvir aquilo, ficou eufrico:
- Faa isso, Raquel! Faa isso e poderemos, em breve, nos reencontrar e continuar a nossa jornada!
Raquel levantou-se, olhou novamente para a fotografia que estava pendurada e pensou:
Sei que deveria falar com Marcos e contar o que fiz, mas no posso Francisco. Se fizer isso, ele vai me odiar e perder o respeito que sempre teve por mim. Ele no 
imagina que eu tenha feito aquilo. Francisco, em lgrimas, disse:
- Isso no importa Raquel! Ele pode odiar voc por algum tempo, mas  seu filho e reconhece tudo o que fez por ele e por Moacir! Quando contar a ele, se contar, 
no estar fazendo um bem para ele, mas, muito mais, a voc mesma. Fazendo isso, no vai permitir que esta sua encarnao to cheia de vitrias seja manchada, seja 
perdida. Precisa contar, Raquel! Precisa fazer isso!
- No fique assim, Francisco. Sei o quanto est preocupado com o futuro no espiritual de Raquel, mas sabe que nada pode fazer. Ela, agora, ao menos j est arrependida 
e pensando na possibilidade de contar. J  um grande avano. Vamos esperar e torcer para que tenha tempo de se redimir.
- Espero que isso acontea, Samuel. Quero muito esperar Raquel, quando chegar  hora de ela voltar.
- Vamos esperar Francisco.  a nica coisa que podemos fazer. 
Raquel, alheia ao que eles conversavam sentada, olhava para a fotografia de Francisco, que sorria.
Estava assim, quando ouviu uma leve batida na porta, que se abriu em seguida. Por ela, entrou Marisa:
- Tem uma visita para a senhora, dona Raquel.
Afastou-se e, por trs dela, entrou Tereza, sorrindo. Raquel, ao v-la, levantou-se e, tambm, sorrindo, perguntou:
- Tereza, voc aqui?
- Como poderia deixar de vir hoje? Feliz aniversrio, minha amiga!
- Obrigada. Entre, sente-se!
Enquanto Tereza se sentava, Raquel, entusiasmada, perguntou:
- H quanto tempo ns no nos vemos, Tereza?
- Quase dez anos. Graas a voc consegui me aposentar e, agora, estou ajudando a criar meus netos. Nem sei como agradecer tudo o que voc fez por mim e pela minha 
famlia!
Raquel, rindo, disse:
- Vamos pular essa parte, Tereza! O importante  que voc esteja bem e que seus trs filhos tambm estejam.
- No posso pular essa parte, Raquel! Graas a voc, alm de ter me dado um lugar para morar e um trabalho, consegui minha aposentadoria e, o mais importante, deixar 
aquele homem que tanto mal me fazia e aos meus filhos. Se no fosse voc, eu ainda estaria com ele, sofrendo e fazendo meus filhos sofrerem. Como no agradecer a 
voc, quando meus filhos sempre tiveram um emprego, aqui na sua empresa, e podem criar seus filhos com dignidade!
- Deixe isso para l, Tereza! Voc, na poca aceitou minha ajuda e, quanto aos seus filhos, s permanecem aqui, por serem honestos e bons profissionais. Estou feliz 
por voc e por eles. Obrigada por ter vindo me cumprimentar em um dia to especial.
- Voc merece todos os cumprimentos. Tenho algo mais para dizer. Hoje em dia, no acompanho somente as novelas. Acompanho tambm, com muita ateno, os noticirios 
e leio jornais. Aprendi a ser cidad! Hoje, conheo as leis do pas, seus polticos e sei em quem votar. Portanto, tenho muito que agradecer a voc, Raquel!
Raquel comeou a rir:
- Fico feliz em ter ajudado voc a se interessar por algo mais do que novelas. S assim, nosso pas poder se desenvolver, o que ser bom para todos.
- Tambm acho. Como esto as crianas?
Novamente Raquel riu:
- No so mais crianas, Tereza! Moacir est casado, tem dois meninos lindos!
- Para mim, sero sempre crianas. Marcos se casou ou continua namorador como sempre?
Raquel lembrou-se de Marcos e de sua tristeza. Sentiu um aperto no corao, respondeu:
- No, Tereza. Ele ainda no se casou. Espero que isso logo acontea.
- Ainda  cedo, Raquel! Ele  muito bonito, tem muito tempo!
- No  to novo assim. Est passando da hora.
- Quando ele encontrar a mulher da vida dele, ningum vai conseguir impedir que ele se case. Enquanto isso deixe que continue namorando todas!
Raquel ficou calada, apenas concordou com a cabea.
- Agora, preciso ir embora. Preciso pegar as crianas na escola. Mais uma vez, parabns.
- Obrigada, Tereza. No pode imaginar como fiquei feliz com a sua visita. Volte sempre. Gosto de relembrar o passado e s posso fazer isso com voc que viveu junto 
comigo nos momentos mais difceis.
- Vi, tambm, como voc, com sua garra, conseguiu vencer. Voc  uma vitoriosa, Raquel!
Raquel sorriu. Tereza levantou-se, pegou a mo que Raquel estendia e, sorrindo, saiu da sala. Raquel voltou a se sentar e, intuda por Francisco, pensou: Realmente, 
sou uma vencedora. Consegui alcanar muito mais do que sonhei, mas, por outro lado, causei a infelicidade do meu filho. Que vitria  essa? Estava pensando, quando 
Marisa entrou com alguns papis que ela precisava assinar. Ela assinou os papis e Marisa saiu. Raquel estava ansiosa para que chegasse a hora do jantar. Hoje, aps 
o jantar, vou fazer uma comunicao muito importante, por isso quero todos reunidos. Eles no esperam pelo que vai acontecer. Espero que entendam a minha deciso. 
Levantou-se da cadeira, deu alguns passos, pensando: No posso continuar aqui. Preciso ir para casa e ver se tudo est caminhando bem. Sei que a Lia  competente, 
mas, mesmo assim, no consigo ficar aqui sem saber o que est acontecendo. Pegou novamente o interfone:
- Marisa, por favor, avise o Clio que estou indo para casa.
- Est bem, senhora. Vou avisar.
Raquel pegou a bolsa, olhou novamente para seu escritrio, para a fotografia de Francisco, sorriu e saiu. Passou por Marisa que estava em sua mesa na sala ao lado:
- Marisa, se algum dos meus filhos perguntar por mim, diga que fui para casa, mas que os estou esperando hoje  noite para o jantar. No se esquea de que voc e 
seu marido esto convidados.
- Eu aviso e  claro que no vou me esquecer de ir. Fiquei muito feliz quando a senhora me convidou, nunca pensei que faria isso.
- Por que no?
- A senhora  muito importante,  minha patroa...
- O que tem isso? Acredita que eu seria quem sou se no tivesse contado com a ajuda de pessoas como voc que estiveram sempre ao meu lado? Estou feliz e quero que 
todos aqueles que me ajudaram estejam felizes tambm. Vai ter algum problema para deixar o seu filho? Pode lev-lo tambm.
- No, senhora. Minha me vai cuidar dele. Amanh ele tem aula pela manh, por isso, precisa dormir cedo.
- Que bom. Agora estou indo.
Estava em frente  porta do elevador, quando dele saiu Yara.
- Est indo embora, dona Raquel.
- Yara! Que bom ver voc! Sim, estou, mas no preciso ir agora. Vamos at minha sala?
- No vai ser por muito tempo. Passei por aqui, somente para dar parabns pelo seu aniversrio.
- Obrigada, Yara, mas vamos para sala, precisamos conversar. 
Entraram na sala. Raquel sentou-se em sua cadeira e apontou outra que estava em frente  mesa. Depois de sentadas, Raquel, com olhar preocupado, disse:
- Que bom que veio Yara. Temos um assunto importante para conversar.
- Que assunto?
- Estive pensando muito em tudo o que fizemos e em como Marcos reagiu.
- No estou entendendo o que a senhora est dizendo.
- Quando decidimos enganar Marlia, achamos que, com seu desaparecimento, Marcos resolveria se casar com voc, mas isso no aconteceu. Ele se tornou amargo, triste. 
No  nem de longe o Marcos de antigamente, que ria, brincava e que estava sempre feliz. Estive pensando que, com nossa atitude destrumos Marcos. Estou preocupada 
com ele. Est em uma depresso profunda. Estou com medo de que ele cometa uma loucura.
- No estou entendendo aonde a senhora quer chegar...
- Estou dizendo que vou contar a Marcos o que fizemos. Assim, sabendo o motivo de Marlia haver desaparecido, talvez, ele volte a ser como antes.
- A senhora no pode fazer isso, dona Raquel! Quando ele descobrir o que fizemos, vai nos odiar e nunca mais vou ter chance de me casar com ele.
- Voc no tem chance, Yara. Ele nunca vai se casar com voc e temo que com ningum mais! Ele no quer mais nada desta vida! Meu filho est cada vez mais distante 
de tudo! O que fizemos foi errado!
- Foi  senhora quem teve a idia, s fiz o que mandou!
- Tem razo, por isso resolvi contar o que fiz. Posso at dizer, se ele quiser que no teve culpa, que s fez o que mandei, mas preciso contar a verdade. Pensei 
que, ao fazer aquilo, estava fazendo um bem para meu filho, mas, na realidade, s fiz mal. Preciso dar a ele um motivo para voltar a viver.
- A senhora no pode contar! Ainda tenho esperana de me casar com ele!
- No adianta Yara, isso no vai acontecer. O que preciso  tirar meu filho de uma depresso que pode ser fatal. Vou contar a verdade e seja tudo como Deus quiser...
- Quando pretende contar?
- Esta noite, durante o jantar vou fazer uma comunicao importante para a famlia e para e empresa. Depois disso, vou contar a todos o que fiz.
- Esta noite?
- No posso estar presente! Ele  capaz de me matar na frente de todos! Tenho medo de sua reao! Ele nunca me perdoar!
- Foi por isso que contei a voc a minha inteno. No quero que a minha confisso a pegue de surpresa. Quando a convidei para o jantar, no pensava em contar. Por 
isso, voc decide se vai ao jantar ou no.
- No poso ir, dona Raquel! No quero estar presente, quando a senhora contar!
- No precisa ficar assim. Claro que ele vai ficar bravo, mas, com o tempo, depois de encontrar Marlia, vai se esquecer do que fizemos e voltar a ser como antes.
- Nunca mais vai ser como antes, dona Raquel. Antes, embora Marcos sempre houvesse dito que no se casaria comigo, era meu amigo. Depois que a senhora contar, nem 
essa amizade existir mais!
- Sei que corremos o risco de ele nos odiar pelo resto da vida, mas  a nica maneira que encontrei para tentar fazer com que ele volte a ser feliz.
- Eu, como fico dona Raquel!
- Est na hora de esquecer Marcos e seguir sua vida.
- Eu odeio a senhora! Por sua culpa, perdi Marcos para sempre! Queria que morresse!
- O que est dizendo, Yara?
- O que a senhora ouviu! A senhora acabou com minha vida!
- Sabe que tentei ajudar voc e s no consegui, porque, por mais que fizssemos Marcos nunca gostou de voc como mulher, somente como amiga!
- Eu odeio a senhora!
Assim dizendo, Yara levantou-se e saiu da sala. Pegou o elevador e foi para a garagem.
Raquel ficou pensando por mais algum tempo em tudo o que havia acontecido, antes e agora. Sei que ela tem razo, posso perder meu filho para sempre, mas  a nica 
soluo que existe. Preciso contar a verdade. Francisco, feliz, olhou para Olmpia e Samuel e disse:
- Ainda bem que ela escolheu o melhor caminho! Fiquei com medo de que nunca mais pudssemos ficar juntos!
Depois, Raquel voltou a pegar a bolsa e a sair. Despediu-se de Marisa, desceu na garagem, onde Clio a esperava junto ao carro. Entrou e rumaram para casa.

A FORA DO IMPULSO

Moacir voltou para sua sala. Estava preocupado. Sentou-se, pensando: No sei o que mame vai anunciar esta noite, durante o jantar. Pelo seu tom de voz, pareceu 
ser importante. Ser que ela descobriu que tenho tirado dinheiro da empresa? Se isso acontecer, no sei o que vou fazer... O telefone tocou. Ele atendeu:
- Al.
- Sou eu, Moacir. Precisa vir para casa. Estou com um problema grave...
- O que aconteceu, Joice?
- No posso dizer por telefone. Precisa vir para c.
- As crianas esto na escola?
- Esto, por isso mesmo, precisa vir agora, antes que elas voltem. 
- O que aconteceu, Joice?
- J disse que no pode ser falado por telefone. Venha para casa, por favor.
- Est bem, estou indo. 
Desligou o telefone.
- O que ser agora? Como se j no soubesse. Deve ter gastado mais dinheiro do que podia. No sei mais o que fazer. Menti para minha me que ela estava se tratando 
e que no fazia mais isso, mas a verdade  que nem o tratamento deu certo. Ela continua comprando o que no precisa sem se preocupar se tem dinheiro ou no. Mame 
j me deu muito dinheiro para pagar dvidas que Joice fez. J tirei muito dinheiro, escondido, da empresa para pagar as dvidas de Joice. O que vou fazer?
Pegou o palet, as chaves do carro e, ao sair da sala, disse para na secretria:
- Nilza, estou saindo, se algum perguntar por mim, diga que fui visitar um cliente.
- Est bem, doutor.
Pegou o elevador que o levaria at a garagem. Meia hora depois, entrou em casa. Encontrou Joice chorando, desesperada. Correu at ela:
- O que aconteceu, Joice? Por que est chorando assim?
- Voc vai me matar!
- O que foi agora? O que voc comprou sem precisar? Voc me disse que no faria mais isso! Faz tempo que no me pede dinheiro! O que foi Joice?
- A  que est o problema... Eu no lhe pedi mais dinheiro, para que no brigasse, peguei de um agiota. Achei que ia conseguir juntar para pagar sem que voc soubesse, 
mas no consegui e, agora, ele quer receber. No tenho como pagar. Ele est violento. Disse que, se eu no pagar de um jeito, vou pagar de outro. Disse que tenho 
filhos lindos. Estou com medo, Moacir...
- Meu Deus do cu, Joice! Como foi fazer isso?
- Eu no queria, mas sabe que no posso ver coisas que sinto vontade de comprar. Comprei alguns sapatos e vestidos de grife. So muito caros.
- Para qu, Joice? No freqentamos a alta sociedade, voc no tem onde usar essas coisas!
- Sei disso, mas no consegui me controlar. Eu precisava ter aqueles vestidos e sapatos. Comprei bolsas e algumas jias. Achei que conseguiria juntar o dinheiro...
- Juntar? Como, Joice? Voc no consegue ter um tosto em suas mos sem que gaste!
- Perdo, Moacir... Prometo que esta foi  ltima vez... No vou comprar mais nada...
- Quantas vezes j disse isso, Joice? J perdi a conta! Voc est doente, precisa ser tratada, precisa ser internada em uma casa de sade para ver se consegue se 
livrar disso?
- Eu fao o que voc quiser Moacir, mas, por favor, pague quele homem, estou com medo.
- Vou pagar, mas vou tambm internar voc. Qual  o valor da dvida?
Ela ficou olhando para ele e no respondeu. Ele, nervoso, perguntou, gritando:
- Qual  o valor da dvida, Joice?
Chorando, desesperada, ela respondeu: 
- Cinqenta mil...
- O qu? Cinqenta mil? Est louca mesmo! De onde vou tirar todo esse dinheiro?
- No sei Moacir. Pode pegar na empresa.  voc quem lida com o dinheiro. Tira agora, depois pode devolver.
- Devolver como, Joice? O meu salrio, embora seja muito bom, no sobra para que eu possa devolver! J peguei muito dinheiro da empresa e, se algum perguntar, no 
saberei como explicar! Minha me que, esta noite aps o jantar, tem uma comunicao importante. Se ela descobriu o que andei fazendo, nem imagino o que vai fazer.
- O que ela pode fazer Moacir?
- Pode me colocar para fora da empresa! Pode me tirar a sociedade. No tenho como pegar esse dinheiro na empresa!
- No sei como vai fazer, mas precisa pagar quele homem. Ele ameaou as nossas crianas.
- Como pde fazer isso? Como pde colocar a nossa vida e a dos nossos filhos em perigo?
Joice, chorando, respondeu:
- Sei que tem razo, mas no consigo resistir. Quando vejo algo de que gosto, preciso comprar. Acho que sou doente mesmo...
- Claro que  doente Joice. Preciso pensar em uma maneira de pagar essa dvida. S mesmo vendendo o seu carro ser possvel conseguir esse dinheiro.
- Vender meu carro? Como vou fazer para sair de casa?
- No precisa sair de casa. Alis, no vai sair nunca mais! Est proibida de sair, de entrar em uma loja, mesmo, visitar alguma amiga! Est proibida de sair sozinha, 
Joice! No posso mais permitir que gaste ainda mais. Vou conversar com um amigo para ver se consigo encontrar uma clnica onde possa ficar e se tratar.
- No posso ficar sem carro, Moacir!
Moacir, muito nervoso, gritou:
- Vai ficar Joice! No estou vendo outra maneira de conseguir esse dinheiro!
- Vamos supor que sua me morresse o que aconteceria com voc?
- Que pergunta  essa, Joice?
- No precisa ficar nervoso, s estou fazendo uma pergunta.
- Essa pergunta no tem nada a ver com o que estamos discutindo.
- Claro que tem Moacir.
- Tem, como?
- Se ela morrer, como vai ficar a empresa?
- Ela no vai morrer, tem boa sade.
- Sei que tem boa sade, mas, supondo-se que ela morresse como ficaria a empresa?
- Ela tem cinqenta por cento. Os outros cinqenta so divididos entre mim e Marcos.
- Voc passaria a receber muito mais do que recebe agora, no ?
- , mas no estou entendendo por que est falando isso.
- Por nada... Por nada... S pensei uma coisa...
- Que coisa, Joice?
- Nada, foi uma bobagem. Sua me no vai morrer to cedo. Como voc disse, ela tem uma tima sade.
- Tem mesmo, graas a Deus, mas no mude de assunto. Vou sair agora com seu carro e vou vend-lo. Depois, voc vai me dar o endereo desse agiota e eu vou at l, 
pagar o que est devendo e dizer a ele que, se lhe der mais dinheiro, nunca mais vou pagar. Vou tambm falar com o meu amigo e voc vai para uma clnica.
- Voc est certo, mas por quanto tempo vou ficar internada?
- Pelo tempo que for preciso. Precisamos descobrir como livrar voc dessa doena, Joice!
Ela se aproximou e, abraando-se a ele, disse, chorando:
- Eu amo voc e aos nossos filhos, Moacir. No quero ficar longe...
- Tambm amo voc, Joice. Se isso no fosse verdade, j teria me separado de voc h muito tempo.
Ela se afastou e, encarando-o, nervosa, disse:
- Sei que me ama, mas no  verdade que  por causa disso que no me abandona.
- O que est falando?
- Estou dizendo que no me abandona porque sua me jamais permitiria! Ela no quer um filho separado e seus netos sem me! Ela  conservadora, acredita no casamento.
- Tem razo.  conservadora e acredita no casamento, mas no pensar a mesma coisa quando descobrir o que fiz por sua causa. 
- Ela precisa entender Moacir...
- Precisa Joice? Como precisa, se ns mesmos no entendemos? A empresa s foi para frente porque ela sempre tomou cuidado com o dinheiro. Lembro-me de que, muitas 
vezes, deixou de comprar cosas de que precisvamos para no mexer no dinheiro da empresa. Fui criado assim, com responsabilidade, por isso, sei que ela jamais me 
perdoar!
- Ela  me, Moacir, e toda me sempre perdoa aos filhos, mas no fique preocupado. Juro que isso no voltar a acontecer. O medo que senti, agora, vai fazer com 
que, antes de comprar qualquer coisa, eu lembre e no compre.
- Queria muito acreditar no que est dizendo, mas quantas vezes fez essa promessa, Joice? Muitas, e nunca cumpriu. Confesso que no tenho mais esperana...
- Pode acreditar desta vez  para valer! Antes, nunca havia sido ameaada, nunca senti tanto medo...
- Espero que seja verdade. Agora, vou sair com seu carro. Vou deixar o meu aqui. Assim que conseguir vender e pagar quele homem volto. Antes de eu sair, preciso 
que me d o endereo do agiota.
Ela abriu uma gaveta, pegou uma caneta, um papel e escreveu o endereo. Moacir pegou o papel, olhou, colocou no bolso do palet e, desanimado, saiu. Joice o acompanhou 
at a garagem. Enquanto ele se afastava, ela pensava: A nica soluo seria a morte de Raquel. Sem ela, tudo seria mais fcil para Moacir. Marcos confia nele e no 
est preocupado com a empresa, alis, nunca se preocupou. Por isso, nunca saber que Moacir tirou o dinheiro. Assim pensando, entrou em casa.

O JANTAR

Raquel foi para casa. Assim que entrou, viu que algumas mulheres andavam de um lado para outro. Elas colocavam flores desde a entrada da casa, at a sala onde seria 
servido o jantar. Foi para a para a cozinha, l uma senhora estava junto ao fogo, preparando o jantar. Ao seu lado, uma moa lhe dava temperos, outra cortava legumes 
e outra lavava a loua. Raquel sorriu e perguntou:
- Como est indo o preparo do jantar, Cleide? 
Cleide, a cozinheira, se voltou e, sorrindo, respondeu:
- Est tudo em ordem, dona Raquel. No precisa se preocupar, na hora certa, tudo vai estar pronto.
- Sei disso, conheo voc h muito tempo, e sua comida tambm, mas mesmo assim, estou preocupada.
- No precisa se preocupar, Raquel, cuidei de tudo.
Agora quem se voltou foi Raquel. Olhou para trs e viu Lia, que sorria.
- Ol, Lia. Prometi que no viria antes da hora, mas voc me conhece. No resisti, no consegui ficar na empresa.
- Eu sabia que no ia conseguir ficar longe sem saber o que estava acontecendo. Conheo voc h mais de trinta anos, sei como .
Enquanto saam da cozinha, Lia disse:
- Ningum me conhece como voc, s mesmo o Francisco sabia como eu era e me entendia.
-  uma pena que ele no esteja aqui para ver voc completar sessenta anos e tambm ver no que se transformou aquela pequena marcenaria.
-  verdade, Lia. No contei a voc, mas, hoje, vou me despedir da empresa. No quero trabalhar mais.
- No vai trabalhar mais? O que aconteceu para que tomasse essa deciso?
- Nada aconteceu, j estou com sessenta anos. Passei todo esse tempo trabalhando, nunca tirei frias, acho que est na hora de eu parar, viajar e conhecer o mundo. 
Sabe que esse foi sempre o meu desejo.
- Voc sempre falou que queria viajar, mas nunca pensei que esse dia chegaria.
- Chegou, Lia. Agora, que tudo est correndo bem, que a empresa est slida, acho que j posso deixar nas mos dos meninos. Eles continuaro aquilo que eu e Francisco 
iniciamos.
- Acha que eles esto prontos para isso? Para essa tremenda responsabilidade?
- Caro que esto, Lia! Voc deveria saber melhor do que eu. Afinal, foi voc quem os criou, quem lhes deu a maior parte da educao.
- Para que pudessem ter tudo do que precisavam, voc precisava trabalhar Raquel. Para mim, foi uma felicidade poder ter ajudado voc. Se no fosse por voc, nem 
sei onde estaria hoje. O mnimo que eu poderia fazer era ajud-la a criar as crianas, que amo como se fossem meus verdadeiros filhos.
- Nunca duvidei da sua dedicao, no s para com eles, como para comigo tambm. Eu  que no sei como teria sido a minha vida se no tivesse tido voc ao meu lado. 
Tem razo, eu precisava trabalhar. Agora que esto criados, preciso dizer que seu trabalho foi muito bom, Lia. Eles se tornaram homens de bem.
Lia sorriu:
- No fui eu, Raquel. Eles j nasceram bons. O sangue que corre por suas veias  de gente boa. Tanto voc, como Francisco, so pessoas de bem.
- Francisco, com certeza era bom. Eu, embora nunca quisesse, tive de tomar uma deciso que, hoje, sei no foi certa, mas no momento em que surgiu me pareceu ser 
certa.
- Est falando sobre Marcos, no ?
- Sim. Acho que, por minha culpa, ele no  feliz.
- Do que voc se culpa Raquel? O que fez?
- Algo terrvel, mas, esta noite, vou tentar consertar.
- Estou curiosa, mas hoje no  para se pensar no que foi feito. Certo ou errado, j est feito! Hoje  dia de festa!
- Tem razo. Vou subir tomar um banho e esperar a Cinira. Ela vai chegar logo para fazer o meu cabelo e minha maquiagem. Quero est muito bonita!
- Voc no precisa se arrumar.  e sempre foi muito bonita. 
Raquel sorriu e se afastou. Logo mais, Cinira chegou e, em pouco tempo, Raquel estava com os cabelos arrumados e uma maquiagem simples. Assim que deu o ltimo retoque, 
Cinira, feliz pelo seu trabalho, disse: A senhora est linda, dona Raquel! Raquel olhou para o espelho que estava  sua frente e, sorrindo, falou:
- Estou bem, mesmo, mas devo isso a voc e  dedicao com que trabalha. Voc  uma tima profissional, Cinira! Meus parabns.
- Estou feliz que esteja contente. Agora vamos colocar o seu vestido. Seus convidados j devem estar chegando. 
Raquel olhou para seu pulso e deu um grito:
- Tem razo! Nem percebi o tempo passar! Meus filhos e meus convidados j devem estar aqui, sabem como sou rigorosa com o horrio. Nunca suportei atrasos e, hoje, 
quem est atrasada sou eu! 
Cinira, enquanto ajudava Raquel a colocar o vestido, comeou a rir: 
- No se preocupe com isso, dona Raquel! Seus filhos a conhece muito bem. Alm do mais, hoje  o seu dia! Tem o direito de fazer que quiser!
- Sabe de uma coisa? Voc tem razo! Hoje  o meu dia! Quando me virem bonita como estou, no vo se importar!
- Assim  que se fala dona Raquel! A senhora  poderosa mesmo!
- Nem tanto, Cinira... Nem tanto...
Raquel voltou a olhar-se no espelho. Sorriu e, lentamente, saiu do quarto, percorreu o imenso corredor e parou no topo da escada.
Moacir foi o primeiro a v-la e subiu, correndo, os degraus. Logo estava junto  me:
- Mame! A senhora est linda!
- Obrigada, meu filho. A felicidade faz milagres, no  mesmo?
- Estou feliz por v-la assim. A senhora merece toda a felicidade do mundo.
- Obrigada, Moacir, mas precisamos descer. Voc me d o seu brao?
- Claro que sim, dona Raquel.  um prazer conduzir to bela dama...
Segurando o brao de Moacir, Raquel desceu a escada e caminhou em direo aos demais. Aps cumprimentar a todos, Moacir afastou a cadeira que estava na ponta da 
mesa e ela se sentou. O jantar foi servido. Conversaram e riram. Todos estavam felizes por verem estampada no rosto de Raquel  felicidade que sentia. Aps o jantar, 
enquanto tomavam caf, Raquel disse:
- Convidei a todos para que viessem a este jantar, no s por causa do meu aniversrio, mas para fazer uma comunicao importante. Tenho uma notcia boa e, infelizmente, 
uma confisso ruim.
- Estamos curiosos, Raquel.
- Sei disso, Martin, mas a curiosidade j vai terminar. Primeiro vou contar a notcia boa. Decidi que no vou mais trabalhar. Estou cansada. Hoje, a empresa est 
bem, vocs, meus filhos, com a superviso do Martin, conseguiro toc-la sem que eu esteja por perto.
- Por que vai fazer isso, mame? Est doente?
- No, Marcos. Quero descansar, viajar, conhecer o mundo, que foi sempre o meu sonho. J trabalhei demais, agora  hora de vocs tomarem conta de tudo.
Abismados, entreolharam-se.
- Tem certeza de que deseja fazer isso, Raquel?
- Tenho Martin. Voc, como meu amigo de longa data e, agora, como gerente financeiro da empresa,  a prova viva do quanto trabalhei e, por isso, sabe que tenho o 
direito de aproveitar esses ltimos anos que me restam.
- Nisso voc tem razo. Trabalhou muito mesmo.
- A senhora vai se afastar?
- Vou, Moacir. Sei que posso fazer isso, com tranqilidade. Vou deixar que voc e o Marcos continuem com a empresa. Ela est slida e no corre risco algum, no 
, Martin?
Martin, pego de surpresa, demorou um pouco para responder.
- Est bem, Raquel. Claro que est.
- Sendo assim, posso deixar a empresa sem me preocupar.  o que mais desejo: viver sem preocupao alguma.
- Pode ficar tranqila, mame. Vai ficar tudo bem.
- E voc, Marcos, o que diz?
Marcos, que estava com o olhar distante, voltou-se e olhando firme para a me, respondeu:
- Nada tenho a dizer mame. A senhora, sempre que tomou uma deciso, cumpriu-a, sem se preocupar com a opinio dos outros. 
Ao ouvir aquilo, Joice sorriu e pensou: Parece que Deus ouviu as minhas oraes. Com ela fora da empresa e com a pouca vontade de Marcos, tudo ficar nas mos Moacir 
e, conseqentemente, nas minhas. Embora o melhor, mesmo fosse que ela morresse. Raquel, tambm constrangida, mas sem perder a classe, voltou-se para Marisa que, 
assim como os outros, no se sentia  vontade. 
- Marisa, pedi que viesse para o jantar, porque voc foi muito importante na minha vida. Sem a sua ajuda profissional, como uma secretria eficiente, no teria conseguido 
chegar aonde chegamos. Por isso Martin, quero que ela receba um aumento de salrio. Seu filho est com oito anos, precisa freqentar uma boa escola.
- Est bem, Raquel. Voc  quem manda. Tambm acho que ela merece.
Marisa, tomada de surpresa, olhou para o marido, que sorria satisfeito.
- Agora  com voc, Lia.
Lia, ao ouvir Raquel falando, voltou seu olhar para ela.
- Comigo o qu, Raquel?
- Amanh, bem cedo, vamos at algumas lojas. Precisamos comprar roupas para a nossa viagem.
- Nossa viagem?
- Claro que nossa! Achou que eu iria conhecer o mundo, sozinha? Sem voc?
- No posso viajar Raquel...
- No pode, por qu?
- No posso deixar a casa. Preciso ficar aqui para cuidar de tudo...
- Ora, Lia no se preocupe com isso. Sem a nossa presena, somente Marcos vai ficar aqui. Alis, depois do que eu confessar esta noite no sei se ele ainda vai continuar 
morando em casa. 
Todos, curiosos, olharam para ela, que continuou:
- Vou deixar esse assunto para depois, agora quero cuidar da nossa viagem, Lia. Cleide poder tomar conta de tudo. Ela est conosco h muito tempo,  de total confiana. 
No tem desculpa, a no ser que no queira me fazer companhia, no queira viajar, conhecer o mundo...
- Claro que quero viajar, conhecer o mundo, mas voc, com tudo o que est fazendo esta noite, est me deixando um pouco tonta. Somos velhas, Raquel, como poderemos 
viajar sozinhas?
- Somo velhas, mas no estamos mortas. Claro que no vamos escalar montanhas ou praticar esportes radicais. Vamos para lugares calmos e acolhedores. A cada lugar 
a que chegarmos, contrataremos um guia para nos acompanhar. Vai ser maravilhoso, Lia!
- Est bem, voc tem razo. Vamos nos divertir muito.
- Que bom que concordou comigo, Lia! Merecemos isso! Todos vocs sabem como merecemos.
Todos riram. Somente Marcos estava com os olhos fixos nela. Raquel percebeu, mas ficou calada. Olhou para Martin e disse:
- Martin, preciso conversar com voc. Quero que me deixe a par da situao financeira da empresa. Preciso saber, com certeza, se posso me afastar sem problema algum. 
Vocs podem ir at o jardim. Assim que terminar minha conversa com Martin, irei at vocs para nos despedirmos. Tenho, ainda, uma surpresa para todos.
Olharam-se e lentamente se levantaram. Embora surpresos com aquele pedido, no estranharam, era essa a maneira de Raquel e todos a conheciam muito bem. Assim que 
saram da sala, aproveitaram para ir ao banheiro, andaram pela casa, viram tudo. Raquel olhou para Martin e perguntou:
- Est tudo bem com a empresa, Martin? No posso lhe dizer o que est acontecendo. Ela est to feliz e merece esse descanso.
Olhou firme para ela e respondeu:
- Est, Raquel. No tem com o que se preocupar. Pode viajar sossegada. Vai ficar tudo bem.
- Ainda bem que me disse isso. Se no fosse assim, eu no viajaria tranqila. Acredita que os meninos podero continuar com a empresa sem problema algum?
- Eles esto crescidos, Raquel, no so mais crianas. Voc lhes ensinou tudo.
- Que bom que est me dizendo isso. Vou, realmente, ser muito feliz, pois estou realizando os meus sonhos.
- Voc merece Raquel. V em paz e aproveite todos os minutos.
- Vou fazer isso, Martin. Chegou a hora de me acalmar e aproveitar a vida. Agora, vamos nos despedir dos outros, antes, porm, preciso fazer uma confisso. Vai ser 
dolorosa, mas  necessria.
- Que confisso, Raquel?
- Sei que est curioso, mas precisa ser feita na presena de todos.
- Est bem, vou esperar.
Levantaram-se e voltaram para a sala que estava vazia. Sentaram-se. Em seguida, os outros comearam a retornar e a se sentar tambm. Aps todos se sentarem, com 
os olhos, Raquel fez um sinal para Martin, que retirou do bolso alguns envelopes e os entregou a cada um. Raquel, sorrindo, feliz, disse:
- Em cada envelope, h uma quantia em dinheiro.  para que todos usem como quiser. Eu poderia dar um presente, mas acho que no agradaria a todos. Por isso, comprem 
o presente que desejarem como se fosse meu.
Surpresos, mas felizes, cada um pegou seu envelope e guardou. Em seguida, Raquel disse:
- Sei que todos gostam de mim e me respeitam. Porm, por uma atitude que tomei, no mereo esse respeito. Sei que, como pessoa, sempre trabalhei me superei e, com 
a ajuda de todos vocs, cheguei at aqui, porm, como me, falhei e cometi um erro grave.
Todos olharam, com surpresa e curiosidade. Raquel, firme e sob as luzes que Olmpia e Samuel jogavam sobre ela, continuou:
- O que tenho que confessar  muito grave e tem a ver com voc, Marcos. Quando fiz o que fiz, achei que era para o seu bem, mas, hoje, vendo como voc ficou e est, 
cheguei  concluso de que foi um erro muito grande e que s o prejudiquei. Com a minha atitude, provoquei uma infelicidade enorme e sem volta para voc, meu filho. 
Preciso contar o que fiz e pedir o seu perdo.
Todos, atnitos, olhavam para ela, muito mais Marcos que perguntou:
- O que a senhora fez, me? 
Raquel, olhando nos olhos do filho, disse:
- Sei que, depois de contar o que fiz talvez nunca me perdoe Marcos. S quero que saiba que, embora o que fiz tenha sido errado, ao fazer achei que era o certo...
Marcos, nervoso, gritou:
- Fale logo, me!
Raquel contou o que havia feito e terminou, dizendo:
- Sei que errei, mas ainda  tempo de corrigir esse erro. Agora, vou, realmente, ajudar voc a encontrar Marlia! Prometo que no vou descansar enquanto isso no 
acontecer... Perdo, meu filho...
- Perdoar? Como posso perdoar? A senhora acabou com a minha vida! A senhora afastou a nica mulher que amei e com a qual eu queria me casar! Nunca vou perdoar  
senhora! Nunca! No preciso que me ajude mais! Eu vou procurar Marlia, vou encontr-la, vou ser feliz! Como Yara se prestou a fazer isso? Sempre pensei que fosse 
minha amiga!
- Ela no teve culpa, foi eu quem a envolvi! Para voc ela  apenas uma amiga, mas ela ama voc, Marcos, e faria qualquer coisa para ficar com voc!
- Assim como para a senhora, no existe desculpa para ela, me! Eu nunca dei esperana alguma para ela, nem mesmo antes de conhecer Marlia! Eu odeio vocs duas! 
A minha vontade era que estivessem mortas, me!
- No fale assim, Marcos! Ela  sua me!
- Que me, dona Lia? Que me faria o que ela fez? Alis, ela nunca foi minha me! Ela sempre s se preocupou em ganhar dinheiro, sempre mais! Minha me sempre foi 
 senhora, a quem amo como tal! A senhora, sim, foi uma verdadeira me! Tenho certeza de que jamais faria algo que me fizesse sofrer nem ao Moacir!
Lia, emocionada, abraou Marcos, que tambm a abraou. Depois de se soltar do abrao, batendo a porta, saiu da casa sem destino. Raquel olhou para todos e, levantando-se, 
disse:
- Agora, vou me deitar, no tenho mais idade para tanta emoo. S quero agradecer a vocs a presena, pois sei que todos os que esto aqui, alm dos meus filhos, 
so amigos verdadeiros. Fiz questo de contar, na presena de todos vocs, o que fiz. Sei que cada um tirar suas prprias concluses. No sou perfeita! Sou apenas 
um ser Imano e, como tal, passvel de acertos e erros. Espero que tenha reconhecido, a tempo, o meu erro e que me perdoem.
Todos, embora constrangidos, sorriram, beijaram Raquel e, acompanhados por Lia, saram. Quando estava s, Raquel respirou fundo e voltou a se sentar. Lia, aps se 
despedir de todos, voltou para a sala:
- Foram embora, Raquel. Agora j pode descansar. 
- Tem razo, Lia. O dia foi muito intenso. Estou realmente muito cansada. Sei o que est sentindo, depois do que contei, mas, hoje, por favor, no me recrimine.
- No vou recrimin-la, Raquel, mas estou com muita raiva de voc pelo sofrimento que causou a Marcos! Voc no devia ter feito aquilo! Ele  um bom menino, no 
merecia! Embora eu sempre tenha sido sua amiga e continuarei sendo, neste momento, o meu desejo  que estivesse morta!
- Voc tem razo, Lia. Eu no devia ter feito aquilo e, assim como voc, neste momento, desejaria estar morta...
- Embora eu esteja com muita raiva, sei que, no final, tudo vai se arranjar. Agora, vamos nos deitar. Estou exausta.
Lia acompanhou-a at a porta do quarto que ficava junto ao seu.
- Boa noite, Raquel...
- Boa noite, Lia. Tomara que eu consiga dormir...
Lia sorriu e entrou em seu quarto. Raquel tambm entrou. Lentamente, trocou as roupas que estava usando, soltou os cabelos e, com uma escova, sentada em frente a 
um espelho, escovou-os com calma e devagar. Depois, vestiu sua camisola e se deitou. Aps se deitar, olhou para uma fotografia que estava em seu criado-mudo. Era 
a mesma que tinha no escritrio, com Francisco, Moacir e Mauro. Sorriu. Francisco, em lgrimas, sorriu tambm. Quando estava quase dormindo, lembrou-se de que no 
havia tomado aquele comprimido que o mdico havia lhe receitado, h muito tempo, para que fosse tomado, todas as noites, antes de dormir. Ele lhe disse que era para 
que tivesse uma boa noite de sono. Abriu a gaveta do criado-mudo, onde estavam seus remdios. Pegou um comprimido, um pouco de gua que havia em uma jarra, que a 
empregada sempre deixava para que ela bebesse caso sentisse sede durante a noite. Aps tomar o comprimido, olhou novamente para a fotografia, sorriu e adormeceu 
em seguida. Aps estar algum tempo adormecida, Raquel foi acordada, gentilmente, por uma voz sua conhecida. Abriu os olhos e, feliz, com um pulo, sentou-se na cama 
e abraou-se a Francisco que, com os braos abertos, aconchegou-a. Raquel estava to feliz por v-lo ali, que nem se deu conta de que ele estava morto. Aps um longo 
abrao apertado e um beijo demorado, ela lembrou-se de que ele estava morto. Afastou-se, olhando em seus olhos, disse:
- Que bom poder ver, abraar e beijar voc, Francisco. Embora saiba que isso no  possvel... Que devo estar sonhando...
- Ser que est sonhando, Raquel?
- Claro que sim! Estou em seus braos, posso senti-lo!  como se estivesse vivo, mas sei que morreu! Eu acompanhei o seu enterro. Porm, se estou sonhando ou no, 
isso no tem importncia, o que me deixa muito feliz  estar ao seu lado, seja da maneira como for. Hoje, especialmente, estou feliz e pensei muito em voc. Esta 
noite, consegui contar a Marcos o que fiz e, agora, vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para encontrar Marlia e eles, finalmente, sero felizes.
- Estou muito feliz por ter tomado essa atitude, Raquel. Agora, no h motivo para que no possamos continuar juntos.
- No estou entendendo o que est dizendo. Acho que, por ter pensado tanto em voc, durante o dia todo,  que estou sonhando, agora. Voc est muito bonito. Est 
jovem, igual ao dia em que morreu. Eu, ao contrrio, estou velha. Isso no  justo, Francisco...
Francisco comeou a rir:
- Envelhecer  o preo que o esprito paga para poder viver na Terra. Por outro lado, quanto mais tempo viver, mais poder aprender resgatar e se aperfeioar para 
a eternidade.
- No entendo muito bem o que est dizendo, mas, mesmo assim, me vendo to velha diante de voc to jovem, fico constrangida...
- No precisa se constranger. Olhe para mim. Posso ficar com a aparncia como a sua ou voc como a minha. Escolha a que quiser.
Raquel, ao ver o rosto e o corpo dele se transformando, estremeceu. Arregalou os olhos.
Em pouco tempo, estava, diante de si, o mesmo Francisco que conhecera, s que mais velho, com a aparncia de um homem de sessenta anos. Olhou para ele e comeou 
a rir.
- Voc est velho, Francisco, mas ainda continuo achando que no  justo!
- O que no  justo, Raquel?
- Apesar de mais velho, voc ainda continua bonito! Diferente de mim, que estou feia...
- Voc no est feia, Raquel. Est uma velhinha muito bonita! Pela idade que tem, est muito bem...
- Voc est muito mais bonito do que eu...
Agora, ele gargalhou:
- O que queria? Sempre fui bonito. Quantas vezes me disse que eu era muito bonito?
- Tem razo. Sempre o achei bonito, mas parece que, agora, est ainda mais.
- So os seus olhos e seu amor por mim. Voc tambm est bonita. Olhe suas mos.
Raquel olhou para suas mos e, estupefata, viu que elas mudavam de aparncia. Deixavam de ser curvadas, enrugadas. Instintivamente, passou-as pelo rosto e percebeu 
que o mesmo acontecia com eles. Embora no tivesse, diante de si, um espelho, pde sentir, com as mos, que ele estava liso e macio.
- O que est acontecendo comigo, Francisco?
- Est exatamente igual ao que era quando morri. Est jovem e bonita. No  isso que quer?
Ela lembrou-se de que havia um espelho em um armrio que ficava em frente  sua cama. Rapidamente levantou-se e se colocou em frente ao espelho, onde podia se ver 
por inteiro. Olhou de frente, de um lado, do outro, por trs e pela frente. Sorriu:
- Que sonho maravilhoso  este que estou tendo, Francisco? Confesso que no queria acordar mais.
- Vejo que est feliz. Gostaria que aquele tempo voltasse? Gostaria de ser jovem outra vez?
- Quem no gostaria?
- Era feliz naquele tempo?
Ela pensou um pouco e respondeu:
- No sei... Naquele tempo, eu tinha um pensamento diferente sobre a vida e as coisas... Era insegura e, algumas vezes, tinha medo de no conseguir atingir meus 
objetivos. Quando voc morreu, fiquei com medo de no conseguir continuar sozinha e de criar nossos filhos...
- Essa  a vantagem de se envelhecer na Terra. Nela conseguimos aprender a nos conhecer melhor. Veremos que temos muito mais fora do que imaginamos e que, sempre 
que for necessrio, saberemos encontrar essa fora. Isso s se consegue com a experincia da prpria vida. Muita coisa que, naquele tempo, foi muito importante para 
voc, hoje no tem a menor importncia...
- Tem razo...
- Por outro lado, essa vontade, essa importncia das coisas  necessria aos jovens. Eles precisam sonhar desejar coisas e trabalhar para conquist-las. S assim 
a humanidade evolui e o esprito aprende e se prepara para a eternidade. Tudo est dentro dos planos de Deus para os filhos que tanto ama. Tudo est sempre certo, 
Raquel. Tudo o que acontece foi planejado. Cada um est em um estgio de aprendizado. Por isso, existem tantas religies, para que cada um possa estar onde deseja, 
onde se sinta bem e feliz. De uma maneira ou de outra, o esprito est aprendendo, evoluindo, sempre para o melhor.
- Quanta coisa voc disse, Francisco. Estou estranhando, pois no me lembro de t-lo ouvido falar sobre religio, muito menos sobre Deus...
- Tem razo, Raquel, mas, desde que morri, aprendi muito. Foi difcil para mim aceitar ter deixado voc e as crianas. Eu me sentia na flor da idade e tinha muito 
ainda para fazer. S no sabia que o melhor a fazer era deixar voc sozinha para que se encontrasse e se tornasse a mulher que se tornou. Ao meu lado, no teria 
conseguido ser quem . Estaria sempre na minha dependncia, sujeita  minha opinio. Quando entendi isso, parei de sofrer e somente acompanhei a sua jornada. Muitas 
vezes me preocupei com algumas escolhas que voc fez, mas fui alertado de que tudo est sempre certo e que as escolhas certas ou erradas, fazem parte do aprendizado, 
do aperfeioamento do esprito, portanto, no devia me preocupar. Vi nossos filhos crescerem, se tornarem homens de bem e isso, muito, devem a voc e  educao 
que lhe deu.
- Talvez eu tenha algum mrito, mas acho que no foi tanto. Como diz a Lia, eles tm bom sangue, j nasceram pessoas de bem. Lia  a responsvel pela educao deles, 
eu no tive muito tempo, precisava ganhar o nosso sustento, precisava trabalhar. No sei como teria sido a minha vida, se no tivesse tido Lia ao meu lado.
- Realmente, ela foi de grande ajuda, mas, tambm, tudo estava acertado para que isso acontecesse.
- Isso tudo est muito estranho, Francisco...
- O que  estranho, Raquel?
- Este sonho...
- Por qu?
- Ele me parece to real. No  como costuma ser um sonho. No  confuso... Estou segurando suas mos. Parece que voc est vivo ao meu lado...
- O esprito nunca morre Raquel. Sempre estive ao seu lado e muito vivo.
- Por que, quando acordamos, no nos lembramos to bem do que sonhamos?
- Por causa do corpo humano e suas limitaes. Mas isso no tem importncia. Agora voc vai tornar a dormir. Quando acordar, estar sentindo-se muito bem. Vou permanecer 
aqui ao seu lado.
- Est bem... Mas precisava fazer mais uma pergunta...
- O que  Raquel?
- Por que, desde que Mauro morreu, s sonhei com ele uma vez. Assim como estou vendo voc, gostaria muito de poder v-lo.
- Ele est bem. Assim como eu, esteve sempre ao seu lado e dos irmos. No momento, ele no pode estar aqui, mas, qualquer dia destes, poder v-lo. Agora, precisa 
dormir.
- Tem razo, estou mesmo muito cansada... Preciso dormir, mesmo...
Carinhosamente, ele fez com que ela se deitasse novamente. Cobriu-a com um lenol, beijou seu rosto. Ela sorriu e perguntou:
- Quando eu acordar vou estar jovem, como agora? 
Ele comeou a rir:
- Quer acordar jovem?
- No sei, mas que seria estranho, seria, no ?
- Lgico que seria. Estaria com a aparncia dos seus filhos, mas, se quiser, pode acontecer.
- Estou brincando. Claro que no quero. Cada ruga do meu rosto tem uma histria e, afinal, voc disse que envelhecer  o preo que se paga por se viver. Estou feliz 
com a minha vida e com tudo o que consegui.
- J que  assim que deseja, assim ser. Agora, feche os olhos e durma. Quando acordar, estar muito bem.
Ela olhou para ele mais uma vez e adormeceu.

A VISITA

Enquanto isso, Moacir e Joice voltavam para casa. Ele, parecendo preocupado, procurava dirigir o carro com cuidado. Joice, ao seu lado, embora calada, tambm estava 
preocupada: 
- O que voc acha da deciso que sua me tomou Moacir?
- Acho que, em outras circunstncias, seria muito bom para ela, mas, diante de tudo o que est acontecendo, acho que no  hora para ela se afastar da empresa.
- Por que est dizendo isso, Moacir?
- Ora, Joice, no se faa de boba. Por que acha que ela quis falar sozinha com Martin? Ela deve ter perguntado a ele da situao financeira da empresa. Se ele no 
lhe disse hoje, ter de dizer. Ele sabe que peguei muito dinheiro da empresa. Eu lhe disse que devolveria o mais rpido possvel, nem que fosse preciso vender nossos 
carros e a casa, mas, mesmo assim, o dinheiro no seria suficiente para repor tudo o que tirei. Diante de mais uma loucura sua, tendo de vender o seu carro, hoje, 
restou menos dinheiro. Quando minha me perguntar, no sei o que responder. Se tudo continuasse como est, ela no se preocuparia em saber e eu teria mais algum 
tempo. Agora no sei o que vai acontecer. Embora saiba que ela merea esse tempo de descanso, pois j trabalhou muito, essa no  uma boa hora. Estou desesperado, 
no s pelo dinheiro, mas por decepcion-la, pois sempre pediu que eu no envolvesse a empresa nos nossos problemas, mas isso no foi possvel. No sei o que fazer...
Ela comeou a chorar:
- Eu sou a culpada por toda a sua aflio, no ?  isso que est pensando?
- Claro que voc  a culpada, Joice. Se no fosse por essa mania de querer comprar tudo o que v e de que no precisa, o meu salrio seria o suficiente para termos 
uma boa vida. Mas, da maneira como age, no tem soluo.
- Para tudo sempre existe uma soluo. Vai precisar conversar com sua me. Ela vai entender. Sempre entende... Afinal...  sua me... Ama voc...
-  minha me. Sei que me ama e que vai me ouvir, mas isso no quer dizer que vai me perdoar Joice! Ela j havia me avisado e sempre foi muito rgida em relao 
 empresa. Se no fosse assim, no teria chegado aonde chegou! Preciso encontrar uma maneira de conseguir esse dinheiro, antes que ela pressione o Martin. Vou conversar 
com ele e ver por quanto tempo ele pode adiar essa conversa. Precisa ser o tempo suficiente para eu conseguir o dinheiro.
- Acha que ele vai conseguir Moacir?
- Como vou saber Joice! Preciso conversar com ele!
- Est bem, procure se acalmar, pois, se continuar assim, no vai encontrar soluo alguma.
- No consigo me acalmar. Hoje, mesmo, ela perguntou como voc estava e eu menti, dizendo que estava bem. O que vou fazer Joice?
Ela no respondeu. Ficou pensando por um tempo, depois disse:
- Se ela morresse tudo ficaria bem, no ?
- Que conversa  essa Joice? Ela no vai morrer.  forte e est com tima sade!
- Eu sei disso, mas somente a morte dela poderia nos deixar tranqilos. Voc sabe como conversar com Martin e o Marcos no se preocupa com a empresa. Ele tem muita 
raiva tanto dela como de sua me. Ele no vai querer saber como a empresa anda se receber seu salrio todos os meses.
- Voc  doente mesmo, Joice! Minha me no vai morrer e, mesmo que isso acontecesse, eu nunca roubaria o meu irmo!
- Sei disso, desculpe, foi s um pensamento que tive, mas que podia acontecer podia, no  mesmo?
Ele freou o carro bruscamente e gritou:
- Pare com essa conversa, Joice! Voc, em momento algum, se julga culpada por nossa situao? Tudo isto est acontecendo por sua causa, Joice! Se eu tivesse ouvido 
minha me, j teria abandonado voc h muito tempo!
- Eu sempre soube que ela no queria o nosso casamento! Ela nunca gostou de mim!
- O que est dizendo, Joice? Ela nunca se ops ao nosso casamento. S comeou a se preocupar quando percebeu o que voc fazia. 
- Voc sabe que no tenho culpa de ser assim... Sou doente...
- Eu no queria acreditar nisso, mas agora, depois que tudo se acalmar, j disse a voc que ir para uma clnica e ficar l o tempo que for preciso. Tenho de ter 
paz para arrumar tudo o que foi estragado. Com voc ao meu lado, isso no ser possvel, pois nunca saberei o que est fazendo!
Ela, sem responder, comeou a chorar:
- No venha com esse choro, agora, Joice! Estou nervoso demais para isso. Vamos embora, tentar dormir e, amanh, veremos o fazer.
Ela continuou calada, mas pensou: Bem que ela podia morrer, s atrapalha a minha vida...  Moacir voltou a colocar o carro em funcionamento e saiu dirigindo devagar. 
Estava nervoso, permaneceu calado, somente pensando: Estou nervoso, no consigo me conformar com o que fiz. Como pude mudar tanto? Como pude me deixar envolver por 
Joice desta maneira? O que vou fazer? Como vou sair dessa? Estou mais nervoso ainda por saber que, j tive vrias vezes, esses mesmos pensamentos que Joice est 
tendo. Quantas vezes eu pensei que a nica soluo para os meus problemas seria a morte da minha me? Meu Deus! Como cheguei a esse ponto? Como sair dessa situao 
em que me coloquei? Em silncio, entraram em casa. A bab estava na sala de estar, assim que entraram, ela disse:
- Est tudo bem. As crianas esto dormindo j h algum tempo.
- Obrigada, Odila, agora j pode se deitar.
- Est bem, senhora. Boa noite.
A bab se retirou. Joice, tirando a estola que vestia, disse:
- Sei que o dia foi muito intenso, muito mais  noite, por isso, vou me deitar e tentar dormir. Tambm, vou pensar e tentar encontrar uma soluo para ajudar voc.
- Boa noite, Joice, e apenas durma, no tente me ajudar, voc sabe qual  a soluo. Precisa deixar de ser da maneira como . Precisa ser uma pessoa normal, que 
s gasta o que tem. Se conseguir fazer isso, estar me ajudando muito.
- Sei disso.
Ela se aproximou e, abraando-o, disse:
- Sei que sou a culpada de tudo, no precisa dizer mais. Desculpe por tudo o que estou fazendo voc passar e tambm por ter todos aqueles pensamentos em relao 
a sua me. Ela, apesar de alguns defeitos, como todos,  uma boa pessoa e sempre viveu para os filhos. Ela vai ter uma vida longa, Moacir, e vai aproveitar viajando 
pelo mundo. Ele olhou-a e apenas disse:
- Boa noite, Joice. Pode ir dormir, vou ficar um pouco aqui, pensando.
- Pode ficar, mas no adianta, esta noite, nada poder fazer. Apenas tentar dormir.
- Sei disso, mas, mesmo assim, vou ficar um pouco mais aqui. 
Ela se afastou, sorriu e saiu andando, tirando o colar caro que havia comprado com o dinheiro que pedira ao agiota. Moacir foi at o bar, preparou um drinque e se 
sentou em um dos sofs da sala. De onde estava, podia ver a lua no cu. Ela, embora no estivesse na sua fase de cheia, estava brilhante. Ao seu lado, algumas estrelas 
tambm brilhavam. No sabia, mas seu pai sentou-se ao seu lado.
- Como pode fazer o que fez meu filho? Esqueceu-se de tudo o que pude lhe ensinar. Embora tenha ficado ao seu lado por pouco tempo, fiz o que pude e o que sabia 
para que se tornasse um homem de bem. Agora, depois do que fez, no sei qual ser o seu futuro, embora saiba que tudo, acertos ou erros, faz parte do aprendizado. 
Temo pelo preo que ter de pagar por sua atitude de hoje.
Moacir, sem saber por que, comeou a pensar no pai, do qual se lembrava muito pouco, pois era muito pequeno quando ele morreu, mas, como sua me sempre lhes falava 
sobre ele, o quanto fora bom e o quanto ele os amara, ele sempre teve pelo pai um sentimento de carinho muito grande. Sempre que estava com algum problema, em pensamento, 
conversava com o pai. Naquele momento, mais do que nunca, precisava falar com algum e ningum melhor que seu pai para ouvi-lo. Sentia como se ele estivesse ali 
ao seu lado e o escutasse realmente. Pensou: Pai, como eu gostaria que estivesse vivo. Sinto que, se isso tivesse acontecido, eu no estaria na situao em que estou... 
Embora no esteja vivo na carne, meu filho, sempre que pude, estive ao seu lado, da sua me e do seu irmo. Nunca pude interferir nas escolhas que fizeram, pois 
cada um tem seu livre-arbtrio, mas sempre torci para que conseguissem resgatar escolhas erradas do passado. Pai, se estiver me ouvindo, sabe a loucura que fiz hoje. 
No sei como vou reparar. As coisas se precipitaram e eu fiquei sem saber o que fazer e fiz uma coisa que no tem perdo. O meu amor por Joice e o medo de que meu 
casamento se acabe e de que meus filhos sofram por isso fizeram com que eu tomasse aquela louca deciso. O que vou fazer agora? Mame sempre foi uma mulher maravilhosa. 
Dedicou sua vida a mim e ao Marcos, como pude fazer isso com ela? Ela no merecia. Sempre confiou em mim... No tem perdo, mesmo... Sei o que fez e sinto muito. 
Tentei evitar, estive o tempo todo ao seu lado, enviando-lhe intuies no sentido de que no o fizesse, mas tudo foi em vo. Agora, precisar responder pelo que 
fez. Sei que no ser fcil e que sua vida mudar, mas ter de ser feito. Sei que foi errado, mas, diante do que estava acontecendo, no havia outro caminho a tomar... 
Tudo o que voc tinha de fazer, fez. Agora s resta esperar e tentar consertar. Tudo ser como tem de ser. Os erros nos ensinam e aprendizado  aquilo de que precisamos. 
Agora, v se deitar e tente dormir. O amanh sempre acontece e, com ele, novas oportunidades surgem. Eu abeno voc, meu filho, e, apesar de tudo que fez, sei que 
Deus tambm. Ele est sempre de braos abertos esperando por Seus filhos... Embora desesperado com o que tinha feito, Moacir, aps beber o ltimo gole do drinque 
que estava tomando, colocou o copo sobre a mesinha de centro, levantou-se e, respirando fundo, foi para seu quarto. Quando entrou, viu que Joice estava com os olhos 
fechados e parecia dormir. Apesar de tudo, olhou para ela e pensou: At onde eu cheguei por voc, Joice? At onde ainda preciso ir? Ainda arrasado, trocou de roupa, 
deitou-se e tentou dormir. Quando se deitou, Joice o abraou e ficaram, assim, juntos.

A CULPA

Nesse mesmo instante, Martin tambm entrava na garagem de sua casa. Durante todo o tempo, desde que saram da casa de Raquel, ficou calado. Parou o carro e, antes 
de sair, disse, preocupado: 
- Estou preocupado, Ldia. 
- Preocupado com o qu? 
- Com a atitude que Raquel tomou.
- Pois eu achei que ser bom para ela. J trabalhou tanto, tem o direito de descansar.
- Tambm penso assim, mas foi uma surpresa. Se ela tivesse me dito antes, eu no estaria no desespero que estou hoje.
- Qual  o problema? O que foi uma surpresa? No est tudo certo com a empresa?
- No, Ldia, no est. Muito dinheiro desapareceu e no sei como repor.
- Voc tirou dinheiro da empresa? 
- Tirei, mas pretendia devolver. 
- Como fez isso, Martin?
- Sou o gerente financeiro da empresa. Foi fcil.
- Por que fez isso?
- Queria dar a voc e s crianas uma vida melhor. Queria que um de vocs tivesse seu prprio carro e pudesse morar em uma bonita casa como a nossa. Queria que as 
crianas pudessem estudar uma boa faculdade.
- Eles esto estudando em uma boa faculdade, e cada um tem seu carro, mas sempre pensei que o seu salrio fosse suficiente para pagar tudo isso.
- Mas no era, Ldia. Eu via tanto dinheiro entrando naquela empresa e o meu salrio era to pequeno.
- O seu salrio  muito bom, Martin. Raquel paga h voc muito mais do que voc receberia em qualquer outra empresa.
- Sei disso, mas, mesmo assim, no era o suficiente para eu ter tudo o que queria.
- O que voc fez e h quanto tempo?
- Tudo comeou quando Raquel conseguiu o contrato para enviar mveis ao exterior. Os dlares comearam a entrar como nunca. Ns morvamos na casa da minha me. As 
crianas precisavam ir para uma boa escola e eu sabia que no teria condies de pagar, que elas teriam de ir para uma escola pblica. Vendo que os filhos de Raquel 
sempre estudaram em boas escolas e sabendo que, mesmo assim, havia muito dinheiro, peguei o suficiente para matricular nossos filhos na mesma escola. Eles mereciam 
Ldia! Eu ajudei Raquel desde o incio, se ela conseguiu tudo o que tem foi graas ao meu trabalho, ao meu conhecimento.
- Lembro-me de que, na poca, voc disse que quem pagava a escola era a empresa.
- No menti. Realmente, o dinheiro da escola, materiais e uniformes, saam da empresa, mas Raquel no sabia.
- Por que no conversou com ela? Acredito que ela no se negaria a pagar a escola.
- J pensei muito a esse respeito, mas, na poca, eu nem imaginei me humilhar para Raquel. Sabe como ela sempre foi altiva, eu achava que ela no entenderia.
- Ningum desconfiou?
- No. O que fez com que eu quisesse sempre mais. Comprei a casa e um carro para cada um de vocs. Nas frias, viajamos pela Europa. Tivemos uma vida boa, Ldia.
- Tivemos, sim, mas a que preo?
- Ao preo do meu trabalho! Durante todo esse tempo, trabalhei muito!
- Sei que trabalhou Martin, mas o preo que ter de pagar no ser somente o que est sentindo hoje.
- O que est dizendo?
- Estou desconhecendo voc, Martin. Como pde ter feito essa escolha? Logo voc que nasceu e foi criado em um lar esprita? Teve uma me dedicada e que sempre ensinou 
a voc a Doutrina, as leis da espiritualidade. Voc conhece a Lei de ao e reao. Nunca poderia ter roubado.
- Eu no roubei! Apenas tirei aquilo a que tinha direito!
- Que direito, Martin? O direito de perder esta encarnao? O direito de ser cobrado? Sim, pois sabe que ser cobrado, no s pelos que vivem ao seu lado, mas, muito 
mais, pelo plano espiritual.
- O plano espiritual nada tem a ver com isto.
- Como no? Voc nasceu em um lar esprita para que aprendesse logo cedo as leis da espiritualidade. Sempre foi ajudado. Raquel e Francisco foram enviados at voc 
em um momento de que precisava muito, no incio de carreira, o que proporcionou a voc ter uma vida tranqila em relao a dinheiro. Portanto, poderia, assim, dedicar 
um pouco de seu tempo para trabalhar para a espiritualidade, mas no, no fez isso.
- Falar em espiritualidade, quando se tem tudo  fcil, mas no vivemos no espao, vivemos aqui, na Terra, onde precisamos de coisas que s o dinheiro pode comprar. 
Esprito algum assina um cheque de um milho para voc, para mim ou para ningum!
- No acredito que esteja falando isso, Martin! De quanto voc precisa para ser feliz? Quantas casas, carros, e outra coisa qualquer voc precisa? O salrio que 
voc sempre recebeu sempre foi suficiente! No morvamos em uma manso como esta em que moramos agora, mas tnhamos uma boa casa, um bom carro, dinheiro para fazermos 
ao menos uma viagem grande ao ano! Quando eu ia ao supermercado, no me preocupava, pois poderia comprar tudo do que precisvamos. Vivamos melhor do que muitas 
pessoas. No precisvamos de mais, Martin...
- Claro que precisvamos. As crianas cresceram, precisavam de um carro, precisavam de uma casa melhor para receber seus amigos.
- Receber amigos? Ora, Martin, para o verdadeiro amigo, no importa o quanto voc tem no banco ou em que condies vive! O verdadeiro amigo  aquele que est e sempre 
estar ao seu lado, nos bons e maus momentos. Aquele que vier a nossa casa para ver de que maneira vivemos, ou porque moramos em uma manso, no  um verdadeiro 
amigo, portanto, no  bem-vindo. Voc errou Martin, e muito ser cobrado. Sabe que a cobrana sobre voc ser maior do que daqueles que nada sabem sobre o plano 
espiritual! Estou falando daquele que teve a oportunidade de aprender e voc teve.
- Nos ltimos dias, tenho pensado muito a esse respeito, mas agora  tarde. J fiz e sei que terei de responder no s  justia humana, como pior,  justia espiritual, 
e sei que dessa nunca poderei escapar.
- Espero que o plano espiritual entenda seus motivos e tenha piedade para com voc...
- Tambm espero Ldia. Sei que errei. Sei que fui levado pela ganncia, pelo desejo de poder. Pelos erros normais de um ser humano que no vive flutuando no infinito, 
mas aqui na Terra com um corpo para sustentar!
- Tem razo. O esprito, quando encarnado, esquece-se de suas promessas e da misso que trouxe e, na maioria das vezes, deixa-se levar por aquilo que julga ser felicidade 
e necessidade. Por mais que tenha, por mais que consiga, sempre quer mais e isso o leva ao caminho que voc trilhou Martin, ao erro, ao engano e a dvidas que tero 
de ser pagas. Enfim, esse  o preo que temos de pagar pelo uso de nosso livre-arbtrio.
Martin, com lgrimas nos olhos, ouvia o que a mulher dizia.
- Sei que tem razo, mas agora j foi feito. No tem volta. Tem razo, me esqueci de tudo o que aprendi ou, na realidade, no aprendi, apenas li, estudei, falei 
para que as pessoas fizessem, quando eu, na primeira oportunidade, joguei tudo para o ar e comecei a me comprometer e, como foi fcil, continuei pegando sempre mais.
- No entendo como no foi descoberto, Martin...
- Raquel sempre confiou em mim. Moacir tambm tem tirado muito dinheiro, por isso, nunca quis saber o que acontecia. Nunca checou direito as contas. Eu dava os papis 
para ele assinar, assinava e pronto, estava tudo certo. Com medo de que descobrisse ou cobrasse algo, sempre ficou calado. Acho at que ele sabe o que fiz, mas no 
vale  pena perguntar.
- E Marcos?
- Esse, sim, foi quem nunca se importou, mesmo. No gosta da empresa. Est l s porque acha que tem direito de receber o salrio que recebe, mas no tem preocupao 
alguma. Hoje, depois do que Raquel contou, vai gostar e se interessar menos ainda.
- Agora entendo por que est to preocupado. O que vai fazer?
- J fiz Ldia... J fiz...
- Pelo amor de Deus, o que voc fez Martin?
- No quero conversar sobre isso. Amanh, voc e todos sabero.
- Meu Deus! O que voc fez Martin?
- Fiz o que foi preciso. Minha vida est acabada. No tive outra soluo...
- Que loucura voc fez?
- J est feito, no tem volta.
- O que voc fez Martin? - ela gritou.
- Amanh, voc e todos sabero. Sei que ser a minha runa, mas no havia outra soluo. Agora, vamos entrar e tentar dormir. Amanh, bem cedo, tudo ser esclarecido 
e veremos como vai ficar.
- O que voc fez Martin? - ela, desesperada, voltou a perguntar.
- Amanh voc saber Ldia. E espero que me perdoe. Esquea-se de tudo o que contei a voc.
- Como quer que eu me esquea das loucuras que fez? Como quer que eu durma e espere at amanh para saber o que fez? No vou conseguir! Preciso saber para poder 
ajudar voc a encontrar uma soluo!
- J encontrei uma soluo. Foi  nica que encontrei. Espero que tudo d certo.
- No vai, mesmo, me contar, no ?
- No, no vou, Ldia. No sei se com o que fiz vou conseguir me safar, ou piorar as coisas, mas tinha de ser feito...
- Est bem. Sei que no adianta insistir. Estamos casados h muito tempo e eu conheo voc muito bem. Est dizendo que no vai contar, sei que no vai mesmo. Por 
isso, vamos para o quarto. Vou tomar um calmante e tentar dormir. Sei que no vai ser fcil, mas  o melhor a fazer.
- Sinto muito por tudo o que fiz Ldia. No sei como me desculpar. Se pudesse voltar no tempo, no faria novamente.
- Todos que cometem erros dizem a mesma coisa: se pudessem voltar no tempo, mas no podem Martin! Ningum pode! Quando teve essa idia maluca de tirar o dinheiro, 
por que no me contou, no pediu a minha opinio? Por que tem de ser to superior, aquele que sabe tudo e que no admite interferncia?
- Tem razo, sou assim mesmo. Sabia que, se contasse voc ia querer me impedir e eu no queria ser impedido! Embora seja errado, naquele tempo, e ainda hoje, acho 
que mereci todo o dinheiro que tirei. Com ele dei boa vida a vocs!
- Bem, no sei o que voc fez esta noite. Espero que no seja uma loucura maior. Deus nos ajude Martin.
- S fiz o que precisava ser feito. Agora, vamos deixar de conversar. Preciso pensar em tudo o que aconteceu.
- Est bem. Faa o que acha ser certo. Sei que, embora eu queira voc no vai permitir qualquer ajuda. Vamos entrar.
- Tem razo, mesmo querendo, no pode me ajudar. Vamos entrar.
Entraram. Calada, Ldia foi para o seu quarto e, chorando desesperada, ficou relembrando como havia sido sua vida at ali.

O REENCONTRO

Na casa de Raquel, a polcia chegou e seu corpo foi levado. Todos ficaram esperando o resultado da autpsia e, desconfiados uns dos outros, evitaram conversar. Algumas 
horas depois, o corpo foi liberado. Quando Martin e Moacir retornaram, mostraram o atestado de bito. Ele dizia que o motivo da morte havia sido mesmo um infarto 
fulminante. Ao tomarem conhecimento do resultado, todos respiraram aliviados. A notcia se espalhou e as pessoas comearam a chegar. Entre elas chegou Cndida, a 
me de Jos Carlos e patroa de Lena. Cumprimentou a todos. Quando chegou perto de Marcos, com o qual, por ser amigo de seu filho, tinha mais afinidade, abraou-o:
- Como isso foi acontecer, Marcos? Sua me parecia ser to saudvel...
- Tambm no entendemos. Nunca pensei na possibilidade de que este dia chegasse. Minha me sempre foi uma fortaleza.
-  verdade. Ela foi uma herona, conseguiu construir uma grande empresa e criar voc e seu irmo muito bem. Precisa agradecer a Deus pela me que ele lhe deu.
- Realmente, ela foi uma herona, pena que, comigo, ela falhou e conseguiu estragar a minha vida...
- O que voc est dizendo, Marcos?
- Nada, dona Cndida. Aps o enterro, vou at a sua casa. Preciso conversar com Lena.
- Por qu?
Marcos contou o que Raquel havia feito. Cndida pensou um pouco, depois, disse:
- No posso imaginar que sua me tenha feito isso, Marcos...
- Mas fez dona Cndida. Foi por isso que Marlia desapareceu. Ela achou que eu a estava enganando, mas no estava. Eu ainda a amo e  por isso que preciso falar 
com Lena. Sabendo a verdade, talvez me diga onde Marlia est.
- Lena no trabalha mais l em casa h mais de um ano.
- No? A senhora sabe onde ela est?
- Prometi que nunca diria a voc, mas, diante de tudo o que contou, acho que devo dizer. Lena me contou o que voc havia feito com Marlia e disse que precisava 
ir embora para ficar com a filha e que no tinha para onde ir. Depois de tanto tempo em que ela trabalhou em casa, no podia abandon-la, por isso, ela e Marlia 
foram para a nossa fazenda e esto l.
- Esto na fazenda? Marlia tambm?
- Sim, esto trabalhando l.
Marcos, rindo, abraou-se a ela e, beijando seu rosto, disse:
- Vou agora mesmo para a fazenda! Preciso contar a Marlia o que aconteceu realmente e reencontrar a minha felicidade!
- E o enterro, Marcos, voc no vai esperar?
- No, dona Cndida! No posso esperar nem mais um minuto! Vou agora mesmo! Depois de ontem, de minha me ter contado o que fez e me prometido de que tudo faria 
para encontrar Marlia, sei que no vai se importar que eu no esteja no enterro.
- O que as pessoas vo dizer?
- No me importo dona Cndida, s quero reencontrar Marlia!
- Sendo assim, est bem. V, Marcos, e seja feliz!
Marcos, apressado, foi para seu quarto, trocou de roupa, pegou uma maleta e, para surpresa de todos, saiu. Estava entrando em seu carro, quando viu Yara que chegava. 
Ao v-lo, ela, sorrindo, aproximou-se e, abraando-se a ele, disse:
- Sinto muito pelo que aconteceu com sua me, Marcos.
Ele, como estava muito feliz e no queria estragar aquele momento, apenas disse:
- Obrigado, Yara. S quero dizer a voc que minha me, ontem, durante o jantar, contou o que vocs fizeram.
Yara comeou a tremer:
- Ela contou?
- Sim, contou, mas no se preocupe, no vou dizer uma palavra contra voc. Com a morte da minha me, no h motivo para que continue vindo a minha casa nem que eu 
a veja. Voc  uma mulher infeliz, Yara. Tenho pena de voc.
- Ela me obrigou Marcos. No tive culpa... 
- No, Yara. Voc  adulta. J sabe distinguir entre o certo e o errado. Tambm, isso no importa. Estou indo, agora, ao encontro de Marlia! Finalmente vou ser 
feliz! Quanto a voc, se no mudar de atitude e de pensamento, se tornar cada dia mais amarga e infeliz. At nunca mais, Yara!
Sem dar tempo para que ela dissesse alguma coisa, ele entrou no carro e se afastou. Ela, envergonhada e com raiva de Raquel, no entrou e voltou para casa. A fazenda 
ficava a mais de cinco horas de distncia, mas Marcos no se preocupou com o tempo que levaria, pois sabia que, por mais que demorasse, no final da viagem encontraria 
sua felicidade.  medida que o carro andava, a paisagem ia mudando. Logo havia apenas campos coloridos de um verde de vrios matizes. Marcos respirava fundo e sorria 
ao ver toda aquela beleza. Quando chegou, j estava quase anoitecendo. Havia apenas alguns reflexos do sol sobre o verde. Era uma imagem inesquecvel. Entrou pela 
porteira da fazenda e, devagar, foi dirigindo at chegar ao ptio da casa-grande. Assim que estacionou, a porta da casa se abriu e, por ela, saiu Lena que, ao v-lo, 
perguntou assustada:
- Marcos? O que est fazendo aqui? 
Ele, ainda dentro do carro, disse:
- Ol, Lena! Como voc est?
- Estou bem, mas no respondeu a minha pergunta. O que est fazendo aqui?
- Dona Cndida me contou que vocs estavam aqui e vim para conversar com Marlia.
- Ela contou? Por que fez isso? Ela prometeu que no contaria!
Ele, saindo do carro, respondeu:
- Porque sabe que gosto muito de Marlia e que quero me casar com ela.
- Casar? Ainda pensa nisso? Mesmo depois de tudo o que aconteceu?
- Nunca deixei de pensar, Lena. Onde ela est?
Lena no respondeu, mas desviou o olhar para o lado. O olhar foi to penetrante que fez com que Marcos se voltasse e olhasse para o mesmo lado. Assim que se voltou, 
viu Marlia, que estava com uma cesta de roupas. Ao v-lo, ficou paralisada, sem saber o que fazer. Ele, feliz, correu ao seu encontro. Assim que se aproximou e, 
antes que ela dissesse alguma coisa, abraou-a e beijou-a com amor e saudade. Ela, a princpio, tentou se afastar, mas a saudade era muita. Em poucos instantes, 
correspondeu ao abrao e ao beijo. Aps o longo beijo, ele, se afastando, disse:
- Descobri o que aconteceu, Marlia! Fomos enganados, trados! Eu amo voc e nunca menti! Quero me casar com voc!
- Quem nos traiu, Marcos?
- Vou contar tudo, mas, posso entrar? Estou cansado da viagem e com muita sede.
Marlia olhou para Lena que a tudo ouvia e que, com a cabea, disse que sim. Comearam a caminhar em direo  porta da casa, quando, por detrs de Lena, um menino, 
andando e tropeando, apareceu e, demonstrando que ainda no sabia falar muito bem, disse:
- Vov...
Ao ouvir aquilo, Marcos estremeceu:
- Vov? Esse menino  seu neto?
Ela, pegando o menino no colo, respondeu:
- Sim,  meu neto.
Ele, preocupado, olhou para Marlia:
- Voc se casou?
- No, Marcos, no me casei, e se isso acontecer algum dia, ser com o pai do meu filho...
Caminhou em direo ao menino que, ao v-la se aproximando, abriu os bracinhos. Ela, pegando-o no colo, disse:
- Marquinhos, este moo quer muito conhecer voc... Ao ouvir aquilo, Marcos arregalou os olhos:
- Marquinhos? O nome dele  Marcos?
Marlia olhou para Lena e, sorrindo, respondeu:
- Sim, o nome dele  Marcos. Escolhi esse nome porque  o nome do pai dele...
- O que est dizendo, Marlia?
- O que ouviu. Ele  seu filho, Marcos.
- Por que no me contou?
- Eu ia contar, mas pensei que s estivesse brincando comigo, como havia feito com tantas outras. No dia em que Yara disse que estava esperando um filho seu, eu 
j sabia do meu, mas no tinha como competir com ela e achei melhor me afastar.
- Foi um erro, Marlia! Ela nunca poderia estar esperando um filho meu, porque nunca tivemos intimidade alguma! Sempre fomos apenas amigos.
Marlia sorriu. Ele caminhou e pegou o menino no colo:
- Voc  lindo, meu filho! Mais bonito que eu! Isso no est certo! 
Lena, rindo, disse:
- Entre, Marcos. Venha descansar e nos contar o que aconteceu.
Entraram. Aps beber gua e no largar o filho por um minuto sequer. Marcos contou tudo, inclusive a morte de Raquel. Terminou, dizendo:
- Como podem ver, foi tudo uma mentira. Minha me, apesar de ter sido uma tima mulher, boa me, grande empresria, achando que o que estava fazendo era o certo, 
nos separou e quase impediu que eu conhecesse o meu filho. Porm, graas a Deus, ela, antes de morrer, consertou tudo. Graas a isso, estou aqui e vamos, apesar 
de passado muito tempo, realizar nosso sonho, Marlia. Vamos nos casar! Isto , se voc ainda me quiser como marido.
Marlia, que estava sentada  sua frente, levantou-se, deu a volta e, abrindo os braos, acolheu Marcos, que a abraou com muito carinho. Para Lena, com Marquinhos 
no colo, s restou chorar de emoo e de felicidade. Mesmo sem a presena de Marcos, Raquel foi enterrada. Muitas pessoas, penalizadas, compareceram e deram o ltimo 
adeus para aquela mulher, patroa, empresria e me. Muitas entidades estavam presentes, trazendo conforto para todos.
 
A DESCOBERTA

Dois meses se passaram. Cndida ofereceu a fazenda para que o casamento de Marcos e Marlia fosse realizado ali. Na manh anterior, Marcos convocou uma reunio com 
Moacir e com Martin. Assim que chegaram e sentaram-se em volta da mesa, ele disse:
- Pedi que viessem, porque Lia me entregou esta carta, Martin. Ela a encontrou no escritrio l em casa, no dia em que minha me morreu. Deduzimos que voc h escreveu 
um dia antes. Nela, voc a maneira como tem tirado dinheiro da empresa sem o conhecimento da minha me. Nela, voc confessa que cometeu um crime. Voc escreveu esta 
carta?
Martin, com lgrimas nos olhos, respondeu:
- Sim, eu a escrevi, Marcos.
- Por que fez isso?
- Raquel sempre confiou em mim. Estive ao seu lado desde o comeo e, na minha ignorncia e inveja, achei que tinha direito a muito mais do que ela me dava. Naquela 
manh, quando fui cumpriment-la pelo aniversrio, ela disse que ia fazer um comunicado para todos ns e me pediu para que eu mostrasse todos os livros. Queria saber 
como estava  sade financeira da empresa. Fiquei apavorado, pois sabia que havia roubado muito e que ela, com sua inteligncia, rapidamente, vendo os livros, descobriria. 
Por isso, escrevi a carta, propondo-me a devolver tudo o que tirei. Sabia que, assim que ela lesse a carta, eu seria banido da empresa e minha vida estaria acabada, 
mas no havia outro caminho a tomar. Preferi contar, antes que ela descobrisse, mas, infelizmente, ela no teve tempo de ler a carta. Morreu antes.
Marcos olhou para Moacir e perguntou:
- Voc sabia disso, Moacir?
Com os olhos baixos, Moacir respondeu:
- Sim, eu sabia Marcos.
- Por que no avisou a mame?
- Eu no podia Marcos. Tambm estava tirando mais dinheiro do que ela me dava. Como sabe, Joice tem um problema srio que, agora, ela aceitou como doena e est 
se tratando. Espero que consiga sarar. Por causa dessa doena, sempre gastou mais do que tnhamos e, por muitas vezes, precisei tirar dinheiro da empresa. No dia 
em que mame morreu, fui conversar com algumas pessoas de quem Joice havia tomado dinheiro e, quando vi a quantia, me desesperei. Mesmo vendendo o carro de Joice, 
no daria para pagar e, naquele dia, retirei uma quantia muito grande. Quando mame disse que ia abandonar a empresa, fiquei apavorado. Sabia que ela descobriria 
e que se decepcionaria comigo e, provavelmente, no deixaria que eu continuasse na empresa.
Marcos ouviu o que eles disseram. Com o olhar srio, disse:
- Eu no sei o que mame faria em uma situao como esta. Ela sempre confiou em todos ns e, como sabemos, essa confiana foi desrespeitada. Vocs erraram, mas eu 
tambm tive minha parcela de culpa. Nunca me interessei pela empresa. Para mim, bastava ter o meu salrio. Porm, agora, isso precisa mudar. A empresa  slida e 
poder crescer muito mais. Temos dinheiro para viver at o fim dos nossos dias e muito vai sobrar para nossos herdeiros. Tudo isso precisa mudar. Comeando por mim. 
Agora, tenho um filho e vou me casar. Pretendo assumir meu lugar na empresa. Apesar de tudo o que fizeram vocs so necessrios para a empresa. Proponho que encontremos 
uma maneira para que possam, a cada ms, pagar todo o dinheiro que tiraram. Quanto a voc, Martin, no sei o que Moacir pensa, mas eu acho que voc merecia, sim, 
ter se tornado scio da empresa, pois, sem sua ajuda, sem seu conhecimento, mame no teria chegado aonde chegou. Por isso, Moacir, o que acha de darmos vinte por 
cento a ele?
Moacir olhou primeiro para o irmo, depois para Martin, que olhava para os dois.
- Acho que voc est certo, Marcos. Martin merece ser nosso scio. 
Marcos, rindo, disse:
- Por outro lado, ele, sendo scio, vai cuidar melhor do nosso dinheiro, no , Martin?
Martin, sem acreditar no que ouvia, respondeu:
- Obrigado pela confiana e para que nunca mais acontea o que aconteceu, todos os livros, cheques e movimentao financeira passaro a ter as assinaturas de ns 
trs.
- tima idia, Martin! Assim, nunca mais teremos problema algum. Agora que tudo foi esclarecido e que chegamos a um acordo, vamos para casa. No se esqueam de que 
precisamos ir para a fazenda. Afinal, amanh vai ser o meu casamento!
 
EPLOGO

No dia seguinte, a fazenda estava em festa. Um altar foi improvisado. Marlia e Marcos no cabiam em si de felicidade. Joice, que estava internada em uma clnica, 
recebeu alta por todo o fim de semana para que pudesse comparecer ao casamento. Yara, embora tivesse sido convidada, no compareceu. Estava envergonhada e magoada 
com o que acontecera, mas, em sua casa, pensava: Ele pode estar se casando, mas no vai ficar casado, ainda vai ser meu! Samuel, Olmpia, Francisco e Raquel tambm 
estavam l. Raquel, preocupada com Yara, perguntou:
- O que vai acontecer com ela, Samuel? Tive minha parcela de culpa.
-  verdade, Raquel. Voc teve culpa, mas se arrependeu a tempo e esclareceu tudo. Ela, ao contrrio, at agora no se conforma, mas vai ter todas as chances para 
mudar o que est acontecendo. Tem, ao seu lado, a Lei do livre-arbtrio. Pode aceitar o que aconteceu e dar oportunidade para que um esprito que a ama muito se 
aproxime ou pode continuar como est agora e se tornar uma pessoa amarga e infeliz. Tudo vai depender da escolha que fizer. Tomara que faa a escolha certa...
Raquel voltou-se para o altar improvisado, onde o casamento se realizava. Ao ver a felicidade dos filhos, principalmente de Marcos, chorando, disse:
- Como pude tentar impedir tanta felicidade? Como pude errar tanto?
- Por um simples motivo, Raquel. Voc  um esprito caminhando para a perfeio, como todos ns. Todos ns, espritos encarnados ou no, estamos em um constante 
aprendizado. Estamos, todos, a caminho do amanh. Quando acontece, como aconteceu com voc que teve tempo para consertar o que havia feito, deve ficar muito feliz. 
Triste daquele que no consegue e que carrega consigo dvidas que devero ser pagas.
- Obrigada, Samuel. Obrigada por me dar uma nova oportunidade.
- No tem o que agradecer Raquel. Quem d novas oportunidades a todos os espritos  o nosso Criador. Ele no se cansa, nunca, de esperar por todos ns, nem que, 
para isso, tenha de esperar por toda a eternidade.
- S tem uma coisa que est me preocupando, Samuel.
- O qu, Raquel?
- Por que at agora no consegui me encontrar com Mauro? Onde ele est?
- Como no o encontrou? Olhe para o menino que est no colo de Lia.
Raquel imediatamente olhou para Lia que, junto ao altar, estava com Marquinhos no colo. Diante dela, o rosto do menino se transformou e ela viu Mauro, que sorria 
feliz.
-  ele, Francisco!  o nosso filho!
- , sim, Raquel, eu j sabia. Desta vez, ele conseguiu nascer e vai ser muito feliz ao lado de Marcos e de Marlia.
Lia, sem imaginar que Raquel estava ali, abraando o menino, com carinho, pensou: Com  voc morando l em casa, vai comear tudo outra vez. Vou ser me novamente. 
A cerimnia terminou. Raquel sorriu. Olhou para Francisco e, vendo que vrias entidades se misturavam com os convidados, disse:
- Vamos danar Francisco. Hoje  dia de festa!
Francisco olhou para Samuel e para Olmpia que, com a cabea, concordaram. Abriu os braos, Raquel aconchegou-se a ele e comearam a danar.
- Eles se amam de verdade, no , Samuel?
-  sim, Olmpia, e ns tambm! J que nossa misso, por ora, terminou, vamos danar?
Ela sorriu, abriu os braos e, felizes, comearam a danar.



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